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Segundo Valente (2001), a partir da década de 1920 houve uma preocupação com a educação no Brasil no Ensino Secundário, tendo como motivador a formação de uma elite de privilegiados, que tiveram acesso ao ensino superior.

Trata-se de tomar a educação como acelerador do processo de modernização, na passagem da civilização agrário- comercial para o modo urbano-industrial de viver. Modernizar será, então, romper com as estruturas oligárquicas agrárias, que mantêm o país no analfabetismo, na ignorância, e que não construíram um verdadeiro sistema escolar. (VALENTE, 2001, p. 7)

Para Valente (2001), a partir da década de 1930, no governo de Getúlio Vargas, houve diversas reformas educacionais, conforme abordamos no Capítulo II deste trabalho, com influência direta no ensino nacional, evidenciando as mudanças de objetivos, iniciadas na década de 1920. Devido a diversos artigos de lei que regiam a educação nacional, essas mudanças passaram a promover uma formação com características que viabilizavam modernizar o método de ensino.

Para tanto, como pudemos verificar no Capítulo I, foi necessário o desenvolvimento de uma mão de obra para as indústrias, capacitada e com formação técnica na área que pretendia trabalhar, sendo que, para a maioria dos cargos dispostos nas indústrias, não se exigia curso superior, porém, o jovem que almejasse uma vaga necessitaria de uma formação que lhe fornecesse condições de atuar na função pretendida. Devido a isso, como

também a fatores econômicos e sociais houve no período posterior a década de 1930 uma promulgação do ensino profissional, por meio de instituições de ensino que tinham por finalidade fornecer condições educacionais para a inserção do indivíduo no mercado de trabalho. Nesse contexto, podemos citar o Curso Prático de Ensino Profissional de Porto Ferreira.

Segundo o que aqui foi discutido no Capitulo I sobre a Escola e Ginásio Industrial nos anos de 1960 a 1980, o acesso a essas instituições de ensino era realizado por meio do Exame de Admissão.

Anos 1930: Em tempos de Getúlio Vargas, reformas do ensino virão, desde logo, representar a construção do espírito nacional. Busca-se, em meio ao debate iniciado desde os anos 20, definir o ensino secundário em termos de suas ramificações de caráter clássico ou científico. Aos candidatos ao ensino secundário, uma exigência: o exame de admissão. Não que ele não tenha existido anteriormente em muitas escolas. Apenas não tinha caráter nacional. A Reforma “Francisco Campos”, através do Decreto no. 19.890 de 18 de abril de 1931, estabelecia, através seu Art. 18, que “o candidato à matrícula na 1ª série de estabelecimento de ensino secundário prestará exame de admissão na segunda quinzena de fevereiro”. (VALENTE, 2001, p. 7)

Segundo declarações dos entrevistados, esse exame era obrigatório e havia, por parte dos alunos, grande temor em realizá-lo devido à possibilidade de reprova, Como podemos observar na entrevista do professor Airton, quando revelou que ao prestar o Exame para ingresso naquela escola, contratou uma professora particular com o intuito de se preparar bem para conseguir uma boa classificação e com isso ser aprovado no exame.

Lembro que eu tive Exames de Admissão para que pudesse adentrar ao Ginásio. Eu e os colegas, com a nossa turma contratamos uma pessoa responsável para nos dar aula. Realmente existia esse Exame de Admissão, era uma preocupação que nós tínhamos na época de conseguirmos boas notas. A importância para nós era tirarmos boas notas, para sermos bem classificados. (CRUCHE, Airton de Jesus; entrevista cedida em 27/04/2012)

No entanto, nas Entrevistas 1 e 2, encontramos indícios de que havia flexibilidade na seleção, porém não indicava qualquer tipo de ilegalidade, mas o Exame de Admissão não era tão rígido como os Decretos nº 19.890 de 18 de abril de 1931 (Reforma Campos) e nº 4.073 de janeiro de 1942 (Lei Orgânica do Ensino Industrial) evidenciavam.

Verificamos nessas declarações que essa flexibilidade muitas vezes era ocasionada pela pouca procura pelos cursos oferecidos pela escola, pois, na cidade de Porto Ferreira havia também o Ginásio Estadual Washington Luiz, o qual era elitizado e por isso era alvo do maior número de alunos interessados em adentrar o Secundário.

O período a que me refiro ao Exame de Admissão, é o ano de 1965, ano esse em que Porto Ferreira possuía outra escola que também realizava o exame, porém a escola que escolhi a procura por vaga era pequena, porque ela tinha acabado de deixar de ser a Escola Artesanal, passando a ser Ginásio Industrial, somente, não era Ginásio Industrial Estadual. (VILLA, Ermelidia Dozzi Tezza; entrevista cedida em 19/04/2012)

O determinante na seleção para decisão de admissão eu não me lembro com certeza, mas eu acho que era por classificação, pois eu nunca soube que sobrou vaga em nenhuma escola. Logicamente, as notas maiores tinham prioridade e em ordem decrescente, se sobrasse vaga. Mas isso eu não posso afirmar, pois era um problema de secretaria, a parte da gente era dar a prova e dar as notas, mas eu tenho quase certeza que era classificatória. (CAMPOS, Terezinha de Jesus Pereira de; entrevista cedida em 25/04/2012)

Eu acho que o Exame de Admissão era facilitado, devido ao número de alunos... Isso cabia à comissão organizadora, o diretor, vice diretor... Éramos nós que preparávamos as questões da prova, eram questões relativamente simples, não eram tão difíceis, nós fazíamos as questões entre dois ou três professores de matemática e víamos quais as que a iríamos dar e dávamos, elas não eram muito extensas, dava tempo de fazer. (GOMES, Vera Terezinha Bissoli; entrevista cedida em 17/05/2012)

Em análises feitas em documentos da Escola Industrial de Porto Ferreira nos anos de1951 a 1969, foram encontrados livros que eram utilizados para registrar os resultados dos Exames de Admissão. Neles, vários candidatos que tiveram resultado inferior a 50% da nota máxima foram aprovados, ou seja, considerados pela banca avaliadora como sendo aptos a adentrar a instituição de ensino.

O Exame de Admissão, que até a década de 60, era uma atividade obrigatória a quem pretendia uma vaga no ginásio, era uma avaliação normal de português, matemática, geografia e história. Eu me lembro que a gente tinha que saber... Tinha que saber capitais, as capitais do Brasil e da Europa inteira. Mas era uma prova normal, uma avaliação

normal, o dia de matemática, o dia de português, o dia de história, geografia, era uma avaliação normal. (CAMPOS, Terezinha de Jesus Pereira de; entrevista cedida em 25/04/2012)

Figura 32: LIVRO DE REGISTRO DE PROVAS E EXAMES: Notas e Médias (1951). Fonte: Arquivos da Escola Estadual Dr.Djalma Forjaz.

Figura 33: LIVRO DE REGISTRO DE PROVAS E EXAMES: Notas e Médias (1951). Fonte: Arquivos da Escola Estadual Dr.Djalma Forjaz

Figura 34: LIVRO DE REGISTRO DE PROVAS E EXAMES: Notas e Médias (1951). Fonte: Arquivos da Escola Estadual Dr.Djalma Forjaz

Figura 35: LIVRO DE REGISTRO DE PROVAS E EXAMES: Notas e Médias (1951). Fonte: Arquivos da Escola Estadual Dr.Djalma Forjaz.

Na legislação determinada pelas Reformas Campos em 1931 e Capanema, em 1942, verificamos que o exame deveria abranger várias disciplinas como português, matemática, história, geografia e ciências.

Dentre outras disposições o exame de admissão seria composto de “provas escritas, uma de português (redação e ditado) e outra de aritmética (cálculo elementar), e de provas orais sobre elementos dessas disciplinas e mais sobre rudimentos de geografia, história do Brasil e ciências naturais” (Art. 22) (BICUDO, 1942, p.12 apud VALENTE, 2001, p. 7-8).

Na Escola Industrial de Porto Ferreira, os exames eram aplicados separando uma disciplina por dia. Elaborados pelo próprio grupo de professores, o que se levava em conta era o propósito de selecionar os candidatos mais aptos. No início dos trabalhos na Escola Industrial de Porto Ferreira, em meados dos anos 1950 e 1960, havia uma preocupação com o baixo número de candidatos inscritos, uma vez que existia certo preconceito porque a escola era direcionada à formação de trabalhadores. A escola fora aberta para um grupo menos favorecido financeiramente, mas que seria força laboral para as linhas de produção emergentes com o desenvolvimento

industrial do país. Com o passar dos anos, houve aumento da procura pela escola, tanto que ao analisarmos o livro no qual registravam as informações sobre o Exame de Admissão verificamos que no ano de 1951, dos 70 inscritos 45 foram aprovados e 25 reprovados, sendo que anos depois, em 1954, houve apenas 21 inscritos e todos foram aprovados, mostrando que, no começo, a procura pela escola era pequena. (Vide Tabela 01, p. 50)

Analisando as Tabelas 01 e 02 (p. 50), verificamos que com o tempo e devido ao reconhecimento que a escola recebeu, essa realidade foi mudando, o que fica visível no ano de 1960, quando houve 78 inscritos, sendo que apenas um foi reprovado. Segundo entrevistados, o aumento da aceitação da escola ocorreu a partir da repercussão no mercado de trabalho sobre a boa reputação dos alunos ali formados.

Segundo Valente (2001), o Exame de Admissão era regido por especificações provenientes da Circular nº 13, de 3 de dezembro de 1940, que atribui ao exame escrito maior importância se comparado aos testes, pois, os exames escritos eram capazes de aferir com maior exatidão as condições em que o candidato se encontrava. Segundo a entrevista da Professora Ermelidia, tal avaliação não era realizada por meio de teste.

Estes Exames de Admissão não eram testes, sendo que para mim os testes eram simples, pois não tinham 5 opções, como os testes de hoje, eram apenas 3 opções, eu gostava da prova de teste porque o enunciado era claro. No Exame de Admissão nós tínhamos que fazer as contas com o lápis e deixar no papel, porque o caminho que seguíamos para chegar no resultado tinha que estar lá. (VILLA, Ermelidia Dozzi Tezza; entrevista cedida em 19/04/2012)

Referente aos Exames de Admissão, eu me lembro de provas escritas que vinham prontas com o espaço para a resposta. O professor ficava passeando pela classe durante todo o tempo que a gente estava fazendo a prova. (VILLA, Ermelidia Dozzi Tezza; entrevista cedida em 19/04/2012)

Segundo a entrevista da Professora Ermelidia, os testes eram uma modalidade de avaliação apreciada pelos alunos, já para a Professora Terezinha, os professores não eram adeptos desse modelo de prova, pois achavam que não era eficaz na aferição do nível de conhecimento do aluno, por causa da possibilidade do “chute” e acerto, o que não avaliaria o aluno com

veracidade na informação. Segundo Valente, o texto de lei se referia à prova de português da seguinte forma:

É necessário que o trecho escolhido para o ditado tenha em vista este indispensável critério seletivo, e a redação não uma simples reprodução decorada. Será, pois, aconselhável que o inspetor escolha no momento a gravura a ser descrita, não convindo já seja ela conhecida do aluno. É importante apreciar o desembaraço caligráfico, devendo ser diminuída a nota das provas que assim não se apresentem. (BICUDO, 1942, p.542 apud VALENTE, 2001, p. 8).

Referente à prova de matemática a Circular citada acima dizia:

A prova escrita de Matemática visa, de modo especial, apurar o domínio das operações fundamentais e o desembaraço no cálculo. Os problemas e exercícios propostos devem, portanto, verificar, realmente estes dois pontos, evitando-se os de exposição intrincada e fácil resolução, como são geralmente os chamados ´quebra-cabeças´.(BICUDO, 1942, p.542 apud VALENTE, 2001, p. 8).

Os Exames de Admissão foram um marco no ensino nacional nos anos posteriores a 1931, pois segundo Valente (2001) eram considerados um rito de passagem do ensino primário para o secundário, sendo que para os alunos da Escola Industrial de Porto Ferreira esse acesso poderia ser determinante para que conseguissem ou não obter a formação profissional que os habilitaria ao trabalho. Segundo as entrevistas das professoras Vera e Ermelidia, havia alunos que eram de família bem estabelecida financeiramente, mas, a maioria os alunos era de famílias humildes e o possível acesso a um curso profissionalizante era o sonho de uma mudança de vida.

Quem procurava essa Escola Industrial eram famílias mais simples, em que eles tinham que empregar a criança. Depois de muito tempo que o trabalho foi restrito a jovens de 16 anos, mas antes eles podiam trabalhar com 14 anos, então eles já iam sabendo alguma coisa de mecânica e eletricidade, coisas que o patrão, lógico, iria preferir. Meu filho estudou lá.

Quando passou a Ginásio Industrial foi aos poucos, tudo vai aos poucos mudando, então começaram a ir os alunos que queriam continuar os estudos, tanto que teve o filho do Professor Jadyr e do Professor Assef, os dois se formaram, um engenheiro o outro dentista. Então, como se vê, através das várias áreas que eles seguiram, já começaram a ver que o Ginásio Industrial além dessa parte técnica que passou a dar orientação muito boa para os alunos que seguiam o programa. Isso ocorreu quando nós fomos obrigados a fazer a faculdade, embora fosse uma faculdade de final de semana, sendo de sexta, sábado, o dia todo e à noite, nós voltávamos tarde da

noite, mas a gente tinha aula corrida, quase morria. (GOMES, Vera Terezinha Bissoli; entrevista cedida em 17/05/2012) O período a que me refiro ao Exame de Admissão, é o ano de 1965, ano esse em que Porto Ferreira possuía outra escola que também realizava o exame, porém a escola que escolhi a procura por vaga era pequena, porque ela tinha acabado de deixar a Escola Artesanal, passando a ser Ginásio Industrial, somente, não era Ginásio Industrial Estadual. E era uma escola que estava começando, ela não tinha credibilidade. Tinha a escola grande da cidade, a escola de elite que era o “Washington Luiz”, então a minha escola não era muito procurada. Tenho a impressão que, quem se inscrevia acabava entrando, porque a procura era menor. (VILLA, Ermelidia Dozzi Tezza; entrevista cedida em 19/04/2012)