Ao abordarmos as razões para a ocorrência de acidentes, a resposta mais comum dada por todos os entrevistados foi a falta de conhecimento das instalações físicas, o foco somente na tarefa e não no que está ao redor. Ou seja, a incapacidade de ter uma visão mais holística das tarefas e de como as tarefas individuais fazem parte de um objetivo maior. Nos relatos dados por supervisores e gerentes, foi sempre mencionado que é raro as pessoas se darem conta de que tarefas subsequentes dependem de atividades predecessoras.
Ainda sobre este assunto, a ligação entre acidentes de pequena e larga escala não foi estabelecida pelos informantes, exceto pelos atuantes na área de segurança de processo. Um dos entrevistados, atuante na área de segurança de processo, diz não encontrar nas pessoas a consciência de que um acidente de grandes proporções sempre é o resultado de uma soma de pequenos incidentes, quase sempre gerados por falta de entendimento das tarefas sob sua responsabilidade ou por não saber das consequências de que a não realização de forma satisfatória e completa destas pode trazer. Segundo um dos entrevistados, com nível gerencial, reportou:
“integridade é fazer o barril seguro. É o elemento que permite a produção segura, através de equipamentos fit for purpose, seguro e assegurando a longevidade do ativo, que deve balançar entre o que fazer e quando fazer ”.
Segundo profissionais da área de segurança de processo, incidentes de grandes proporções e acidentes pessoais sempre seguiriam o mesmo caminho, onde uma, e quase sempre várias pessoas não olharam o aspecto de integridade, sendo dados como exemplos os acidentes ocorridos em Texas City (refinaria da BP), em 23 de março de 2005, a explosão ocorrida a bordo do “FPSO Cidade de São Mateus”, em 11 de fevereiro de 2015, na costa do Espírito Santo, e a explosão, seguida de afundamento e derramamento de óleo da plataforma
Deepwater Horizon, ocorrida no campo de Macondo, no Golfo do México norte-americano em 20 de abril de 2010, dentre outros. Segundo os relatos coletados nas entrevistas, as causas dos acidentes acima, conforme divulgado nos relatórios de investigações das autoridades competentes, iam desde a falta de realização de rotinas simples de inspeção e manutenção, até a falta de uma cultura de segurança, com foco apenas no curto prazo.
Segundo relatos coletados de pessoas que possuem experiência na segurança de processo, ou que possuem cargo gerencial, a cultura de segurança e a cultura de integridade estão muito ligadas. A diferença fundamental seria que a integridade foca no aspecto técnico, isto é, na segurança de processo, enquanto a segurança pessoal (personal safety), quase sempre chamada SMS - Segurança, Meio-Ambiente e Saúde - foca mais no aspecto humano e pessoal da disciplina.
Segundo um dos relatos recebidos, a cultura de segurança tem que estar nas pessoas em tudo. A integridade sozinha não é capaz de evitar acidentes, pois sempre haverá o fator humano. A área de SMS foca na segurança pessoal, como, por exemplo, no uso de equipamentos de proteção individual e coletiva, o que pode ser ilustrado pelas diversas campanhas de prevenção de acidentes, muito comuns em todo o tipo de indústria, focando, por exemplo, na prevenção de queda de objetos, uso das corretas luvas para proteção, dentre outras.
Durante as entrevistas, foi mencionado por alguns entrevistados com nível de supervisão offshore que um dos maiores desafios da implantação de um sistema para gestão de integridade, em qualquer empresa, no Brasil, é a conscientização das pessoas de que não se deve ter produção a qualquer custo, e sim que deve haver um limite para até onde podemos seguir com a operação. Em determinado momento, as atividades de produção devem ser paradas para que trabalhos de inspeção e manutenção, por exemplo, sejam executados, ainda
que estas paradas levem a alguma perda ou atraso de produção. Estes mesmos entrevistados mencionaram ainda que é dever de qualquer um, parar qualquer trabalho inseguro, e para que isso possa ocorrer de forma natural e construtiva, deve haver o suporte da gerência, ao não punir as pessoas que parem as atividades, não as culpando por atrasos ou perdas sofridas. Segundo estes entrevistados reportaram, assim se constrói o ambiente de confiança, que propicia o ambiente de segurança. Por fim, ao serem questionados se eles sentiam o suporte necessário de suas gerencias, para parar atividades, a resposta foi afirmativa, confirmando que este ambiente existe na Íntegra, onde segundo eles o stop work authority mencionado anteriormente é algo realmente vivido.
Ainda segundo estes entrevistados relataram, as pessoas, independente de sua posição na hierarquia organizacional, têm que ser empoderadas para pararem atividades inseguras. Segundo o relato, é pratica comum em empresas brasileiras que a parada de produção de uma unidade marítima ter que ser autorizada por indivíduos que representam o cliente final, que segundo este relato, possuem interesses comercias na continuidade da produção.
Segundo mencionado por um dos entrevistados, brasileiro, com experiência internacional e convivência com varias culturas, de países em desenvolvimento ou desenvolvidos, se compararmos os dois grupos de indivíduos mencionados anteriormente, veremos que os mais desenvolvidos socioeconomicamente, tendem a ter maior cuidado com a segurança. Europeus e mais especificamente países com atuação na área de óleo e gás do Mar do Norte, têm maior conscientização e preocupação com segurança, o que segundo o entrevistado está ligado à vivência de experiências trágicas, como por exemplo o acidente ocorrido na plataforma Piper Alpha, em 6 de julho de 1988, com a morte de 167 pessoas. Segundo esta mesma pessoa classificou, se trata do aprendizado pela dor, e a consciência de que a morte de centenas de pessoas não pode ter sido em vão. Segundo ele e conforme transcrito no trecho abaixo, onde ele também expressa sua preocupação com a possibilidade de o Brasil ter que passar pelo mesmo processo de aprendizado, elas morreram para que as gerações futuras não passassem pela mesma tristeza. Trata-se também do respeito à memoria de muitos colegas de trabalho.
“O Brasil ainda não tem a mesma consciência de segurança que vemos em países europeus, principalmente no Mar do Norte. Ao olharmos estes países, vemos que os europeus tiveram que passar por vários casos de acidentes de larga escala, com explosões, mortes e afundamentos de plataformas para criar uma cultura de prevenção e postura proativa. Ou seja, foi necessário aprender com a dor. Eu acho culturalmente que os europeus, o pessoal do Mar do Norte teve seu aprendizado
infelizmente pelo sofrimento. Após sérios problemas de explosões, mortes, os caras criaram uma cultura, mas que veio da dor. Essa é a minha preocupação no Brasil. Depois que uma plataforma pegou fogo e explodiu que matou mais de 200 pessoas, e outra explodiu, e outra, e etc. as pessoas falaram acho que temos que mudar. Hoje eles têm uma cultura mais enraizada, mas fruto daquelas destruições que ocorreram lá atrás.”
Segundo todos os entrevistados reportaram, o brasileiro originalmente não tem conscientização, mas por outro lado absorve bem o conteúdo de treinamentos e exemplos dados por outros, demonstrando grande capacidade de adaptação. Entrevistados com experiência em variadas etapas do processo de produção de petróleo, como por exemplo, perfuração, completação e produção, dizem notar grande diferença na forma como os trabalhadores atuam. Enquanto uns aceitam mais riscos, outros têm a tendência de dedicar mais tempo a planejamento e análises críticas, visando eliminar ou mitigar riscos.
Segundo um dos depoimentos, dado por individuo com ampla experiência internacional, o Brasil encontra-se em curva ascendente no aspecto segurança. O foco da maior parte da indústria local, e não se referindo à empresa em estudo, é a realização de tarefas de forma minimamente segura, a fim de impactar o menos possível os custos, com enfoque reativo e estando sempre na fronteira da conformidade com as normas de segurança, impostas por autoridades, mas sem enfoque proativo. Desta forma, em muitos casos são toleradas condições de risco em operações.
Foi mencionado por um dos entrevistados, de origem estrangeira, que há muita variação entre os níveis de conscientização em relação à segurança, sendo atribuída pelo mesmo a origem desta diferença a grandes variações nos níveis educacionais dos empregados. Em contrapartida, ao observar trabalhadores de origem europeia, a segurança em muitos casos é usada como argumento para não realizar um determinado trabalho, ou seja, é levado ao extremo, o que gera perda de produtividade, devido às frequentes e desnecessárias interrupções. Ainda segundo esta mesma pessoa o grande desafio do Brasil está em encontrar um padrão ótimo de produção, entre estes dois extremos. De forma surpreendente, foi relatado por um dos entrevistados com elevada posição hierárquica que este não se sente responsável por evitar acidentes de larga escala, pois segundo ele, “há gente qualificada para isso”. A função dele seria apenas evitar que as pessoas se machuquem.
Segundo alguns dos entrevistados, com cargos de liderança, nas frentes de trabalho de campo, pessoas com nível hierárquico mais baixo na organização, tendem a realizar tarefas, muitas vezes sob condições inadequadas, para demonstrar sua capacidade de entregar
resultados, atingindo metas pré-estabelecidas, acreditando que isto irá lhes assegurar maior longevidade no emprego e maiores chances de ascensão. Esta mesma pessoa diz acreditar, que esta característica não pode ser generalizadamente atribuída ao brasileiro, mas está presente em vários locais e culturas. A grande diferença no Brasil é que a execução de tarefas requer maiores níveis de supervisão direta, se comparada a outros países.