Appendix B Enabling concepts and technologies
B.1 High assurance operating systems
respectivamente intimidade, generatividade e integridade. A partir dessa concepção dinâmica do desenvolvimento e de outras influências, como a atual corrente cognitiva, foram desenvolvidos estudos que nos permitem tomar consciência de quão distante da realidade está uma concepção estável e sem grandes mudanças da vida adulta do presbítero. Segundo Ávila, “para muitos adultos o tempo de ganho de identidade religiosa não se encerrou com a
adolescência; e, mesmo quando essa identidade é alcançada, isso não significa que seja definitiva e imutável, mas que, pelo contrário, o adulto ao longo dessa etapa de sua vida evolui em sua religiosidade enfrentando e adaptando-se aos novos desafios que lhe propõe a vida adulta: matrimônio, vida consagrada, projeto profissional, paternidade, educação dos filhos” (2007, p. 178-179).
108 - As mudanças quantitativas, não radicais, graduais, se acumulam e finalmente pode haver um salto qualitativo como um processo de metamorfose, de transformação, de mudança. Ciampa alerta, para o perigo de pensar a metamorfose nas categorias do quantitativo e qualitativo, para não sermos induzidos ao erro de um pensamento mecanicista: “A conversão de mudanças quantitativas em qualitativas pode induzir ao erro de um pensamento
mecanicista - levar-nos a um determinismo que, de fato, é imobilismo e conformismo – pois, ingenuamente, podemos pensar que então é só aguardar o acúmulo de mudanças, deixar a história agir, esperar que a invencibilidade da substância humana, inevitavelmente, inexoravelmente, acabe por tornar cada um e todos sujeitos” (2001, p. 185).
109 - Donna Haraway, em Antropologia do Ciborgue, problematiza uma série de pressupostos do pensamento contemporâneo sobre a subjetividade, tecnologia, ciência, gênero e sexualidade. O Ciborgue, na análise de Donna Haraway, coloca em xeque os mitos da origem da natureza humana forçando a repensar a ontologia do próprio sujeito humano. Ao confundir o tecnológico com o humano ela nos faz pensar que a relação com a tecnologia não é apenas uma relação social, mas uma relação social fundamentalmente ambígua e indeterminada. A nossa relação com a tecnologia é muito mais complicada do que possamos imaginar, pois parece ser o fim da subjetividade do sujeito e o início de uma nova fase de seres agora ‘artificiais’, seres modificados geneticamente, sendo metade máquina com próteses, implantes, transplantes, ou aparelhos de pulsão de órgãos que não funcionam mais e metade tecido humano, mas que com a máquina passam a funcionar. O mundo do Ciborgue nos obriga a pensar não em termos de ‘sujeitos’, de mônadas, de átomos ou indivíduos, mas em termos de fluxos e intensidades, o mundo não constituído de unidades, ‘sujeitos’, mas inversamente, de correntes e circuitos que encontram aquelas unidades em sua passagem, onde são primários os fluxos e intensidades e secundários os indivíduos e os sujeitos. Cf. HARAWAY, Donna & SILVA, Tomaz Tadeu, Antropologia do Ciborgue, Editora Autêntica, 2000.
A individuação, segundo MONTEIRO110, “constitui o processo de constituição e particularização da essência individual e original que um de nós é; implica o desenvolvimento do ‘individuum’, como um ser único e original, não há copias” (2008, p. 58). A individuação é
uma obra de toda uma vida em contínua transformação, exigindo esforço de se gerar e se recriar sempre. Para o aprofundamento das possibilidades de individualização do presbítero católica na modernidade ficam as perguntas: sua individuação se dá porque o presbítero se diferencia dos outros presbíteros e assume livremente sua autonomia e conscientemente sua vida? Ou ela se dá por que o presbítero reconstrói um modelo “tido como ideal” dentro da tradição do cristianismo?
Para a tentativa de aprofundamento sobre as possibilidades psicossociais de individualização do presbítero católico lançaremos mão das teorias de individualização de Habermas, pois entendemos que a individualização proposta por este autor se apresenta com mais sintonia com a modernidade secularizada, possibilitando assim, mesmo com algumas lacunas, articular melhor o processo de individualização do presbítero na modernidade, o que queremos analisar.
Para Habermas, as visões ontológicas da vida, do mundo, dos acontecimentos podem restringir as realizações de produção do sujeito no mundo, limitando a fonte de espontaneidade que projeta o mundo, limitando a possibilidade dos indivíduos poderem se individualizar: ”A pré-compreensão ontológica reinante forma uma moldura fixa para a práxis
dos indivíduos socializados no mundo. O encontro com elementos do mundo movimenta-se fatalisticamente nas trajetórias de contextos de sentido regulados previamente, de tal modo que estes não podem ser afetados por soluções bem sucedidas de problemas, por um saber acumulado, pelo estado de transformação das forças produtivas e pela ideias morais”. (2002c,
p. 52). A possibilidade de individualização com bases pré-fixadas de comportamento traz dificuldade de reconhecimento de “novos sujeitos” individualizados, bem como um entrave ou retardamento na evolução social. Isto porque as possibilidades de individualização com bases somente em dados metafísicos, pré-determinados, visam mais a restauração dos valores tidos como “exemplares” e não o surgimento de “novos sujeitos” autônomos e de uma conduta consciente de vida. Quando isto acontece, além dos entraves já levantados, os indivíduos que buscam “a moldura fixa” ou o “comportamento já fixado” podem desenvolver comportamentos extremos, tais como: extremo conservadorismo; os indivíduos só se distinguem consoante o grau de participação nas classes sociais; legitimação dos privilégios de cada classe social; controle excessivo sobre a liberdade individual.
Para um aprofundamento maior sobre a riqueza do processo de individualização com base na Ação Comunicativa e não em “modelos pré-fixados” vamos aprofundar um pouco mais a teoria de Habermas. A consciência do Eu é um processo que vai de fora para dentro e não de dentro para fora. Neste sentido é que entra a Ação Comunicativa proposta por Habermas. A Ação Comunicativa se dá mediada pela linguagem. A linguagem tem um papel
110 - Dulcinéa da Mata Ribeiro Monteiro é graduada em Filosofia, Educação e Psicologia. Mestre em educação e analista Juguina.
importantíssimo na compreensão e estruturação do Eu. Para Habermas “o homem pensa,
sente, vive unicamente na língua e é por ela que deve ser formado” (2004a, p.65). Tudo o que
o indivíduo de uma comunidade linguística encontrou, no mundo em geral, traz a marca de uma “visão” do mundo como um todo. Existe uma ligação íntima entre ‘a forma interna’ da língua e uma ‘determinada’ visão de mundo. Deste modo, a fórmula da língua, como um órgão formador do pensamento, deve ser entendida como um fator que estrutura a personalidade do indivíduo. A linguagem constitui, assim, um meio pelo qual os conceitos, juízos, pré-juízos são formados e afixados a fim de facilitar as operações de pensamento e comunicar opiniões e intenções a outras pessoas.
Ao olharmos para os organismos humanos podemos observar algo que é natural a todo organismo que se liga, na maioria das vezes, ao instintivo. O instintivo exige apenas uma adaptação à realidade. Esta adaptação se dá de maneira natural ou por reação diante dos fatos ou necessidades da vida. Podemos ver isto em alguns ‘tipos’ de comportamento comum em alguns animais, tais como caçar, reproduzir, sobreviver, dentre outros. É possível destacar que o movimento de um organismo é resultado do estímulo ou reação comportamental a uma necessidade. O instinto não exige representação simbólica; já a linguagem, sim. O instinto não exige responsabilidade, já a linguagem é fruto de uma representação na conduta do organismo. O ser humano tem capacidade para a representação simbólica. Ele é capaz de representar em sua mente suas ações. Enquanto os animais são movidos por reações ou instintos, o ser humano é movido pela consciência. O grau de autonomia entre uma ação instintiva e uma ação representada simbolicamente é medido pala autonomia da Ação. Numa ação instintiva, a autonomia é quase nula, já numa ação representada há uma crescente autonomia. Quanto menos autonomia, menos poder de gerenciar a Ação se tem. Havendo autonomia, há individuação.
Para HABERMAS, Durkheim vê como única possibilidade do indivíduo poder chegar à individuação que é a fuga das normas impostas pela sociedade à qual ele se encontra submetido. Mas ele só pode fugir a isto através do próprio individualismo: “Durkheim entende a
individualização social como um crescimento das forças espontâneas que capacitam o indivíduo a ser ele mesmo; porém, ele só pode descrever essas forças apoiado em particularizações através das quais o indivíduo se desvia das determinações gerais do seu meio social” (2002c, p. 184). Para Habermas a individualização proposta por Durkheim desvia
o indivíduo do meio social. Assim como a compreensão de Durkheim não ajuda muito na compreensão do processo da individualização, também a compreensão de Hegel não acrescenta muito nesta compreensão. Para Habermas a individualização proposta por Hegel seria apenas graduação do ser: “Seguindo a Escolástica, Hegel interpreta os degraus do ser
como graduações da individualidade. Afastando-se, porém, de Tomás, Hegel descobre também no processo da história mundial a tendência à individualização progressiva do ente; como as figuras da natureza, as formações históricas do espírito são tanto mais individuais, quanto mais elevada for a sua organização” (2002c, p. 185).
Para Hegel a individualização adquire corpo mais completo e visível nos deuses da mitologia grega. Hegel não consegue impedir a confusão do processo de individualização como o processo de diferenciação e assim chegar à essência da individualização. A teoria de Hegel deixa o indivíduo preso aos degraus do ser. Desta forma, Hegel não avança no processo de individualização do Ser, sobretudo por causa de seu paradigma filosófico da filosofia do sujeito.
Diante de tais colocações, Habermas diz que a teoria da individualização social encontra na psicologia social de G. H. Mead uma tentativa promissora de apreensão do conteúdo pleno da individualização, pois em Hegel a individuação depende da subjetividade crescente do espírito, ao passo que para Mead ela se dá através do processo de internalização das instâncias controladoras do comportamento que, de certo modo, emigram de fora para dentro, isto é, através de um processo intersubjetivo: “No meu entender, a única
tentativa promissora de apreender conceitualmente o conteúdo pleno do significado da individualização social encontra-se na psicologia social de G.H. Mead” (2002c, p. 185).
Para Habermas, a individualização só é possível através do processo de socialização e vice-versa: “nenhuma individualização é possível sem socialização e nenhuma socialização
sem individualização” (2002c, p. 35). Habermas propõe o paradigma da linguagem como
caminho possível do processo de individualização, no qual é possível o entendimento recíproco: “fundamental a atitude performativa dos participantes da interação que coordenam
seus planos de ação ao se entenderem entre si sobre algo no mundo” (2002d, p. 414).
Segundo Habermas, Mead, baseado em Humboldt e Kierkegaard, tem o mérito de haver colocado a individuação como um processo linguisticamente mediado da socialização111. Assim, a individualização significa algo mais de personalidade, de singularidade e de poder ser “si mesmo”, mas sem perder o referencial da cooperação social, sendo formada assim, em condições de reconhecimento intersubjetivo e de auto-entendimento mediado intersubjetivamente. Segundo Habermas, “tal guinada coloca-nos nas mãos os meios
conceituais básicos que permitem recuperar uma intuição há muito tempo tematizada no discurso religioso” (HABERMAS, 2002c, p. 187). A intuição religiosa leva a compreender que o
indivíduo se torna consciente de si mesmo na singularidade insubstituível e sem par de um ser individuado quando se encontra na maior distância em relação a si mesmo. Parece estar aí, o que TOURAINE chama de “ambiguidade principal da modernidade” (2005, p. 150), isto é, que a religião que tem função de proporcionar sentido à vida humana levando ao encontro do outro, possibilita também a individuação do ser humano112.
Segundo HABERMAS, Mead foi o primeiro a refletir sobre o modelo intersubjetivo do Eu produzido socialmente (Cf. 2002c, p. 204). A ideia com a qual Mead rompe com o círculo de reflexão auto-objetivadora, impõem a passagem para o paradigma da interação mediada simbolicamente. Habermas apoia sua teoria da individualização no sociólogo Mead que foi o
111 - Para HABERMAS, “A individuação não é apresentada como a auto-realização de um sujeito auto-ativo na
liberdade e na solidão, mas como um processo linguisticamente mediado da socialização e, ao mesmo tempo, da constituição de uma história de vida consciente de si mesma” (2002c, p. 186).
112 - Para maior aprofundamento das possibilidades de “si mesmo” na modernidade em TOURAINE, vide também do mesmo autor, “Poderemos viver juntos?” (2003).
primeiro a pensar o modelo intersubjetivo do Eu socialmente produzido. A consciência não é como havia sido concebida desde Descartes, passando por Fichte até Husserl, algo originário, inerente ao sujeito, disponível a ele (Cf. HABERMAS, 2002c, p. 192-217). Mead completou a virada linguística para o cerne da filosofia do sujeito, a saber, a identidade do Eu. Ao “eu”, cabe em seu pensamento, um papel chave. Entretanto, ele não vê mais nenhum ponto de convergência aparente do pensamento, como em Fichte, pois para Mead, por traz do advento do sujeito, é possível reconhecer sempre a sociedade. Desta forma, pode ser assegurada uma identidade mais persuasiva do que a da comunidade atualmente existe, pois nesta identidade deve ser assegurada as vozes do passado e do futuro (Cf. HABERMAS, 2002c, p. 219).
Para HABERMAS: “A guinada de direção a um modo de ver intersubjetivamente nos
leva ao seguinte resultado, surpreendente no que respeita à ‘subjetividade’: a consciência que parece estar centrada no Eu não é imediata ou simplesmente interior. Ao contrário, a autoconsciência forma-se através da relação simbolicamente mediada que se tem com um parceiro de interação, num caminho que vai de fora para dentro” (HABERMAS, 2002c, p. 212).
Mead esclarece também a correspondência entre instituições sociais e o controle de papéis: “O Ego assume as expectativas normativas de ‘Alter’, não as cognitivas” (HABERMAS, 2002c,
p. 213). As instituições são autorreferências para a construção do “eu”. As instituições
apresentam expectativas comportamentais, generalizada normativamente, que de certa forma imigram para o interior da pessoa. A instituição comporta como uma força conservadora na construção dos papéis sociais. As instituições apresentam formas coletivas ou generalizadas em normas reconhecidas e exercitadas intersubjetivamente e nas formas de vida de nossa sociedade. HABERMAS, comentando Mead, afirma: “Somente na medida em que crescemos
no interior desse ambiente social, poderemos constituir-nos como indivíduos capazes de agir de maneira responsável e desenvolver – pelo caminho da internalização dos controles socais – a capacidade de seguir por conta própria as expectativas tidas como legítimas ou de ir contra elas” (HABERMAS, 2002c, p. 215). Desta forma, Mead, segundo Habermas, “recorre a processos de diferenciação social e às experiências de emancipação, em relação a formas de vida estandardizadas, bem delimitadas e bem firmes em termos de tradição, as quais acompanham regularmente a integração e a passagem para grupos de referência e formas ampliadas de intercâmbio, ao mesmo tempo mais abrangentes e funcionalmente diferenciadas” (HABERMAS, 2002c, p. 216). Esta compreensão resulta numa teoria da
comunicação do processo de individualização.
O processo da individualização social a partir de Ação Comunicativa, nos moldes de HABERMAS, possui dois aspectos diferentes: “Deles se exige cultural e institucionalmente, e
em medida crescente, tanto a autonomia como também uma conduta consciente de vida” (2002c, p. 217). Este modo de ver a identidade rompe com os processos convencias de
formação da identidade, sob a pressão da diferenciação social e da multiplicação de expectativas de papéis conflitantes. Para Habermas, “A necessidade de evitar convenções
petrificadas imposta pela sociedade, sobrecarrega o indivíduo com decisões morais próprias e com um esboço individual da vida resultante de um auto-entendimento ético” (2002c, p. 217).
O indivíduo que projeta na direção que aponta para “uma sociedade mais abrangente”, apela a outros na suposição de que existe um grupo organizado de outros, que reagem ao seu apelo. Ao fazer isto está se apelando para uma atitude pós-covencional. Segundo HABERMAS, Mead a interpreta da seguinte maneira: “Produz-se uma comunidade de comunicação ilimitada que
transcende a ordem particular de uma sociedade determinada, no interior da qual os membros são capazes de sair da sociedade existente, quando se dá um conflito particular, a fim de buscar um consenso sobre costumes modificados de ação e uma nova formulação de ideias de valor” (2002c, p.218). E ainda, “Para os indivíduos, a individualização social significa que se espera deles uma autodeterminação e uma autorrealização que pressupõe uma identidade-eu de tipo não convencional” (2002c, p. 218). Para Mead esse indivíduo que se individualizou,
não se prende mais ao “tipo social”, sendo, pois pós-convencional. Mas esta nova identidade tem que esperar o reconhecimento da comunidade. De acordo com isso, a identidade individualizada, que age autonomamente, só pode ser estabilizada se esse indivíduo for reconhecido pela comunidade como essa pessoa.
Olhando, a partir dos postulados acima colocados, a possibilidade de individualização do presbítero católico não deve ser tomada como um intimismo religioso nem como algo puramente subjetivo ou solitário, mas a partir da história de manifestação de Deus compartilhada socialmente no mundo da vida e da busca responsável de um consenso de individualização mediado intersubjetivamente. Somente desta forma ela adquire uma representatividade geral, pois individualizar é mais do que uma simples encarnação do tipo especial de uma raça, grupo, crença ou comunidade. Segundo GRUN & SARTORIUS, comentando C. G. Jung, a individualização do presbítero é fruto do seu amadurecimento113 como pessoa: “o amadurecimento significa assumir o caminho da individuação ou auto-
realização” (2006, p. 21).
Psicossocialmente, cada presbítero ao buscar se individualizar, deve trazer para dentro de si uma consciência de mundo que o leva a tomar consciência de si mesmo. Assim, a individualização está na tomada de consciência de si mesmo a qual abre possibilidade de traçar novos caminhos de forma responsável. A tomada de consciência de si como presbítero e a possibilidade de traçar seu próprio caminho estão condicionados à visão de presbítero do próprio indivíduo em referência à política coletiva de identidade presbiteral proposta pelo magistério da Igreja Católica sem prescindir do consenso da sociedade. Esta individualização se torna tanto mais rica quando mais for construída a partir da Ação Comunicativa e não somente de um “modelo pré-fixado” ou de um subjetivismo. Como exemplos de individualização bastante significativos, dentro da Igreja Católica, para citar somente alguns, temos: Santo Agostinho, São Francisco de Assis (que fundou as ordens mendicantes franciscanas), São João Maria Vianney (modelo exemplar de presbítero diocesano, pela sua vida de ascese e atendimento de confissões). Todos: Santo Agostinho, São Francisco de Assis
113
- Por amadurecimento GRUN & SARTORIUS entendem: “Coragem de assumir os próprios sentimentos e
desejos pessoais; a coragem de se perceber e de mostrar-se como se é” (2006, p. 22). Comentando Maslow,
GRUN & SARTORIUS afirmam: “as pessoas maduras caracterizam-se por não estarem presas às próprias
e São João Maria Vianney se individualizaram como pessoas religiosas, na sociedade de seu tempo, sendo considerados formas individuais e históricas de organização e elevação do espírito, pessoas que se diferenciaram no cumprimento de seus papéis. Por isto eles se tornam simbólicos para a comunidade religiosa. E assim, poderia citar muitos outros personagens significativos da história da Igreja Católica que se enquadram nesta mesma linha de pensamento. Mas não podemos deixar de precisar que estes fazem parte dos modelos tidos oficialmente como exemplares pela Igreja. Muitos outros presbíteros católicos poderiam ser considerados como pessoas que se individualizaram, só que não foram reconhecidos como tendo uma vida considerada como exemplar, ou não manifestaram a organização e elevação do espírito de modo a se tornarem dignos de ser considerados simbólicos para a comunidade religiosa.
A riqueza da intuição da religião católica no reconhecimento dos santos como pessoas singulares está em considerar como parâmetro para a individualização a maior distância do indivíduo de si e maior proximidade com o outro. É bom lembrar que o catolicismo trabalha com os valores metafísicos, dentro desta concepção a força individualizadora não está no indivíduo e sim na circunstância transcendental que faz com que cada singularidade seja capaz de representar mais singularmente Deus114. Para a Psicologia Social, pode existir uma multiplicidade de possibilidades de individualização, uma vez instaurado, conforme diz Habermas, o critério da centralidade da comunidade ou o fórum da comunidade mediada pela premissa da linguagem115.
A individuação acontece a partir da comunidade ou em oposição a ela, isto é, ela
precisa partir da perspectiva do outro. A referência à comunidade é imprescindível no processo de individualização. A referência à comunidade torna possível levar a sério a própria história de vida como princípio de individuação – torna possível considerá-la como se fosse o produto