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Heterophilic antibodies and rheumatoid factor interference in immunoassays

Para Heidegger (1962) (in Reisinger and Steiner, 2006) um conceito é como o homem se compreende a si próprio em relação às coisas. Os conceitos de “real”, “genuíno”, “intocável” e “primitivo” são oriundos da filosofia de Platão (428-348, a.C.), no sentido de reflectir a forma metafísica da sua natureza. Para Descartes (1955) as ideias certificavam a realidade ou a confiança na verdade (as ideias como produto do pensamento). As ideias podem pertencer aos especialistas, escolas, turistas, marketers, locais ou media e todos podem ser modernistas, realistas, objectivistas, construtivistas ou pós-modernistas. Ora, esta abordagem leva-nos para a imprecisão da definição de “turista”. Mas, parece que a definição de turista é uma condição necessária para a definição de turismo (Wilson, 1998).

Sem nos preocuparmos com o apuramento da definição perfeita de turista, abordaremos alguns conceitos e perspectivas que têm sido apresentadas ao longo dos tempos, que nos possam enquadrar melhor no que se deve entender como “turista”. Recorreremos mais uma vez ao trabalho de Lafuente (1991) como fonte para o histórico da evolução do conceito, até à década de 70. Um Dicionário Inglês de Oxford de 1800, refere que “o turista é quem efectua um “tour”, especialmente de recreio e que viaja por prazer ou para aumentar os seus conhecimentos culturais, visitando lugares pelos seus objectos de interesse, sua paisagem e suas particularidades”. Em 1830 o vocábulo “turista” aparece pela primeira vez em França numas cartas de Victor Jacquemont. Em 1841, Maurice Alhoy define o turista como sendo quem visita o que foi descoberto pelo viajante. Em 1889, o dicionário Litré, define o turista como sendo “um viajante que transita por países estrangeiros, por curiosidade e porque não tem nada que fazer, efectuando um giro pelos países que habitualmente são visitados pelos seus compatriotas”.

Em 1905, Stradner, define turista ou viajantes de luxo como “aqueles que por iniciativa própria se deslocam para um lugar fora da sua residência, não perseguindo nenhum propósito económico nesse país, mas apenas procurando satisfazer uma necessidade de luxo”. Em 1911, o austríaco Von Schullern, refere que um turista em sentido amplo “é qualquer não residente, ou seja, alguém que não tenha a sua residência permanente na

localidade considerada”, mas em sentido restrito “são os não-residentes que realizem uma viagem a uma localidade por motivos de saúde, descanso ou prazer e que não tenham a intenção de aí permanecer durante muito tempo”. Em 1933, Ogilvie, define como turistas “todas as pessoas que satisfazem duas condições: que se afastam do seu domicílio por um período inferior a um ano e que gastam no lugar que visitam dinheiro que não foi aí obtido”31. Já Norval, em 1936, definiu o turista “como aquele que entra num país estrangeiro para qualquer outro fim, distinto da fixação de residência permanente, ou de trabalho regular, e que gasta nesse mesmo país de estadia temporal o dinheiro que ganhou num outro lugar”. Neste mesmo, a Sociedade das Nações (Comité de Especialistas em Estatística) define turista como sendo “qualquer pessoa que se desloque por um tempo mínimo de vinte e quatro horas a um país diferente do seu domicílio habitual”. Em 1942, Angelo Marioti, afirma que “é certo que um turista enquanto tal não é um produtor mas sim um consumidor. (…) um turista propõe-se a gastar enquanto que os demais (viajantes) propõem-se a ganhar”. Contudo, este mesmo autor sublinha o facto deste factor distintivo não ser 100% rigoroso, pois, um viajante de negócios assume um papel misto de gastador e de ganhador32. Em 1954, na Conferência sobre Turismo de Nova York (Organização das Nações Unidas), definiu-se o turista, em geral “como qualquer pessoa que permanece num país estrangeiro, de vinte e quatro horas a seis meses, sem distinção de raça ou religião”.

Já em 1963, na Conferência sobre Turismo e Viagens Internacionais, em Roma (Organização das Nações Unidas), surge uma definição de turista e de excursionista: “Turista é dizer, viajantes que permanecem pelo menos 24 horas num país visitado e cujos motivos de viagem podem ser agrupados em: a) ócio, prazer, férias, saúde, estudos, religião e desporto; b) negócios, assuntos familiares, missões e reuniões. Excursionista, é dizer os visitantes temporais que permanecem menos de 24 horas no país visitado, incluindo os viajantes que utilizam os cruzeiros”. António Pulido, em 1966, propõe como definição de turista em sentido lato “como toda aquela pessoa que com motivo de deslocação de lugar de residência habitual, efectua um gasto em bens de consumo num lugar distinto daquele de origem habitual e onde obtém os ganhos que servem para o financiar”. Em 1967, Fernández Fuster, refere que “podemos aceitar que

31 Esta definição também vem referida no trabalho de Morley (1990).

32 (NA) Para mais informação sobre a questão do turismo de negócios deve-se consultar na mesma obra

turistas são todos aqueles que se deslocam para fora do seu domicílio habitual com intenção de regressar”.

Já à margem do trabalho de Lafuente (1991), para Cohen (1974) (in Poria et al., 2003) um turista é “um viajante, voluntário, temporário, viajando na expectativa de prazer pela novidade e mudança de experiências numa viagem relativamente longa e não frequente”.

Do trabalho de Cary (2004) sobressai que, em estudos passados, o turista tem sido tratado como uma entidade que pode ser tipificada ou cujo comportamento pode ser previsto, dando-lhe condições culturais específicas e ainda, cujas decisões futuras podem ser descritas com setas, pontos e fluxos. Para Cary (2004), a figura do turista não será fácil de alcançar, uma vez que se encontra incessantemente entre “um sujeito individual” – turista – e “uma subjectividade colectiva” – classe de lazer. Ainda segundo Cary (2004), esta relação é temperada com a existência de efemeridade, assim como as constantes mudanças de constelações de subjectividades adicionadas. Diz ainda este autor, o “turista” é um sujeito construído “pelo” e “no” discurso, assim como é representado pela narrativa da “sempre pronta” definição cultural de linguagens e imagens específicas para o indivíduo. Deste modo, o turista não é um sujeito narrativo, mas sim o sujeito da narrativa.

Na linha da tipificação dos turistas, Oppermann (1992) sugere que podemos tipificar os turistas em: inactivos, pouco activos, activos e muito activos, dos quais, os últimos não têm tendência para repetir a viagem. Já na linha da essência do comportamento, Getz (1983) refere que a satisfação dos visitantes depende da qualidade dos recursos, das percepções e expectativas próprias e das atitudes da população.

Já para Reisinger and Steiner (2006) existem dois tipos de turistas, “os que estão preparados para o que vier” e “os que vão com ideias feitas”. Clive Morley (1990) (in Reisinger and Steiner, 2006) identifica quatro características dos turistas: pessoas que fazem uma viagem com estadia, a vários destinos; os destinos são distintos dos seus

lugares habituais de residência e trabalho, de tal modo que as suas actividades são diferentes; a sua intenção é regressar ao fim de dias ou meses, logo são estadias temporárias e de natureza curta; o seu propósito de viagem não se prende com a procura de residência permanente ou emprego remunerado.

Já a WTO (1990) identifica três critérios fundamentais para classificar os indivíduos como turistas: a viagem deve ser para lugares diferentes do seu ambiente habitual; a estadia não pode ser superior a 12 meses; o principal propósito da visita não pode ser o exercício de uma actividade remunerada.

Johnston (2001a) considera que, após o desaparecimento institucional do turismo (na era do pós-turismo), as pessoas que visitam um destino, podem não ser chamadas de turistas. Daqui, sobressai a ideia que podemos ter “turistas” e “não turistas”. McKercher (1996) refere que a distinção entre turistas e não turistas e por extensão, entre actividade turística e não turística, reflecte as atitudes e valores do observador que, por seu lado está associado com os seus preconceitos e comportamentos.

Fica em aberto a distinção entre “turista” e “não turista” se é que de facto existe alguma diferença, pois assumi-la é o mesmo que admitir a existência de “algo” que permite identificar essa diferença. Contudo, se admitirmos que todo o ser humano é um “turista” ou um “potencial turista”, necessitamos de compreender a sua fronteira. Eventualmente, essa fronteira não está só no próprio ser humano, mas essencialmente nas condições socioeconómicas a que cada um tem acesso. Ou seja, há-de haver algo que influencie o comportamento de uma pessoa, para que esta, em determinados momentos, se considere um turista. Esse algo, seguramente terá como causa elementos endógenos, mas também exógenos, à própria pessoa.

Os estudos têm procurado encontrar a essência da identificação do conceito, ou seja, o ponto fronteiro referido, na distinção e identificação do próprio tempo, ora encontrando diferenças entre “tempo de trabalho” e “tempo de lazer” (Mieczkowski, 1990) (in Poria

et al., 2003), ou entre “tempo de trabalho” e “tempo livre”, ou ainda confrontando

diferenças entre “lazer” e “recreação”. Poria et al. (2003) sugerem que a natureza dos tempos dependem da forma como cada indivíduo o considera, ou seja, assume uma natureza subjectiva, podendo assumir diferentes classificações, consoante as circunstâncias de cada pessoa. Nesta óptica, somos levados a considerar que o turista é simultaneamente sujeito e objecto da acção. Como vimos, houve também os que tentaram conotar o turista como um homo economicus, ou seja, alguém que se dispõe a sair para gastar dinheiro. Esta óptica, mais economicista, parece-nos mais redutora e limitativa.

Das diferentes abordagens desenvolvidas, parece evidente e consensual que um “turista” há-de ser alguém que faz “algo” durante o seu “tempo de não trabalho”, sendo que esta definição cabe ao próprio. Pois, apesar de o mesmo turista poder pertencer a vários grupos ou subgrupos de turismo, durante a sua experiência num local, deve-se considerar a percepção dos turistas e não qualquer classificação destes, de acordo com algum critério objectivamente quantificável (Poria et al., 2003). Assim, um turista não é uma “entidade” física definida, mas antes um “ser humano” que em determinado momento, entende que se comporta como um “turista”.

No entanto, verificamos, independentemente das diferentes abordagens, que tem havido uma particularidade que se mantém. Constatamos que, ao longo dos tempos (ver quadro seguinte), particularmente depois de 1800, o termo “turista” conseguiu encontrar uma estabilidade, pois tem estado exclusivamente assente no conceito de “viajante”, seja em termos mais genéricos ou em termos específicos de deslocação ao estrangeiro. Ora, este conceito de “viajante”, pressupõe uma mudança de lugar ou uma deslocação física. Mas, considerando as dinâmicas das sociedades modernas onde as novas tecnologias “permitem chegar” a muitos “lugares”, sem sair do “local habitual de residência”, julgamos que esta realidade, deverá determinar uma redefinição do conceito de “turista”. Pensamos estar em presença de um novo paradigma, o qual, há muito já foi identificado: “viajar não significa só deslocação física”.

• Em que momento se adquire a classificação de turista? (Quando sai da origem ou quando chega ao destino?).

• E durante um percurso entre origem e destino, é ou não um turista?

• Se um determinado destino é “turístico”, por que razão não pode o seu residente habitual ser considerado “turista”, nesse mesmo destino? (haverá condições para que isso seja possível?).

• Se uma pessoa estiver a fazer um conjunto de coisas no seu local de residência habitual, “não é turista”, mas se essa mesma pessoa fizer essas mesmas coisas num local que não o seu local de residência habitual, já “é turista”. Sendo isto aceite, o que é o “local de residência habitual”? A sua habitação? A localidade onde habitualmente vive? É que se for a habitação, significa que não podemos ser “turistas” na nossa casa, mesmo que façamos as mesmas coisas que numa outra casa, fora do local de residência habitual?

• Afinal a essência da natureza de “ser turista” reside no “lugar” ou no “comportamento”?

• É a prática do “acto” ou o “espírito” da sua prática que lhe atribui a classificação de turista? (há práticas que se repetem entre um “turista” e um “não turista”).

Estas são apenas algumas questões que se levantam sobre o conceito, cuja resposta poderá, em nossa opinião, contribuir para uma melhor redefinição desse conceito.

Quadro 3.1 – Evolução dos Aspectos relevantes e Características do conceito de Turista

Data Aspecto relevante Característica Autor(s)

1800 “Prazer e aumento de conhecimento” Viajante Dicionário de Oxford

1889 “Quem não tem nada que fazer” Viajante (ao estrangeiro) Dicionário de Litré

1905 “Viajante de luxo” Viajante Stradner

1911 “Não residente” Viajante Von Schullern

1933 “Pessoas que se afastam do seu domicílio para gastar dinheiro” Viajante Ogilvie 1936 “Pessoas que se afastam do seu domicílio para gastar dinheiro” Viajante (ao estrangeiro) Norval 1936 “Quem se desloca por mais de 24 horas ao estrangeiro” Viajante (ao estrangeiro) Sociedade das Nações

1942 “Quem gasta dinheiro fora do seu domicílio” Viajante (concepção

económica) A. Marioti

1954 “Quem se desloca ao estrangeiro entre 24 horas a 6 meses” Viajante (ao estrangeiro) ONU

1963

“Turistas como, quem se desloca ao estrangeiro por mais de 24 horas” e “Excursionista como, quem se desloca ao estrangeiro

por menos de 24 horas”

Viajante (ao estrangeiro)

ONU (Conferência sobre Turismo e

Viagens Internacionais)

1966 “Deslocação para fora da residência habitual” Viajante A. Pulido

1967 “Deslocação para fora da residência habitual” Viajante F. Fuster

1963 a 1972

“Seres com comportamento específico” Viajante (concepção

comportamental) Christaller

1972 a 2000

“Entidade com comportamento e sujeito de fluxos” Viajante (concepção

geográfica) Cohen

2003 “Percepção dos turistas” Viajante (concepção

subjectiva)

Plog; Leiper; Mo, Howard and Havitz; Tiannakis and Gibson;

Danni, Walmsley and Young; Mazursky; Clive Morley; Butler;

Poria et al.

2004 “Sujeito da narrativa” Viajante (concepção

filosófica) Cary

Fonte: Elaboração própria

Como se vê, a definição do conceito de turista também tem sido alvo de variadas abordagens, contudo, para além dos aspectos de natureza quantitativa (tipologia e classificação) interessa-nos identificar a sua natureza qualitativa ou comportamental.

Para o presente trabalho, o turista interessa-nos enquanto “um ser cujo comportamento seja consequência das suas percepções e experiências, que não as que possui no seu ambiente diário habitual”, na linha do trabalho de Baker e Crompton (2000) e de McKercher (1996). Tratando-se de turistas internacionais, referimo-nos aos indivíduos que têm inerente ao seu comportamento uma necessidade de se deslocarem de um país para outro. Sublinhamos aqui uma posição tomada por Von Schullern (1911) quando referia que a sua definição de “turista” não era a única possível nem a mais correcta, mas sim a mais útil para os seus fins.

Assim, tomando os considerandos anteriores, para o presente trabalho, o conceito de turista pode ser entendido numa das seguintes ópticas:

• Óptica Geográfica (pressupõe deslocação):

o Turismo doméstico (turista nacional; turista estrangeiro);

o Turismo internacional (turista nacional; turista estrangeiro);

• Óptica Comportamental:

o “Um ser humano com comportamento turístico”.

Consideramos, na óptica geográfica, o turista estrangeiro, numa concepção de turismo internacional e na óptica comportamental, à forma como um ser humano se considera com comportamento turístico. Vimos, portanto, que o conceito de “turista” assenta, quer no “lugar”, quer no “comportamento”. Visto que já foi apreciado o conceito de “lugar”, no capítulo 2, resta-nos apreciar o conceito de “comportamento”. Consequentemente, interessa-nos depois verificar o que podemos considerar como “comportamento turístico”, pois este conceito acabará por ser determinante para uma melhor compreensão do termo “turista”. Necessariamente, é importante verificarmos o que nos indica a literatura, sobre o que significa ou pode significar “comportamento turístico”. Mas, primeiro vejamos como podemos então compreender o comportamento do consumidor em geral, por forma a nos servir de enquadramento.