• No results found

Os Blocos-seção Bodywise e Mundo-Abrigo foram escritos por HO quase que concomitantemente. O primeiro consta a data de 22 de junho de 1973 e o segundo 27 de julho do mesmo ano. A princípio esses dois blocos foram construídos autonomamente, e, de certa forma, ainda o são. Entretanto, o artista pensou posteriormente na junção desses dois blocos por considerar que entre ambos existia uma relação “assintótica”.103 Relações que se

aproximam intimamente, sem se entrelaçar ou tocar-se, “uma reta ao infinito”, além de que ambos deveriam ser compostos de notas, apontamentos, imagens, títulos e frases como que

___________________

101 CAMPOS de, Augusto Haroldo. Panorama do Finnegans Wake. São Paulo: Perspectiva, 1986. 102

Entrevista concedida a Gerald Thomas para seu programa da TV UOL, 2000. Disponível em: <http://www.dailymotion.com/video/xca820_gerald-thomas-e-haroldo-de-campos-p_creation> Acesso em: 2 out. 2010.

103 Oiticica em ntbk de 1973, no qual se refere ao Manto de Plumas Hagoromo intitulado: Apontamentos para

citação em publicação de 22 de junho faz alusão a uma frase da biografia do poeta francês Rimbaud escrita

por Henry Miller, em sua obra – “Tempo dos Assassinos”, onde o artista extrai: “A linguagem do poeta é assintótica”, segue-se um trecho do referido poema: “A linguagem do poeta é assintótica; é paralela à voz interior quando esta última se aproxima da infinidade do espírito. É através deste registro interior que o homem sem linguagem, por assim dizer, se comunica com o poeta.” Cf. MILLER, Henry. O tempo dos

73 em estado de rascunho, sempre recebendo novos adendos. Apesar desses blocos possuírem a noção norteadora de “acabado”, o artista em praticamente nenhum de seus textos se dava como que vencido pelo término, sempre ia acrescentando dados, apontamentos, construindo a sua teia de intertextualidades. Este pensa a junção dos dois blocos a partir de uma imagem que remete à última cena da peça japonesa Hagoromo de Zeani: uma fotografia expondo um homem atirando uma rede de pesca em direção ao ar.

Bodywise, que superficialmente pode ser traduzido por sabedoria do corpo ou corpo em circunspecto, traz mais uma vez a referência das leituras do artista e da amizade com os poetas Campos. Impressionado pela alocução feita por Haroldo de Campos, acerca da peça Hagoromo, mencionada anteriormente em seu Heliotape, este mapeia a relação entre o Manto de Plumas e o corpo. Se na época dos Heliotapes datados de 1971, o artista estava mais preocupado com os diálogos que abarcavam a relação com Souzândrade e a cidade de Nova Iorque, em 1973, citará constantemente a leitura da peça japonesa, inclusive produzindo relações entre a leitura em português com tradução de Haroldo de Campos e a versão traduzida para o inglês de Ezra Pound. Segundo Frederico Coelho, é possível identificar como mais uma vez a influência literária entrecruza as propostas escritas de HO:

A motivação para a escrita de Bodywise é, mais uma vez, literária. Dentre uma série de leituras que se cruzam no texto, o ponto inicial é a tradução do poema japonês

Hagoromo de Zeani, feita por Haroldo de Campos. Essa tradução, e uma carta do

poeta comentando seu trabalho, inspiram Oiticica a percorrer as conexões possíveis entre o “manto de plumas” do poema e a relação da arte com o corpo. Essa tradução ainda resultaria em uma série de outros escritos de Hélio, devido à ponte que Haroldo faz entre o “manto” e os Parangolés.104

Bodywise é um bloco composto por 12 páginas datilografadas. As laudas trazem releituras dos textos originais, visto que, como já mencionado anteriormente, o artista sempre ia acrescentando dados de leituras, reflexões manuscritas anotadas em seus notebooks. É possível perceber que algumas idéias embrionárias pertencentes aos rascunhos do texto não são transpostas para a “edição” datilografada. É notável apreender, como o artista se apropria do espaço da página em uma escrita rizomática.105 Jogando com as folhas, insere reflexões teórico-conceituais e prosa poética, indica no espaço do texto informações que serão adicionadas pelo viés de recortes de jornais, revistas, livros, fotografias, todas essas

___________________

104 COELHO, Frederico. Livro ou livro-me: os escritos babilônicos de Hélio Oiticica. 2008, Tese (Doutorado

em Literatura Brasileira) – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008, p. 153-154.

105 Cf. DELEUZE, Gilles. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol 1. In: Introdução Rizoma. 34. ed. Rio de

janeiro: Editora 34, 1995, p. 31: “o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remete necessariamente a traços de mesma natureza; ele põe em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de não-signos.”

74 referências anotadas com suas fontes devidamente citadas, além das diferentes datas do processo de execução do bloco. Pode-se considerar que o artista, operacionalizava a construção do seu projeto de livro, próximo a concepção deleuziana de “rizoma”.

Segundo o filósofo francês, os livros que se apresentam fora dos regimes tradicionais de narrativa se propondo a uma forma circular de escrita que atravessa o conceito de livro-raiz, compreendido através de um formato arbóreo que pressupõe um início, meio, fim, próximos as grandes narrativas históricas, são rizomáticos. Isso por que permitem camadas de multiplicidades, privilegiando desdobramentos conceituais e formais de linguagem.

Todavia, Deleuze constrói três principais formas de analisar e identificar essa concepção de livro: “livro-raiz, livro raiz-fasciculada e livro-rizoma”. É possível apreender que HO transita entre uma concepção de livro fasciculada a uma zona de experimentalidade rizomática. Em Bodywise o artista cola, une, justapõe um bloco existente a outro, o que primeiramente era Bodywise e Mundo-Abrigo, tomam contornos que os levam a ser

Bodywise/Mundo-Abrigo. Este cola, seleciona, recorta, sem a exatidão precisa de um escritor, que possui de antemão a finalidade de sua proposta, estando assim próximo a um método, que se configura segundo o pensamento deleuziano como “dobragem suplementar”.

O sistema-radícula, ou raiz fasciculada, é a segunda figura do livro, da qual nossa modernidade se vale de bom grado. Desta vez a raiz principal abortou, ou se destruiu em sua extremidade: vem se enxertar nela uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que deflagram um grande desenvolvimento. Desta vez, a realidade natural aparece no aborto da raiz principal, mas sua unidade subsiste ainda como passada ou por vir, como possível. Deve-se perguntar se a realidade espiritual e refletida não compensa este estado de coisas, manifestando, por sua vez, a exigência de "ma unidade secreta ainda mais compreensiva, ou de uma totalidade mais extensiva. Seja o método do cut-up de Burroughs:106 a dobragem de um texto sobre outro, constitutiva de raízes múltiplas e mesmo adventícias (dir-se-ia uma estaca), implica uma dimensão suplementar à dos textos considerados. É nesta dimensão suplementar da dobragem que a unidade continua seu trabalho espiritual.

___________________

106 “Os cut-ups estabelecem novas relações entre imagens, e o nosso campo de visão conseqüentemente se

expande (...) os cut-ups tornam explícito um processo psico-sensorial que está acontecendo o tempo todo de qualquer jeito. (...)Eu estava sentado numa lanchonete em Nova York tomando meu café com roscas. Estava pensando que a gente realmente se sente um pouco encaixotado em Nova York, como que vivendo numa série de caixas. Olhei pela janela e lá estava um grande caminhão de mudanças. Isso é um cut-up -uma justaposição do que está acontecendo fora com o que você está pensando. Faço disso uma prática quando ando pela rua. Digo: Quando cheguei aqui vi aquela placa, eu estava pensando nisso, e quando volto para casa datilografo tudo isso. Uma parte desse material eu uso e outra não. Tenho literalmente milhares de páginas com anotações aqui, cruas, e mantenho um diário também. Num certo sentido isso é viajar no tempo”.

BURROUGHS, William. Os escritores: as históricas entrevistas da Paris Rewiew. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 142-143.

75 É neste sentido que a obra mais deliberadamente parcelar pode também ser

apresentada como Obra total ou o Grande Opus.107

Não é possível considerar que a escrita e o livro do artista se coloquem plenamente em uma espécie de raiz-fasciculada e nem que a elaboração de seus textos se encaminhem efetivamente para um método Cut-up proposto por Burroughs, mesmo sendo passível de encontrar-se vizinhanças quanto ao método de justaposição, colagem de diferentes elementos, narrativas cotidianas e jornalísticas. Geralmente os seus textos transitam entre um espírito anarquista e um “arquivista carregado de ascese”, no sentido em que o artista informa suas relações e insere seus escritos em pastas devidamente datadas. Na maioria de seus textos há um rigor construtivo quanto à informação da cidade, endereço em que esses materiais estão sendo produzidos. As dobragens construídas no texto indicam as devidas fontes, ao passo em que no método proposto pelo escritor Beatnik, as justaposições vão se dando pelo viés do acaso e do indeterminado na escolha dos recortes, isto é, da “tesoura”108 do autor.

___________________

107 DELEUZE, Gilles. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol 1. In: Introdução Rizoma. 34. ed. Rio de

janeiro: Editora 34, 1995, p. 12-13.

108 Conforme o poeta e amigo do artista Waly Salomão, em sua obra Hélio Oiticica: Qual é o parangolé? E

outros escritos, testemunha o fascínio do artista relatado em suas conversas na Babylonest em Nova Iorque,

acerca do uso da tesoura nas aulas de pintura com Ivan Serpa, a liberdade do uso dos recortes e seus materiais, cita-se um trecho do referido depoimento: “Hélio em Nova York gestando seu CONGLOMERADO, composto de recortes de jornais e citações de livros, afirmava sempre quão fundamentais foram as aulas de Ivan Serpa sobre o manejo da tesoura. O garoto de 16 anos ficou especialmente impressionado com a liberdade do artista ao criar pela escolha, disposição e deformação de materiais(...) Oiticica relembrava essas aulas seminais deitado em seu ninho babilônico da Segunda Avenida, BABYLONEST. SALOMÃO, Waly. Hélio Oiticica:

76

Figura 10 – Para BODYWISE seguindo-se ao excerto de H. Campos Hagoromo (último episódio) Fonte: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ho/detalhe/docs/dsp_ imagem.cfm? name = Normal/0274.sd%20p01%20-%20494.JPGPHO> Acesso em: 21 fev. 2011.

A partir disso, muitas das idéias do artista eram encaminhadas em seus Blocos, como categorias-programas, e, assim como foram em Crelazer, Parangolés, a cada novo adendo sofrido no texto, novas concepções e gestos de execução eram lançados a luz de suas proposições, tornando seus Blocos-seção como pontos luminosos que encaminhavam a reinvenção de “categorias-experiências”: “Cada novo Parangolé, por exemplo, inaugurava

novamente a própria categoria que deu nome às obras. Cada novo trecho incorporado para seus textos reinventa o sentido original de um Bloco-seção”.109 Ao tratar de Bodywise, na sua sequência de doze páginas, HOelabora a junção da vestimenta, do espaço e do corpo em um processo de síntese a partir do Manto de Plumas do teatro Nô japonês. Como é possível visualizar na figura acima, já na primeira página do texto, o artista cola um recorte da tradução da peça elaborada pelo poeta Ezra Pound para o inglês e uma reflexão em torno do Manto de Plumas, abrindo assim um viés de múltiplas linguagens sob o espectro de Bodywise.

A teia de multiplicidades construída pelo artista nesse Bloco vai da peça japonesa, transitando até as “mãos maniacs” dos fãs de rock, aproximando-o dos seus ídolos como Mick Jagger e Alice Cooper: “mãos e corpo simultaneamente em diferentes funções q são

uma as mãos cansadas da especialização milenar querem o conúbio corporal MÃOS

CORPÓREAS INCORPORAI-VOS! MÃOS MANIACS”.110 Se apropriando das reportagens da

Rolling Stones Magazine, enaltece a maneira como os alucinados por rock passaram a definir uma transformação na relação com a vestimenta. Sendo possível relacionar com o anjo em dança performática, envolto ao manto ou da performance dos cantores de rock no palco, assim ao encontro da simultaneidade entre corpo e espaço, aproximando-os do que o artista definiu como ambiental.

No decorrer do processo de montagem do texto, as relações entre corpo, vestimenta e espaço se tornam cada vez mais intrincadas, começam a ganhar novos elementos, ao passo que o artista adiciona a sua influência em torno da leitura da obra

___________________

109

COELHO, Frederico. Livro ou livro-me: os escritos babilônicos de Hélio Oiticica. 2008, Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008, p. 155.

110 OITICICA, Hélio. Apontamentos para Bodywise 22 de junho de 1973. Programa H.O (PHO) 0203/73.

LAGNADO, Lisette (ed). São Paulo: Itaú Cultural; Rio de Janeiro: Projeto H.O, 2002. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia/ho/home/index.cfm>. Acesso em: 21 fev. 2011.

77

Understanding Media, livro do autor canadense Marshall Mcluhan, em especial a sua frase:

“Clothing – our extended skin”.111 Leitor dos trabalhos dele com Quentin Fiore, outro teórico das novas tecnologias da informação e amigo do artista, HO era cúmplice de Macluhan no que tange a sua concepção de ambiental para se referir ao espaço. Mais adiante em Bodywise, o artista cola um fragmento de papel na página inscrito CLOTHING our Extended Skin, referindo-se ao a obra de Mcluhan, instância em que o teórico canadense se refere à vestimenta como extensão do corpo:

CAPA PARANGOLÉ e MANTO DE PLUMAS do Hagoromo: in-corporação: são estruturas-função q só se fazem fazendo com q corpo se perca na contigüidade englobante proposta como UM-com-elas: exercitar limites do feito e do fazer-se - CLOTHING: pele-extensão: weaponry

CAPA-CORPO/MANTO CORPO: sólida unicidade

Clothing: pele-play: veste-desveste: ventosa q revela-quebra solidez-fusão CORPO AMBIENTE : play → o dentro e o fora: MCHLUHAN-FIORE → CLOTHING: ANTI-AMBIENTAL q cria NOVO AMBIENTE: CAPA-MANTO funde CORPO- AMBIENTE.112

Nessa relação entre vestimenta/corpo, o artista adiciona um novo elemento, neste caso, trata-se da inserção do Parangolé como “contraface” do Manto de Plumas de Hagoromo. A vestimenta, enquanto extensão da pele, é superfície de extensão do corpo, um corpo em fusão com a indumentária e o espaço em um único evento. Nas palavras do artista essa junção se torna: CAPA-CORPO/MANTO-CORPO, síntese sólida de inventividade. Os usos das palavras, agregados às novas palavras, são atributos fundamentais para o que o artista deseja expressar e atingir, sendo possível mais uma vez, reportar-se ao conceito deleuziano de rizoma – como procedimento de um livro construído de bordas e multiplicidades. Assim, visto que um pensamento rizomático segue princípios de conexões e heterogeneidades, qualquer ponto de um rizoma pode ligar-se a outro ponto e deve fazê-lo, como pressuposto oposto da árvore cartesiana.

Esse “mapa-rizomático”, elaborado por HO, conecta pontos luminosos que vão da teoria da comunicação de Marshall Mcluhan, a transduções, como é o caso de Haroldo de Campos e a peça Hagoromo de Zeani, aos shows de rock dos Stones no Havaí a artistas que vivenciaram experiências com o corpo como obra, alusão a Lygia Clarck e Vito Aconcci. Esses pontos conectados pelo artista possibilitam vislumbrar como o seu livro estava sendo

___________________

111

Possivelmente traduzida por: “Vestimenta – nossa pele estendida”.

112 OITICICA, Hélio. BODYWISE 22/06/1973. Programa H.O (PHO) 0194/73. LAGNADO, Lisette (ed). São

Paulo: Itaú Cultural; Rio de Janeiro: Projeto H.O, 2002. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia/ho/home/index.cfm>. Acesso em: 26 jul. 2010.

78 construído. Uma “enciclopédia” multifacetada, emblemática nos recursos de montagem a partir de fragmentos recortados de outros livros, revistas, jornais e músicas. A relação com o corpo citada pelo artista nesse bloco, possuí como referência inicial a obra do crítico inglês Guy Brett intitulada Kinetic Art de 1968, que incluía entre outras questões o trabalho

Nostalgia do Corpo de Lygia Clark e Breakthrough Fictioneers (1973), organizado pelo ator, artista e crítico norte-americano Richard Kostelanetz,113 que é uma obra com uma série de autores e trabalhos dentre eles, Rubbing Piece, proposta de performance do arquiteto e artista Vito Aconcci.

Dessa forma, percebe-se a efervescência intelectual e cultural em que HO estava inserido, residindo em Mahattan na época da editora Somethingelse press e sendo leitor dos livros publicados por esta. Essa editora, fundada por Higgins, publicou entre outros exemplares, livros de artes visuais, música, poesia experimental, poesia concreta, livros de Gertrude Stein, Mcluhan, John Cage. Esse repertório intelectual vinha de encontro às referências estéticas e conceituais do artista. Interessante mencionar que uma das pessoas indicadas para o artista enviar o seu projeto do Newyorkaises foi exatamente Dick Higgins, o artista relata isso em carta a Augusto de Campos:

O que para mim foi muito bom, ao encontrar esses seus amigos,114 foi de que falei com eles de uma publicação que quero fazer dos meus projetos, e para qual já fiz uma boneca, layout, etc., e que a guggenheim não pode publicar, pois não publicam nada, apenas ajudam a subvencionar parte de publicações já aceitas; falando nisso, eles se mostraram interessados em me ajudar, e talvez venhamos mais tarde ver isso aqui; daquele livro que lhe falei, só de fotos com pouco texto, ainda penso em aumentar: estou coletando material; por isso, resolvi fazer antes, o que fiz durante o mês passado, esse projeto de publicar projetos: as plantas álbum (como álbum de disco, do mesmo formato): o texto-plano está nas antecapas, dentro, e podem ser ___________________

113 Essencial destacar a abordagem de Frederico Coelho acerca da editora Somethingelse press, fundada pelo

artista fluxus Dick Higgins em 1963, editora conceituada na publicação de obras experimentais e livros de artistas, sendo que, HO teve contato com esta, sendo consumidor desse material: “Breakthrough Fictioneers é um livro editado pela Somethingelse press, renomada editora do meio artístico e intelectual de Nova York durante os anos sessenta e sententa. Seu fundador era Dick Higgins, ex-aluno de John Cage e um dos principais representantes do grupo Fluxus. Sua editora foi inaugurada em 1963 e durou onze anos, até 1974. Nesse período, publicou dezenas de livros sobre teoria da arte, ficção, música, happenings, poesia concreta ou fotografia. A história da fundação da editora é curiosa, pois nos mostra justamente os dilemas do mercado editorial em Nova York na época. Em 1962 Higgins é convidado por George Maciunas, fundador do Fluxus, para publicar uma série de textos e propostas escritas por ele durante um ano após uma data pré-fixada (12 de Abril de 1962). Um ano depois, Higgins foi informado por Maciunas que suas edições artesanais não dariam conta em tempo hábil das quatrocentas páginas de manuscrito apresentadas por Higgins. Foi a partir dessa frustração em não poder editar como queria seu material que ele teve a idéia de montar sua própria editora – a Somethingelse. Pioneira no quer diz respeito ao experimentalismo literário, sua atuação foi marcante no cenário cultural americano pela liberdade em se trabalhar com o formato “livro” e pelos autores e temas que foram publicados em seus onze anos. A lista de autores editados é uma constelação das artes experimentais norte-americanas até então”. COELHO, Frederico. Livro ou livro-me: os escritos babilônicos de Hélio Oiticica. 2008, Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008, p. 156-157.

114

79 lidos à medida que os mapas são desdobrados, incluo fotos de maquetes, referências quoting você, haroldo, pound & fenollosa, guy debord (society of the spectacle), e fotos do que chamo de repertório; creio que ficou muito bonito, enxuto (...) seus amigos pensam que devo mostrar ao higgins (do qual morro de medo); o que acho é que uma vez publicado isso será mais fácil para mim, mostrar as pessoas que não entendem do assunto, o que infelizmente é necessário para levar os mesmos adiante: financiamento, construção e performance, etc.115

A partir desse contexto narrado pelo artista a Augusto de Campos, podem-se considerar alguns elementos relacionados à construção desse projeto de livro, assim como sua