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Nos tópicos acima elencados, esclarecemos os vieses da pesquisa empreendida. Para tanto, foi apresentada a forma de documentação indireta, através da pesquisa bibliográfica, bem como a documentação direta, de campo, utilizando métodos e técnicas específicas para a consecução desse fim.

Ao recuperar teóricos, clássicos e contemporâneos da antropologia, reconhecemos as implicações da pesquisa qualitativa participante/etnográfica adquirem. Realizando uma incursão sobre as perspectivas de alguns deles, vislumbramos um panorama instigante e passível de múltiplos olhares e apreensões.

No clássico estudo antropológico Os Argonautas do Pacífico Ocidental, publicado em 1922, Malinowski discorre sobre o trabalho de campo etnográfico realizado junto aos nativos das Ilhas Trobriand. Nesse estudo, apresenta as situações que um pesquisador se depara no ambiente de estudo e problematiza as formas de ser “eu” diante desse “outro”, que eu desejo conhecer. Sobre a prática de pesquisa em si, Malinowski enfatiza a necessidade de estabelecer uma distinção entre os resultados das observações diretas e das declarações e interpretações dos sujeitos nativos dos espaços pesquisados e, por outro lado, entre as conclusões do autor, baseadas no seu bom-senso e percepções pessoais.

Partindo desse embasamento, a produção de dados aconteceu de forma contínua, com a finalidade de atingir o objeto de estudo, compreendê-lo e discuti-lo. A aproximação com o campo ocorreu de forma paulatina. Reservas e não-entendimento dos “reais” objetivos da minha presença no local deram lugar à abertura de arquivos privados para a coleta documental acima descrita, diálogos informais, convites, anuência para a captação de registros fotográficos, disponibilidade para entrevistas.

Ressalto que o fato de ser pós-graduanda “doutora”, segundo eles, facilitou o acesso aos espaços e não só pelo conhecimento prévio de alguns destes, como foi expresso acima, mas pelo capital cultural (BOURDIEU, 1983b) que associaram à carta de apresentação da minha pesquisa, respaldada pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia/UFPB, que entreguei no momento em que conheci os representantes de cada espaço. Na Associação de Aposentados, fizeram questão da minha presença nas reuniões ordinárias e, durante uma delas, reservaram um momento na pauta para que eu me apresentasse e expusesse os objetivos da pesquisa para o coletivo. Embora não tivesse solicitado isso, percebi que o presidente assim o fez para justificar aos demais a minha presença no local, destacada pelo fato da minha aparência dissociar-se do físico dos demais associados, bem como para conferir reconhecimento ao nível do meu estudo

e autoafirmação de que o que eles fazem é relevante o suficiente para ser assunto de “doutor” universitário, conferindo prestígio ao espaço e função que ocupam na atualidade. Fato semelhante aconteceu no Centro de Convivência e junto ao poder público. Se a aparência física atuou como aspecto definidor em um campo caracterizado por demarcação etária, o grau do estudo adquirido foi percebido como elemento de distinção para eles e para mim.

A observação realizada se deu nesse contexto de interações entre sujeitos e pesquisadora, em todos os momentos nos quais se dava o encontro com o objeto de estudo. Os cenários, sujeitos e práticas foram objeto de investigação constante e contínua, o que provocou novas questões a serem respondidas.

A realização de entrevistas requer do pesquisador certos cuidados específicos: selecionar o participante, lugar adequado para que a mesma transcorra sem maiores transtornos e o roteiro semiestruturado, com questões norteadoras da pesquisa, mas que possibilitam horizontes além dos traçados previamente e, por outro lado, contribuem com meios capazes de traçar comparações e análises entre as declarações realizadas.

Ao longo da pesquisa de campo, estabelecemos contato com os informantes da pesquisa para assegurar a participação dos mesmos. Cada entrevistado teve uma explicação minuciosa sobre o objeto, os objetivos da pesquisa e os instrumentos de levantamento de dados. Ciente da importância da sua participação para o desenvolvimento satisfatório da pesquisa e a partir do esclarecimento das dúvidas que surgiram, o indivíduo foi convidado a ser entrevistado. Com a concordância estabelecida, acertamos o dia e horário e local mais propício, conforme a disponibilidade e preferência do informante, de modo ao pesquisador se adequar às necessidades do entrevistado. No início, procurávamos estabelecer um diálogo prévio, de modo a descontrair e transmitir confiabilidade para o participante. Novamente, explicávamos os elementos norteadores da pesquisa, o motivo pelo qual precisava que a entrevista fosse gravada, assegurando o sigilo da identificação dos informantes e a liberdade que o entrevistado possuía de interromper a conversação se houvesse necessidade.

Assim, as entrevistas foram realizadas com duração de cerca de 40min a 01h35. A maioria delas aconteceu, individualmente, em espaços específicos nos quais os participantes da pesquisa estão inseridos: em salas privadas, nas quais acontecem reuniões mais reservadas das Associações. Nos Centros de Convivência, as entrevistas aconteceram em ambientes diversos, priorizando a comodidade e privacidade dos

participantes. O presidente da Federação, contudo, concedeu entrevista em uma sala que ocupa enquanto chefe de gabinete da Secretaria de Segurança Urbana e Cidadania de João Pessoa, o que culminou por revelar sua condição simultânea de aposentado e trabalhador ativo. No caso das coordenadoras dos espaços relativos ao poder público, as entrevistas individuais aconteceram nas próprias salas que ocupam.

A opção por permanecer em tais espaços foi feita por cada entrevistado, contudo, se mostrou significativo porque correspondem a lugares, por excelência, onde as relações são/estão estabelecidas, além dos registros do que já ocorreu, recordações de um tempo de outrora, ressignificados nos dias atuais. A escolha desses ambientes, embora alguns deles fossem ausentes de privacidade e propensos a interrupções durante a realização das entrevistas, possibilitou a observação, durante o processo de investigação do campo, de aspectos referentes à vigilância, imposição de hierarquias, conflitos, expressões de afetividades, entre outros. Nesse sentido, certamente, o local de realização de entrevistas contribui para revelar os ditos e não-ditos em uma situação de interação tão peculiar como uma entrevista.

Segundo Tourtier-Bonazzi (1998, p. 234):

é indispensável criar uma relação de confiança entre informante e entrevistador. Disso depende o sucesso. Essa necessidade de estabelecer certos vínculos explica por que alguns entrevistadores preferem interrogar as testemunhas individualmente, tornando mais fácil a intimidade através de um diálogo. (...) Essa relação de confiança exige do entrevistador uma grande disponibilidade e portanto parece indispensável ter um primeiro encontro com a testemunha, preparar o esquema da entrevista e voltar alguns dias depois para gravar.

É importante ressaltar, contudo, que umas das entrevistas foi realizada, ao mesmo tempo, com dois participantes. Trata-se dos presidentes da Central dos Idosos, Pensionistas e Aposentados do Estado da Paraíba (JP) e Federação dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Paraíba (JP), respectivamente. Como foi dito, as entrevistas aconteceram de acordo com a disponibilidade e, portanto, ajustaram-se ao que melhor convinha aos entrevistados. Embora tenha recebido tal sugestão com reserva, devido à inexperiência com essa situação, a ausência de privacidade e individualidade que a conversação coletiva poderia provocar, a mesma transcorreu de maneira proveitosa. Trocas de informações, acréscimos à fala do outro, perspectivas diversificadas, respeito ao momento em que o outro falava, foram aspectos marcantes nessa experiência. Além

disso, foi possível entrever expressões faciais, gesticulações e entonações que também se constituíram em dado de pesquisa.

Em relação às quatro entrevistas com os agentes do poder público – as coordenadoras da Política Estadual do Idoso, da Gerência do Idoso e dos Centros de Convivência – esclarecemos que estas não desembocaram em narrativas de histórias de vida. Não houve espaço para tanto, visto que, embora acionando o aspecto subjetivo que caracteriza o indivíduo, estas entrevistas possuíam um objetivo específico: ouvir e conhecer a versão “oficial”, a versão do poder público sobre as ações efetuadas em prol dos idosos. Ainda que assumindo um passado de militância ou afinidade junto aos idosos, elas agora representavam a “voz” de uma forma de atuação coletiva, pública, própria de um modo de gerir as instâncias públicas. Não estava ali o indivíduo, mas a função que exerciam no arcabouço social.

Durante entrevista realizada com a coordenadora da Política Estadual do Idoso, a mesma pontou os canais que os idosos possuem para estabelecer contato com o poder público e destacar suas demandas. Dentre esses, que discutiremos posteriormente, ela destacou a participação de idosos durante as plenárias realizadas através de um instrumento denominado “Orçamento Democrático Estadual”, implantado na Paraíba desde 2011. Nesses momentos, realizados nas regiões geoadministrativas da Paraíba, os cidadãos adquirem o espaço de diálogo diretamente com o poder público – governador e seus secretários – e expõem suas demandas a serem executadas através de obras e serviços.

Diante dessa informação, consideramos a possibilidade de realizar um levantamento, entre os anos de 2011 a 2015, dos dados referentes à participação dos idosos nas plenárias, suas demandas apontadas e a posterior execução (ou não) destas. Além de se tratar de uma experiência inovadora no Estado, esses dados contribuiriam para lançar luz sobre a realidade paraibana, nos seus contextos específicos, necessidades e ações realizadas. Como o ODE está sob a coordenação da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento, Gestão e Finanças, estabelecemos contato com os dirigentes responsáveis por tal pasta e, após o processo de esclarecimento da proposta da pesquisa, houve um acordo em ceder as informações necessárias. Contudo, diferentemente da abertura recebida na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Humano, os dados solicitados não foram disponibilizados, o que inviabilizou a inserção dessa análise na pesquisa.

Algo muito particular que aconteceu no início das entrevistas foi o fato de que, quando era solicitado o consentimento para gravação das mesmas e garantida a preservação da identidade dos informantes, os membros da Associação enfatizaram: “A gente aqui não tem sigilo não, a gente aqui é tudo aberto”. Diante das manifestações de desinteresse desse critério de confidencialidade que os mesmos demonstraram, não manteremos sigilo dos nomes. Assim como no caso das coordenadoras, que, ocupando um cargo público, faz parte da “transparência” expor seu nome, função e seus princípios profissionais. Em relação aos idosos participantes dos Centros de Convivência, não se opuseram ao caráter de confidencialidade da pesquisa. Desta forma, quando transcrevemos fragmentos dos relatos concedidos durante a realização das entrevistas, nos capítulos do presente estudo, preservamos a identidade destes informantes, utilizando pseudônimos e idade dos entrevistados.

Quando pontuamos sobre a manutenção ou não do anonimato dos entrevistados, foi considerada a perspectiva de cada participante a respeito da preservação do sigilo de identidade. Durante o desenrolar de uma pesquisa, intensos debates são travados sobre o anonimato na construção do texto científico. Questiona-se: A serviço de que ou de quem é útil a preservação do anonimato das fontes de pesquisa? Ponderando sobre esse questionamento, o desejo expresso de cada participante foi considerado elemento soberano na identificação dos mesmos em seus espaços de atuação.

Ao longo das entrevistas, observamos as entonações, as ênfases e as reações que, algumas vezes, culminaram na interrupção momentânea da conversação. Cada entrevista foi transcrita lenta e integralmente, retornando a gravação sempre que necessário para preservar a essência do discurso proferido. As pausas foram interpretadas por reticências e os silêncios e recusas em responder determinado questionamento, representados por reticências entre parênteses.

Logo no início da entrevista, quando questionamos os participantes sobre as motivações para a inserção no grupo específico, o roteiro semiestruturado oportunizou que a mesma ganhasse ares de uma narrativa das suas trajetórias de vida, uma vez que nestes momentos, os idosos sempre se reportavam ao passado, à memória para justificar seu lugar na atualidade. Como não havia previsto tal fato, a entrevista retornou ao seu “formato original”, mas abriu espaço para a introdução da técnica da entrevista em profundidade, o que ocorreu posteriormente, de forma individual, com os quatro idosos dirigentes das Associações e quatro idosos participantes de Centros de Convivência.

Subjetividades e acontecimentos que marcaram momentos da sua vida são elementos presentes nas narrativas.

A partir das observações realizadas, da transcrição das entrevistas realizadas, iniciamos o trabalho de análise dos dados. Considerando a particularidade do nosso objeto de estudo, que se divide entre sujeitos da sociedade civil e agentes do poder público, de forma relacional, as análises procuraram dar conta desse universo permeado por relações de saber, poder, discursos e práticas.

No contexto de pesquisa realizada entre índios, Roberto Da Matta (1978) menciona três fases fundamentais de uma pesquisa. A primeira é caracterizada por ainda não haver contato entre o pesquisador e a tribo. É denominada de fase teórica- intelectual, marcada pelo abstrato conhecimento teórico, universal e mediado, ou seja, não é vivenciado pelo pesquisador, mas por terceiros. A segunda fase, por sua vez, denomina-se de período prático que é o momento que antecede a pesquisa. É marcado por preocupações banais, mas não menos importantes, que provoca a necessidade de planejamento. Por fim, a terceira fase, é a pessoal ou existencial, que deve sintetizar a biografia com a teoria e a prática do mundo com a do ofício. Nessa fase, o pesquisador passa a realmente trabalhar com pessoas, a aproximar-se do objeto e a se adaptar às suas peculiaridades e surpresas que se apresentam, além do choque existente entre a sua cultura e outra.

Articulando tal entendimento com a nossa realidade de pesquisa, podemos afirmar que, embora as fases não se sucedam da forma que o teórico apresenta, a aproximação com o objeto em suas múltiplas facetas, possibilita surpresas que, longe de atuarem como impasses, podem ser convertidos em dados de pesquisa, desde que a incorporação desse elemento inesperado não comprometa a tentativa de apreensão da realidade, mas que amplie nossa forma de observá-la.