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As entrevistas foram feitas com o objetivo de aprofundar alguns resultados do inquérito aplicado aos carpinteiros/marceneiros, tendo, para isso, as perguntas sido formuladas de forma dirigida, para obtenção de respostas concretas. Tendo a análise destas sido feita com recurso à análise de conteúdo, a primeira etapa foi fazer a definição das questões a serem colocadas aos empresários, em temas específicos, como se segue:

1. Sobre a experiência de cooperação empresarial: (1) Iniciou e mantém uma experiência de cooperação empresarial. Porquê? (2) Já teve uma experiência empresarial mas desistiu. Porquê? (3) Nunca teve. Porquê?

2. Sobre a propensão para a cooperação empresarial: Quais serão as razões da pouca propensão dos empresários cabo-verdianos para a cooperação empresarial?

3. Sobre as diferenças entre os empresários de S. Vicente e os de Santiago: (1) Os de S. Vicente são mais unidos. (2) Os de Santiago são mais unidos.

Estas questões deram lugar, por sua vez, à definição do quadro categorial o qual, como referido atrás, pode ser definido a priori e tendo em conta os objetivos a serem alcançados, com as seguintes categorias e subcategorias:

Tabela 18 – Quadro categorial para análise de conteúdo das entrevistas. Objetivo da pesquisa Categorias Subcategorias Análise do impacto da cultura na formação de alianças empresariais 1 - Experiência de cooperação empresarial entre os empresários cabo-verdianos. 2 – Propensão dos empresários cabo- verdianos para a cooperação empresarial 3 – Diferenças entre os empresários de Santiago e S. Vicente.

1.1 Porque tem atualmente uma cooperação empresarial?

1.2 Porque desistiu de uma experiência de cooperação empresarial?

1.3 Porque nunca teve uma experiência de cooperação empresarial?

2.1 Quais acha que são as razões para a pouca propensão dos cabo-verdianos para a cooperação empresarial?

3.1 Os empresários de Santiago são mais unidos

3.2 Os empresários de S. Vicente são mais unidos

Fonte: A Aluna

Aplicadas as entrevistas e feita a sua transcrição, foi seguidamente feita a organização do material, isto, é, através de uma leitura cuidada, foram eliminados os conteúdos não relevantes para o presente trabalho, como os relacionados com a vida familiar, a experiência de vida do empresário, as apreciações do empresário sobre a política, entre outros. Refere-se,

contudo, que, antes de se fazer esta eliminação, as respostas consideradas não relevantes foram classificadas como “outras”, tendo sido eliminadas apenas no fim do trabalho de análise.

Definido o corpus, seguiu-se o trabalho de escolha de unidade de registo, tendo a opção, dentre algumas alternativas, recaído sobre a frase como unidade de registo. Seguidamente, foi confirmado o quadro categorial e feitas a codificação e a categorização de todos os elementos do corpus.

São a seguir apresentadas as respostas às questões formuladas. Categoria 1: Experiência de cooperação empresarial

Tabela 19 – Razões por que mantém uma experiência de cooperação empresarial. Subcategoria 1.1: Porque mantém uma experiência de cooperação empresarial? Carpinteiro/marceneiro “Somos quatro, arrendamos um espaço para a montagem dos

móveis. Sai mais barato e apoiamo-nos uns aos outros”.

Carpinteiro/marceneiro “Um colega meu tinha máquinas e eu tinha um espaço adequado, juntamo-nos e assim poupamos dinheiro e funciona bem”.

Carpinteiro/marceneiro “Eu e mais 12 colegas trabalhamos numa oficina montada por um empresário, contra o pagamento da renda e aluguer das máquinas. Cada um paga a sua conta ao dono da oficina no fim do mês. É uma boa ideia porque assim utilizamos espaço e máquinas pois nenhum de nós tem fundo para montar a sua própria oficina”.

Carpinteiro/marceneiro “Tenho um colega e juntámo-nos quando precisamos comprar uma grande quantidade pois sai mais barato na compra e no transporte que neste caso é feito pelo fornecedor”.

Carpinteiro/marceneiro “Tenho feito cooperação pontual com uma empresa de construção metálica, quando eles têm encomendas que requerem trabalhos de carpintaria e tem funcionado bem”.

Tabela 20 – Razões por que desistiu da experiência de cooperação empresarial Subcategoria 1.2: Porque desistiu da sua experiência de cooperação empresarial? Carpinteiro/marceneiro “Relação com o sócio não funcionou bem pois eu trabalhava mais

do que ele e no fim ele queria dividir o dinheiro ao meio”.

Carpinteiro/marceneiro “Tive uma experiência de parceria com um familiar, não deu certo pois ficou com o dinheiro, não quero mais”.

Carpinteiro/marceneiro “Tenho um irmão que é carpinteiro, tentámos unir-nos para trabalhar juntos mas não deu certo”.

Carpinteiro/marceneiro “ Falta de honestidade do meu sócio, a quem tratava como um irmão”.

Carpinteiro/marceneiro “Não correu bem, dividimos a empresa e separámo-nos”.

Carpinteiro/marceneiro “O meu sócio tomava dinheiro adiantado nos clientes, não fazia o trabalho e eu é que ficava com o prejuízo”.

Carpinteiro/marceneiro “Comprava em conjunto com um colega para ter mais desconto mas ele não entregava o material como devia ser”.

Tabela 21 – Razões por que nunca teve uma experiência de cooperação empresarial Subcategoria 1.3: Porque nunca teve uma experiência de cooperação empresarial? Carpinteiro/marceneiro “ As pessoas são pouco fiéis, pouco dignas, pouco sérias”. Carpinteiro/marceneiro “ Prefiro trabalhar sozinho”.

Carpinteiro/marceneiro “ Não gosto e não quero compromissos”.

Carpinteiro/marceneiro “ Não seria uma boa ideia pois os cabo-verdianos são complicados”. Carpinteiro/marceneiro “ As condições não ajudam à união para se fazer alguma coisa”. Carpinteiro/marceneiro “ Unir hoje é difícil pois cada um tem as suas condições”. Carpinteiro/marceneiro “ Coisas unidas dificilmente terminam bem”.

Carpinteiro/marceneiro “Mais vale cada um tratar dos seus assuntos”

Fonte: A Aluna

Categoria 2: Propensão dos cabo-verdianos para cooperação empresarial

Tabela 22 – Razões para a pouca propensão dos carpinteiros/marceneiros para a cooperação empresarial.

Subcategoria Única: Quais serão as razões para a pouca propensão dos carpinteiros/marceneiros cabo-verdianos para a cooperação empresarial?

Carpinteiro/marceneiro “ O meu pai dizia que a união faz a força mas a cultura não ajuda”.

Carpinteiro/marceneiro “ As experiências têm mostrado que as parcerias sempre falham”. Carpinteiro/marceneiro “ A cultura do santiaguense não é favorável”.

Carpinteiro/marceneiro “ Os cabo-verdianos não se unem muito no negócio”. Carpinteiro/marceneiro “ As pessoas não são nada confiáveis”.

Carpinteiro/marceneiro “ Mais vale pouco trabalho com segurança do que muito trabalho sem segurança”.

Carpinteiro/marceneiro “ Cabo-verdiano não serve para unir-se”.

“ Não há hábito de as pessoas juntarem-se pois têm sempre mau comportamento”.

Carpinteiro/marceneiro “ Estão sempre a discutir”.

Carpinteiro/marceneiro “ Mesmo em coisas simples não se juntam pior ainda para serem sócios”.

Carpinteiro/marceneiro “ Cada um quer subir mais do que o outro”.

Carpinteiro/marceneiro “ As pessoas não querem tirar o seu dinheiro, não confiam ou não querem que se saiba que têm dinheiro”.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas dizem logo: mais vale só que mal acompanhado”. Carpinteiro/marceneiro “ Os carpinteiros são uma raça que não se une”.

Carpinteiro/marceneiro “Passividade, conformismo, talvez devido à falta de formação empresarial, falta de escolaridade, idade muito madura”.

Carpinteiro/marceneiro “ Medo de entrar com recursos e de o outro ficar com eles”. Carpinteiro/marceneiro “ As pessoas têm uma visão de hoje, não de amanhã”.

Carpinteiro/marceneiro “ Há pessoas que acham que sabem mais do que os outros, que não precisam dos outros”.

Carpinteiro/marceneiro “ Estão bem uns com os outros mas no negócio, cada um quer ficar à parte”.

Carpinteiro/marceneiro “ Falta de um conhecimento aprofundado das pessoas pois não se encontram, não se falam, não se conhecem”.

Carpinteiro/marceneiro Não se juntam pois são todos desconfiados”.

Uma síntese das razões apontadas pelos entrevistados produziu a seguinte contagem:

Tabela 23 – Frequência das razões para a pouca propensão dos carpinteiros/marceneiros para a cooperação empresarial.

Razões para a pouca propensão dos carpinteiros/marceneiros para a cooperação empresarial.

Falta de confiança 17

Individualismo 10

Falta de espírito de união, de colaboração 7

Egoísmo 5

Falta de organização 4

Falta de informação 3

Medo (de dívidas, da falta de qualidade do trabalho, do não cumprimento de prazos, do comportamento oportunístico).

3

Cultura do cabo-verdiano (acomodação, conformismo). 3

Mentalidade fraca 2

Falta de formação 2

Falta de visão 1

Idade madura 1

Falta de conhecimento das pessoas 1

Falta de fé 1

Falta de ambição 1

Concorrência entre uns e outros 1

Inveja do dinamismo dos outros 1

Orgulho 1

Falta de espírito de iniciativa 1

A falta de confiança foi a razão mais invocada pelos carpinteiros para a pouca cooperação existente entre os mesmos, seguida das razões individualismo, falta de espírito de união, egoísmo, falta de organização e de informação, medo e caraterísticas culturais dos cabo- verdianos.

Categoria 3: Diferenças entre os carpinteiros/marceneiros das ilhas de Santiago e de S. Vicente.

Tabela 24 – Carpinteiros de Santiago são mais unidos.

Subcategoria 3.1: Os carpinteiros/marceneiros de Santiago são mais unidos. Carpinteiro/marceneiro “Acho que as pessoas de Santiago são mais associativas, têm mais

espírito de união, pelo que se vê na televisão. Há espírito de equipa e as associações funcionam. Em S. Vicente, a colaboração é difícil”.

Fonte: A Aluna

Tabela 25 – Carpinteiros de S. Vicente são mais unidos.

Subcategoria 3.2: Os carpinteiros/marceneiros de S. Vicente são mais unidos.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas de S. Vicente são mais abertas, mais prontas a cooperar. As pessoas de Santiago são mais individualistas, mais ignorantes”.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas de S. Vicente têm mais união entre si. São mais organizadas, mais sérias. Não reclamam tanto como os badios (santiaguenses)”. Carpinteiro/marceneiro “São mais unidos uns com os outros. Trabalham melhor, com mais qualidade e também com preços mais altos. Respeitam-se uns aos outros”.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas de S. Vicente são mais unidas. São mais legais, mais simples, mais amigas umas das outras. As pessoas de Santiago acham-se mais inteligentes”.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas de S. Vicente têm uma melhor maneira de ser e de conviver uns com os outros”.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas de S. Vicente são mais abertas do que as de Santiago e as da Praia são mais abertas do que as de Assomada”.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas são mais unidas em S. Vicente. Por exemplo, a ADECO organiza uma manifestação vai muita gente mas na Praia vão muito poucas pessoas”.

Carpinteiro/marceneiro “ Os badios não gostam de se unir. Mesmo quando querem manifestar-se ficam à espera que outras pessoas deem a cara. Falam quando estão num pequeno grupo mas quando é preciso dar a cara, falar com uma entidade, ir à televisão, fogem. Ficam à espera que os outros lutem e obtenham benefícios para então participarem e dividir os benefícios. Em S. Vicente é diferente, as pessoas juntam-se”.

Carpinteiro/marceneiro “Nas ilhas de barlavento, a situação é melhor um bocadinho”.

Carpinteiro/marceneiro “Há uma diferença de céu para a terra entre as pessoas de S. Vicente e de Santiago. As pessoas de S. Vicente são mais confiáveis, associam-se mais facilmente.

Carpinteiro/marceneiro “As pessoas de S. Vicente são mais unidas. Os badios têm muito ódio. As pessoas do interior são mais humildes, ajudam-se mais uns aos outros”. Carpinteiro/marceneiro “Já estive em S. Vicente duas vezes e acho que as pessoas são mais

unidas, interessam-se mais pelo seu trabalho”.

Carpinteiro/marceneiro “São totalmente diferentes. São mais respeitadores, os badios são mais rudes”.

Carpinteiro/marceneiro “ São mais unidas talvez porque S. Vicente é uma ilha mais pequena”.

Dos 18 carpinteiros/marceneiros, 40%, que declararam, durante o inquérito, que acham que há diferenças entre os empresários de S. Vicente e de Santiago, 17, ou seja, 38% do total dos 45 carpinteiros, declararam, de forma bastante enfática nalguns casos, que as pessoas de S. Vicente são mais unidas do que as de Santiago e apenas 1 carpinteiro, 2% do total, de S. Vicente, acha que os carpinteiros de Santiago são mais unidos. Dos 17 carpinteiros de Santiago acima referidos, 11 são da Praia e 6 do Interior de Santiago.

Figura 25 – Gráfico com tipo de diferenças entre os carpinteiros/marceneiros