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Fotos 76, 77 e 78 - Estantes e caixas de livros distribuídas pela casa da profª Ana Cláudia

Para conhecer a trajetória da professora Ana Cláudia, surgiu a necessidade de fazer uma aproximação com o seu imaginário e os seus saberes. Através da sua história de vida, procurou-se conhecer como são instituídos os saberes constituídos da profissão docente e, principalmente, como se dá sua aproximação com a leitura. Ao ser questionada sobre quem é Ana Cláudia, ela relatou o seguinte:

Ana Cláudia é uma pessoa dedicada no trabalho, no que faz. Eu sempre digo aos meus alunos que tudo que a gente for fazer, deve fazer bem feito, nunca pode pensar no amanhã ou depois. Às vezes, eles fazem isso também. Sou timbirense, passei 30 e poucos anos em Timbiras. Agora resolvi vir para Codó e aqui estou. Adoro fazer o meu trabalho, faço com muita dedicação120.

Durante a conversa com a professora, ela informou que o leitor Helis também havia sido seu aluno, em uma escola particular de Codó, a Pequeno Polegar. Por isso, pode-se afirmar que dos seis leitores selecionados, cinco foram seus alunos, tendo sido esse, como já mencionado, a importância de conhecer o trabalho realizado por Ana Cláudia como mediadora da leitura. Outra informação valiosa foi a de que durante o ano de 2009 a professora havia sido diretora do Farol de Timbiras, onde desenvolvia atividades de contação de histórias e emprestava livros para a comunidade.

Ana Cláudia mudou-se para Codó em 2010, quando passou no concurso público para a escola Governador Archer. Nascida em Timbiras, cidade próxima a Codó (cerca de 25 km), ela se dedica ao magistério desde 1989, e afirmou que sempre quis ser professora. Estudou em escolas públicas do município de Timbiras: o Ensino Fundamental foi na escola Médici e o Ensino Médio e o Magistério foram cursados na escola Alberto Abdala. Ana Cláudia fez o curso de Contabilidade em São Luís e, assim que terminou, voltou para Timbiras para fazer o adicional; nunca mais largou o magistério. Sempre quis cursar Pedagogia e declarou que ainda fará isso. O curso que fez pelo PROCAD da UEMA foi o de Letras, no município de Codó.

A gente fez educação geral e, depois, os estudos adicionais para o Magistério, pois eu sempre quis ser professora. Quando eu estava no Ensino Médio, quando fui fazer estágio, já fiquei logo, os meus professores pediam para eu acompanhá-los na sala de aula. Depois daí, eu já continuei. Na verdade, lá em Timbiras, na época, a profissão que mais aparecia era a de professor, pois Timbiras é uma cidade pequena que não tem muitas indústrias. Mas eu também fui para São Luís, fiz Contabilidade, mas depois voltei, porque eu queria continuar professora na cidade para ajudar as pessoas da minha cidade, aí eu não quis ficar em São Luís, e voltei. Fiz o Ensino Médio em Timbiras, aí

fui para São Luís fazer Contabilidade na Mirante Itacaré, voltei para Timbiras, fiz o adicional e comecei a ser professora121.

O gosto por Letras e pelo Português a acompanha desde pequena. Durante seu período estudantil, sempre se destacou. Em sua casa, havia livros, que ganhava de pessoas conhecidas. Ao tratarem sobre a leitura, Evangelista (1993) e Araújo (1999) especificam o papel da família e a forma como a leitura é vista e utilizada dentro dessa instituição. Perguntada sobre a importância dos seus pais no incentivo à leitura, Ana Cláudia respondeu:

Meus pais preferem ouvir, a gente lia para eles. Eles gostam. Papai é pedreiro, e pedreiro, você sabe, quando aprende a profissão está tudo bem, ele sabe fazer casas perfeitas. E mamãe foi cozinheira de um hospital por muito tempo, agora está aposentada. Eu tive dez irmãos, dois faleceram, três estão em Timbiras, dois em Coroatá e três em São Luís. Tenho uma irmã que gosta de ler mais do que eu, acredita? Só que a leitura dela é voltada para a área da saúde, porque é enfermeira. Tem uma que também trabalha no hospital e tem um salão. E a outra, que não gostava muito de estudar, trabalha com os serviços gerais e fica reclamando que não teve muita sorte, mas não gostava de estudar. Os irmãos também não gostavam muito de estudar; agora, depois que casaram... um é torneiro mecânico da Vale e outro também trabalha na Vale, mas com serviços mais pesados, porque que não gostavam muito de estudar122.

Verifica-se que em determinados casos a família percebe que a “leitura” é importante para os filhos, pois possibilita melhores condições de vida, ou seja, com “estudo” a situação socioeconômica de seus filhos será melhor que a deles (EVANGELISTA, 1993). No relato acima, assim como no que escreveu a professora Aracy Evangelista, percebe-se que nas famílias brasileiras das camadas populares, leitura é sinônimo de “estudo”, instrução, nível de aprendizado, e, portanto, quanto mais leitura a pessoa fizer, melhor será sua condição social.

Segundo Araújo (1999), o ambiente socioeconômico não é fator determinante para o gosto pela leitura, mas sim a convivência com os materiais e o estímulo dos pais, seja através do jornal que lê para encontrar emprego, ou do caderno de receitas da mãe contribuem e incentivam à leitura de alguma forma. De fato, todos os incentivos são válidos para a construção do gosto pela leitura. No caso da professora Ana Cláudia, o incentivo à leitura veio, explicitamente, através de professores, durante sua vida escolar e universitária. Vale ressaltar, mais uma vez, a importância que o docente vem adquirindo no incentivo à leitura,

121 CARVALHO, Ana Cláudia Ferreira. Entrevista citada. 122 CARVALHO, Ana Cláudia Ferreira. Entrevista citada.

uma vez que ele foi indicado pela Pesquisa Retratos do Brasil, pela primeira vez, como o maior responsável nesse processo.

Acho que descobri o gosto pela leitura com a professora Iratê. Eu sempre gostei muito de ler, na minha casa sempre teve muitos livros. Foi na quarta série que encontrei essa professora; foi muito bom nessa época. Eu sempre tive a ideia de trabalhar com a leitura, mas na Graduação eu tive uma professora muito boa que incentivava muito, a professora Lobão. E também a professora de Didática veio com muito gosto pela leitura, e eu comecei a pensar que a gente podia pegar as crianças e levar a leitura para elas123.

Considerando que a maioria dos pais no estado do Maranhão, não se constitui de leitores, não foram incentivados na idade escolar, e que, em muitos casos, a leitura literária não se faz presente no ambiente familiar dada às condições socioeconômicas a que a população é submetida pela classe dominante, torna-se essencial a parceria da escola com a família. Nesse cenário, a escola e a biblioteca têm um papel reforçado, no sentido de não perpetuar a reprodução social de ausência de rotinas cognitivas e sociais associadas à leitura. Diante disso, entende-se a importância do mediador, que pode ser tanto o bibliotecário como o professor, uma vez que interesse também se cria, se suscita e se educa, e que em diversas ocasiões ele depende do entusiasmo e da apresentação que o professor faz de uma determinada leitura e das possibilidades que seja capaz de explorar (SOLÉ, 1998). Com base nessa afirmativa, compreende-se que “um professor precisa gostar de ler, precisa ler muito, precisa envolver-se com o que lê” (LAJOLO, 2006, p. 108), pois, só assim, fará com que seus alunos se tornem leitores.

Ao mencionar suas preferências de leitura, Ana Cláudia disse gostar de tudo, com exceção de piadas, mas salientou que adora ler livros de autoajuda, em especial os de Augusto Cury. O critério que utiliza para escolher um livro é o título. Ela afirmou que algumas professoras que teve foram fundamentais no incentivo à leitura. E que a pretensão com o seu trabalho na escola Governador Archer é fazer o aluno ter contato com o livro. A professora acredita que o livro é mais importante do que a internet e tenta mostrar a importância da leitura para os alunos, pois “a leitura norteia todo o trabalho, ninguém consegue viver sem leitura, e os alunos precisam descobrir o prazer pela leitura”124.

123 CARVALHO, Ana Cláudia Ferreira. Entrevista citada. 124 CARVALHO, Ana Cláudia Ferreira. Entrevista citada.

Ana Claúdia trabalha com as tipologias textuais no 8º e 9º anos na escola Governador Archer. O trabalho desenvolvido no 9º ano tem como produto final a criação de um livro que apresenta o seguinte sumário:

Quem sou eu? (autobiografia) Minha vida escolar

Autoavaliação estudantil Minha expectativa de vida O que é leitura?

Contribuições da leitura Qual a importância da leitura? Concepções de leitura

Fatores que atrapalham a leitura A formação de um bom leitor Quantos livros já li?

Outros livros

A escolha certa da profissão

(Caderno da aluna Ana Vitória Rodrigues Ferreira, 2012)

A professora possui cinco horários de Português por semana nas cinco turmas com as quais trabalha, sendo que divide os tempos da seguinte maneira: dois horários para gramática, um para fonologia, um para produção de texto e o outro para a literatura. Ela ressaltou que os alunos precisam ter quatro cadernos na sua disciplina, sendo um para cada área trabalhada. Disse ainda que, no início, alguns pais reclamam da quantidade de cadernos, mas depois “até gostam”, e que os alunos que gostam de estudar a adoram, enquanto que os preguiçosos não gostam dela. A professora afirmou que percebe uma crítica de alguns professores em relação ao seu trabalho, quando perguntam “se acha que alguém vai reconhecer o trabalho que está fazendo”. Diante disso, falou que não espera retorno de ninguém pelo tanto que trabalha, mas que se sente motivada e reconhecida quando seus alunos e ex-alunos a procuram para pedir orientação.

Percebo a repercussão do meu trabalho nos alunos; às vezes, a própria escola... teve uma pessoa que dizia assim “você acha que vai ser vista por causa disso?”; eu disse que não, pois não estou procurando isso, não. Outros reconhecem; os meus alunos do Pró-Letramento, por exemplo, reconhecem, eles se espelham em mim. Eles vêm na minha casa. Hoje mesmo, eles ficaram aqui um tempão. Eles pedem a minha ajuda. Tem alunos que já são professores e que me procuram o tempo inteiro; até para fazer planejamento eles vêm. Eu gosto! A minha satisfação é nesse momento125.

O trabalho de literatura que Ana Cláudia realiza em sala de aula está pautado na apresentação das tipologias textuais no primeiro momento, e, depois, fazem a leitura de livros no Farol. Por fim, apresentam produções relacionadas ao gênero trabalhado. Normalmente, ela trabalha com a poesia, os contos, as fábulas, os provérbios, até chegar aos clássicos. Assim, por exemplo, quando trabalhou com a poesia, fez uma introdução teórica em sala, com apoio do livro didático, e depois cada aluno escolheu um livro de poesia, no Farol, para ler. Vale lembrar que cada aluno foi para o Farol com uma folha de papel em branco, pois deveriam escolher o poema que mais gostaram, para em outro momento recitarem na sala de aula.