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2. THEORETICAL REVIEW

2.1 C HANGE MANAGEMENT

O mote da filosofia transcendental é, portanto, essa ignorância constitutiva que limita o nosso acesso direto ao reino numênico, ou melhor, que limita nosso acesso direto às causas que nos constituem. Esse traço da filosofia transcendental é tão determinante na filosofia contemporânea que somos, pois, tentados a dispor sob uma mesma rubrica autores tão díspares como, por exemplo, Heidegger e Habermas. Não é exatamente isso que está em jogo na ressalva habermasiana em relação aos avanços da biogenética? Não é em nome de uma ignorância abençoada que ele advoga para manter vivos os ideais iluministas de liberdade e emancipação desde Kant? Ora, aqui percebemos com nitidez a proximidade de Habermas com relação à matriz transcendental kantiana, em que – dito novamente – a condição de possibilidade implica sempre uma condição de impossibilidade constitutiva, ou – para empregar, nesse contexto, os termos apropriados – para que sejamos livres, efetivamente, devemos restringir o alcance ilimitado da ciência, que chega a tocar, hoje, no princípio de

causalidade da própria natureza humana. Já Heidegger segue o caminho oposto ao de Habermas, mas, no final das contas, tropeça no mesmo impasse. Vejamos como.

Voltemos nossa atenção agora à Questão da técnica, de Heidegger. Quando Heidegger (1954/2006) se pronuncia a respeito da técnica, ele se propõe a falar não a partir da relação estabelecida entre os entes, mas fundamentalmente do lugar que ela ocupa em relação ao Ser. Para Heidegger (1954/2006), a técnica não consiste somente num conjunto de práticas cegas ou numa soma de procedimentos mecânicos à disposição do homem, cuja finalidade resume- se na irrestrita dominação e apropriação da natureza. Mais que isso, o que está em jogo, e de forma muito mais profunda, é a própria essência da técnica que se manifesta não simplesmente na dimensão da práxis mundana, mas essencialmente na abertura epocal do Ser – dimensão em cujo horizonte repousa nossa compreensão propriamente moderna da realidade. Como diz Zizek (2014a):

De forma mais radical, técnica não designa uma rede complexa de máquinas e atividades, mas a atitude em relação à realidade que assumimos quando engajados em tal atividade: técnica é o modo como a realidade é revelada para nós nos tempos modernos, quando a realidade se torna uma reserva permanente (ZIZEK, 2014a, p. 94).

Desse modo, Heidegger visa confrontar o a priori da técnica enquanto modo específico do Ser da modernidade. É-se tentado, nesse caso, a julgar Heidegger como sendo mais filósofo que Habermas: Habermas pensa a dimensão puramente ôntica da técnica, como mecanismos de dominação e apropriação da natureza (e procura, assim, resolver o problema aplicando um conjunto de regulamentos normativos que impedem seu uso inconsequente); Heidegger, por sua vez, enxerga a técnica como o acontecimento próprio da nossa era, ou seja, a essência da técnica deve ser refletida não na esfera ôntica, domínio dos entes, mas na sua dimensão propriamente ontológica. Consequentemente, no caso de Heidegger, a mudança decisiva deve ocorrer no nível transcendental, mediante uma abertura ontológica, apelando para uma reflexão da própria técnica como presentificação do Ser na modernidade.

Por isso, Heidegger (1954/2006) não recua diante do perigo aberto pela essência da técnica, pelo contrário, é somente através da compreensão do horizonte de sentido que ela encerra que – para usar uma linguagem propriamente heideggeriana – podemos des-encobrir uma experiência mais originária e mais autêntica. A ameaça que pesa sobre os homens, portanto, não vem “das máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser eventualmente mortífera” (HEIDEGGER, 1954/2006, p. 30), mas do fechamento radical e definitivo da

abertura que determina a essência do homem. Ou seja, a verdadeira ameaça é o esquecimento definitivo do ser cuja dimensão, na modernidade, é apropriada pela insígnia da técnica. E à medida que o modo de ser da técnica pode negar ao homem “voltar-se para um desencobrimento mais originário e fazer assim a experiência de uma verdade mais inaugural” (HEIDEGGER, 1954/2006, p. 30), é, todavia, somente lá, onde mora o perigo, que cresce também o que salva. Ou seja, “onde algo cresce, é lá que ele deita raízes, é de lá que ele medra e prospera. Ambas as coisas se dão escondidas, em silêncio e no seu tempo.” (HEIDEGGER, 1954/2006, p.31). Dessa maneira, longe de suspender o potencial implícito da técnica, Heidegger (1954/2006, p. 31) sugere “olhar, com um olho mais vivo ainda, o perigo”, pois somente a compreensão da técnica enquanto abertura epocal de nosso tempo, pode conduzir também “o homem a perceber e a entrar na mais alta dignidade de sua essência”. Portanto, não se trata, como em Habermas, de escolher entre duas entradas opostas: manipulação técnica versus dignidade humana; para Heidegger, há uma só entrada – mas com duas saídas possíveis. Por um lado, o pensamento da técnica é o “perigo extremo porque justamente ela ameaça trancar o homem na dis-posição, como pretensamente o único modo de descobrimento”, e nessa conjuntura, segundo Heidegger (1954/2006, p. 34), “trancado, [a técnica] tenta levá-lo [o homem] para o perigo de abandonar sua essência de homem livre”. No entanto, simultaneamente, é “neste perigo extremo [que] vem a lume sua pertença mais íntima (...) a pertença indestrutível ao que se lhe conceda e outorga” (HEIDEGGER, 1954/2006, p. 34). A exortação heideggeriana consiste, por conseguinte, em começar a pensar, “com cuidado, a essência da técnica” (HEIDEGGER, 1954/2006, p.34), pois – cabe repetir – “a vigência da técnica guarda em si o que menos esperamos, uma possível emergência do que salva.” (HEIDEGGER, 1954/2006, p.35). Em uma palavra: para superar o perigo, é preciso levá-lo ao extremo. Não é isso que quer dizer a enigmática expressão heideggeriana de que para chegar à verdade ontológica é preciso errar onticamente? Ou seja, é somente quando se vai às vias de fato, fracassa-se, cega-se onticamente, que uma verdade ontológica, mais profunda, é revelada.

Entretanto, tomemos novamente o trecho do poema de Hölderlin, tomada de empréstimo por Heidegger, Wo aber Gefahr ist, wächst das Rettende auch (“Ora, onde mora o perigo, é lá que também cresce o que salva”). Não seria, portanto, correto afirmar que tal expressão se encaixa perfeitamente na tese que estamos defendendo aqui, sobre Zizek, cujo objetivo principal consiste em sustentar uma concepção de liberdade não reativa, isto é, uma

noção de liberdade que não recue diante do perigo exposto pela tecnologia? Sim e não. Em parte, sim, porque a frase expressa com perfeição o enfrentamento, e não o recuo, do problema em sua raiz. Em contrapartida, somos inclinados a dizer que Zizek não interpreta o poema de Hölderlin da mesma maneira que Heidegger. Mas é preciso, antes de qualquer coisa, não perder de vista o essencial na leitura de Heidegger: o perigo inscrito na tecnologia moderna, segundo o filósofo alemão, não consiste propriamente na destruição física da humanidade, como se algo pudesse dar errado no processo de tecnificação da vida humana; o verdadeiro perigo consiste na possibilidade de que nada dê errado e que no fundo tudo funcione muito bem (ZIZEK, 2008a, p. 262). Dessa forma, o círculo ôntico-ontológico estaria completamente fechado e, por conseguinte, o des-encobrimento que concede ao homem a mais alta dignidade do seu ser seria irreversivelmente anulado18. Em outros termos, a ênfase do perigo heideggeriano reside justamente no fechamento total da diferença ontológica, isto é, no momento em que o ôntico engole completamente o ser, e o homem torna-se, por assim dizer, um mero objeto da ciência (ZIZEK, 2008a, p. 262). Porém, a pergunta crucial que Zizek endereça a Heidegger nesse caso é: e se por ventura nada der errado? Ou seja, e se esse terror do impossível que a técnica exprime e assola sem trégua a mais alta dignidade da essência humana de fato se consumar e, nessa ocasião, reduzir a exuberante esfera ontológica à vilipendiosa esfera ôntica? “O que tememos é que o que não pode acontecer (já que a dimensão ontológica é irredutível à ôntica) aconteça mesmo assim...” (ZIZEK, 2008a, p. 262).