Por intermédio dos quadros que demonstram os indivíduos que compunham os diretórios do Partido Republicano de Franca – pode-se perceber que no ano de 1901 o diretório do Partido Republicano de Franca se apresenta com duas composições – uma em 15/03/1901 e outra em 28/09/1901 - completamente distintas uma da outra. O que teria ocorrido para que tal divisão se concretizasse no interior do Partido Republicano de Franca? Diante disso, essas formações distintas podem refletir as conseqüências da cisão no interior do PRP, que deu origem ao Partido Republicano Dissidente de São Paulo.
Em termos que vislumbram a política propriamente dita do PRP, a cisão acontece quando Campos Sales na presidência da República impõe o nome de Bernardino de Campos para presidente do Estado de São Paulo, em detrimento de Cerqueira César, que por sua vez tinha o apoio de Prudente de Moraes, produzindo assim a dissidência dos partidários de Prudente de Moraes e Cerqueira César. Esse ato de Campos Sales representava para “[...] os dissidentes de 1901, a intromissão federal nos negócios políticos do Estado (que) foi interpretada como rompimento do compromisso de respeito à autonomia estabelecido com o regime republicano.”327
Casalecchi caracteriza o aspecto político da dissidência de 1901:
A cisão é o choque entre dois grupos de políticos dentro do Partido (PRP). Um agrupamento em torno de Campos Salles – chamado grupo da “oligarquia”, que apoiava o governo paulista e federal, conivente com a “política dos governadores”. Outro, em torno de prudente de Moraes – “os dissidentes”; “os empurrados” que
326 CASALECCHI, J.E. O Partido Republicano paulista: política e poder (1889 – 1926). São Paulo:
Brasiliense, 1987. p. 184.
327 LEVI-MOREIRA, S. Liberalismo e democracia na dissidência republicana paulista: estudo sobre o
Partido Republicano dissidente de São Paulo1901-1906. 1991. 196 f. Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991. p. 34.
acabaram por lançar o Partido Republicano Paulista Dissidente. Estavam contra a “política dos governadores”, propunham uma revisão constitucional no âmbito federal e no estadual, uma republica parlamentar como forma de atacar a ação política de Campos Salles, calcada no presidencialismo, além da moralização dos costumes políticos. 328
No entanto, para Love a crise política instalada no PRP refletia além do caráter propriamente político, o “[...] descontentamento de interesses comerciais e industriais associados ao partido”:
Os dissidentes favoreciam a supressão dos impostos de exportação, do imposto de transito e de todas as tarifas interestaduais. Propunham também ampliar o poder de o governo federal regulamentar o comércio, desnacionalização da marinha mercante [...] e a limitação do direito de propriedade por parte de corporações estrangeiras.
Por outro lado, os interesses bancários pareciam estar bem protegidos em 1901, a julgar pela composição da comissão executiva naquele ano. Dentre os cinco indiscutíveis chefes do partido à época – Bernardino de Campos, Rodrigues Aves, Campos Sales, Cerqueira César e Prudente – dois dos três sobreviventes no poder tinham interesses no sistema bancário.329
No município de Franca, a cisão do Partido Republicano Paulista dividiu o grupo que estava arregimentado no interior do Partido Republicano local, explicando, portanto, as duas composições do partido no ano de 1901. O diretório do Partido Republicano de Franca, datado do dia 15/03/1901, tinha sido escolhido em função de eleições internas, com o fim de definir os indivíduos que iriam atuar a frente da agremiação nos próximos anos. A escolha desse diretório ocorreu antes de se processar a cisão do PRP.
Em 07/09/1901, os dissidentes liderados por Prudente de Moraes publicavam no jornal O Estado de São Paulo, o Manifesto do Partido Republicano Dissidente de São Paulo concretizando a cisão. Nas assinaturas do Manifesto, consta o nome do deputado estadual francano, Estevam Marcolino de Figueiredo.
Ora, isso explica o porquê da nova composição do Partido Republicano de Franca do dia 28/09/1901, ou seja, posterior a cisão do PRP a nível estadual. Provavelmente, depois de anunciada a cisão do PRP, os republicanos de Franca alinhados com a Comissão Central, e, portanto com Campos Sales, trataram de se rearticularem em torno do novo diretório do Partido Republicano local eliminando do seu seio os partidários de Estevam Marcolino de Figueiredo que por sua vez apoiava em âmbito estadual Prudente de Morais, ou seja, os
328 CASALECCHI, J.E. O Partido Republicano paulista: política e poder (1889 – 1926). São Paulo:
Brasiliense, 1987. p. 101-102. (destaque do autor).
329 LOVE, J.L. A locomotiva: São Paulo na federação brasileira (1889 – 1937). Tradução de Vera Alice Cardoso
dissidentes. A imprensa francana,330 logo depois de confirmada a cisão do Partido Republicano Paulista, não deixou de se pronunciar:
Esta positivamente feita a scisão do grande partido republicano paulista, sendo lógico portanto acreditar-se que dentro de poucos dias começara a operar-se em todo o estado a reacção natural que acompanha sempre os acontecimentos dessa ordem.
[...]
Não há como negar que essa dissidência encontrará dentro e fora do Estado valioso auxilio, franco e dedicado apoio de todos que, batidos pelas desilusões, assaltados pelas funestas conseqüências da fatídica política das olygarchias tem creado o momento oportuno [...] para se manifestarem abertamente contra este estado de coisas que, fundamente tem amordaçado as mais legitimas aspirações, as mais puras intenções que tolham na alma soffredora do povo, no peito opprimido dos brasileiros ante acima do venal interesse pessoal, collocam a estabilidade da República, a grandeza da Pátria.331
Cousas políticas. Prudente e Mesquita ariram-se em cisão, publicando manifesto e, muita gente foi-se, política francana mudada. É possível coronel Martins e amigos vossos montarem Maquina local.332
As conseqüências da cisão do PRP são sentidas de uma forma intensa no município de Franca. O grupo de políticos que apoiava Estevam Marcolino de Figueiredo procurou se reorganizar, fazendo de Franca uma das 80 localidades que constituiu diretório “oficial” do Partido Republicano Dissidente de São Paulo. O diretório do Partido Dissidente de Franca, como consta no quadro seguinte, abrigou em sua maioria os políticos que haviam composto as fileiras do Partido Republicano de Franca do dia 15/03/1901.
Tabela 14 - Composição do Diretório do Partido Republicano Dissidente de Franca333 Joaquim Antonio Garcia de Macedo
Ricarte José Narciso Felício Ferreira Gomes Urias Antonio do Nascimento Joaquim Antonio de Lima
Fonte: Jornal Tribuna da Franca, 14/12/1901, p. 03.
330 O Partido Republicano Dissidente de São Paulo contará como seu porta-voz político, a partir de fevereiro de 1902,
com o jornal O Tempo. Em Franca os dissidentes terão na páginas da Tribuna da Franca um espaço no qual poderão se manifestar. É por intermédio dos artigos publicados nesse jornal que poderemos vislumbrar o posicionamento crítico dos dissidentes locais em relação à República debatendo temas que na maioria das vezes estarão sendo discutidos também nas paginas d’ O Tempo.
331Tribuna da Franca, 14 set. 1901, p. 1.
332 apud MELO, E.R.M. O coronelismo francano: a consolidação da hegemonia (1880 – 1914). 1995. 127 f.
Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 1995. p. 71.
333 Em setembro de 1904 o Partido Republicano Dissidente de Franca elegia novo diretório composto dos respectivos
cidadãos: Coronel Antonio Jacintho da Silva, Dr. Joaquim Carrão, Coronel Chrysogono de Castro, Coronel Ricarte Narcizo, Major Emilio Galvão de Miranda, Capitão Joaquim Alves Leite, José Bernardes de Andrade e Antonio Borges de Gouvêa. Tribuna da Franca, 22 jun. 1904, p. 1.