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Hamburgturen

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4. Lesing

4.5 Potensielle terskelkronotopar

4.5.3 Hamburgturen

Em 1952, o Instituto Superior Técnico ocupou um lugar privilegiado nas atenções da Comunidade Internacional, atendendo que as suas instalações acolheram uma reunião internacional ao mais alto nível da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Nesse contexto, entre 20 e 25 de Fevereiro desse ano, teve lugar a

254 Testemunho de Manuel Alves Marques, Lisboa, 23/03/2007. 255 António Ventura, Op. Cit., p. 205.

Nona Sessão do Conselho daquela organização internacional,256 presidida pelo Secretário de Estado para as Relações Externas do Canadá, Lester B. Pearson, e em que estiveram presentes os líderes das diplomacias dos catorze países então integrantes da OTAN, entre os quais se contava Portugal.

Não obstante terem tido lugar encontros bilaterais e diversos eventos em outros locais nobres da capital portuguesa como a sede da Assembleia Nacional, foi nas instalações do IST que tiveram lugar as reuniões multilaterais da OTAN, a diversos níveis de representação, desde Ministros dos Negócios Estrangeiros até peritos. O Pavilhão Central do IST recebeu as reuniões plenárias e, em face da afluência maciça da imprensa internacional, a Imprensa Nacional montou especialmente para o efeito um Pavilhão da Imprensa, Rádio e CTT.257 Desse modo, o facto do IST ter acolhido a reunião deveu-se não só às notáveis condições físicas que os vários edifícios que compunham o seu complexo ofereciam como também à articulação existente entre aqueles e o espaço envolvente, o que constituíam vantagens dificilmente superáveis por outros locais alternativos.

Figura 36: Fotografia da reunião da OTAN no IST,

1952(http://www.hq.nato.int/multi/photos/1952/m520220a.htm)

256 Em traços gerais, de salientar que, na reunião em questão, foram alcançados alguns progressos do

ponto de vista da estrutura organizativa da OTAN e se procedeu à integração das forças militares da Grécia e da Turquia, Estados que tinham aderido formalmente àquela organização internacional dois dias antes do início da reunião, nos comandos operacionais da OTAN.

A Reunião instalou um clima de desagrado em vários sectores da sociedade portuguesa, com ênfase para alguns alunos do IST. No entanto, no que se refere à realização do evento no IST, verificaram-se dissonâncias na opinião dos alunos, que se dividiram entre os que sentiram um enorme orgulho pelo facto do acontecimento se realizar na escola e os que consideraram ter existido uma enorme falta de respeito pelos estudantes, considerando que a realização da reunião da OTAN prejudicou o normal funcionamento da instituição. Como podemos depreender através das palavras de Bento Dias, dirigente associativo de então: “O IST esteve fechado cerca de uma semana para haver a reunião da OTAN, e nós revoltámo-nos contra isso, porque não está certo, foi anti-pedagógico”.258 A revolta que o antigo dirigente refere consubstanciou-se numa moção de protesto contra a cedência das instalações da escola para uma reunião do Conselho do Pacto do Atlântico e contra a suspensão das actividades escolares.259 De referir que a moção foi aprovada por unanimidade pela Junta de Delegados da AEIST, em Janeiro de 1952. Foram ainda empreendidas como iniciativas de contestação a afixação de vários cartazes por toda a escola com as palavras: "Viva a paz" e "O IST para os estudantes";260 e a concentração de manifestantes na entrada do IST. Esta manifestação integrou, para além dos alunos do IST, estudantes de outras universidades de Lisboa e diversas pessoas que discordavam não só da cedência das instalações de um Instituto Superior para a reunião, como também se insurgiam contra a sua realização. Neste contexto, sucederam várias manifestações estudantis em que se invocava a paz, e se expressava o não às armas atómicas e ao fascismo, o que resultou na expulsão de quinze estudantes da Faculdade de Belas Artes e “uma centena de outros é submetida a processo disciplinar por terem condenado publicamente o Pacto do Atlântico”.261 Mary Evelyn Dores recorda esses tumultos:

Lembro-me bem da reunião da NATO (ainda não andava no Técnico). Tinha uns amigos que se manifestaram, uns eram do Técnico e outros de outras faculdades (…), lembro-me do reboliço, dos jovens fugirem porque tinham sido cercados pela

258 Testemunho de Bento Dias, Lisboa, 05/04/2007. 259 Testemunho de António Quintela, Lisboa, 12/02/2007.

260 Informação in Cronologia do IST (edição em dvd), Lisboa, [s.d.]

261 Pedro Ramos de Almeida, O Processo do Salazarismo, Relatório sobre Portugal, Lisboa, 1983,

polícia no Técnico. Lembro-me disso acontecer porque morava ali perto, na Avenida Guerra Junqueiro.262

Não obstante terem decorrido vários tumultos durante essa semana, muitos foram os alunos que afirmaram não se recordarem de quaisquer manifestação no IST, lembrando-se ao invés dum estrado de madeira263 que foi propositadamente adquirido

pela Direcção da escola para ser colocado por cima da piscina na AEIST, de forma a minimizar o facto de os alunos não poderem usufruir do espaço IST, aumentando assim a área disponível. Sobre este assunto, Manuel Alves Marques relembra: “A reunião ocupou todo o espaço, tive que fazer exames na piscina, num estrado de madeira que lá colocaram. Não me lembro de ter existido nenhuma manifestação contra a reunião”.264 O depoimento de Luís Aires Barros, antigo aluno de Engenharia de Minas, reforça a ideia expressa anteriormente, ao descrever as suas lembranças do momento, referindo-se em particular à instalação de aquecimento nos edifícios do IST: “Estivemos uma semana ou duas sem aulas. Não participei em nada. Não me lembro de nenhuma manifestação, (…) mas lembro-me de se criticar o resultado [a reunião da NATO]. Foi colocado aquecimento no IST”.265

Estes dois depoimentos revelam a particularidade de vários estudantes associarem a ocorrência da reunião da OTAN a aspectos concretos referentes à sua relação com o espaço físico do IST, como a colocação do estrado de madeira sobre a piscina e a instalação de aquecimento, respectivamente, não se recordando da existência de manifestações contra a realização da reunião.

Segundo as lembranças de vários alunos, o período de duração da reunião, de 20 a 25 de Fevereiro,266 teria coincidido com uma época de exames, o que explica a realização dos ditos exames em mesas colocadas em cima do estrado de madeira na piscina. Como acrescenta um aluno ao depoimento acima referido de Alves Marque: “Fecharam as salas e nós tivemos que ir fazer os exames para as instalações da AEIST em cima da piscina, com um estrado”.267

262 Testemunho de Mary Evelyn Dores, Lisboa, 08/03/2007.

263O estrado de madeira seria instalado, mais tarde, durante a crise reactiva à publicação do Decreto-Lei

40.900, palco das várias reuniões decisivas para o desenrolar dos factos.

264 Testemunho de Manuel Alves Marques, Lisboa, 23/03/2007. 265 Testemunho de Luís Aires Barros, Lisboa, 07/03/2007.

266 Pedro Cantinho Pereira, Portugal e o inicio da construção europeia 1947-1953, Lisboa, Instituto

Diplomático, Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2006, p. 749.

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