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Compensando um infinitivo ou um nome (substantivo) com funções tais como as de sujeito, complemento nominal e adjunto adverbial na L2, o gerúndio pode ser observado nas ocorrências:

F1 I “Eu acho que também aprendendo uma língua está muito psicolôgia.” L2 “Eu suponho que, além disso, aprender uma língua é muito

psicológico.”

ou “Eu suponho que, além disso, a aprendizagem de uma língua é muito psicológico.”

e

F2 I “[...] agora eu deve dar os aulas pra você porque meu experiência aprendendo português.”

L2 “[...] agora eu já posso dar aulas para você pela minha experiência em

aprender português.”

ou “[...] agora eu já posso dar aulas para você pela minha experiência na

aprendizagem do português.”

Nos usos do gerúndio em substituição a verbos no infinitivo ou a substantivos cujas funções seriam as de sujeito ou de complemento nominal na L2, essa forma verbal foi erroneamente transferida para o português em lugar do infinitivo, por uma equivocada associação com o sufixo -ing, que pode ser muitas vezes traduzido para o português através do -ndo. Apesar de o gerúndio da interlíngua das falas 1 e 2 ter duas formas correspondentes na L2, com funções diferentes em cada uma das falas: na fala 1, na primeira correspondência encontramos um verbo no infinitivo aprender e na segunda um substantivo aprendizagem na função de sujeito e fala 2, a primeira correspondência se faz com um complemento nominal ― em aprender e na segunda com um substantivo aprendizagem, ambas correspondem mais adequadamente a um infinitivo em português. Numa segunda possibilidade de correspondência em L2, nesses casos caberia uma nominalização através do substantivo aprendizagem, conforme registramos ― uma estrutura gramaticalmente viável, apesar de apresentar um nível menos freqüente, mais esmerado, que poderia ser representada respectivamente pelas paráfrases: minha experiência na

aprendizagem do português e a aprendizagem de uma língua é muito psicológico.

Encontramos nessas falas dois casos de interferência, atribuída a um desencontro de regras, a saber: as formas verbais em -ing se equivalem, muitas vezes, ao infinitivo em português, embora sejam relacionadas pelos falantes estrangeiros, com freqüência, ao -ndo (gerúndio) por ser considerado como padrão do português pelas

inúmeras possibilidades de uso, um leque de correspondências, com garantida gramaticalidade que se configura numa transferência direta , fato que não ocorreu nos mencionados exemplos, o que acabou gerando uma transferência negativa (uma interferência).

Caso idêntico se verifica na fala:

F1 I “[...] na Inglaterra nós temos o tradição mudando sua nome com você tem um casamento.”

L2 “[...] na Inglaterra nós temos a tradição de mudar [de (na) mudança]

seu nome quando você se casa.”

Em L2 admitimos o sintagma a tradição de mudar ou de (na) mudança. Portanto, o uso do gerúndio mudando em lugar de de mudar ou de (na) mudança, para complementar o núcleo nominal tradição origina um sintagma mal estruturado. Considerando agora falas 1 e 2 a seguir, observamos dois gerúndios em sintagmas adverbiais: o da primeira fala indicando circunstância de tempo e o da segunda, de modo:

F1 I “As pessoas do Conselho têm uma programa do português bom antes do viajando [...]”

L2 “O pessoal do Conselho oferece um bom programa de português

antes de viajar (antes da viagem, antes de ir para lá) [...]”

e

F2 I “Fala português! Você vai aprender pelo falando, mas não verdade.” L2 “Fale português! Você vai aprender falando (pela fala), mas (isso) não

é verdade.”

Nesses dois casos uma abordagem mais ou menos semelhante aos empregos anteriormente apresentados, só que desta vez com um agravante, pois a nominalização errada do -ndo (gerúndio) está explícita: aparece em uma palavra precedida pelo determinante o. A presença desse artigo caracteriza a possibilidade de existir um nome subentendido nas expressões, o que pode corresponder a uma nominalização, com forma legítima e aceitável, através dos respectivos substantivos

Tais substantivos poderiam ficar teórica e gramaticalmente configurados nas estruturas: prep+artigo+subst e prep+artigo+deverbal.

É conveniente entender que, na fala 1, além de não se identificar no infinitivo uma forma passível de correspondência em português, não se reconhece também o substantivo viagem como um uso válido. Conseqüentemente, ocorre a opção pelo gerúndio, que por estar nominalizado reforça ainda mais a agramaticalidade do texto. É um tipo de condicionamento que chamamos de transferência negativa ― uma interferência.

Na fala 2, a escolha do gerúndio seria admissível, porém sem a presença do determinante o, encontrado na combinação pelo (per + o), cujo emprego desencadeou uma nominalização, pelo falando, estranha e inaceitável, o que seria evitado pelo uso do deverbal fala, como segunda opção

Apesar de o -ing, nas falas transcritas, poder corresponder também aos substantivos: aprendizagem, mudança, viagem e fala, e ainda de haver pertinência dessa classe de palavras em determinados contextos, ocorre o uso da forma terminada em -ndo, nominalizada pela presença do artigo o, como alternativa em desrespeito às transformações convencionais como as derivações sufixais e os deverbais, entre outras.

Verifica-se pelo exposto a atribuição da roupagem de um nome à forma verbal em -ndo (gerúndio). Trata-se de alternativa infundada – o recurso a uma palavra, no caso, um verbo com o sufixo -ndo, escolhida pela correspondência direta e freqüente com o -ing, com a intenção de usá-la como substantivo, da mesma maneira que acontece em inglês. A transferência dessa função para o português, constitui uma interferência gerada pelo desconhecimento das funções e classes correspondentes.

Outras referências relativas a esse problema merecem atenção. Se ampliarmos o texto que acabamos de analisar, teremos:

F1 I As pessoas do Conselho têm uma programa do português bom antes do viajando e depois da [...] bem vai chegar você tem outro curso.” L2 “O pessoal do Conselho oferece um bom programa de português

antes de viajar (antes da viagem) e depois de chegar [...] aí na volta

Em antes do viajando, além da nominalização absolutamente agramatical do gerúndio em português, justificada pela presença do artigo o, a qual tomou o lugar de uma forma mais correta, a do infinitivo viajar ou do substantivo viagem, como já comentamos, um outro problema se manifesta: uma relação direta com o -ing do inglês (o pensar em inglês) ― before traveling – resultando em uma transferência negativa, a denominada interferência (antes do viajando).

Quanto à depois da [...] bem vai chegar, a palavra bem muito comum nos diálogos foi transferida do inglês well.

Em vai chegar criou-se um sintagma que não corresponde à estrutura verbal anterior, pois desrespeita-se a seguinte correlação: antes de viajar/depois de chegar (na volta). A falta de paralelismo nessas referências evidencia uma mistura de expressões formadas com gerúndio viajando e infinitivo chegar, o que deixa subentendida uma dificuldade não só no uso de gerúndio/infinitivo, como, também, na nominalização dos respectivos verbos que podem ser inferidos através de paráfrases das mencionadas expressões: antes da viagem (na ida)/depois da

viagem (na volta).