A residência Jardim América, diferentemente dos dois estudos apresentados anteriormente, não foi projetada por arquitetos membros da loja Branco & Preto e sim pelo arquiteto Oswaldo Arthur Bratke (1907-1997), nome de grande produção arquitetônica, principalmente residencial, fruto de farta erudição documentada por profícuas conexões com os principais eventos que marcam a arquitetura moderna e seu ideário, difundido mundialmente. Ainda estudante, Bratke abriu um escritório de topografia com os amigos do Mackenzie, Eduardo Kneese de Mello, Oscar Americano e Clóvis Silveira. Fazia parte do sistema proposto pelo arquiteto Christiano Stockler das Neves, que seguia os padrões de ensino provindos da França conforme já destacado anteriormente.
Junto com Botti projetou diversas residências na cidade de São Paulo. Entre 1933 e 1942 eles executaram mais de 400 obras, das quais cerca de 90% eram residências, a maioria ecléticas. Nesse período elaboravam projetos já com alguns resquícios de modernidade. Em 1942 Botti faleceu em um acidente de avião e Bratke sofreu muito emocionalmente com a falta do amigo e sócio, além das dificuldades para honrar todos os compromissos que ambos tinham assumido. Influenciado pelo colega de profissão, Rino Levi, foi entregando todos os trabalhos fechados e desvinculados da construtora e se dedicando totalmente apenas ao desenvolvimento dos projetos de arquitetura. Em 1948, em uma das suas viagens aos Estados Unidos, visitou as obras de vários arquitetos, dentre eles Wright, Neutra, Johnson e Mies Van der Rohe.
Bratke trabalhou na urbanização do bairro Paineiras do Morumbi, em São Paulo. Nos anos 50 ele foi eleito presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB-SP para duas gestões, ou seja, de 1951 até 1954. Entre 1952 e 1959 elaborou o projeto para o Balneário de Águas de Lindoia. Nos anos de 1960 desenvolveu projetos para estações da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e foi presidente da comissão técnica da Cohab de São Paulo, de 1968 até 1970.
A influência dos conceitos da arquitetura norte-americana é evidenciada nas transparências ocasionadas pelos vidros, possibilitando uma integração, a horizontalidade e a textura aparente de materiais como a madeira e a pedra adaptação, à topografia, com uma planta mais fluida, que facilitava uma integração entre a casca arquitetônica, o exterior da obra e seus espaços de interiores.
Bratke dificilmente elaborava o design de interiores, portanto em alguns de seus projetos foram adotados os móveis da loja Branco & Preto, que acabavam servindo como
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elemento de articulação entre a arquitetura e os espaços de interiores. Tais características podem ser vistas com maior ênfase no estudo de caso da residência Maria Luisa e Oscar, que será apresentada com mais detalhes adiante, que denota principalmente um desenho já mais articulado com os conceitos modernos. Os elementos construtivos desenvolvidos por Bratke possibilitavam uma transparência maior na obra, como muxarabis, esquadrias e elementos construtivos vazados. Na parte de interiores, chegou a desenvolver sistemas flexíveis de paredes que poderiam ser recolocadas.
Bratke costumava deixar o projeto de interiores a cargo dos proprietários do imóvel, porém, conforme já relatamos, em algumas de suas obras emblemáticas foi utilizado o mobiliário da loja Branco & Preto, pois assim acabava conseguindo, no final, uma obra que se integrava com o exterior, através das transparências, e com o interior, através de móveis que não bloqueavam o campo de visão e possuíam, ao mesmo tempo, uma linguagem moderna.
Um ponto forte que podemos destacar no térreo desse projeto do arquiteto Bratke é a existência de grandes aberturas em todos os ambientes, não ficando restritas somente à sala de estar e sim se estendendo à sala da lareira, ao escritório e à sala de jantar. (DOURADO; SEGAWA,2012).
A seguir temos o redesenho das plantas da residência, com as fotos originais do projeto e a localização da área social da residência que será detalhada mais adiante.
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Figura 93 - Planta pavimento térreo e superior sala de estar da Residência Jardim América
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Figura 94 ‒ Fotos da Residência Jardim América Fonte: Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Figura 95 ‒ Localização área social residência Jardim América
Fonte: Desenho elaborado pelo autor com base na Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Um ponto forte que podemos destacar no térreo desse projeto do arquiteto Bratke é a existência de grandes aberturas em todos os ambientes, não ficando restritas somente à sala de estar e sim se estendendo à sala da lareira, ao escritório e à sala de jantar. Outro recurso projetual adotado pelo arquiteto foi incluir, nas aberturas da área interna, portas de correr que vão até o teto e deslizam para a parte interna da parede, possibilitando uma comunicação entre os ambientes. Podemos observar esses conceitos a seguir no redesenho do primeiro pavimento.
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Figura 96 ‒ Residência Jardim América: layout área social
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Figura 97 ‒ Residência Jardim América: vista 1, 2, 3 e 4 área social
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A relação entre os móveis fica evidenciada layout e nas perspectivas a seguir através da busca pelos eixos.
Figura 98 ‒ Residência Jardim América: layout área social com relação entre os móveis
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Figura 99 ‒ Residência Jardim América: perspectiva sala de estar com o mobiliário da Branco & Preto Fonte: Elaborada pelo próprio autor.
Podemos observar na perspectiva a seguir que a distribuição dos móveis da sala da lareira, o alinhamento das poltronas MR7 e das poltronas MF5 com a mesa e o sofá acompanhando o eixo da lareira que pode ser visto também no layout apresentado com a ligação dos móveis.
Figura 100 ‒ Residência Jardim América: perspectiva da sala lareira com o mobiliário da Branco & Preto Fonte: Elaborada pelo autor.
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A estante desenhada com exclusividade para esta residência evidencia a interligação das suas aberturas, não obstruindo o visual do corredor em relação à sala de estar. A utilização do laminado melamínico nas laterais foi mesclada com madeira, a qual serviu para esconder a linha preta do topo do laminado, possibilitando um melhor acabamento. Os volumes das portas e das gavetas são emoldurados com as laterais e prateleiras em madeira natural, além dos pés torneados que suspendem o bloco principal do chão.
Figura 101 – Residência Jardim América: desenho estante sala de estar Fonte: Elaborado pelo autor.
Figura 102 – Residência Jardim América: maquete estante sala de estar Fonte: Maquete elaborada pelo autor.
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Na maquete que reconstitui o térreo podemos notar quatro ambientes mobiliados com itens do catálogo da loja. Temos a sala da lareira, composta por duas poltronas MR7, mesa de centro com tampo em granito, três poltronas M1 e a mesinha lateral e, conforme já observado, destaca-se a busca pelos eixos. Na sala de jantar vemos a mesa com as cadeiras de palhinha, material utilizado em grande parte dos projetos que empregaram móveis da loja. O escritório é composto por três peças, sendo elas a cadeira de palhinha, a escrivaninha e duas poltronas M1. Já a sala de estar é composta por sete poltronas M1, duas mesas laterais e mesa de centro em duas cores; nesse projeto, apesar de já existir uma mesa na sala de jantar, optou-se por utilizar outra, quadrada, com quatro cadeiras Aflalo, e a estante apresentada anteriormente, desenhada com exclusividade para o projeto desta residência.
Figura 103 – Residência Jardim América: vista 1 maquete área social
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Figura 104 – Residência Jardim América: vista 2 maquete área social
Fonte: Elaborada pelo autor com base na Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Figura 105 – Residência Jardim América: vista 3 maquete área social
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Figura 106 – Residência Jardim América: vista 4 maquete área social
Fonte: Elaborada pelo autor com base na Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Figura 107 – Residência Jardim América: vista 5 maquete área social
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Figura 108 – Residência Jardim América: vista 6 maquete área social
Fonte: Elaborada pelo autor com base na Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Figura 109 – Residência Jardim América: vista 7 maquete área social
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Figura 110 – Residência Jardim América: vista 8 maquete área social
Fonte: Elaborada pelo autor com base na Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Figura 111 – Residência Jardim América: vista 9 maquete área social
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Figura 112 – Residência Jardim América: vista 10 maquete área social
Fonte: Elaborada pelo autor com base na Revista Acrópole, n. 226, p. 299-303, ago. 1957.
Figura 113 – Residência Jardim América: vista 11 maquete área social
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Figura 114 – Residência Jardim América: vista 12 maquete área social
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Figura 115– Residência Jardim América: maquetes móveis
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Observa-se, na escolha dos móveis, a predominância de peças já pertencentes ao catálogo da Branco & Preto e produzidas em série, ao contrário do que aconteceu na residência que será estudada na sequência, em que muitos móveis foram projetados com exclusividade. Isso possivelmente contribuiu para diminuir o custo da implantação do projeto, exceto quanto à estante que serviu como elemento de interligação entre o projeto arquitetônico e de interiores, pois, além cumprir sua função inicial, apresenta uma linguagem de desenho coerente com o todo e explicita a transparência da arquitetura e da interligação entre os ambientes observada nas aberturas em vidro da residência e nas grandes portas dos ambientes. Ao analisarmos o layout, com móveis que não broqueavam os visuais como no caso da estante já destacada e também com as poltronas e mesas de apoio que não chegam com um grande volume até o chão, assim aumentado à transparência e a busca pelos eixos, verificamos também que no projeto predominou a horizontalidade e a valorização dos visuais possibilitados pelos fechamentos em vidro e com os moveis condizentes com essas preocupações projetuais.