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H VORDAN SPRÅKVANSKENE KOMMER TIL UTTRYKK

KAPITTEL 3 BARN MED SPESIFIKKE SPRÅKVANSKER

3.4 H VORDAN SPRÅKVANSKENE KOMMER TIL UTTRYKK

Esta defesa da ficção é reforçada pela presença de Conrad e do romance Nostromo no livro de Vásquez. Presença essa que, para além do título, se manifesta a toda hora, das diversas passagens em que o narrador menciona a obra às quatro epígrafes que integram o romance (três fragmentos de Nostromo e um trecho de carta a Robert Cunninghame-Graham, na qual Conrad, ao anunciar a “audácia” de ambientar um livro na América Latina, parece pedir licença ao amigo, célebre viajante, para entrar num mundo em que este era muito mais versado).

Uma primeira e óbvia constatação é que, ao colocar a autobiografia do protagonista forçosamente à sombra do romance de Conrad, Vásquez proclama o maior alcance da ficção entre as formas de narrar o passado. Sabe-se que, 25 anos antes de escrever Nostromo, Conrad viajou pela América Latina e o Caribe, então um jovem marinheiro ávido por aventuras. Sabe- se também que, em seu processo criativo, recorreu a livros e a sólidos conhecedores da região, como o exilado colombiano Santiago Pérez Triana, que acabara de publicar seu relato de fuga da ditadura conservadora32. Mas, apesar do lastro dessas referências, Nostromo é, acima de tudo, uma “obra da imaginação”, como define Malcolm Deas (2006, p.272). Trata-se, mais do

31 Comentarei no próximo tópico essa leitura inusitada da obra de García Márquez. 32

que isso, do “esforço imaginativo mais profundo que existe na literatura inglesa para compreender um ambiente latino-americano” (idem, p.271, tradução nossa).

Com seus numerosos males – a violência endêmica, os consecutivos golpes de Estado, a corrupção enraizada, a imprevisibilidade política –, a república fictícia de Costaguana nos fala mais sobre a Colômbia do século XIX e início do XX do que muitos livros que, explicitamente, se propõem a esmiuçar o país daquele período. “Poucos países imaginários, poucos países verdadeiros, têm vida tão duradoura e tão complexa na mente do leitor”, assinala Deas, para quem a obra de Conrad “compreende uma era na história latino- americana” (idem, p.271), com o mérito de ser um dos poucos romances capazes de abordar com êxito a política em suas ambiguidades.

Leitor devotado de Conrad, autor de uma biografia sobre o escritor 33, Vásquez disse considerar Nostromo o melhor romance sobre a América Latina já escrito fora da língua espanhola. Em um pequeno ensaio sobre o livro, Vásquez o vincula ao cânone da literatura hispano-americana, classificando-o como um dos principais e menos citados antecedentes do boom. Nas suas palavras, Nostromo é “mucho más precisa desde um punto de vista moral, mucho más inteligente desde un punto de vista político y mucho más moderna desde un punto de vista narrativo que cualquier novela latinoamericana anterior a Pedro Páramo” (VÁSQUEZ, 2009, p.147-149).

Antes mesmo de chegar à trama, Nostromo interessa pelas histórias ao redor de sua gênese. Apesar das diferentes conjecturas, nenhum dos mais de cem biógrafos de Conrad conseguiu estabelecer ao certo a experiência que o escritor teve na Colômbia – e se teve de fato alguma experiência (GAVIRIA, 2000). Em 1876, quando contava apenas 18 anos, Conrad viajou pela terceira vez ao Caribe, partindo de Marselha, onde vivia, para Saint Pierre, na Martinica. Embora os registros do Saint-Antoine, o veleiro que fez o trajeto, informem que o barco jamais saiu do roteiro previsto (voltando da Martinica com escalas em Saint Thomas e Porto Príncipe), a maioria dos biógrafos acredita em incursões adicionais feitas pelo jovem marinheiro. A ordem, os meios e os destinos do suposto périplo são motivos de controvérsia, mas geralmente se consideram os relatos feitos pelo próprio Conrad, que em cartas e textos autobiográficos cita passagens pela Colômbia e pela Venezuela. O escritor refere-se às localidades venezuelanas de Puerto Cabello e La Guaira, e numa carta a Elizabeth Dummet, companheira de Cunninghame-Graham, evoca com nostalgia uma visita a Cartagena, cuja menção lhe impunha agora “o sentimento de juventude perdida” (apud GAVIRIA, 2000,

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tradução nossa). Para muitos de seus biógrafos, a experiência colombiana foi além e abarcou ainda as cidades de Santa Marta, Sabanilla e Aspinwall (Colón, no atual Panamá). Mas não há documento que comprove. Da mesma forma, permanece no plano especulativo a hipótese, bastante difundida, de que Conrad levou um contrabando de armas para conservadores colombianos. Até mesmo García Márquez alimentou a crença, ao mencioná-la, ligeiramente alterada, no último capítulo de El amor em los tiempos del cólera (1985)34.

Seja como for, a geografia e a história da Colômbia aparecem inconfundíveis na república de Costaguana. Há quem note uma feição híbrida no país criado por Conrad, com traços colombianos mas também venezuelanos, paraguaios, argentinos e de outras nações sobre as quais o escritor leu intensamente durante o processo criativo. Mas os aspectos do Rio da Prata, segundo Malcolm Deas, servem apenas para dar “certo sensacionalismo” ao passado do país inventado. “Costaguana, em sua geografia, seus recursos, sua raça, sua política, é um Estado do trópico, Estado dos que foram libertados por Bolívar [...]”, diz o historiador britânico (idem, p.281). Alejandro Gaviria (2000), por sua vez, ressalta as similaridades entre a paisagem de Sulaco, principal espaço da narrativa, e o panorama de Cartagena e Santa Marta. Tanto Sulaco quanto Santa Marta, afirma Gaviria, estão à beira de uma baía da qual se vê a cordilheira coberta de neve; tanto Sulaco quanto Cartagena estão cercadas por uma muralha e resguardadas do mar aberto por ilhotas desoladas.

É no campo da história, porém, que as coincidências são mais marcantes – sobretudo, no relato da emancipação de Sulaco, que ocupa o centro da trama de Nostromo. Neste caso, as diferenças com a realidade – isto é, com a independência do Panamá – vão pouco além do nome e do elemento que confere riqueza às províncias. Enquanto o Panamá se distingue por uma peculiaridade de seu território – o mais estreito do continente americano, ideal para um canal interoceânico –, a prosperidade de Sulaco se assenta em imensas reservas de prata. É a defesa deste patrimônio – explorado com êxito por um costaguanense de ascendência inglesa – que determina, no romance, a luta pela autonomia da província, em resposta a um novo golpe de Estado iniciado na capital. Assim como na realidade, o apoio dos Estados Unidos – bélico, financeiro e político – é decisivo para o triunfo do movimento. A presença de um barco norte-americano garante a vitória dos independentistas, e o governo de Washington é o primeiro a reconhecer o país surgido do confronto.

Desta forma, sem trair o propósito de refletir “toda uma época na história da América Latina” (apud VÁSQUEZ, 2009, p.148, tradução nossa), Conrad cria a melhor versão

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romanesca para um incidente específico que figura entre os mais emblemáticos do intervencionismo norte-americano do início do século XX. Em sua correspondência pessoal, o escritor se mostra bem-informado – e inequivocamente crítico – sobre a participação dos Estados Unidos na independência do Panamá. “E a propósito, o que você acha dos Conquistadores ianques no Panamá? Bonito, não?”, escreve ele a Cunninghame Graham (apud VÁSQUEZ, idem, p.151). Daí se ver nas páginas de Nostromo “uno de los grandes enjuiciamientos literarios del imperialismo”, como considera o escritor colombiano (idem, p.152)35.

Partilhando as riquezas de Sulaco, capitalistas ingleses e norte-americanos articulam não apenas a independência da província, mas, antes dela, a ascensão de um ditador que, durante cinco anos, defendeu os interesses da elite em detrimento dos mais pobres. Maior tesouro de Sulaco – imperium in imperio, como diz um personagem –, a mina de San Tomé tem o financiamento de um poderoso investidor norte-americano confiante no progresso e no “Destino Manifesto”:

Estaremos pontificando em toda parte: indústria, comércio, leis, jornalismo, arte, política e religião, do cabo Horn até o estreito de Smith, e inclusive além, se alguma coisa de valor surgir no polo Norte. E então teremos vagares para tomar a nosso cargo as ilhas e continentes mais afastados da Terra. Dominaremos os negócios do mundo, quer o mundo goste, quer não. O mundo não pode evitar, e nós tampouco, acho. (CONRAD, p.79, 2007).

Ordem e anarquia, revolução e imperialismo, capital, liberdade, democracia e demagogia são alguns dos ingredientes de Nostromo (DEAS, 1992), romance político que mostra a política como algo inescapável, tal como Vásquez em Historia secreta de Costaguana e nos outros dois romances da trilogia. Charles Gould, o impassível dono da mina que apoia a contrarrevolução, não é o primeiro da família a ter de renunciar a uma ilusória postura de neutralidade:

Seu tio entrou para a política, foi o último presidente da província de Sulaco, e o fuzilaram depois de uma batalha. Seu pai foi um destacado homem de negócios em Santa Marta, tentou manter-se longe da política, e morreu arruinado depois de uma porção de revoluções. Eis, numa palavra, o que é Costaguana (CONRAD, idem, p.81).

Obstinado e taciturno, idealista e pragmático, Gould encarna a ambiguidade que, para Vásquez (2009, p.107), constitui um dos requisitos para o tratamento exitoso da política em um romance. O mesmo ocorre com Nostromo, o capataz incorruptível que no entanto se

35 Edward Said, no entanto, destaca as contradições de Conrad, que criticava o imperialismo, mas não

o seguia e e ga o u do pa a al da lógi a o ide tal. Tudo o ue Co ad o segue ve u u do totalmente dominado pelo Ocidente atlântico, onde toda oposição ao Ocidente apenas confirma o poder i í uo do O ide te. O ue Co ad ão o segue ve u a alte ativa a essa uel tautologia “AID, , p.16).

corrompe; Martin Decoud, o cínico cosmopolita que articula a independência de Sulaco; e o doutor Monygham, médico sardônico capaz de um grande heroísmo. Personagens que, na morte trágica ou na solidão, ilustram “a incompatibilidade de raiz entre ideal e o real”, que José Paulo Paes (2007, p.513) considera um dos leitmotive do romance. Na história de Nostromo, diz o crítico brasileiro, “toda ação, quando bem-sucedida, acarreta a „degradação moral da ideia‟ que a inspirou” (idem). Com isso, o que prevalece no fim é o ceticismo com a política, evidenciado, entre outras coisas, pelo descontentamento massivo da população nos anos seguintes à independência.

Mas a crítica de Conrad está longe de se ater aos danos da exploração neocolonial. Tempos antes de perder Sulaco, Costaguana já era uma “caverna de ladrões, intrigantes e bandoleiros”, conforme definia o amargurado pai de Charles Gould (CONRAD, 2007, p.62). Com “sua história de opressão, ineficiência, métodos estultos, traição e selvagem brutalidade” (p.106), o país era marcado pela “atmosfera política tempestuosa” e pelas “frequentes mudanças do governo acarretadas por revoluções de tipo militar” (p.22).

Por todos esses elementos, Nostromo talvez se imponha de forma irremediável sobre todo romance que, como Historia secreta de Costaguana, pretenda falar sobre a Colômbia do século XIX e a independência do Panamá. É esta presença ineludível que Vásquez explicita em seu livro. Não por acaso, a obra começa com a morte de Conrad e termina no encontro de José Altamirano com o escritor inglês. Ao ver-se ausente do produto fictício de seu relato, Altamirano, a testemunha decisiva, torrencial e desesperada, ofende-se não apenas por ter desaparecido como agente histórico, mas por ver antecipadamente frustradas suas pretensões de autoria. Ao “roubar” a história de sua vida – e das vicissitudes colombianas que determinaram seu curso –, Conrad escreveu o romance que o protagonista de Vásquez poderia escrever. Daí por diante, para que seu livro se justifique, Altamirano terá forçosamente de mencionar a obra de Conrad (“El Libro del Carajo”, p.150) e o “roubo” perpetrado por este. Já na segunda página, o personagem anuncia que “de alguna manera todo lo que les cuente a ustedes estará dirigido a explicar y explicarme, eslabón por eslabón, la cadena de sucesos que provocó el encuentro al que mi vida estaba destinada (p.14). Sua autobiografia não existe mais sem a biografia do escritor inglês. Seu esforço, ao mesmo tempo que conta sua história, é o de expor os laços invisíveis, as “líneas paralelas” que o unem a Conrad. Ambos são, para ele, “almas gemelas” (p.59), “dos encarnaciones de un mismo José, dos versiones del mismo destino” (idem). O deboche de algumas cenas, as indiscrições de alguns trechos podem sugerir certo espírito vingativo no biógrafo. Mas o que prevalece, apesar do ressentimento

declarado, é a admiração por Conrad, descrito logo no início como “el Gran Novelista de la lengua inglesa” (p.13).

Além do argumento central e das menções diretas ao romance de Conrad, há outros aspectos de Nostromo em Historia secreta de Costaguana. Se o tom geral, de uma dramaticidade mais tensa, discrepa da narração satírica de Vásquez, algumas passagens têm o histrionismo que caracteriza a obra do escritor colombiano. A verborragia e a paixão pela oratória são citadas constantemente: “O ar do Novo Mundo parece favorável à arte da declamação. Você por acaso esqueceu que o nosso caro Avellanos é capaz de arengar horas a fio...?”, comenta Charles Gould (CONRAD, 2007, p.84), referindo-se ao personagem que, segundo o próprio Conrad, foi inspirado em seu informante colombiano, Santiago Pérez Triana.

Chefes de Estado – sobretudo militares – são invariavelmente ridicularizados: “[...] as narinas arfantes, o olhar imbecil e arrogante do glorioso vencedor de Río Seco tinham algo de ominoso e inacreditável [...]”, diz o narrador sobre o general Montero (p.118). Os confrontos entre os partidos dominantes – que Conrad transforma em blancos e negros – semelham “um jogo pueril e sanguinário de assassínio e rapina jogado com terrível seriedade por crianças depravadas” (p. 54). E a própria atmosfera de farsa que marca o romance de Vásquez é sugerida por um personagem de Nostromo como típica de Costaguana:

Imaginem uma atmosfera de opéra bouffe em que todos os assuntos cômicos de estadistas, bandoleiros e muitas outras figuras de fancaria, a roubar, intrigar e apunhalar farsescamente são encenados com mortal seriedade. É demais; corre sangue o tempo todo e os próprios atores acreditam estar influenciando o destino do universo (CONRAD, idem, p.142).

Não bastassem esses aportes, a presença de Conrad se manifesta de forma mais ampla. A começar pela figura do escritor, cuja vida é recontada por Vásquez três anos depois de lançar a pequena biografia encomendada pela editora Panamericana, de Bogotá. Apesar das coincidências, o romance não faz a mera transposição do texto biográfico. O que se vê agora – ainda que possa soar óbvio – é um Conrad romanceado, personagem que não escapa nem à irreverência nem à distorção da história que marcam o livro. Exemplo de irreverência é o episódio do abscesso anal, cuja hilária descrição inclui o relato de um crítico fictício que teria considerado o furúnculo “el verdadero corazón de las trevas” (p.109). Exemplo de distorção são as cenas de Conrad na Colômbia, em que Vásquez abandona a incerteza factual – que fez questão de preservar na biografia – e mostra o jovem Korzeniowski não apenas desembarcando em Colón (hipótese jamais provada) como tomando um trem para traficar armas na Cidade do Panamá (o que nem costuma ser cogitado).

Mais importante, porém, é um dado mencionado na nota que sucede ao término do romance. Ao citar “ciertas frases ajenas que acompañaron como guías o como tutores en la escritura de la novela”, Vásquez inclui um trecho do conto “Guayaquil”, de Borges: “Acaso no se puede hablar de aquella república del Caribe sin reflejar, siquiera de lejos, el estilo monumental de su historiador más famoso, el capitán José Korzeniowski” (p.291-292). Refletir, mesmo de longe, o estilo de Conrad parece ter sido uma das buscas de Vásquez no romance. Isso se dá particularmente na criação do Panamá selvático explorado por Miguel Altamirano. A floresta densa e inescrutável do Darién, acossada pelo perigo e pelo calor asfixiante, é claramente inspirada no Congo percorrido por Conrad e pelo narrador de No coração das trevas. Para explicitar essa influência, Vásquez chega a escrever dois trechos praticamente idênticos:

Don Blas se había presentado en su casa la noche anterior, y le había dicho:

“Empaque para unos cuantos días. Mañana nos vamos de expedición”. Miguel

Altamirano obedeció, y cuatro días después estaba entrando en la selva del Darién, acompañado de noventa y siete hombres, y durante una semana caminó detrás de ellos en la noche perpetua de la selva, y vio a los hombres descamisados abrirse paso a machetazo limpio mientras otros, los blancos de sombrero de paja y camisas de franela azul, anotaban en sus cuadernos todo lo que veían: la profundidad del río Chucunaque al tratar de vadearlo, pero también el cariño que los escorpiones sentían por los zapatos de lona; la constitución geológica de un desfiladero, pero también el sabor de los micos asados y pasados con whisky (VÁSQUEZ, 2007, p.66).

Prosper Harou, el guía de la Sociedad, se le acerca una tarde y le dice: “Empaque

para unos cuantos días, señor Conrad. Mañana nos vamos de expedición”. El capitán

Joseph K. obedece, y dos días después está entrando en la selva del Congo, acompañado de treinta y un hombres, y durante treinta y seis días camina detrás de ellos en la humedad inclemente del calor africano, y ve a los hombres negros y semidesnudos abrirse paso a machetazo limpio mientras aquel blanco vestido con camisa suelta anota en su diario de viaje – y en lengua inglesa – todo lo que ve: la profundidad del río Congo al tratar de vadearlo, pero también el trino de los pájaros, uno parecido a una flauta, el otro como el aullido de un sabueso; el tono general y más bien amarillento del pasto de un barranco, pero también la altura inusitada de la palma de aceite (VÁSQUEZ, idem, p.187).

Ressaltar a influência que um escritor inglês de origem polonesa pode ter em um escritor colombiano. Evidenciar como suas ferramentas e concepções literárias podem servir para narrar um contexto que, na visão apressada do senso comum, lhe seria de todo alheio. Mostrar outros caminhos além do realismo mágico de García Márquez para abordar a Colômbia trágica e rocambolesca do século XIX. Estes são, acredito, alguns dos objetivos de Vásquez ao colocar Conrad no centro de seu romance. No ensaio “Malentendidos alrededor de García Márquez”, publicado pela primeira vez em 2005, Vásquez enfatiza um ponto muitas vezes negligenciado: a influência na literatura independe de territórios compartilhados.

Vincular-se a escritores de outras partes – e, principalmente, de ninguna parte – tem sido uma das tônicas de seus comentários sobre sua própria obra.

A busca de uma genealogia alternativa vem sendo formulada por Vásquez pelo menos desde 2004, quando leu, na Feira do Livro de Bogotá, o já citado ensaio “Literatura de inquilinos”, depois incluído em El arte de la distorsión (2009). Neste texto, ao refletir sobre a experiência do deslocamento e indagar quais seriam as possíveis marcas da escrita produzida fora do país de origem, Vásquez identifica nas obras de Conrad e Naipaul a consequência a seu ver mais fecunda da extraterritorialidade: o abandono das certezas, da ideia de compreensão, da ilusão, sobretudo, de que se conhece o lugar do qual se parte. Segundo ele, diferentemente de Hemingway e André Malraux, que adentravam terras estrangeiras com a firmeza de quem pisa em um território conhecido, Conrad e Naipaul transformaram a condição de viajantes em um modo de penetrar zonas escuras. Uma evidência disso, afirma, é a presença da palavra “escuridão” no título original de duas obras dos autores: Heart of Darkness (No coração das trevas) e An Area of Darkness (não traduzida ao português). De acordo com o escritor, mais do que as semelhanças de suas trajetórias – “un polaco que aprendió su lengua literaria pasada la adolescencia, y un caribeño que inventó su propia versión del inglés” –, Conrad e Naipaul compartilham “una cierta identidad, una cierta poética” (VÁSQUEZ, 2009, p.185), segundo a qual “la novela es un género inquisitor, un género que funciona mejor cuando se adentra en territorios desconocidos o inexplorados, cuando lleva a cabo una averiguación, una iluminación […]” (idem). Declarando ter “afinidades insospechadas con la biografía de esos novelistas” e olhar suas trajetórias como “amuleto, quizás como fetiche” (p.184), Vásquez tomou para si esta concepção do romance e recorre a ela com frequência ao falar de sua própria obra. Nessas ocasiões, sempre ressalta a importância do deslocamento para sedimentar tal perspectiva36.

Com isso, ao fazer de Conrad – “El hombre de ninguna parte” – uma figura central de seu romance, Vásquez não apenas reforça sua filiação ao escritor como enfatiza, mais uma vez, o potencial criativo contido na experiência extraterritorial. É preciso lembrar que