4. KVÆRNER ASA
4.3 H ENDELSER I PERIODEN 1993-2001
Preocupações com a emancipação orientaram as teorizações de Marx, Adorno, Horckheirmer e dos demais frankfurtianos. A emancipação tem assumido contornos mais definidos nos trabalhos de Habermas, no sentido de empreender uma teoria crítica da sociedade.
Diante das perversidades ocorridas na contemporaneidade, presenciamos que a sociedade está cada vez mais administrada pela racionalidade instrumental, tal como vem nos lembrando Adorno e Horkheimer desde a década de trinta do século XX. Assim, a possibilidade de trilharmos ao encontro da emancipação através do exercício da razão, chega a parecer-nos cada vez mais utópica.
Habermas faz uma leitura negativa das afirmações acerca da impossibilidade da razão prestar-se para propiciar a emancipação da humanidade. Suas críticas depreendem-se principalmente às leituras de Horkheimer e Adorno, notadamente a tese negativista da regressão da razão a um novo mito.
Na obra Dialética do Esclarecimento, apresentada em 1947, Adorno e Horkheimer vincularam a estratificação devastadora da sociedade com a destruição da possibilidade de emancipação dos sujeitos, diante das perversas formas de opressão que se mostravam. Segundo os autores, o esclarecimento apóia-se no pressuposto de que existe uma relação dialética entre pensamento, esclarecimento e mito. Também admitem
176 a existência de um entrelaçamento entre racionalidade e realidade social. Por isso consideraram que através do esclarecimento racional, a humanidade procurava emancipar-se dos receios em relação ao mito e à dominação. No entanto, acaba recaindo no mito e na barbárie.
O esclarecimento habermasiano encontra-se inserido no projeto inacabado de modernidade, o qual necessita ser reconstruído, caso se acredite que o esclarecimento poderá propiciar a emancipação dos sujeitos na sociedade. Faz-se então necessário aclarar-se também o que é o esclarecimento na modernidade. Acerca deste, Siebeneichler (2003) assinala:
/.../ o esclarecimento não se apresenta no interior da história da modernidade apenas como uma ilustração intelectual que ensina terem os homens naturalmente os mesmos direitos, a mesma obrigação de fazer uso de sua razão individual sem limites e de chegar a uma decisão ética inteiramente livre, mas também como um movimento histórico, um processo de emancipação que tem por alvo modificar a estrutura da consciência e das instituições econômicas, jurídicas, da arte, da religião, dos costumes (p. 12).
Com o intento de reconstruir o projeto inacabado de modernidade, Habermas apoia-se não mais na razão pura, mas na razão comunicativa, a qual se apóia em uma
práxis social. Devido a essa perspectiva, o esclarecimento passa a ser percebido como o
processo de argumentação que tende a empreender uma mediação entre a razão e a esfera do poder e da dominação. Assim o esclarecimento volta-se para a possibilidade do homem guiar-se pela razão comunicativa, assegurando assim a possibilidade do saber teórico vincular-se a práxis livre e emancipada. Ao encontro desta possibilidade Habermas (1993) assinala:
Emancipação tem a ver com libertação em relação a parcialidades que derivam, de certa forma de nossa responsabilidade /.../ A emancipação é um tipo especial de auto-experiência porque nela os processos de auto- entendimento se entrecruzam com um ganho de autonomia (p. 99).
Percebe-se na menção acima que, no contexto da Teoria da Ação Comunicativa, o conceito de emancipação é distinto de liberdade ofertada. A emancipação requer a participação ativa do sujeito. Neste sentido, determinados ambientes, como a escola, por exemplo, poderão contribuir para a busca da mesma pelo sujeito, porém, nunca ser a responsável pela sua entrega.
177 Para Habermas, um dos impedimentos ao esclarecimento humano é decorrente da colonização do mundo da vida pelas instâncias pertencentes ao sistema. Esse processo desencadeia-se à medida que no mundo da vida ocorre a penetração da cultura dos especialistas, provocando a desintegração da cultura dos indivíduos. Neste processo comunicativo, a argumentação dos especialistas vai ficando sofisticada e a comunicação entre os não especialistas, sendo dificultada devido a uma compreensão fragmentada ou mesmo uma incompreensão da comunicação dos especialistas.
Diante da impotência do cidadão em compreender integralmente os processos comunicativos advindos da comunicação dos especialistas, forma-se a consciência fragmentada desses processos comunicativos. Segundo Habermas, modernamente a falsa consciência é utilizada como manipulação ideológica dos indivíduos. A citação abaixo parece bastante explicativa para o presente contexto. Assinala:
No lugar da falsa consciência, hoje aparece a consciência fragmentada, que impede o esclarecimento a respeito do mecanismo da reificação. As condições para uma colonização
do mundo da vida são consequentemente preenchidas: logo que
é despido do seu véu ideológico, o imperativo de subsistemas independentes pressiona, a partir do exterior, o mundo da vida e compele à assimilação, como senhores coloniais numa sociedade tribal (HABERMAS, 1987, p.114).
Evidencia-se então que, na concepção habermasiana, a comunicação entre os sujeitos configura-se como um telos emancipador, haja vista que mantém o poder transformador da razão. Como falantes, os sujeitos estabelecem um entendimento racional entre si e, usando a linguagem de forma pragmática, constituem as estruturas do mundo da vida.
No próximo capitulo, explanaremos sobre algumas contribuições da Teoria Social Critica para as teorizações educacionais, notadamente, no tocante à busca de autonomia pelos sujeitos.
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