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4. Metode

4.4. Datainnsamlingsmetode

4.4.3. Datainnsamlingen

Em 1905, um ano após o seu casamento, Oiticica fundou, com a sua esposa, o Colégio Latino-Americano localizado no bairro do Leme. Os recursos materiais necessários para a fundação do Colégio foram obtidos com o seu pai. No seu curto funcionamento, até o ano de 1908, o professor Oiticica empreendeu um programa de ensino baseado na École des Roches de Edmond Demolins, discípulo da Sociologia de Frederic Le Play.

Essa experiência que lhe serviu como padrão de ensino para o seu Colégio do Leme e foi uma manifestação da escola nova que também inspirou, na década seguinte, outras iniciativas de escolas livres, libertárias, como, por exemplo, as escolas modernas nº 1 e nº 246, sob inspiração do pedagogo Francisco Ferrer, que de certa forma tiveram em suas origens o projeto de uma nova escola para a constituição do homem novo.

As informações que se seguem sobre os processos pedagógicos47adotados no Colégio Latino-Americano são resultantes do exame de um opúsculo, intitulado Um programa

heterodoxo de português nas escolas48, no qual José Oiticica nos apresenta a descrição de algumas das aulas, as disciplinas e as estratégias didáticas de aprendizagem adotadas em seu colégio.

A fala de Oiticica no transcurso da conferência radiofônica foi direcionada principalmente aos professores e àqueles que se interessavam pela questão educacional

46 Giglio (1995) e Jomini (1990) esclarecem sobre a existência de Escolas Modernas anarquistas em várias cidades de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Estas escolas foram organizadas sob a inspiração dos pedagogos Francisco Ferrer, Paul Robin, Sebastian Faure e outros. Em 1912, foram fundadas pelo movimento anarquista em São Paulo duas escolas, a Escola Moderna nº 1 e a Escola Moderna nº 2, inspiradas no pensamento do educador espanhol Francisco Ferrer y Guardía. Conforme o Boletim da Escola Moderna, nota-se que tais escolas eram voltadas ao trabalhador. A manutenção financeira dessas instituições escolares era responsabilidade dos alunos, pais e comunidade em geral. Além da participação na manutenção das escolas, e em outras organizações sociais, a educação do homem para a liberdade implicava a adoção do método que levasse em conta as características de cada aluno, sem prazos a cumprir, segundo Jomini (1990, p.90-108). Em São Paulo nas Escolas Modernas 1 e 2 destacam-se os trabalhos de Florentino de Carvalho e Adelino Pinho. 47 Os termos: processos pedagógicos e método de ensino foram utilizados por José Oiticica de maneira análoga em artigos jornalísticos, opúsculos, e em seus manuais didáticos para designar as ações do professor em aula, a seleção, organização e distribuição de conteúdos; a avaliação.

48 As informações sobre o Colégio Latino-Americano fundado por José Oiticica foram reunidas na consulta ao opúsculo Um programa heterodoxo de português nas escolas, editado em 1948, pela Escola Técnica de Campos, no Rio de Janeiro e encontrado no Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II (NUDOM). Trata- se da transcrição de uma conferência, da última conferência de uma série de 15 proferidas pelo professor José Oiticica no programa A hora do livro sob o comandado de Cid Franco. Tavares (1999), pesquisador das histórias do rádio no Brasil, informou-me em entrevista, em 12 de setembro de 2006, que provavelmente esta conferência foi apresentada na Rádio Cruzeiro do Sul. Esta emissora foi criada em São Paulo pelo núcleo experimental

Sociedade Rádio Cruzeiro do Sul- PRB-6, juntamente com outra emissora no Rio de Janeiro com o mesmo nome. Outros registros foram encontrados sobre o colégio: dois formulários usados no colégio, um de recibo de pagamento, outro requerimento de aluno que se encontram no anexo II (no verso desses formulários há poesias de José Oiticica datadas de 1915, fato que explica a conservação de tais formulários).

51 brasileira. A sua argumentação transitou em duas temporalidades, a sua experiência no Colégio Latino - Americano (1905 -1908) e o momento da conferência, o ano de 1948, com o peso da experiência da docência no Colégio Pedro II desde o ano de 1917, quando ingressou nesta instituição.

A experiência educacional no Colégio foi avaliada como prática bem-sucedida. Nessa avaliação, Oiticica não incluiu a curta duração no funcionamento do colégio e deixou claro que o seu encerramento se deu pelas dificuldades financeiras que o impediram de dar seqüência ao empreendimento. Ficou subentendida em sua explanação que, se não fosse esta razão, o seu colégio teria perseverado na formação dos alunos. Portanto, a razão determinante do brilhante êxito dessa experiência deveu-se, sobretudo, à adoção do método de ensino da

École des Roches tomada como padrão por José Oiticica.

O Colégio Latino-Americano localizava-se na Rua Tonelero, 31, no bairro Leme, na cidade do Rio de Janeiro. Era um dos estabelecimentos escolares da iniciativa particular que funcionava sob os regimes de internato e de externato e atendia crianças a partir dos sete anos de idade.

As disciplinas oferecidas eram “Matemática, Geografia, História, Francês, Inglês, Química, Física, Botânica, Zoologia e Fotografia, que iam do primeiro ao último ano, variando somente os programas, rigorosamente sistematizados e curtos, tal como o professor Oiticica relatou em seu opúsculo.

A sua argumentação foi construída pela descrição da forma pela qual os alunos aprendiam e os professores ensinavam no colégio. Essa forma se baseava na sistematização dos processos pedagógicos do Colégio do Leme. Consistia em trabalhar cada conteúdo dispondo-os do mais simples aos mais complexos, partindo sempre da experiência prática à teoria, estabelecendo paulatinamente os conceitos, a nomenclatura de cada etapa. Essas práticas privilegiavam a observação e a realização de experiências. O desfecho de cada uma delas era encaminhada para que os alunos deduzissem por si mesmos a construção do conceito:

Do primeiro ano ao último, as disciplinas eram as mesmas, variando somente os programas, rigorosamente sistematizados e curtos. Lições duas vezes ou uma só por semana, ao ar livre ou em laboratórios, e todo o ensino; não digo prático, senão objetivo. A teoria saía sempre da prática como conseqüência natural, quase sempre induzida ou deduzida pelo próprio estudante. (OITICICA, 1948, p. 5).

Para tornar clara a exposição do método de ensino do Colégio Latino-Americano, José Oiticica apresentou aos professores e ouvintes de seu programa radiofônico alguns exemplos

52 das aulas ministradas em seu Colégio. Desses exemplos, dois valem a pena serem conhecidos. Trata-se das primeiras aulas de Geometria e de Química:

A primeira aula de geometria era dada no campo com um goniômetro e era o professor nada menos que o atual general, suponho de cavalaria, José Octaviano da Silva, então cadete da Escola Militar, que poderá atestar o fato. Com a medida de terrenos, iam estudando os alunos paralelas, perpendiculares, ângulos, paralelogramas, todas as noções fundamentais da geometria.

Nas aulas de química, iniciavam-se na técnica mais elementar: lavagem de vidros, curvamento de tubos, furamento de rolhas, lutamento de tubuladuras, construção de alambiques, destilação de água para os reagentes e, depois, reconhecimento dos sais, etc. No preparo dos reagentes lá vinham um sem número de noções sobre ácido clorídrico, sulfúrico, azoto, cloreto de bário, etc. (OITICICA, 1948, p. 5)

Nas duas aulas exemplificadas, a teoria estava vinculada à prática em laboratórios improvisados pelas ações didáticas do professor. Os alunos aprendiam juntos. Os mais adiantados ensinavam os novos e não havia castigos, punições ou coerções. O professor buscava estimular o gosto e a curiosidade dos alunos com atividades, experiências e depois propunha a elaboração de um relatório. Os alunos tinham que escrever sobre as experiências com a aprendizagem:

Os alunos novos iam sendo incorporados aos antigos e começavam a receber lições não do professor, mas dos companheiros que os mandavam fazer o que tinham feito, até, pouco a pouco, se irem enfronhando na prática de laboratório. Ao mesmo passo uma vez por semana, o professor fazia experiências divertidas com explicações complementares: preparo de um voltâmetro, verificação experimental da fórmula H2O, recomposição da água pela combinação explosiva dos dois elementos por eles mesmos decompostos, etc. Os alunos tinham que depois escrever um relatório que era corrigido na redação, no estilo, nas observações consignadas.[...] tudo isso era obtido sem bulha nem matinada, sem um castigo, brincando pode-se dizer; [...](OITICICA, 1948, p. 6)

O esporte estava no rol das práticas do Colégio Latino Americano.49 O advento do futebol nos anos 1900 levou Oiticica a organizar a Associação Sportiva do Collegio Latino

Americano, um desdobramento da intensificação da prática desse esporte naquele período. Nessa fase, as práticas esportivas se “literalizavam”, nos jornais da época, como afirmou Broca (2004, p.155). Nos periódicos da imprensa libertária, as opiniões sobre o novo esporte estavam cindidas entre aqueles que o aprovavam e o associavam ao helenismo grego, e aqueles que o reprovavam sob vários argumentos, entre os quais o fato de ser uma prática

49 O registro jornalístico da participação do time “Colégio Latino Americano” em um campeonato de futebol ocorrido em 1906, no Rio de Janeiro mostra que este esporte estava entre as atividades do Colégio Latino- Americano. < http:///www.paginas.terra.com.br/esportes/esssil/tables/rj1906>, acesso em 17de setembro de 2007.

53 introduzida pela burguesia estimuladora de discórdias. Pode-se afirmar que José Oiticica, pelo incentivo à organização do time de seu colégio do Leme, enquadrava-se no primeiro grupo.

A experiência de Oiticica em seu Colégio serviu como parâmetro de comparação em relação ao seu trabalho pedagógico no Colégio Pedro II, o padrão de ensino secundário no Brasil. Segundo os seus argumentos, ele não conseguiu comprovar no Colégio Pedro II a eficácia de seu método de ensino, porque nunca lhe ofereceram condições organizacionais para implementar a sistematização por ele defendida, e argumenta que:

Por mais que pareça impossível, absurdo, incrível o que vos vou dizer é a puríssima verdade: jamais consegui no Colégio Pedro II, colégio padrão do Brasil, acompanhar uma turma da primeira à quinta série e isso apesar de meus contínuos protestos e súplicas. A organização dos horários, respondem, não permite. O mais que obtive foi acompanhar uma turma nos dois primeiros anos. De modo que toda a minha sistematização vai por água abaixo com professores outros, com métodos diversos ou sem métodos, assíduos ou não. (OITICICA, 1948, p. 23).

Após este desabafo que potencializou sobremaneira a positividade da organização de seu colégio do Leme e que desmistificou o adjetivo “padrão do Brasil” atribuído ao Colégio Pedro II, Oiticica justifica as dificuldades que teve em fazer com que as suas propostas fossem comprovadas e diz:

Sendo assim, nunca me foi dado mostrar de público e perante as autoridades pedagógicas do Brasil a que resultados poderia eu chegar aplicando as idéias que vos deixo tosca e apressadamente expostas. (OITICICA, 1948, p. 23).

A organização dos conteúdos a serem ministrados em seu colégio era um dos pontos mais importantes de sua metodologia experimentada em seu Colégio Latino-Americano. A sua experiência com a “sistematização” dos conteúdos das disciplinas nos “processos de ensino” adotados em seu colégio do Leme levou-o a propor e a defender a sistematização do ensino de Português nas escolas. Ao seu juízo, a ausência de sistematização foi a maior causa do insucesso educacional do Brasil. Mas o que era essa sistematização? Ela consistia em alguns procedimentos, como, por exemplo, “respeitar o tempo de aprendizagem de cada aluno, escalonar o mais simples e depois o mais complexo, à parte e depois o todo, o estímulo da observação para a dedução e a apresentação de certezas” Essa experiência adquire clareza quando remetida ao debate mais amplo em que as concepções que alimentaram esta iniciativa escolar estavam sendo discutidas também no projeto da escola nova, entretanto era uma discussão mais amiúde nos projetos da educação libertária.

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