• No results found

Grunnopplæring for voksne

Del II Vurderinger og tiltak

4.6 Grunnopplæring for voksne

A apresentação do estudo às famílias fez-se quer na CPCJ quer telefonicamente. Sobretudo para os processos mais antigos, de 2006, houve necessidade de procurar, insistir, telefonar inúmeras vezes para diversos números até encontrar os progenitores/ cuidadores. Em alguns deles não foi possível chegar a contactos válidos, pelo que as entrevistas não puderam ser realizadas. Noutros casos, apesar de conseguirmos os contactos, ao

72

apresentarmos o estudo, os progenitores/ cuidadores recusaram a sua participação. De salientar que alguns destes processos já tinham sido arquivados na CPCJ, daí a dificuldade acrescida de contactar os progenitores/ cuidadores.

Na apresentação do estudo, eram identificados os seus objectivos, a origem institucional da investigadora e o que se pretendia com a entrevista. Houve a necessidade constante de salientarmos a nossa não pertença/ distância da CPCJ, uma vez que sabendo que tínhamos obtido o seu contacto através da mesma, os entrevistados ficavam um pouco apreensivos (sobretudo por dizer respeito aos seus filhos e à sua situação familiar). Claro que o perigo dentro de portas levantava algumas questões éticas ao investigador (Dias, 1994). Antes de iniciar as entrevistas ponderámos seriamente sobre questões muito semelhantes às que Dias (1994: 236) enfrentou numa das suas pesquisas: “como proteger os indivíduos da exposição pública e, ao mesmo tempo, conduzir a pesquisa livremente e publicar os seus resultados? Como respeitar a privacidade da família? Como conseguir o pleno consentimento dos indivíduos sem omitir os objectivos da pesquisa?” Como manter a confidencialidade e o anonimato perante a suspeita, na entrevista, de situações de perigo para as crianças? Por ser um tema difícil de abordar, focando áreas muito privadas e até dolorosas da vida (Dale, 2004: 139), pela carga emotiva que transporta e por esta “intromissão” na vida privada das famílias, as dificuldades no desenvolvimento do trabalho de campo avistavam-se como um obstáculo que teria de ser ultrapassado recorrendo a estratégias cuidadosas, nunca descurando a cientificidade.

Em nenhum dos casos nos apercebemos de sinais de perigo para a criança, mesmo nas famílias cuja criança já não tinha processo na CPCJ por ter sido arquivado. Reconhecemos que o efeito da desejabilidade social é muito forte neste tipo de situações, não sendo numa hora de entrevista que se percepciona claramente a presença de perigo, mas alguns sinais que podiam surgir da existência de perigo não apareceram em nenhuma das situações de entrevista. Claro que a curiosidade dos técnicos da CPCJ sobre como decorrera a entrevista e até como estava a habitação, visto que a maioria fora realizada no domicílio dos progenitores/ cuidadores, era grande. A visita da investigadora ao domicílio das famílias foi, em alguns casos, a primeira de alguém externo à família, o que causava algumas perguntas dos técnicos que acompanhavam essas famílias e acabava por preencher uma lacuna que os próprios técnicos sentiam. As próprias famílias referiam muitas vezes a necessidade dos técnicos visitarem a sua casa, para verificarem as suas condições habitacionais, como forma de garantir que a criança estava bem.

73 “- Eu dizia:

- “Mas porque é que não vão lá a casa ver o que é que se passa?” Vão lá ver o quarto do meu filho.”

(Cláudia, 37 anos, auxiliar de educação, negligência) “- algum técnico devia deslocar-se a casa p’ra ver em que situação é que a criança vive”

(Carina, 31 anos, chefe de cozinha, abandono) “- A melhor opção sempre é pegar nas pernas, chegar a casa, bater à porta, identificar-se:

- Somos da comissão não sei quê, recebemos uma notificação, um aviso, um pedido de ajuda, uma denúncia, assim, assim, assim, queremos saber o que é que se passa”.

Desde que identificados. Ora eles têm um mandato do tribunal… eles são uma instituição extrajudicial, têm mandato para poderem intervir… é assim que eu entendo.”

(Fernanda, 47 anos, responsável de compras, exercício abusivo de autoridade)

Antes de iniciar a entrevista, os entrevistados leram e assinaram uma declaração de consentimento informado, tomando conhecimento dos objectivos, autorizando a gravação áudio para posterior transcrição da entrevista para fins científicos e a entrevista ao(s) seu(s) filho(s) caso se revelasse necessário. Depois de cada entrevista (com uma duração média de 60 minutos) foi preenchida uma ficha sobre o contexto da mesma, na qual constavam também os dados sociográficos do entrevistado. Nesta ficha registavam-se pormenores do contexto da entrevista que viriam a ser úteis quando fosse transcrita, codificada e analisada: por exemplo, o nervosismo da pessoa, a fuga do olhar ao investigador, a hesitação em responder a determinadas perguntas, entre outros.

A investigação é “algo que se procura. É um caminhar para um melhor conhecimento”, (Quivy e Campenhoudt, 1998: 1), conhecimento esse que “é construído através da interacção entre o entrevistador e os papéis do entrevistado”, (Kvale, 1996: 127). Portanto, as entrevistas tiveram como objectivo “obter descrições qualitativas da vida do entrevistado, respeitando a interpretação do seu significado”, (Kvale, 1996: 124), e tivemos em atenção todo um conjunto de fontes que nos ajudam a perceber o mundo do entrevistado: “palavras, tom de voz, expressões e gestos no fluir natural da conversa”, (Kvale, 1996: 125). O investigador precisa de criar um ambiente de empatia e uma atmosfera na qual o entrevistado se sinta livre para falar sobre a sua vida (ibidem). É interessante notar que o facto da investigadora ser portadora de uma pronunciada barriga de seis meses de gravidez nas primeiras entrevistas, despoletou uma imediata empatia com muitos entrevistados, na sua maioria mães, quebrando o gelo de forma inesperada ao fazerem perguntas sobre a gravidez, se já sabia se era menino ou menina, sobre a sua experiência, se era o primeiro

74

filho, entre outras. Rapidamente o entrevistado era o entrevistador, e subtilmente a investigadora tinha de ir aproximando a conversa do propósito que ali a levava. Sobretudo por ser uma pesquisa centrada na família, nos filhos, nas vivências da parentalidade, muito ajudava o facto de estar grávida. A relação era estabelecida de uma forma espontânea.

Costa (1990: 145) refere que algumas características sociais do investigador podem condicionar o processo de recolha de informação e realmente notámos isto inúmeras vezes. Também pelo facto da investigadora ser mais nova que a grande maioria (com excepção de dois) dos entrevistados, levou a que não houvesse a tendência dos entrevistados se sentirem numa posição inferior face ao investigador, esbatendo a natural assimetria de poder que se verifica em situações de entrevista. Era como se sentissem melhor por serem mais experientes, mais conhecedores da criança e com conselhos para dar sobre como lidar com os filhos (sobretudo agravado pelo facto da investigadora ainda nem sequer ter filhos nascidos).

O guião de entrevista foi construído com base no modelo ecossistémico anteriormente apresentado (cf. quadro III.1) centrando-se em quatro blocos fundamentais: o primeiro referente à caracterização do agregado familiar de origem do entrevistado, questionando-o sobre as práticas educativas recebidas, bem como as dinâmicas familiares; o segundo sobre o agregado familiar de constituição (Dias, 2002), focando características da criança, interacções familiares pais – criança, estratégias educativas aplicadas, estratégias para ultrapassar problemas de vária ordem, interacções entre o casal. O terceiro núcleo focava o emprego, as condições económicas e o suporte social da família; e ainda um quarto sobre representações e práticas da parentalidade, os direitos da criança, atitude face à violência física e psicológica sobre crianças e adultos. O último bloco de questões referia-se à CPCJ, a importância da sua existência, a adequação e pertinência da sua intervenção, bem como o conhecimento do motivo da sinalização do seu filho e o decorrer e encerramento do seu processo.

Nos trinta e quatro processos dos quais foi possível fazer vinte e oito entrevistas37, apenas um dos progenitores/ cuidadores foi entrevistado, por vários motivos: primeiro porque em muitos processos só conseguimos acesso telefónico a um deles (o outro ou não atendia a chamada ou o número já não estava atribuído); depois, porque a nossa prioridade era entrevistar os progenitores/ cuidadores do maior número de processos possível; por último porque quando o progenitor/ cuidador B sabia que o progenitor/ cuidador A já tinha sido entrevistado, considerava desnecessário participar também, visto que o filho era

37

Os processos dizem respeito a crianças, sendo que as entrevistas foram feitas a progenitores/ cuidadores, alguns deles de várias crianças simultaneamente - por serem irmãos - daí a diferença entre o número de processos e de entrevistas.

75

comum. Apesar dos esforços para obtermos um número equivalente de pais e mães entrevistados, não foi possível ir além dos quatro pais, conseguindo entrevistar vinte e três mães e uma irmã mais velha. Esta dificuldade fora aliás constatada por Hardy & Darlington (2008: 254), bem como em estudos anteriores, uma vez que para além das crianças estarem na sua maioria à guarda das mães, os homens mostraram mais relutância em participar em estudos relacionados com a família.

Após o trabalho de campo e a realização das entrevistas, a investigadora fez incursões esporádicas à CPCJ como forma de acompanhar os processos da amostra que ainda se encontravam abertos na comissão. Para além disso foi fundamental o acompanhamento feito quando os processos eram arquivados na CPCJ e remetidos para tribunal ou para outra comissão. Neste sentido, consultámos dez38 processos em outras quatro CPCJ da Área Metropolitana de Lisboa e ainda quatro39 processos num dos Tribunais de Família e Menores da mesma região. Neste tribunal foi-nos, naturalmente, dada autorização para consulta dos processos e até reprodução de peças processuais consideradas essenciais para a nossa análise, mas onze processos não chegaram a ser encontrados, pelo que lhes perdemos o rasto40.

Por último consideramos pertinente referir que de todos os processos foi feita uma síntese em tabela de modo a perceber não só as diligências feitas, mas também quanto tempo demoravam os processos até serem arquivados. Assim, concluiu-se que em média os processos tinham a duração de 14 meses, como veremos adiante com mais pormenor.