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O professor Valter, de História, diversas vezes mencionou a dificuldade de os alunos se concentrarem nas aulas, devido a uma grande quantidade de meios disponíveis para a veiculação de informações, o que prejudica o nível de atenção dedicado tanto ao professor, quanto aos livros (que não são lidos porque são chatos), e até mesmo às mídias que, por si sós, também não são capazes de conquistar a atenção dos jovens por um tempo prolongado. Em função disso, suas considerações a respeito das dificuldades dos alunos e das possíveis causas aparecem sempre associadas a um contexto mais abrangente que o da sala de aula e mesmo da escola:

Pesquisadora: (...) procure explicar quais são as causas que você acha, as causas dessas

dificuldades dos alunos (...)

P_H: É que assim, eu associo isso muito ao patamar que a sociedade brasileira está

chegando, né, cada vez mais ela se adéqua a um mundo globalizado, mas a população não está sabendo criar soluções, (...) na reunião de pais, um pai chegou pra mim e perguntou por que a gente não tem uma disciplina chamada “educação”, pra que a gente educasse os filhos deles, (...) eu gosto de dizer eu sou um professor de História, minha disciplina é História, eu estou aqui pra ensinar História porque ela é edificante para o ser humano (...)

P_H: (...) então eu tenho que ensinar o menino a ficar em silêncio e se comportar na frente

de um adulto, não, essa é uma função dos pais, é uma função do responsável legal dele, quando ele está na minha sala, eu sou o tutor dele, eu sou o cara que os ensina a matéria pela qual sou graduado, então eu tenho que ensinar a ele isso, só isso, eu não estou dizendo que numa situação social eu não vou pegar e ajudá-lo nesse sentido, mas a minha função é só essa, eu acho que os pais não estão sabendo criar seus filhos [Apêndice J]

A fala do professor encerra uma reflexão a respeito da própria identidade e função docente, já que, afinal, quem é o professor? Que funções ele deve desempenhar? Parecem questões simples, mas uma resposta simples a essas questões – o professor é um profissional formado e habilitado para ensinar e promover a aprendizagem dos alunos numa determinada área do conhecimento – não dá conta de todos os desafios cotidianamente enfrentados pelos professores nas salas de aula. Para o professor Valter, os pais, em um reflexo da falta de habilidade da sociedade como um todo para resolver problemas, eximem-se cada vez mais da

função de educar seus filhos, ao mesmo tempo em que a escola é cada vez mais responsabilizada por tal tarefa. Poderíamos questionar em que tais aspectos interferem na aprendizagem dos alunos. Como lembra o professor Valter, existe um discurso que demanda da escola uma capacidade quase ilimitada para motivar os alunos a se envolverem nas atividades escolares, mas os recursos disponíveis e, em última instância, a formação do senso de responsabilidade e compromisso dos alunos tem sido seriamente comprometida. Um outro trecho da entrevista do professor Valter evidencia um fator que provavelmente subjaz ao sucesso de muitos alunos na escola pública:

P_H: Eu falo nas reuniões “façam os seus filhos estudarem uma hora por dia”, uma hora,

isso vai dar dez minutos pra cada matéria, os meus melhores alunos estudam quatro horas, fora da escola, esses eu sei que vão pegar bem (...) [Apêndice J]

Destacamos, partindo dessas considerações, que é muito importante desmistificar a ideia de que a escola pública é um lugar que inviabiliza a aprendizagem dos alunos. A despeito das dificuldades, há fatores que contribuem para o sucesso de alguns alunos. Não queremos, contudo, induzir à afirmação de que tudo depende exclusivamente de atitudes individuais, pois isso faria recair sobre os próprios alunos e sobre os próprios professores a culpa pelos insucessos reiteradamente demonstrados em avaliações institucionais, cujas intenções deveriam ser criticamente consideradas no sentido de desvelar o que está por trás de índices que comparam níveis de desempenho de alunos e profissionais que vivenciam realidades tão distintas. Há, sim, alunos que estudam mais e que, também por isso, conseguem melhores resultados em termos de aprendizagem dos conteúdos escolares. No entanto, é preciso considerar que fatores e condições favorecem, dificultam ou inviabilizam que todos os alunos tenham a mesma disposição para estudar e aprender.

Na visão do professor Valter, é preciso haver uma mudança radical na maneira de enxergar o mundo, pois, segundo afirma, os jovens agem como se o mundo fosse “uma grande brincadeira”. Para isso contribuiria, além da omissão familiar, também a esfera legal:

P_H: Então pra eles está tudo certo, “pra que eu vou me preocupar com esse professor na

minha frente, se, por exemplo, eu sou indestrutível e eu passo de ano se eu não faltar?”, o sistema também ajuda eles, eu estava dizendo, o ECA pra mim deu muita liberdade pra eles, e eles não sabem utilizar, precisa de uma mudança profunda na mentalidade deles, nós somos só uma das pontas, a outra ponta que também tem que ficar puxando eles, não puxa, (...) a figura do pai não é uma figura de restrição, não é uma figura que vai impor limites, é uma figura pra brincar no fim de semana, se o menino se espelha no pai, de acordo com Freud, então ele vai brincar o tempo todo, por que não? O pai dele faz isso,

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essa é a profissão do pai dele, então ele não vai ligar pra autoridade, por exemplo, não tem autoridade em casa, a autoridade que tem na escola é fraca, é fraca, é errada, não é só eles não, os próprios pais colaboram com isso (...) [Apêndice J]

Diante desse quadro de crise da autoridade, tanto da família quanto da escola, o professor Valter ratifica sua posição segundo a qual o professor precisa ser querido pelos alunos, conquistar a sua afeição ou, no mínimo, o seu respeito, à base de muita negociação e cortesia. Nesse sentido, afirma que nunca eleva o tom da voz, salvo em situações muito graves (quando os alunos se agridem fisicamente, por exemplo), e sempre trata os alunos com educação e cortesia para que estes desenvolvam atitudes semelhantes.