Vamos começar por uma definição. As fake news consistem em notícias produzidas com a intenção explícita de distorcer a verdade (DALMAZO; VALENTE, 2018). Elas não se confundem com outros fenômenos semelhantes, como é o caso das paródias, cujo objetivo central é o entretenimento. A finalidade das notícias falsas é justamente confundir a audiência, em nome de um ponto de vista ou ideologia, da má-fé ou do voluntarismo de quem as produz. Pretende-se com isso usar a informação como arma no embate ideológico, não como peça do quebra-cabeça da verdade.
As notícias falsas ou fake news, como estão sendo chamadas mesmo em português, merecem um destaque proporcional ao seu efeito nos últimos acontecimentos em nível mundial. Recapitulando, teríamos, apenas nos cinco anos precedentes, os seguintes fatos que teriam sido impulsionados ou mesmo totalmente construídos a partir das fake news: vitória de Donald Trump na eleição presidencial nos Estados Unidos, saída do Reino Unido da União Europeia, vitória de Jair Bolsonaro no Brasil. Isso para ficarmos nos mais conhecidos, aqueles que têm dimensão política e que, portanto, afetam a vida de milhões de pessoas no mundo todo.
Desde que as redes sociais passaram a ser usadas como arma política, a presença das fake news se tornou uma questão incontornável para o debate público. No centro desse debate está a questão da verdade e do que ela representa para a democracia (GUROVITZ, 2016). Afinal, como bem sabemos, a verdade tem um valor em si mesmo, servindo como correspondência entre a percepção e o mundo externo. Essa correspondência, que acaba por guiar a ação humana, é o que tem servido como base para a ciência e a organização das sociedades
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seculares. É uma acepção que concorre com a tradicionalmente associada à política. É o jornalista Helio Gurovitz (2016, p. 1) quem lembra que há
duas acepções distintas para a palavra verdade. Simplificando um debate ainda em curso entre filósofos sobre como distingui-las, uma verdade pode ser chamada de “factual”. A outra, de “racional”. A primeira é incontestável, deriva de raciocínio lógico, conhecimento científico, testemunhos e provas documentais. A segunda, de interpretações e valores – está sujeita a debate.
A primeira tem por base os fatos verificáveis mediante registro; a segunda se assenta na argumentação, no debate de ideias. Mas a fronteira entre as duas passou a ser objeto de discussão recentemente: há gente que questiona por exemplo a existência do Holocausto, ignorando todas as provas acumuladas da existência dele.
Como consequência perniciosa dessa situação que ganhou fôlego com o advento das redes sociais, as novas gerações correm o risco de desprezar a verdade construída por cientistas e historiadores, adotando em seu lugar aquela que lhes parecer mais conveniente. O revisionismo coloca em xeque as profissões que se dedicam a trabalhar com a verdade – entre elas a História.
O movimento de reescrever a História a partir de sua própria conveniência já é conhecido de todos aqueles que detêm um mínimo de conhecimento... histórico. É o que nos lembra ainda Gurovitz, relembrando a política de “apagamento” dos adversários adotada pela ditadura do proletariado na União Soviética e estendendo tal entendimento ao que se passa na política contemporânea:
É por isso que reescrever a história, a ponto de apagar das fotos a imagem dos assassinados nos expurgos, era tão importante para Stálin. Também por isso, faz sentido que políticos denunciados na Operação Lava Jato, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o ex-deputado Eduardo Cunha, contestem os fatos com tanta veemência e desfaçatez. Ou que o presidente-eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, minta com tamanha cara-de-pau. Eles não estão no jogo da verdade, mas no jogo do poder. Disfarçar mentiras ou opiniões de verdades factuais é um modo extremamente eficaz de persuasão, ingrediente essencial para a conquista e o exercício desse poder. (2016, online)
O grande problema dessa tendência de reduzir tudo à opinião e ao ponto de vista é que ela solapa a base sobre a qual se erguem áreas que trabalham com a verdade factual, como é o caso da Justiça, do Jornalismo, da História, da Filosofia e tantas outras. Elas estão interessadas na verdade factual e não na dita verdade racional – que se ocupa de pontos de vista acerca dos
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fatos. Seguindo o mesmo autor em sua explanação, ele pontua a diferença entre as perspectivas:
A diferença é que, enquanto os políticos ou aqueles que vivem de opiniões e persuasão querem mudar o mundo, dar-lhe a melhor forma segundo seus interesses, crenças e ideologias, quem se ocupa da verdade factual – filósofos, cientistas, acadêmicos, juízes, jornalistas e, espera-se, hoje também programadores – não pode nem mesmo se arrogar o dever de travar uma luta que é, em sua essência, interna ao universo da política. [...] O trabalho de todos eles, embora fundamental para a saúde do ambiente político, está, por definição e necessidade, fora dele. Exige “não- compromisso e imparcialidade, liberdade de interesses privados no pensamento e no julgamento”. São na maioria profissões cuja necessidade é óbvia, reconhecida pelos próprios políticos e defendida nas constituições democráticas. (2016, online)
O diagnóstico feito pelo autor ajuda-nos a entender o que se passa atualmente com a verdade na História. Embora dedicando-se ao jornalismo no texto em análise, Gurovitz estende suas conclusões para áreas afins, como é o caso daquela em que atuam os historiadores. E conclui que a crise por que passam as áreas que se ocupam da verdade factual tem relação direta com a mudança tecnológica das últimas décadas. Novamente, estamos falando sobre TIC. De fato, o surgimento da internet e das redes sociais deu vazão a uma série de fenômenos que, olhados sob a perspectiva do historiador, trazem questionamentos aos cânones da profissão.
No caso do ensino da História, as preocupações estão centradas no debate acerca da reescrita do passado por parte de segmentos radicais, a par do necessário debate acerca da legitimidade de um olhar mais plural sobre o registro histórico. Pois se de um lado há um legítimo movimento de reescrita da história, a partir da versão dos segmentos que foram alienados pela historiografia “oficial” – como os negros, as mulheres, os gays etc. –, de outro lado, e mais recentemente, há uma crescente insurreição contra os parâmetros que definem a verdade histórica e científica.
É preciso distinguir entre o revisionismo legítimo das minorias que foram historicamente caladas pela versão oficial e o revisionismo ilegítimo dos grupos extremistas que tomaram o debate público nos últimos anos.
Movimentos de negação de fatos históricos como o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial já são objeto de grande preocupação entre os estudiosos de todos os quadrantes (GUROVITZ, 2016; ORTELLADO, 2018; MARDA; MILAN, 2018). Questiona-se, nesse revisionismo
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espúrio, a própria noção de verdade, que passa a ser relativizada em prol de interesses presentes de grupos em busca de poder.
Outros movimentos há que questionam inclusive o fato cientificamente comprovado de que a Terra é redonda. O chamado movimento terraplanista já angariou uma série de seguidores no mundo todo, e eles se mostram infensos à lógica da ciência, por mais que sua crença na terra plana seja negada pelos fatos científicos (GOES, 2019).
Figura 7 – Site oficial do movimento terraplanista
Fonte: https://theflatearthsociety.org/home/. Captura de tela.
Tudo isso seria cômico se não fosse trágico, na medida em que tais pessoas podem, quando em posição de poder, cercear o pensamento racional e o método científico.
Até que ponto é legítimo questionar o registro histórico e as fontes documentais em nome desse relativismo? E o que essa situação pode nos ensinar sobre a relação entre as TIC e a História?
Para começar, ela pode nos auxiliar a reavaliar o nosso fazer como historiadores, a partir da percepção de que a disseminação de novas tecnologias, por si só, tem um alto poder de mudança sobre o conhecimento. O questionamento suscitado hoje em dia diante dos mais
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prosaicos fatos que há décadas eram dados como inquestionáveis é ele mesmo um tema para ser explorado na reflexão sobre o impacto que as TIC podem ter sobre o mundo e o conhecimento. Qual o limite entre a opinião e o fato?
A nosso ver, seja qual for o limite, é imprescindível que avaliemos a noção de fontes históricas e que reflitamos, junto com os alunos, sobre o que faz a legitimidade de uma determinada fonte.
Por exemplo, é necessário refletir sobre o papel das instituições nesse processo de escolha das fontes confiáveis: assim como os institutos de pesquisa e a imprensa séria ainda ocupam um lugar de autoridade privilegiado em relação a outras fontes, é preciso entender por que as coisas são assim. Uma das razões, que nos parece um ponto de partida interessante para o debate com a turma da disciplina de História, é o processo de controle e de avaliação exercido pelos pares.
Por mais que haja possibilidade de questionamentos sobre a verdade factual que embasa o registro do historiador, há também uma série de fatores que contribuem para fortalecê-la. É o caso, por exemplo, da pressão exercida pelos pares e pela opinião pública, em se tratando de institutos de pesquisa científica e da imprensa tradicional respectivamente.
As instituições podem servir como filtros – embora não infalíveis – das notícias falsas, na medida em que funcionam com base em lógica distinta da comunicação das mídias sociais. O tempo, o contexto comunicativo, os órgãos dos sentidos – tudo funciona em outro registro, e essa diferença é fundamental para que se entenda a relação com a verdade subjacente a cada processo comunicativo.
Ao nos depararmos com uma notícia produzida pela imprensa tradicional, por exemplo, podemos indagar acerca do trabalho de produção daquela notícia – a equipe responsável, o tipo de procedimento, a linguagem utilizada. O mesmo pode ser feito ao analisarmos um artigo científico, publicado em revista especializada: como é feita a seleção dos textos, quais os autores que são referenciados na bibliografia, quais os procedimentos metodológicos. Na mesma linha de verificação, podemos analisar a informação oriunda de rede social: onde foi divulgada, por qual grupo, como foi construída. A comparação entre essas diferentes fontes é por si só ilustrativa do que podemos obter para a discussão sobre a História ao considerar o impacto das fake news e das TIC sobre a realidade.
Com isso, se pode instigar o aluno a refletir e a agir no sentido de testar suas próprias fontes quando desafiado a encetar uma pesquisa na disciplina de História. Em outras palavras,
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não basta crer na primeira informação com que nos deparamos. Isso vale para o pesquisador como para o aluno que começa a buscar informações para dar seus primeiros passos na disciplina de História.
A atitude de vigilância – epistemológica – diante da informação é um primeiro passo para que possamos construir um registro confiável das personagens e fatos históricos.
Todavia, como vimos, é bastante disseminada nos dias de hoje a informação falsa – as fake news em sentido amplo –, o que traz consequências potencialmente danosas para o debate público e para a saúde da democracia. Parece-nos que está aí uma boa oportunidade de encetar o debate sobre a importância de selecionar com critérios as fontes históricas.
Até que ponto, por exemplo, podemos confiar no que recebemos pelas mídias sociais – WhatsApp, Facebook, Twitter etc.? Essa informação foi elaborada por quem? De onde foi retirada? Que tipo de linguagem utiliza? Quais as fontes em que se baseia?
Mesmo nas situações prosaicas que alimentam o cotidiano, podemos suscitar a reflexão de nossos alunos.
São questões que ajudam a criar uma visão crítica sobre o que consumimos em termos de informação midiática. Diversos estudiosos das fake news vêm somando esforços para educar as novas audiências no consumo de informação (GUROVITZ, 2016; DALMAZO; VALENTE, 2018). Resultam desses esforços os tutoriais e manuais que reúnem dicas de como analisar a veracidade de uma informação colhida nas redes sociais. Elas vão da análise do texto da notícia – excesso de adjetivos para captar o leitor, linguagem sensacionalista etc. –, passam pelos marcadores macrotextuais – como títulos, “cartolas” e vinhetas –, e vão até a referência às fontes consultadas pela reportagem e à assinatura do jornalista.
São dicas elementares e, a nosso ver, extremamente úteis, sobretudo para o discente que se vê incumbido de pesquisar para a disciplina de História. Considerando a onipresença das mídias digitais e dos aparelhos de comunicação – computador, laptop, celular, iPhone etc. –, o aluno fatalmente vai acessá-los para realizar sua pesquisa. Sabendo disso, cabe ao professor dar-lhe os subsídios para que esse uso seja bem efetuado e possa servir de base para o registro histórico.
Com isso, podemos avançar de forma mais segura, ao mesmo tempo em que suscitamos uma série de questões relevantes para o ensino da História. Afinal, a fonte é o começo, a base sobre a qual se erigem os relatos. Para que os relatos sejam minimamente confiáveis, é preciso submetê-las ao escrutínio cuidadoso que sempre marcou a investigação
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histórica – sobretudo numa época marcada pelas fake news e todas as formas de falseamento da verdade.
O passo inicial pode ser dado com as dicas de verificação sugeridas pelos autores que têm estudado o assunto (DALMAZO; VALENTE, 2018). A partir dele, se podem conduzir debates de cunho metodológico e epistemológico: Como proceder diante da dúvida acerca da veracidade da informação encontrada? O que este procedimento pode nos ensinar sobre a construção da verdade histórica?
O problema das notícias falsas não é exclusivo de nossa época. Mas talvez ele tenha sido impulsionado em grande medida pelo ambiente em que vivemos imersos, sobretudo pelo advento das mídias digitais e sua capacidade exponencial de difundir informações. Afinal, em um sentido filosófico, a verdade é um conceito difícil de definir, pois que abrange desde a noção de correspondência entre fato e relato até a relatividade do ponto de vista como possibilidade interpretativa (GUROVITZ, 2016). Nos últimos tempos, inclusive, a expressão “pós-verdade” ganhou espaço no debate político, entendida como deliberada ignorância acerca da verdade factual e usada como arma argumentativa entre diferentes pontos de vista...
Os tempos, definitivamente, não estão nada propícios às profissões e áreas do saber dedicadas a trabalhar a partir da noção de verdade. E as mídias digitais e sociais parecem ter muito a ver com esse estado de coisas. Disso decorre a necessidade de analisá-las, de compreender o mecanismo que elas instauram e de ampliar o debate público, ainda que não saibamos ao certo o alcance que a esfera pública tradicional detém hoje, nem a fatia que as mídias digitais abarcam desse espaço.
Iniciativas como a regulação mais apurada dos novos grandes players da era digital – Facebook, Google, Amazon – podem ser um caminho, assim como a regulação estatal, que já vem sendo efetivada em alguns países (MARDA; MILAN, 2018).
As fontes são parte essencial nesse processo: checá-las é uma tarefa que cabe a todos os profissionais que têm compromisso com a verdade. Iniciativas como a criação de agências de checagem são valiosas no processo de fortalecimento daquela busca e já rendem seus frutos na forma de dicas e recomendações para a população diante de mensagens jornalísticas.
Vimos no capítulo anterior, na reconstituição histórica da evolução da tecnologia, que a comunicação oral opera em uma lógica diferenciada da escrita, e talvez aí tenhamos uma pista do que se passa com as fake news. Elas estão sendo difundidas pela mesma lógica que se observa na fofoca e no boato, só que agora essa fofoca e esse boato têm um poder de difusão
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em escala global. Daí advêm os perigos e desafios impostos pelas novas tecnologias, assim como podem advir suas potencialidades. Alguns cuidados elementares se fazem necessários para que o aluno não seja mais um propagador de informação falsa.
Checar as fontes, ouvir mais de uma fonte, comparar o que elas dizem: eis alguns antídotos para a difusão da mentira e da falsidade via mídias digitais.
Para o historiador, eis uma grande oportunidade de refletir sobre seus métodos de trabalho e sobre a essência de sua atividade – inclusive para avaliar o lugar que esta ocupa no debate contemporâneo. Debates em sala de aula, seminários acadêmicos, atividades didáticas e reflexões epistemológicas são algumas das ocasiões em que podemos questionar a construção da informação histórica, bem como o papel que as fontes desempenham no processo, e nesse contexto cabe, a nosso ver, especial atenção aos fenômenos recentes que incidem sobre o assunto – como é o caso das fake news e sua propagação no mundo atual.
Até aqui analisamos como as fontes podem ser utilizadas no contexto da comunicação online, quais os cuidados necessários para seu uso e de que forma elas podem ser instrumentalizados em situações didáticas na disciplina de História. No segmento seguinte, vamos trazer alguns pontos acerca da narrativa histórica resultante do uso da tecnologia. De que maneira as TIC têm impactado sobre a narrativa feita no âmbito da disciplina de História?