Part I - C ∗ -completions of Hecke algebras
3.5 A counter-example
De forma sintética, os significados, conteúdos e atividades atrelados ao valor social “Estado interventor em ação” estão apresentados na Figura 26. Observam-se os dois significados associados ao valor social (representação do Estado interventor no exercício da profissão; e representação do Estado interventor impositivo no exercício da profissão), juntamente com os conteúdos e as atividades conectadas.
Figura 26. Estado interventor em ação: significado, conteúdos e atividades. Fonte: Dados da pesquisa.
4.3.2 Estado provedor
Assim como configurado por meio da análise desenvolvida junto aos servidores da justiça, foi percebido que, para os servidores da saúde, o Estado, enquanto um “macro” valor social, vinculado ao conteúdo “servidores públicos”, também adquiriu o significado de provedor de serviços, benefícios e recursos. Semelhante à significação delineada junto ao grupo anterior, dois “micro” valores sociais surgiram associados ao significado indicado: o “Estado provedor de serviços à população” e o “Estado provedor de benefícios aos servidores”.
4.3.2.1 Servidor como intermediário do Estado provedor
Novamente, o valor social “Estado provedor de serviços à população” trouxe o significado do poder do servidor público enquanto intermediário do Estado que provê serviços destinados aos
indivíduos participantes da sociedade. Como conteúdo desse valor social, alguns servidores indicaram a corrente ou elo, no sentido de que eles próprios se percebem como elemento de ligação entre o serviço proporcionado pelo Estado e a população. O desenho colocado na Figura 27 explicita esse ponto de vista, bem como o trecho explicativo:
Figura 27. Desenho: Servidor como elo da corrente de prestação de serviço (S47). Fonte: Dados da pesquisa.
Para mim, o símbolo de poder poderia ser uma corrente, cada servidor é um elo, sabe? (...). Nós somos um elo da corrente que faz com que a necessidade do público seja gerada e seja reconhecida pelo próprio governo. (...) a gente tem a possibilidade de estar aproximando o cidadão comum do serviço público, de tudo aquilo que é oferecido pelo governo, que é muita coisa. (...) o próprio SUS, ele é uma imensidão, e atende uma quantidade enorme de pessoas, né? E é cada um, cada grãozinho lá, cada um daqueles servidores que faz com que aquilo funcione (S47).
Na mesma linha de pensamento, outro servidor representou a corrente como símbolo de poder do servidor enquanto agente de ligação entre o serviço público e a população, conforme se observa na Figura 28 e na explicação correspondente.
Figura 28. Desenho: Servidor como elo da corrente de prestação de serviço (S71). Fonte: Dados da pesquisa.
(...) no desenho, isso é uma corrente, malfeita, mas é uma corrente, né? É uma corrente que une os servidores e os usuários. O poder dos servidores é servir à população, fazer com que o benefício público alcance as pessoas que precisem desses benefícios. É o poder fundamental da área pública (S71).
A mesma perspectiva também foi representada por outro servidor no desenho contido na Figura 29, que indica o servidor como elo de ligação, que irá unir o cidadão ao serviço que ele necessita:
Figura 29. Desenho: Servidor como elo da corrente de prestação de serviço (S48). Fonte: Dados da pesquisa.
Então, no desenho, o servidor é esse aqui, é ele que é um elo aí. (...). É, um elo da corrente, por quê? Porque esse elo irá unir o cidadão (...) com o atendimento que ele precisa, ou com o serviço que ele venha a precisar, é isso, bem simples. No caso eu coloquei da saúde, mas isso aqui pode ser usado em qualquer serviço público, em qualquer atendimento, porque na verdade, eu compreendo que o servidor é o elo de ligação entre o cidadão com o serviço prestado pelo serviço público federal, estadual, municipal ou qualquer um deles (S48).
Destarte, como intermediário, o servidor “(...) tem o poder de garantir o funcionamento do Estado, e servir o público, no caso, servir bem o público” (S69), nesse sentido, ele tem o “(...) poder de ser necessário” (S70), isto é, “(...) nós somos necessários, de um modo ou de outro, o servidor público ele serve para o bem-estar de cada um, (...), nós somos necessários” (S70), “(...) muitos dependem da gente para alguma coisa, né? ” (S55).
Nesse tocante, o servidor “(...) tem um poder muito grande, porque, pelas nossas mãos passam todo tipo de atividade” (S47), “(...) a gente está dentro de uma organização, onde a gente tem que ter a capacidade de desenvolver o nosso trabalho e servir o público (S68), pois “(...) nosso poder está em servir às pessoas, orientá-las e solucionar o problema que elas trazem” (S65). Para tanto, “(...) tentamos fazer o melhor possível, atender melhor as pessoas, no nosso caso, aqui na administração, esse seria o nosso poder (S63), pois “(...) a gente representa eles aqui dentro, na minha função, a gente está representando, porque a gente está fazendo uma coisa que eles não têm autonomia para fazerem sozinhos” (S55).
Quanto ao aspecto exposto, o servidor também tem o poder de representar o cidadão, usuário do serviço, dentro da esfera pública. O servidor atua como um representante, de modo que a necessidade da população seja reconhecida e atendida, isto “(...) porque o servidor público serve como intermediário, quando ele leva as ideias (...) para os políticos, ou para as organizações, ele atua como intermediário para a população, para proporcionar melhorias” (S59).
Um ponto notável em relação ao valor social “Estado provedor de serviços à população” percebido pelos servidores da saúde e que, de certa forma, emergiu distinto da visão dos servidores da justiça, diz respeito à ênfase colocada na questão da humanização do serviço prestado: “Precisamos de mais humanidade, mais vontade para melhorar” (S63), dessa forma “(...) eu posso fazer o melhor possível, atender quem for da melhor maneira. Esse é o meu poder aqui” (S63), pois “(...) o que mais importa mesmo é o público, é o cidadão” (S47). Nessa acepção, a Figura 30 e o entendimento resultante retratam esse aspecto da humanidade enquanto poder:
Figura 30. Desenho: Humanidade (S73). Fonte: Dados da pesquisa.
(...) o desenho foi só um coração vermelho e humanidade. Porque eu acho que isso aí, não só para o servidor público, mas para qualquer ser humano, você, tendo o mínimo de humanidade, você pode chegar a algum lugar. Para mim, é um grande poder você agir com humanidade, seja prestando o serviço público, seja nas relações cotidianas. O servidor público deveria agir assim, eu acho que esse é um poder que ele tem e que deveria ser utilizado (S73).
A humanização enquanto um poder de intermediação, segundo os servidores da saúde, reflete na prestação de serviço com escuta, compreensão, empatia e acolhimento. “O servidor público também tem que ouvir, porque ouvindo a população, sem julgamentos, eu acho que tem como procurar aquela vontade, aquilo que é de interesse mútuo e servir como intermediário entre a prestação de serviço e a população (S59). Por esse ponto de vista, os servidores devem “(...) compreender as pessoas que os procuram, porque você tem que compreender o que a pessoa quer, e tem que compreender o seu serviço para melhor atender” (S59). Isto posto, “(...) a gente tem que na verdade humanizar esse atendimento para que a pessoa se sinta acolhida, né? ” (S47). A Figura 31 e a explicação do servidor expõem o poder de acolher e cuidar de quem necessita do serviço da saúde:
Figura 31. Desenho: Acolhimento (S69). Fonte: Dados da pesquisa.
Eu desenhei uma ‘pessoinha’ com braços abertos falando ‘acolhimento’. Assim, eu trabalho aqui, na área da saúde, apesar de que não diretamente com a saúde, mas imagino que todos que trabalham na área da saúde têm obrigação de acolher bem as pessoas que chegam precisando de ajuda. Então, é o poder de acolher as pessoas e cuidar delas no momento de dificuldade que elas passam, neste momento da doença (S69). A empatia, enquanto elemento de humanização na prestação do serviço foi indicada por S65 mediante o desenho retratado na Figura 32 e interpretação correspondente, cujo conteúdo atribuído ao valor social é o coração:
Figura 32. Desenho: Coração (S65). Fonte: Dados da pesquisa.
Eu desenhei um coração. Porque tudo que você faz, você tem que colocar o quê? É o coração, você não está aqui só porque você prestou um concurso e você não está aqui só para fazer qualquer coisa. Ah, eu vou orientar, eu vou tentar resolver o problema da pessoa que está aqui, mas eu, no meu íntimo, eu acho que você tem que fazer as coisas também com o coração, não é só assim, aquilo direto, você tem que sentir o problema das pessoas, tem que entender, e isso para mim é coração. (...). Pelo menos comigo é assim, você tem que se basear no coração, você tem que ter sentimento, né? Você tem que ter aquela, como eu vou dizer, não é obrigação, aquele dever com aquela pessoa que está aqui buscando informação, buscando resolver aquele problema. Então eu ponho tudo no coração, como se eu tivesse no lugar daquela pessoa, para mim isso é um poder (S65).
Atrelado à humanização está o poder em ajudar o cidadão que necessita do serviço, “(...) o servidor tem esse poder de ajudar, de cuidar e é isso que dá a maior satisfação” (S57), “(...) eu me sinto feliz, eu acho que o serviço público é uma oportunidade de servir muito grande” (S47). Existe, por exemplo, esse “(...) poder de cuidar de um paciente internado” (S57), pois, “(...) ajudando, o servidor tem esse poder sobre o paciente na área de saúde” (S57). Nas palavras de S47: “Eu vejo que é uma carreira muito honrosa, eu me sinto com muita honra de ter essa oportunidade, de ter passado nesse concurso público, principalmente para fazer com que o meu trabalho possa vir a ajudar uma outra pessoa”.
Outro ponto peculiar em relação ao valor social “Estado provedor de serviços à população”, que emergiu pela percepção dos servidores da saúde, foi o destaque colocado em aspectos éticos (como poder) na prestação de serviço, que remetem a quesitos como respeito, comprometimento, transparência e responsabilidade. “A ética que vai permear tudo, é uma via de mão dupla, nós agimos com a ética e nós pressupomos que quem está nos requerendo alguma coisa está agindo também sobre essa ética” (S67), assim, “(...) o poder, ele tem que ser exercido com ética, com respeito, com transparência, visando o bem-estar, não nosso, dos usuários, que a gente está aqui para servir os usuários, (...) se não for assim, não é poder” (S71). Portanto, “(...) deve haver ética nas ações e respeito aos usuários” (S71), pois “(...) a responsabilidade é uma atribuição nossa, nós temos que ter responsabilidade” (S67) e “(...) o comprometimento tem que existir, que é muito importante para nós servidores públicos, (...) a responsabilidade no dia a dia deve existir sempre, para que a sociedade tenha o retorno esperado” (S68). Com base na ética, no comprometimento e na responsabilidade, o servidor deve se balizar pela “(...) legalidade, que é o que vai ligar aí os dois pontos, o servidor e o público” (S67), bem como se guiar pela “(...) eficiência, porque é um princípio, o público paga seus impostos e quer um serviço prático” (S67). “(...) A transparência também é necessária, pois é um direito de todos saber o que fazemos” (S71)
e, por fim, “(...) servir o melhor que você puder, afinal de contas, você prestou um concurso para trabalhar como servidor público, então você tem que tirar dessa base toda, né?” (S60).
Especificamente quanto à prestação de serviço na área da saúde o servidor também tem “(...) o poder de salvar vidas, né? De salvar e de dar vida também, quando você nasce, em uma organização pública, você vem de um servidor público, ele te dá a vida, o médico está lá” (S64). O servidor também pode agir, ou não agir, de modo a impactar na morte das pessoas, “(...) também existe um poder de morte, às vezes o servidor pode negligenciar, às vezes você pode não estar no lugar certo” (S64). O desenho representado na Figura 33, aponta para essa percepção de poder:
Figura 33. Desenho: Caixão – poder sobre a vida e a morte (S70). Fonte: Dados da pesquisa.
Quanto à saúde, eu coloquei aqui um caixão, que a gente tem o poder sobre a vida e a morte das pessoas. Com um atendimento bem-sucedido, podemos salvar uma vida; um atendimento falho, podemos agir sobre a morte das pessoas (S70).
Existe, ainda, a percepção da má prestação de serviço: “O que me faz pensar em saúde, em relação aos servidores, em alguns casos é o descaso, as pessoas todas aguardando, e alguns servidores tem o descaso, ‘ah, não sou eu mesmo, põe aí para esperar’” (S61) e “(...) você só vê fila, o pessoal no corredor sendo atendido e sendo mal atendido” (S63). Esse aspecto traz a ambiguidade e contradição na prestação do serviço público, que pode ser oferecido com, ou sem, humanidade e ética.
4.3.2.2 Servidor como beneficiário do Estado provedor
O outro “micro” valor social atrelado ao Estado provedor – “Estado provedor de benefícios aos servidores” – também foi contemplado pelos servidores da saúde e trouxe o mesmo significado suplementar do poder do servidor público enquanto beneficiário do Estado que provê determinadas condições e recursos. O aspecto da estabilidade no emprego foi um ponto de ênfase nesse valor social: “O poder, eu diria que hoje é a estabilidade, a segurança de ter um emprego” (S48), pois “(...) o serviço público é uma coisa garantida” (S50) e “(...) todo mundo presta concurso porque é mais seguro” (S63). Na iniciativa privada, “(...) as empresas particulares podem até pagar salários melhores, mas não é uma coisa segura, não é garantido” (S50), “(...) a maioria das pessoas não tem essa estabilidade e não consegue saber direito sobre o dia de amanhã. Temos essa segurança” (S66).
Com base no exposto, o valor social conjumina de forma marcante o aspecto de poder e de segurança. “Aqui, um poder é ter segurança. O concurso público também te traz (...) um pouco de sossego, (...) saber que no final do mês você pode contar com aquele dinheiro” (S60) e “(...) hoje em dia a estabilidade traz tanta coisa, que eu falo, você sempre vai ter seu emprego, você não é mandado embora” (S56), de modo que “(...) podemos ter essa segurança. Ao final do mês, eu posso pagar as minhas contas. Pelo menos isso” (S56).
A estabilidade “(...) simboliza um poder, por exemplo, quando você vai fazer um crediário, ou você vai a algum local onde você precisa comprovar renda, as pessoas já não desconfiam tanto de você, porque sabe que você tem um fixo” (S48), nessa perspectiva, “(...) existe uma credibilidade no mercado em relação ao servidor, né? ” (S48). Logo, “(...) você não corre esse risco” (S48), de ser rejeitado pela instituição financeira, “(...) como os trabalhadores da empresa privada, para fazer um financiamento, por exemplo, né? ” (S48). Além disso, “(...) quando você vai fazer financiamento, se você é servidor público, você tem assim, umas regalias. Eles te dão às vezes até um desconto” (S48).
A estabilidade no emprego também remeteu à autonomia frente às relações de trabalho e ao poder sobre si perante à organização. O servidor “(...) pode se impor em relação a um trabalho, (...) já tem opinião própria, pode contrariar, (...) acho que é por causa da estabilidade” (S55). Por conta disso, “(...) o funcionário público não acata muita coisa, né? Tem funcionário que não abaixa a cabeça para chefia” (S55). Se “(...) alguém te fala: ‘ah, você vai fazer isso’, mas esse não é o
meu serviço, eu não faço e ponto. (...). A gente já tem uma autonomia, já sabe o que quer, o que não quer, o que é bom, o que não é" (S55).
Outra perspectiva relacionada à estabilidade no emprego evidenciada girou em torno da estagnação, frustração e da falta de interesse e de comprometimento com o trabalho, conforme salientado por S66, “(...) às vezes a gente fica um pouco paralisado, conformado”. A Figura 34 e a fala correspondente apontam nesse sentido:
Figura 34. Desenho: Estabilidade enquanto estagnação (S49). Fonte: Dados da pesquisa.
(...) aqui é uma célula morta, o pessoal que está aqui não tem interesse para nada. (...) eu vejo aqui como uma água parada, não vai para lugar algum, seria mais ou menos isso. Tudo que fica estagnado, a tendência é morrer, você imagina uma pessoa que fica sentada todo dia numa mesa sem praticar esporte, ela vai atrofiar, mesmo sendo jovem. (...). Imagina um carro que fica parado, quando tentar ligar, ele não vai funcionar, mesmo que seja um carro novo. (...). Então, eu vejo os servidores públicos federais aqui da saúde assim. Você imagina, a água é corrente, a água não para, a água não pode ficar parada, mesmo a água do mar não está parada, o nosso sangue também corre, se parar apodrece. Então, eu imagino os servidores públicos assim, um lago parado (...). Eles não têm braços, não tem pernas, são só umas bolas. Bolas que giram. Não têm mobilidade alguma. Quer dizer, na realidade, não querem, não querem fazer nada, querem ficar ali. (...) e aí eu começo a reclamar de não ter dado certo, e aí acabou, aí é isso, são umas bolas que ficam ali girando, e é isso. (...) eu perdi 30 anos da minha vida aqui. (...) aqui existe uma força maior que impede o servidor de ter vontade, aqui não tem isso. (...). Aqui, são essas bolas, que não tem vida, não tem prática, simbolicamente não tem vida, né? (S49).
O valor social “Estado provedor de benefícios ao servidor” implicou em outros pontos atinentes ao estatuto que rege as condições de trabalho dos servidores públicos federais, como a
possibilidade de transferência para unidades da organização localizadas em estados distintos do Brasil, conforme colocado por S56: “(...) também coloquei as vantagens que o servidor federal tem, como ser transferido de um estado para o outro. Você tem uma liberdade para sair do local que você está. Você pode ir para outros lugares do Brasil”.
Por fim, o valor social “Estado provedor de benefício aos servidores” foi evidenciado enquanto objeto de atividade atrelado à mobilização, com vistas à conquista de novos benefícios. Assim, “(...) os servidores têm algum poder por meio de manifestações, a gente consegue algumas coisas assim, alguns direitos” (S52). Por exemplo, “(...) causas trabalhistas que a gente já ganhou por meio do sindicato e promovendo manifestações nossas também” (S52). Por essa ótica, os servidores se unem com a finalidade de obtenção de benefícios, então o “(...) poder do servidor público é o corporativismo, a gente pode até ver nessas greves, cada um pensa na própria carreira ao invés de pensar no servidor público, no total” (S70).
Nesse sentido, muitos servidores da saúde, integrantes da organização pesquisada, se sentem “(...) sem poder nenhum de barganha, sem poder nenhum de negociação” (S62), “(...) essa organização da saúde perdeu um pouco da força” (S52), “(...) porque pelo menos aqui (...) a gente até tinha força para conseguir, por exemplo, aumento, mas a gente está perdendo essa força” (S46). Para reverter essa situação, “(...) estamos precisando de pessoas novas, que possam estar falando, agrupando ideias, lutando por melhores condições, (...) precisamos de gente que brigue pelas coisas que nós, aliás, estamos cansados de brigar” (grupo). Assim, “(...) os novos, que tão chegando, se tiverem o poder de se unir de verdade, não com ideologias políticas diversas, né? Pensando no bem-estar total, podemos ter esse poder” (grupo).
Enquanto isso, outros observam que “(...) o poder está ligado à área de arrecadação, eu acho que eles têm poder. A área de transporte público, eles também têm poder, no sentido de serem ouvidos, de fazerem uma reivindicação” (S46). Por exemplo, “(...) quando eles fazem greve, eles param e conseguem alguma coisa” (S46).
4.3.2.3 Servidor como intermediário/beneficiário do Estado provedor – síntese
Os “micro” valores sociais relativos ao Estado que provê serviços, benefícios e recursos, bem como significados, conteúdos e atividades atrelados estão apresentados sinteticamente na Figura 35. Como apontado, o “Estado provedor”, ligado ao conteúdo “servidores públicos” (atinente ao “macro” valor social “Estado”), demonstrou estar conectado a objetos de atividade para os
servidores no sentido da condução dos mesmos à intermediação desses benefícios à população e, ao mesmo tempo, no sentido da busca por benefícios próprios.
Figura 35. Estado provedor de serviços/benefícios: significado, conteúdos e atividades (saúde). Fonte: Dados da pesquisa.
4.3.3 Estado imagem
Finalmente, ao conteúdo “servidores públicos”, concernente ao “macro” valor social “Estado”, também emergiu, junto aos servidores da saúde, um terceiro significado: o Estado imagem, que remeteu a percepção que os servidores têm em relação à imagem que a população tem do Estado, representado nos agentes públicos. Assim como percebido pelos servidores da justiça, esse significado apareceu associado ao “micro” valor social “Estado representado no agente público”, que trouxe dois significados contrastantes: o status social positivo do servidor e o status social negativo do servidor perante à sociedade.
4.3.3.1 Status social positivo do servidor público
O valor social “Estado representado no agente público” com o significado de status social positivo do servidor, apareceu associado à visão de glamour, superioridade e prosperidade. Nesse tocante, “(...) eu vejo que tem um certo glamour ainda, né? (...) quando você fala: “ah, sou servidor público federal”, o povo já olha, nossa, acha que você está podendo” (S48), “(...) em Brasília” (S51), por exemplo, “(...) as pessoas já estudam para serem servidores públicos, desde
cedo querem ser servidores” (S51). “De certa forma, para alguns, hoje virou status, para a gente, que já está há muito tempo, isso não quer dizer mais nada, mas hoje está voltando sim, o servidor tem importância para muitas pessoas” (S48). Outra percepção é que “(...) muitos servidores se sentem superiores, (...) principalmente em Brasília, (...) quem é servidor público, tanto do executivo, do legislativo ou do judiciário, se acha melhor do que as pessoas da empresa privada” (S51).
4.3.3.2 Status social negativo do servidor público
Já o significado “status social negativo do servidor”, ligado ao “micro” valor social “Estado representado no agente público”, foi associado à imagem do servidor público enquanto indivíduo que não trabalha: “(...) a imagem que a sociedade tem é que somos vagabundos, cabide de emprego, não queremos fazer nada e queremos dinheiro no fim do mês, essa é a nossa imagem, infelizmente” (S54). O servidor é “(...) muito mal visto, sempre falam: ‘servidor público, funcionário público não fez nada’. Sabe? ” (S47).
Na opinião de S54, “(...) antigamente era um orgulho, sou funcionário público, hoje dá