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The Government will ensure sustainable maritime value creation in the High North while taking into account issues such as increased

Conforme se referiu na seção anterior os diplomas podem não conferir os avanços socioeconômicos esperados, seja porque faltem acessos ou meios ao graduado, pelo menos nos anos imediatos à graduação e, entretanto, os diplomas se desatualizem e desvalorizem, seja porque o grande aumento de graduados reduza a raridade (ergo o valor) dos diplomas, seja ainda porque as IES que os concedam não sejam de renome. Porém não serão apenas a

91 obsolescência dos diplomas no tempo ou falta de continuidade na formação que poderão frustrar as expectativas dos graduados, mas também a carência de acessos sociais. As próprias IES (Instituições de Ensino Superior) não garantem qualidade no ensino, nem mesmo na formação superior, devolvendo ao mercado de trabalho especializado, alunos vistos como mal qualificados ou insuficientemente formados. Desta forma o estudante encontra-se de novo desfavorecido no momento da procura de emprego e confronta-se com não aceitação por parte das empresas. Pela má reputação ou falta de notoriedade da instituição que o graduou, poderá não obter o cargo e a carreira desejados. Há uma estimativa de que 80% das IES privadas, que são a maioria das IES no Brasil, não fazem pesquisa por falta de docentes qualificados com graus de mestre e doutor, continuando assim uma formação “bancária”, no dizer de Freire (2000), onde o aluno deposita seu rendimento para, ao final de 4 a 5 anos, receber seu diploma. Freire (op. cit.) explicou que o estudante pode receber dois tipos de educação: “bancária” e “libertadora”. Quando o estudante recebe a educação “bancária”, não há a preocupação em construir algo, o trabalho em equipe e a parceria se mostram ausentes no seu dia-a-dia. Parceria esta que, na educação libertadora, pode ser construída de conjunto com os professores, instituição ou organização, estudantes, pesquisas e sociedade, consciente e problematizadora, uma pedagogia que liberta e não oprime. Lucchesi (2005) é mais otimista, ao defender que a educação superior contribui para o desenvolvimento sustentável e a melhoria da sociedade como um todo, ao formar profissionais qualificados e capazes de satisfazer às necessidades de todos os setores de atividades humanas, e a disseminar o conhecimento por meio da sua difusão.

Através das políticas sociais e dos programas sociais (Prouni e FIES) as agências reguladoras como Capes (Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior), SESU (Secretária de Educação Superior) e o próprio Ministério Público, acompanham e fiscalizam as IES e logo em seguida classificam em nota sobre o desempenho e melhorias das mesmas. Mas, segundo Bourdieu (2007, p. 139), estas parcerias entre setor público e privado podem de alguma forma beneficiar as IES e por outro lado deflacionar o mercado de trabalho para os recém- formados. Como afirma o autor, “as instituições de ensino com fraca autonomia, criadas, financiadas ou controladas pelas empresas, são elementos determinantes da luta entre classes e frações de classe que estão interessadas em defender o valor do diploma e as frações dirigentes da classe dominante que consideram o controle do valor do diploma e dos mecanismos de acesso ao mesmo um dos instrumentos apropriado para controlar o valor da força qualificada de trabalho, fixá-la, contê-la ou, em outros casos, desvalorizá-la, ‘excluindo-a’ ou ‘desqualificando-a’”. Por sua vez, Rico (1998), esclarece o valor acrescentado por estas agências nos processos da avaliação salientando que, qualquer forma de avaliação de uma política ou programa público envolve necessariamente um julgamento, uma atribuição de valor, uma medida de aprovação ou desaprovação, a partir de certa conceção de justiça (implícita e

92 explicita). Sem prejuízo de todos esses fatores contratuais, pelo contrário, os alunos de classe desfavorecidas e com nenhuns ou pouquíssimos recursos dependem sobretudo de suas disposições, ou seja, da sua vontade de continuar persistindo, até alcançar o seu objetivo, que é ingressar em uma universidade, mesmo com má reputação. O sonho, ou melhor, o desejo de mudança e de ser dono do seu destino e não repetir os destinos dos pais é muito grande para um estudante brasileiro, talvez mais do que em outras nações já desenvolvidas.

Adotando uma perspectiva mais utilitarista, diríamos “terra a terra”, Zago (2010) afirma que o aluno, quando não tem meios para investir no ensino ou no curso que ele acredita ser de melhor qualidade e mais rentável profissionalmente, irá optar pelo que lhe for viável, mesmo considerando-o inferior ou simplesmente menos preferido. Mesmo com algumas tantas falhas, ele tornar-se-á rentável para o aluno desfavorecido que não consiga aceder a uma opção melhor. Por sua vez, numa postura assumidamente crítica do sistema, Bourdieu (2012) argumenta que, quando um aluno de origem mais humilde “supera as expectativas”, ou seja, destaca-se em relação aos demais do mesmo nível, e até mesmo em relação a outros alunos, mais privilegiados, ele legitima o sistema, na medida em que é a prova viva de que é possível ultrapassar sua origem, de que o sistema produz efetivamente as mesmas chances e oportunidades para todos. Mas as chances são desproporcionais, olhando para a realidade em questão e em estudo, principalmente quando, ao sair do ensino médio, o aluno se depara com uma avaliação (vestibular), cuja preparação pode ser declarada não equitativa por ambas as partes, pelo aluno que não se superou e não superou as “deficiências” do ensino secundário e do seu habitus de origem e pelo Estado que não cumpriu com seus deveres de providenciar formação anterior adequada e teste de passagem de ciclo proporcionais ou equitativos, mas antes aparentemente neutros, na sua função de barreiras a entrada para os “impreparados” e presumidamente menos capazes de atingir os objetivos do curso/formação.

É ilusório acreditar que podemos educar nossos filhos conforme nosso desejo. E de pensar que eles, sendo “cordatos”, recebendo a educação do estado como estudantes de escolas públicas, sendo cidadãos cumpridores dos seus deveres e direitos e das leis, terão a ascensão social desejada pela família. Nem toda forma de poder é um objetivo cumprido, no caso do estudante de classe desfavorecida. Mais uma vez, Bourdieu (2008) alerta de que, numa democracia, instituições mantidas por fundos públicos não podem manter abertamente certas características como critérios de seleção. Se, para eliminar as classes mais afastadas da cultura escolar, os sistemas de ensino recorrem cada vez mais frequentemente hoje em dia à “maneira suave”, portanto mais dispendiosa em tempo e em meios, é que, a titulo de instituição de política simbólica, dedicada a frustrar em alguns as aspirações que encoraja em todos, o sistema de ensino deve proporcionar-se os meios para obter o reconhecimento da legitimidade de suas sanções e de seus efeitos sociais, de modo que instâncias e técnicas de manipulação organizadas

93 e explícitas não possam deixar de aparecer quando a exclusão não for suficiente, por si, para impor a interiorização da legitimidade de exclusão.

Com o acesso ao ensino superior por parte de cidadãos oriundos de classes menos favorecidas surgiu no cenário nacional brasileiro, uma nova camada social, que começou a ler e escrever, a participar de suas escolhas, ingressar nos movimentos de direitos trabalhistas de que, até então, não tinha esclarecimento nem leituras, ou outros instrumentos multiplicadores do bem-estar social. Goldthorpe, Bechhofer et al. (1969) dizem que isto parece ser determinado por certas transformações econômicas e sociais subjacentes as quais não só seriam irreversíveis, mas ainda não teriam atingido seu termo. As forças de transformação “estão destruindo, pouco a pouco, as barreiras entre a classe operária e a burguesia”... e o apoio ao partido trabalhista está enfraquecendo em decorrência de uma crise de identificação social; “certas pessoas que, objetivamente, seriam classificadas na classe operária, em razão da profissão e origem familiar, atingiram as remunerações, o modo de consumo e, por vezes, a psicologia da classe média”. De fato pode ser observável alguma validade neste argumento, através de “sintomas” como a maneira de como vêm sendo trabalhadas as propagandas e os anúncios na mídia sobre vida de ostentação (propagandas, anúncios, telenovelas, matérias jornalísticas, etc.), as quais refletem que os indivíduos em ascensão almejam os mesmos acessos da pequena burguesia, e são embalados e emaranhados nas teias da globalização do consumo de marcas de referência globalizadas.

Os estudantes de famílias de classes favorecidas frequentam as melhores escolas no ensino fundamental e médio privado, mas, para acesso à profissão e carreira, preferem e buscam ativamente ingressar nas melhores universidades públicas, dentro ou fora do país. Isto decorre por um lado da “meritocracia”, ou seja, dos acessos “por concurso” aos lugares de acesso mais cobiçados e, por outro, da legitimação social ou até burocrático/legal que decorre de “exames de ingresso profissionais” a profissões “fechadas” como advogados, farmacêuticos, contadores, etc. Este termo pode ser levado em consideração quando falamos de prestação de serviço ou de buscar melhores serviços por consumption abroad (estudantes que viajam para estudar no estrangeiro). Para estes estudantes, o mercado cria privilégios na hora de concorrer a uma vaga de trabalho, sua posição, seus estudos e origem da universidade onde habilitou-se, facilita na hora da escolha do seu currículo entre os avaliadores das empresas. Bourdieu (2008) recorda que, pelo contrário, nos países em que a taxa de analfabetismo é muito alta, o simples fato de saber ler e escrever, ou, a fortiori, a posse de um diploma elementar é por vezes suficiente para assegurar uma vantagem decisiva na competição profissional. Carneiro (1996), pelo contrário, defende que nestes países “a educação passa a ser encarada como a principal determinante da reversão da pobreza estrutural e o único fator que pode ser verdadeiramente responsável por vencer o círculo de ferro da exclusão; formulação com base na asserção evidente de que, de

94 outro modo, a pobreza socializa inevitavelmente para a continuação da pobreza”. Poderemos dizer que, perante opiniões contraditórias e ambas provavelmente com um grão de verdade, surgem oportunidades para a pesquisa empírica.