Juan Goytisolo é considerado pela crítica literária como um escritor camaleônico, pois muda constantemente a temática de seus romances. Desde seu posicionamento observador sobre a sociedade espanhola pós-guerra civil até a exposição de seu profundo conhecimento sobre temas relacionados à cultura – principalmente no tocante ao mundo árabe –, Goytisolo possui uma vasta bibliografia na qual confluem essas mudanças.
Analisando as produções literárias do autor, podemos ver uma profunda mudança desde suas primeiras publicações (Juegos de Manos e Duelo en el
Paraíso) até seus escritos mais recentes (A saga dos Marx e As semanas do jardim). Neste momento, serão apresentados alguns dos temas abordados em suas
obras.
Em seus primeiros romances o escritor espanhol desenvolve um modelo de literatura de forma crítica à sociedade espanhola durante a guerra civil. Em Duelo en
el Paraíso, por exemplo, percebe-se uma apreciação em torno aos confrontos
armados que deixaram o país em uma situação difícil. A exposição da miséria e do estado de destruição das cidades são alguns dos exemplos utilizados para demonstrar a análise do autor sobre tal ocasião.
Vítima da guerra civil espanhola – visto que perde sua mãe em um bombardeio nacionalista (descoberto pelo escritor anos mais tarde) –, Juan Goytisolo apresenta em Duelo en el Paraíso uma visão do confronto a partir da 43
perspectiva de uma criança (traço autobiográfico, dadas as profundas marcas deixadas no escritor e sua posterior reflexão sobre as lutas armadas). Abel, o protagonista de Duelo en el Paraíso, sucumbe diante da impossibilidade de uma práxis política10, visto que sua existência – enquanto figura que deseja combater junto aos republicanos – torna-se sem sentido com o final dos confrontos e a dissolução do grupo com o qual o menino se identifica (dado o exílio, a prisão e a morte destinada ao bando, com a ascensão de Franco ao poder). Ademais, o referido personagem não representa os valores republicanos (democracia, liberdade, igualdade, instituição de partidos políticos), já que provém de uma família burguesa e que não compartilha os ideais do referido grupo.
A crítica social ao período da guerra civil é relatado em obras como Juegos
de manos e Duelo en el Paraíso. Em Duelo há diversas passagens em que são
realizadas apreciações aos confrontos armados. O significado da morte de Abel com um tiro na testa, por exemplo, refere-se à aniquilação de um pensamento ideológico aportado pelos defensores da República. Imediatamente em seguida à morte desse personagem, os nacionalistas invadem a residência-escola de refugiados e encontram Martín, um militar republicano a quem fazem prisioneiro. Tal momento representa o declínio dos republicanos.
Ao decorrer do romance nos é revelado o verdadeiro sentido da morte do menino e sua relação com a dispersão do grupo ao qual apoia. No capítulo 1, o narrador aborda a última vez que o soldado Elósegui nota a presença de Abel, no “día veintiocho” (GOYTISOLO, 1971, p. 43), no momento em que entram “las tropas
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A práxis é a consciência das oposições e do conflito de classes inerente à sociedade burguesa capitalista, mas é também o "agir", tendo como referência o conhecimento da lógica dos conflitos entre as classes sociais, como define Renato Cancian em seu texto Práxis – Lukács e Habermas. Ação revolucionária e técnica. A partir deste momento, todas as vezes que for mencionada “práxis política” estaremos nos referindo à prática de tais ações políticas no romance Duelo en el Paraíso.
nacionales en Barcelona y la huida hacia el norte del Gobierno fantasma”
(GOYTISOLO, 1971, p. 43). O momento de entrada em Barcelona das tropas lideradas por Franco e a fuga dos republicanos para o norte da Espanha, datado em 28 de março de 1939, se correlaciona com o momento histórico de tomada dos últimos redutos de resistência republicana, finalizando, logo em seguida, a guerra civil.
A dissolução da figura de Abel e de seus pensamentos é a representação da morte da República e de qualquer ideologia política de seus defensores. A guerra aniquila o combatente para que não haja nenhuma possibilidade de resistência e retorno do mesmo. Neste sentido, a figura do herói se esvanece, tendo seu protagonismo perdido diante de variados temas que suplantarão sua atuação na obra.
Ainda com relação a Duelo podemos observar distintas características relacionadas à crítica social desta etapa literária. A estética do tremendismo pode ser observada em personagens como Estanislaa que se apresenta debilitada, fraca e cansada, e sua filha Águeda, figura que está representada com aspecto grotesco – reflexo do período de guerra -, dada sua caracterização com “rostro fino, todo piel y
hueso” (GOYTISOLO, 1971, p. 59).
Outro aspecto de grande relevância para o romance social espanhol dos anos de 1950 é a apresentação da conjuntura caótica em que se encontrava a Espanha no período dos confrontos armados. Um exemplo do referido fato está em um fragmento extraído do capítulo 5 – de Duelo en el Paraíso –, em que Pablo, amigo de Abel, fala sobre o dia em que chegou “a su casa y encontró un montón de ruínas.
Su padre, su madre, todos estaban muertos” (GOYTISOLO, 1971, p. 169).
A questão religiosa11 também é bastante ressaltada nas obras de Juan Goytisolo. Em Duelo en el Paraíso o escritor apresenta inúmeras passagens em que o tema é ressaltado. A estética do cainismo - atitude de ódio ou forte aversão contra parentes, amigos ou compatriotas -, por exemplo, é apresentada no início do romance no que concerne à morte de Abel pelo jovem órfão Arquero. Tal estética se relaciona com a passagem bíblica extraída do Antigo Testamento que narra a história dos primeiros seres existentes na terra, Adão e Eva, e seus filhos, Caim e Abel. Invejoso por seu irmão ser o preferido de Deus, Caim mata Abel e foge. O Abel de Duelo também é assassinado por inveja, mas não por um irmão e sim por um menino refugiado, que assim como Caim foge em seguida. Acreditando que Abel é um menino burguês e que não passou fome como ele, Arquero assassina Abel com um tiro na testa.
Outro aspecto relacionado aos conceitos religiosos cristãos é o nome dado ao sítio da tia-avó de Abel, “El Paraíso”. Tal lugar seria a representação do Paraíso descrito na Bíblia, para onde se dirigem as pessoas boas após a morte. O menino Sorzano sai de Barcelona (lugar para onde se conduzia o grupo militar liderado pelo General Franco) em direção a “El Paraíso”, onde consequentemente perece. Agrega-se a tal fato, as inúmeras passagens em que o jovem é descrito com aparência fantasmagórica, como percebido no capítulo 1, onde Martín o encontra com um semblante “pálido y abatido” (GOYTISOLO, 1971, p. 46), ou no capítulo 2 em que o mesmo aparece como um “fantasma deslocado y avergonzado” (GOYTISOLO, 1971, p. 72) – segundo o narrador. Estas representações são indícios
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No que concerne à questão religiosa em Duelo en el Paraíso, temos a representação de personagens, lugares, situações e ideologias centradas na bíblia. Nesse sentido, se insere a estética do “cainismo”, a representação do “Paraíso”, a significância de nomes (Abel, David, Arcángel...), entre outros aspectos.
do que ocorrerá ao protagonista, que se transformará num fantasma, já que não encontrava seu lugar no mundo.
Um terceiro aspecto referido ao cristianismo relaciona-se ao sentido simbólico que se pode depreender das situações que envolvem a frase “Deus nunca morre”. Essas palavras acham-se escritas em um papel encontrado nas mãos de Abel. Duas crianças mortas na família de Dona Estanislaa se relacionam com a frase. Durante o velório de David, primeiro filho de Estanislaa, alguns meninos dançam uma valsa chamada “Deus nunca morre” (GOYSTISOLO, 1971, p. 11); e Abel é encontrado morto com um papel entre seus dedos em que se podia ler a referida mensagem (GOYTISOLO, 1971, p. 15), no que podemos interpretar como uma forma de alegoria e voto de esperança aos ideais republicanos, que, ainda que decadentes, não morrerão.
Com o explicitado sobre o romance do referido autor, durante os anos de 1950, percebemos que a atuação do herói já não se apresenta de modo evidente. Nesse momento sua figura já não desponta na literatura, dado que o contexto histórico não é propício para o desenvolvimento desta.
Romances posteriores de Juan Goytisolo, como exemplos Señas de
identidad, Reivindicación del conde Don Julián e Juan sin Tierra, têm o foco
direcionado a outras temáticas, tais como a ruptura das normas e convenções do romance tradicional, degradação da essência cristã e burguesa do “eu” e a liberação de mitos aniquilados pela “Espanha Sagrada” (GOULD LEVINE, 1976, p.1). Nesse sentido, podemos agregar as reflexões de Leonilda Ambrozio em seu artigo Juan sin tierra, de Juan Goytisolo: ironia e paródia: criação sobre tais obras:
No espaço de dez anos que vai da publicação de Señas de identidad (outubro de 1966) até Juan sin tierra (abril de 1975), passando por 47
Reivindicación del Conde Don Julián (fevereiro de 1970), a ficção de Goytisolo progride: das indagações sobre a essência hispânica, da busca das “señas de identidad”, atinge a negação, o desterro, o estar definitivamente do outro lado, junto aos párias, aos marginalizados (AMBROZIO, 1987, pp. 118-119).
Retornando o tema sobre a religião nas obras de Juan Goytisolo, podemos citar o romance As semanas do jardim – um círculo de leitores. Diferente de Duelo
en el Paraíso, na obra mencionada anteriormente, o escritor apresenta a questão
religiosa voltada para o islamismo. Nesse livro encontramos a história de Eusebio, um jovem poeta que é internado num hospital psiquiátrico, de onde virá a desaparecer sem que se saiba exatamente o que lhe aconteceu. A partir de tais dados, um grupo de 28 leitores decide contar a história de Eusebio, escrevendo de forma coletiva um romance de 28 capítulos, nomeados segundo as vinte e oito letras do alfabeto árabe – ou alefato12. Cada narrador tem sua letra, sua voz, sua versão.
Ao transcorrer do romance, descobre-se que Eusebio conseguira fugir do hospital psiquiátrico com a ajuda de um antigo amante marroquino que servia ao exército nacionalista. Junto ao amante, Eusebio muda de nome – tornando-se agora Eugenio –, foge para o Marrocos e lá vive uma vida modesta, seguindo os princípios religiosos islâmicos.
Em As semanas do jardim também se observa uma questão recorrente em variadas obras de Goytisolo: a homossexualidade masculina. São variadas as passagens relativas ao comportamento homossexual de Eusebio/Eugenio, como suas relações com um soldado marroquino com o qual mantinha encontros no estúdio do amante de Lorca (GOYTISOLO, 1997, p. 19), ou ainda com outro soldado que encontrou quando “atravessava os jardins desertos da Exposição de 29 a 12
Neologismo para indicar o alfabeto árabe: diante da impropriedade de chamá-lo de alfabeto (pois não tem as letras alfa e beta), sua primeira letra, “alef”, foi usada para criar “alefato”. Tal referência foi extraída da contracapa do livro As semanas do jardim - um círculo de leitores (2005), de Juan Goytisolo, cuja tradução brasileira é de Luis Reyes Gil.
caminho de seu bairro” (GOYTISOLO, 1997, p. 66) e também manteve relações
sexuais.
Outras obras como Coto vedado e En los reinos de taifa também tratam da temática do homossexualismo. Relacionam-se, porém, majoritariamente à questão autobiográfica no que concerne ao referido autor. Em ambos os livros, o escritor catalão apresenta suas experiências, seus desejos, suas paixões, e tem-se então o grande marco em sua nova narrativa, através da descoberta de sua condição homossexual.
Em A saga dos Marx, Goytisolo aborda a derrubada da ideologia e do desprestígio do pensamento marxista, no final do século XX. Ademais, o autor utiliza de ironia para construir sua crítica ao capitalismo e à sociedade de consumo. A figura do palhaço que invade os metrôs para pedir tudo o que as pessoas têm, e assim fazê-lo mais rico, é uma espécie de censura ao consumismo desenfreado em que pessoas gastam até seu último centavo, muitas vezes sem saber o motivo, o que acaba tornando os ricos cada vez mais ricos.
Uma característica recorrente nas obras de Goytisolo é a questão autobiográfica. O gênero autobiográfico é uma constante na literatura e pode ser observada em obras de vários escritores. O gênero autobiográfico com suas diversas ramificações (autobiografias, memórias, epistolários, diários, relatos autobiográficos de ficção) conta com uma grande bibliografia. No tocante à literatura espanhola, o interesse da crítica por esta modalidade de escritura vem se incrementando nestes últimos anos, como podemos observar na narrativa de autores como, por exemplo, Juan Goytisolo, Martín Virgil (com Los tallos verdes), Luis Antonio de Villena (com Ante el espejo e Memorias de una adolescencia), Rosa Chacel (com La confesión), Elena Soriano (com Testimonio materno).
Escritores como Marguerite Duras, Sartre, Gide e Rousseau já haviam desenvolvido o tema autobiográfico durante muito tempo em algumas de suas obras (BARTHES et alli, 1986). Tais autores são precursores desta modalidade de escritura, que objetiva a concepção de uma literatura influenciada por experiências pessoais.
Em suas primeiras obras, Juegos de Manos e Duelo en el Paraíso, Goytisolo já expressava, através de alguns personagens, traços de sua vida. Porém, é através dos romances Coto vedado e En los reinos de taifa que a questão autobiográfica é apresentada de modo explícito, portando de modo significativo, dados que nos auxiliam a compreender, em toda sua complexidade, as razões da profunda mudança temática e formal. Dessa forma, Goytisolo revela informações fundamentais para se compreender as causas e os fatores que o levaram a se afastar progressivamente das ideias socialistas. Descreve ainda com detalhes o processo que culminou em sua reorientação sexual, como apresenta Javier Escudero Rodríguez em obra anteriormente citada.
Em Coto vedado o autor expõe de forma explícita vivências pessoais de sua infância, juventude, exílio voluntário em Paris e a decoberta do sul da Espanha como lugar utópico. Na referida obra, Goytisolo aborda algumas etapas de sua vida, narrando fatos relacionados a sua família. Alguns dos temas aportados com maior relevância em Coto vedado são: os conflitos com o pai, a perda da mãe durante os bombardeios lançados pelas forças nacionalistas, os membros estranhos da família, o ambiente sufocante encontrado nas escolas católicas e na universidade, o casamento com Monique, a descoberta dos círculos de intelectuais em Paris e a afirmação de sua orientação homossexual. Tal livro, cheio de sinceridade (e crueldade) consigo mesmo e com seu entorno, gerou uma polêmica com seu irmão,
o escritor Luis Goytisolo, que o acusou de autoagressão. Já em En los reinos de
taifa o autor continua narrando sua vida, mas agora com um foco em seu desterro
em Paris (1956), dando um panorama de suas relações com alguns escritores (Genet, Sartre, Marguerite Duras, Beckett etc) e com sua esposa Monique Lange. O autor descreve seus conflitos políticos com a esquerda espanhola, latino-americana e francesa. Percebe-se nessa obra um afã do autor em desmascarar alguns ícones culturais13.
Nos referidos romances Juan Goytisolo busca uma narrativa da sinceridade, expondo episódios de sua intimidade, como por exemplo, os fatos relacionados a sua sexualidade como podemos observar no seguinte fragmento:
Un hecho crucial va a ocurrir en 1964 en la vida del escritor: el descubrimiento de su verdadera identidad erótica. La aceptación de su conducta homosexual tiene el poder de un bálsamo divino, milagroso, pues casi de golpe, y debido en gran parte a este hecho, va a superar la depresión en la que estaba sumido. Ahora Goytisolo confiesa que paulatinamente renace de su crisis personal, afianza sus relaciones con Monique y alcanza una seguridad y una tranquilidad deseada: “conseguí una especie de dicha que en el pasado no alcancé. Me sentía sereno, alegre” (En los reinos de taifas, p. 240) (ESCUDERO RODRÍGUEZ, 1994, p. 14).
O comentário de Escudero Rodríguez destaca a relevância desse proceso de afirmação pessoal:
La importancia de este acontecimiento es grande, pues como muestra paso a paso en su libro, en él está la base, la causa, de donde parte su nuevo mundo de valores, otra visión de sí y de los que le rodean, un compromiso distinto y, paralelamente, una nueva forma de enfrentarse a la creación literaria. La aceptación de su identidad homosexual trae implícita una nueva actitud vital y textual, una nueva actitud ética y estética, que cuajará en su producción literaria de los años setenta (ESCUDERO RODRÍGUEZ, 1994, pp. 14-15).
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No que tange ao contexto autobiográfico na obra Coto vedado, o livro de Inger Enkvist e Angel Sahuquillo, Los multiples yos de Juan Goytisolo, aporta elementos substanciais que nos conduziram ao conhecimento de tal questão no romance de Juan Goytisolo.
Às referidas obras, Goytisolo anexa cartas, fotocópias e fotografias para conferir a seus relatos uma autenticidade documental. Ele busca integrar aspectos diversos de sua vida (seus sonhos, sua atitude erótica, seus íntimos e profundos pensamentos) em sua escritura, na tentativa de que esses elementos formem um todo coeso. O autor estabelece um debate consigo mesmo, cria literatura, ao mesmo tempo em que se autocria, amadurece como escritor ao mesmo tempo em que o faz como pessoa. A literatura é para o autor uma forma de conhecimento de si mesmo e daquilo que o rodeia.
Podemos observar que, ante as várias mudanças ocorridas na vida de Goytisolo, este se adapta e segue construindo um modelo de literatura peculiar, devido ao seu posicionamento crítico perante os diversos valores, temas e problemas propagados pela sociedade contemporânea ocidental.
Juan Goytisolo vê em sua experiência de exílio um fator positivo em sua formação literária e sua narrativa autobiográfica parece ser um bom exemplo dessa experiência. Tomemos como exemplo as palavras de Carmelita Tavares Silva, em sua dissertação intitulada Alteridade e multiculturalismo em Coto vedado:
Goytisolo já não se considera um exilado. O fim da ditadura franquista marca também o fim de seu exílio cultural, político, bem como daquele imposto pelas editoras durante longo tempo (SILVA, 2010, p. 107).
A temática cultural14 é ressaltada em variadas obras de Juan Goytisolo, tanto no que concerne à reivindicação da mestiçagem, quanto no que diz respeito à crítica à cultura ocidental. Tal fato pode ser compreendido em inúmeras obras em forma
14 Apresentaremos a definição de cultura com base no pensamento de Edward Burnett Tylor, aportado pelo texto de Roque de Barros Laraia, intitulado Cultura: um conceito antropológico: “Tomando em seu amplo sentido etnográfico [cultura] é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (TYLER apud LARAIA, 2005, p. 25).
ensaística, tais como España y los españoles, El bosque de las letras e Furgón de
Cola. Nesse sentido, é importante ressaltar seu contato com o mundo árabe e a sua
influência na cultura espanhola. Goytisolo passa um longo tempo na Argélia e no Marrocos, onde possui uma residência na cidade de Marraquesh, convertendo-se, a partir da relação com tal grupo, à fé islâmica. A partir desse momento, acentua-se sua crítica aos fundamentos e aos valores da sociedade ocidental, contestando cada vez mais seu prestígio e autenticidade cultural.
Obras como Señas de identidad, Campos de Níjar, Makbara e Las virtudes
del pájaro solitario ressaltam a temática da morte, suplantando a questão do herói.
Há um abandono de tal tema, sendo enfatizadas discussões até então não abordadas com afinco pela literatura. Ao aceitar sua identidade homossexual, Goytisolo envereda em um caminho duplo, em que por um lado sente-se livre para agir segundo sua vontade e por outro desenvolve um medo da morte, justificado pelo aparecimento de uma das mais graves enfermidades do século XX, a AIDS.
Observadas as questões que se apresentam até o momento, percebemos um desenvolvimento de distintas temáticas nos romances de Juan Goytisolo, a partir de meados do século passado. Com o advento da sociedade democrática e de massa a literatura elabora novas formas de compreender a realidade15, sendo relevante abordar questões relacionadas à crítica, ao autobiográfico, ao corpo e à sexualidade.
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Tomamos aqui a palavra “realidade” como um termo que indica meramente o modo de ser das coisas existentes fora da mente humana ou independente dela, não contemplando a discussão filosófica sobre a referida palavra.