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A primeira metade do século XX foi marcada por grandes dificuldades na Espanha. Em toda Europa assistimos à crise dos sistemas políticos do liberalismo20 que predominaram durante o século XIX. É o momento do desenvolvimento das democracias de massa, gerando reações defensivas por parte das tradicionais elites do poder. A Espanha da década de 1900 ainda vivenciava o trauma da crise de 1898, ocasionado pela perda de suas últimas colônias americanas (Cuba, Filipinas e Porto Rico) – resquícios do período das grandes navegações – durante a guerra com os Estados Unidos (TUSSEL, 1998). No âmbito político, percebemos a oposição imposta por intelectuais e minorias políticas, ante o regime borbônico, no entanto, ao transcorrer do referido século tal desagrado foi se ampliando a outras instâncias do país. Nesse momento, houve a necessidade de sanar os problemas básicos: desenvolver o país economicamente, modernizar e europeizar os comportamentos sociais, diminuir o analfabetismo, entre outros (TUSSEL, 1998, p. 29). Em maio de 1902, Alfonso XIII assumiu o trono espanhol, tendo sido sua regência marcada por grandes protestos populares, pelo declínio do império espanhol, culminando na ditadura de Primo de Rivera, em 1923, e na sucessiva Segunda República.

O regime ditatorial liderado pelo general Primo de Rivera, intentou desenvolver a economia e a infraestrutura do país, estabilizando a situação política do país, durante algum tempo. Porém, tal sistema não foi capaz de superar a crise

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Liberalismo é o sistema sócio-político-econômico baseado na defesa da liberdade do indivíduo, tendo como princípios básicos o direito e a defesa da propriedade privada, igualdade perante a lei, mínima participação do Estado na vida da sociedade e liberdade econômica (LASKI, 2003).

sofrida com a queda da bolsa de Nova Iorque, resultando na queda da ditadura e também da monarquia, em 1931.

No período que compreende as três décadas iniciais do século XX alcançam relevante expressão dois grupos literários, intitulados posteriormente pela crítica literária de “Geração de 1914” e “Geração de 1927”. O primeiro pode ser percebido como promotor da europeização, da exaltação dos valores universais compatibilizados com o enraizamento no regional (grupo catalão), potenciação do classicismo (RICO, 2004, p. 11). Ante a ditadura de Primo de Rivera e o fim da monarquia atuam como “catalizadores de las aspiraciones populares” (RICO, 2004, p. 10). Já o segundo é considerado um movimento propagado, em 1927, por poetas, dramaturgos e ensaístas, ano de homenagem ao terceiro centenário do poeta e dramaturgo Luis de Góngora, tendo por características principais a intenção estética (arte através da arte, alcançar a poesia pura), a tradição e o vanguardismo (novas formas poéticas e influência do surrealismo) (CORREA, 1985, p. 78).

Diante das péssimas condições de trabalho, da repressão aos grupos operários (UGT e PSOE) e a grave crise econômica o regime primoriverista se encontra em decadência. A ascensão do movimento republicano e o apoio de diversos grupos (movimento estudantil, movimento operário e de intelectuais) fazem com que Primo de Rivera peça sua demissão ao monarca e se autoexile na França. Em seguida, o rei Alfonso XIII nomeia presidente do governo, primeiro, a Dámaso Berenger e, logo, a Juan Bautista Aznar, porém eles fracassam em sua tentativa de normalidade constitucional. Em 1931, o governo monárquico, propõe um novo calendário eleitoral e em 12 de abril se celebram as primeiras eleições municipais, cujo referido governo é derrotado, culminando no exílio do rei. Inicia-se a Segunda República, que duraria até o ano de 1936, tendo sido presidentes desse período

Niceto Alcalá Zamora, Manuel Azaña Díaz, Alejandro Lerroux García, Diego Martínez Barrio, Joaquín Chapaprieta Torregrosa, Manuel Portela Valladares, Francisco Largo Caballero, Juan Negrín Lopez, Ricardo Samper Ibáñez, Augusto Barcia Trelles, Santiago Casares Quiroga e José Giral Pereira. Tal período esteve marcado pela consolidação do Estado democrático, pelo reformismo (aliança dos partidos republicano e socialista) – república de trabalhadores de distintas classes –, pela redistribuição da riqueza, pela repartição de terras agrárias, pela reforma da educação e fim do analfabetismo. O citado regime político encontrou muitos inconvenientes, adversidades e conflitos, tanto internos quanto externos, levando-o ao fracasso.

Em 18 de julho de 1936, militares mais conservadores do exército espanhol impunham armas contra a República, culminando na guerra civil espanhola, conflito armado entre republicanos e nacionalistas. Esse período esteve marcado por lutas entre os defensores da República e os desejosos pelo retorno ao regime monárquico. Vários foram os setores afetados pela guerra civil, tais como a rede ferroviária, a marinha mercante, as comunicações postais e telegráficas. Os confrontos armados obtiveram como consequência grandes custos materiais, tais como a diminuição da produção agrícola e industrial.

A população viveu em meio ao caos e marcas desse período tão difícil para o país podem ser percebidas em diversas obras literárias, tais como Nada, de Carmen Laforet, Primeras Memorias, de Ana Maria Matute e Duelo en el Paraíso, de Juan Goytisolo.

Ao final da guerra, o general Francisco Franco instaurou no país uma ditadura civil-militar. A Espanha da década de 1940 teve a autarquia como modelo econômico da ditadura, marcado pela intervenção do Estado. Nos anos de 1940 a 69

Espanha se encontrava em plena destruição e nesse período tem início um processo de reconstrução do país.

O romance que se escreve durante os anos de 1940, período posterior à Guerra Civil (1936-1939), representa um primeiro momento dessa literatura que se estende até os anos de1960, todavia dentro de um tom realista. José-Carlos Mainer em seu texto La vida cultural (1939-1980) (MAINER, 2004) explicita que dos anos de 1940 (período posterior à guerra civil) até os anos de1970, o romance espanhol se divide em três etapas: a primeira etapa, a existencialista e tremendista; a segunda etapa, a do realismo social; e a terceira etapa, o romance dialético.

A etapa existencialista e tremendista (década de 1940) – em que se apresenta um “desquiciamento de la realidad en un sentido violento” o esa

“sistemática presentación de hechos desagradables e incluso repulsivos”

(MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 328) -– conta com romances como Nada (um dos grandes triunfos narrativos da década de 1940, dada a representação da sociedade espanhola do período pós-guerra civil), de Carmen Laforet e La familia de Pascual

Duarte, de Camilo José Cela (sendo essa última um dos principais romances do

pós-guerra). Nessas obras são apresentados os horrores e a destruição causada pela guerra civil espanhola. O terrível, o grotesco é ressaltado através de personagens e lugares que representam a situação do país.

A etapa em que se desenvolve um modelo de literatura denominada realismo crítico (década de 1950, “generación del 50”, “generación del medio siglo” [MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 335]), apresenta romances como La colmena, de Camilo José Cela e Juegos de manos, de Juan Goytisolo. Esse período está marcado pela crítica social e crítica ao decadentismo espanhol (literário e político). Há um “predomínio de una literatura realista, de corte objetivista, atenta a los

condicionamentos sociohistóricos del individuo, que se prolonga hasta bien entrada la séptima década del siglo” (MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 331). O período

crítico-realista se prolonga até finais da década de 1960 e se mantém na década de 1970, até o momento do “boom” na literatura hispanoamericana que influenciará a literatura espanhola.

A etapa em que produz o romance dialético (década de 1970), está marcada por obras como Reivindicación del Conde Don Julián, de Juan Goytisolo e San

Camilo, de Camilo José Cela. Essa etapa é ressaltada por não apresentar uma

prática política e por expor uma crítica ao arcaico sistema acadêmico espanhol. Ademais, em tais obras podemos perceber a influência do “boom” da literatura hispano-americana e do “nouveau roman” francês, uma menor atuação da censura e uma maior liberdade criativa.

A primeira e a segunda etapas do romance social espanhol mostram os problemas gerados pela guerra civil (a fome, a falta de roupas, as cidades destruídas), já na terceira etapa há uma mudança das formas de tratar a realidade.

A política industrial se manteve fragilizada até a segunda metade dos anos de 1950. Houve um afastamento da Espanha com relação a diversos países, tendo como consequência uma séria crise econômica. Em 1947, a Espanha foi amparada no setor alimentício pela Argentina de Juan Domingo Perón.

A partir da década de 1950, surgem inúmeros autores que, burlando a censura do regime ditatorial, constroem uma literatura de cunho crítico à sociedade espanhola. Dentro dessa conjuntura dos escritores de meados do século XX há distinções com relação à tendência, como explicitado anteriormente. Alguns deles seguem o modelo neorrealista – movimento influenciado pela cinematografia italiana, que possui caráter esquerdista/marxista, obtendo ramificações em vários 71

setores artísticos (literatura, cinema e artes) – tais como Aldecoa, Carmen Martin Gaite e Ana Maria Matute, outros seguem um modelo voltado para o realismo social – “supone una toma de consciência con la realidad más inmediata, adquiere

frecuentemente matices de denuncia política contra el régimen” (CORREA, 1985, p.

89), como Juan García Hortelano, Juan Marsé e Juan Goytisolo.