São notáveis nas obras de Juan Goytisolo influências de diversas formas, tanto com relação a outros autores – como Cervantes, Marx, Gramsci, Proust, Gide e Camus –, como também no que concerne à cultura dos países por onde passou. Nesse sentido, torna-se importante, para a construção desse trabalho, observar as questões relacionadas ao mundo islâmico, universo cultural com o qual o autor mantém contato e se identifica, fazendo com que essa influência se reflita de modo significativo em suas obras. Também serão de extrema importância na construção de suas obras a influência das literaturas francesa, italiana, norte-americana e hispano-americana devido ao contato íntimo estabelecido pelo autor ao permanecer em países de onde provêm tais literaturas. Nesse momento é essencial salientar a grande influência da literatura francesa nas obras de Goytisolo, desde sua juventude, como podemos perceber no seguinte fragmento:
Cuando a mis diecinueve – comenta Goytisolo – o veinte años empecé a recorrer, diccionario en mano, el lote de libros franceses, que integraban su biblioteca, el contenido de aquellos – obras de teatro, novelas, memorias, algún volumen de poesía – y la nómina de autores – Proust, Gide, Ibsen, Anouilh – me revelaron el alcance de
una pasión que, a su vez, influiría decisivamente en mi vida. (GOYTISOLO, 1985, p. 52)
O fragmento supracitado indica o precoce interesse literário do escritor espanhol por autores clássicos da literatura universal. Com tal citação, Goytisolo explica de que forma tais ícones da literatura mundial (Proust, Gide, Ibsen, Anouilh) influenciaram-no na descoberta de sua paixão pela escritura.
Cervantes e Marx são autores presentes explicitamente nas narrativas dos romances de Goytisolo, sendo tal fato comprovado em obras como As semanas do
jardim – um círculo de leitores (2005) e A saga dos Marx (1996). Juan Goytisolo
inicia As semanas do jardim parafraseando Cervantes com a seguinte frase: “A
partir da breve resenha de uma obra cujo autor não quero lembrar...” (GOYTISOLO,
2005, p. 13). Percebe-se com clareza que a referida frase se relaciona diretamente com o início do Quixote em que escreve Cervantes “En un lugar de la Mancha, de
cuyo nombre no quiero acordarme...” (CERVANTES, 2004, p. 27). Também
podemos perceber a inspiração cervantina na escritura de Goytisolo ao citarmos um fragmento do texto de Pina Rosa Piras, El cervantismo de Juan Goytisolo, em que o autor aborda as características observadas na obra de Goytisolo relacionadas à escritura de Cervantes:
Otro aspecto de inspiración cervantina en la escritura de Goytisolo se realiza mediante la búsqueda de formas narrativas innovadoras de las relaciones entre autor, personajes, voces y lector, o también en el empleo del “tú” autorreflexivo y del monólogo interior o en el empleo de una temporalidad y de un uso del espacio elaborados de manera compleja; o incluso hasta con la adopción en su escritura de distintos géneros narrativos una vez más con efectos de contaminación y de diálogo intertextual (PIRAS, 1999, p. 168).
Percebemos em várias obras de Goytisolo a utilização de distintas formas narrativas nas relações do autor com personagens, vozes e o leitor, observado em obras como As semanas do jardim. A utilização do “tu” reflexivo e do monólogo 37
consigo mesmo pode ser notado principalmente em seus romances autobiográficos (Coto vedado, En los reinos de taifa). Já o emprego de tempo e espaço de forma complexa é uma característica observada em livros como Duelo en el Paraíso, A
saga dos Marx e As semanas do jardim.
A influência de Cervantes é tão grande em Goytisolo, que o autor, em entrevista a Wolfram Eilenberger, Haukur Ástvaldsson e Francisco Herrera, se declara ter uma nacionalidade cervantina e explica o motivo:
Yo diría entonces que mi nacionalidad es cervantina. Si miro hacia atrás en mi vida veo que he pasado la mayor parte de mi tiempo hablando otros idiomas. Así el castellano ha sido el objeto de mi trabajo. Normalmente cuando estoy en Marraquech hablo árabe, cuando estoy en París hablo francés, cuando estaba en los Estados Unidos hablaba inglés. El español no lo práctico tanto. Por ejemplo, a veces, cuando estoy en Marraquech paso bastante tiempo sin hablar castellano. Esto lo vio muy bien Vicente Llorens en uno de sus ensayos, cuando dijo que para el exiliado, al perder la tierra y la sociedad en la que vive, la lengua adquiere para él un valor importantísimo. Esto explica que algunos escritores se hayan convertido en grandes escritores en el exilio. Este es el caso claro de Cernuda. Él era un poeta más de su grupo y en el exilio se convirtió en el gran poeta de su generación (EILENBERGER et alli, 1999).
O escritor espanhol atribui a Cervantes sua tendência à adequação do exilado ao idioma do país com o qual estabelece contato. Ao afastar-se da sociedade em que vive, a língua adquire um papel importante para dados autores, convertendo-os em escritores do exílio.
Em A saga dos Marx, Goytisolo conta a história da família do maior filósofo socialista da história, Karl Marx, e sua influência política sendo assistida pelo mesmo em diversos lugares (Londres e Moscou, sobretudo). O escritor catalão utiliza, nesse romance, recursos habituais de sua narrativa – tipografia e pontuação atípicas, cruzamento de discursos, tempos e vozes narrativas, intertextualidade extraliterária – para nos contar uma história em que Marx aparece ressuscitado em um mundo
atual, em que o mesmo contempla o fracasso de sua visão científica da história e a inutilidade de suas soluções para as injustiças sociais. Também influem nas obras de Goytisolo, as ideias propagadas por Karl Marx8, como observado em obras como La Resaca (1958), Campos de Níjar (1959), La Chanca (1962) e Pueblo em Marcha
(1962), narrativas em que o autor deseja “dar testimonio de la realidad social de
Almería y la isla de Cuba”, somado a um “profundo interés por captar y reproducir el habla de los habitantes de estos lugares” (ESCUDERO RODRÍGUEZ, 1994, p. 11).
Ainda no início da década de 1960, Juan Goytisolo começa a duvidar das ideias marxistas, como afirma Escudero Rodríguez na seguinte citação:
Las dudas que Goytisolo comienza a manifestar respecto a las ideas marxistas, ya al constatar la aplicación en la práctica de esas ideas en los países comunistas o la represión que en ellos tienen lugar, ya por el proceder de ciertos miembros del partido o ya por el desajuste que hay entre su vida burguesa y sus ideas, es sólo uno de los múltiples factores que le llevaron a entrar en una crisis profunda a comienzos de los años sesenta (ESCUDERO RODRÍGUEZ, 1994, p. 12).
Concomitante a esse momento, insere-se a crise pessoal do escritor com relação a sua sexualidade, ao seu casamento com Monique e entre seu eu e sua realidade, o que será largamente desenvolvido em suas obras.
A presença das ideias propagadas por Gramsci pode ser percebida nas primeiras obras de Goytisolo – romances juvenis relacionados à crítica social do período da guerra civil (Juegos de manos, Duelo en el Paraíso, El circo e Fiestas). Em seu artigo intitulado Para una literatura nacional y popular, publicado na revista
Ínsula, Goytisolo apresenta suas ideias voltadas para o pensamento gramsciano, em
8
Concebemos o pensamento marxista no sentido de interpretação da vida social, em que confluem as lutas de classes e a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo (BURNS, 1980). Goytisolo apresenta e desenvolve nos citados romances alguns dos princípios básicos desse pensamento.
que se propugna uma vagarosa e esquemática literatura nacional popular, criticada por Guillermo de Torre9.
Como citado anteriormente, a literatura italiana influenciou de modo significativo as obras de Juan Goytisolo. O neorrealismo literário italiano, tendo Rafael Sánchez Ferlosio como precursor deste modelo de literatura, influiu no renascimento do romance pós-guerra espanhol e consequentemente em seus escritos, como podemos observar em Duelo en el Paraíso. Na referida obra são apresentados personagens que importam valores das classes menos favorecidas (órfãos em uma residência de refugiados, mendigo, militares em situação crítica [republicanos]) e de simplicidade (pessoas do campo, tais como a empregada Filomena e a prima Águeda). Essas ocorrências atestam seu relacionamento com a literatura italiana do final da década de 1930 e início de 1940 – período em que se representam figuras com características simples.
O contato com a cultura norte-americana também deixa marcas nas obras do escritor espanhol. Romances caracterizados pela observação da conduta e do comportamento externo dos personagens – como Juegos de manos e Duelo en el
Paraíso - se relacionam a forma como Hemingway e Faulkner desenvolvem seus
escritos na década de 1950. Podemos ainda situar a obra Duelo en el Paraíso, posto que a conduta e o comportamento de diversos personagens do romance são observadas e em algumas ocasiões relatadas de uma forma crítica – como a loucura de Estanislaa (tia do protagonista) e a frieza de Arquero (assassino do protagonista), por exemplo.
9
As informações contidas neste fragmento foram extraídas do livro Eros, mística y muerte en Juan Goytisolo (1982-1992), de Javier Escudero Rodríguez. Na referida obra, o autor trata questões relacionadas ao mítico, a morte e ao erotismo na literatura de Juan Goytisolo do período de 1982 à 1992.
A literatura francesa também adquire importância no processo de assimilação de conhecimento por Juan Goytisolo. O contato com seu grande amigo francês, o escritor Jean Genet, seus elogios à obra de Céline (renovação da língua e da linguagem) e sua crítica aos autores do “novo romance” são mostras de tal afirmação. Ainda com relação a tal literatura, percebemos a influência de Jean-Paul Sartre na narrativa do escritor espanhol, através de seus conceitos de liberdade e literatura engajada.
A assimilação do pensamento de Sartre pode ser percebida em Goytisolo em sua formação política de esquerda, como explicita Javier Escudero Rodríguez em
Eros, mística y muerte en Juan Goytisolo (1982-1992). Quando o escritor, na década
de 1940, entrou em contato com variados conceitos pertinentes ao existencialismo, através de uma publicação de Sartre na revista Destino, ele passou a se interessar intensamente pelas ideias preconizadas pelo filósofo. Na mesma época, Goytisolo iniciava um período de abandono da religião católica.
Já na década de 1960 se produz nos romances de Goytisolo uma aproximação da literatura espanhola e hispano-americana. Sua amizade com renomados autores da América Latina e admiração pelo conceito do “hispânico”, conduzem-no à defesa e valorização de tal conceito na Europa. A aproximação do autor ao mundo latino se reflete em sua narrativa desordenada e caótica, como podemos observar no fragmento do artigo de Michał Naziemiec intitulado Le huele
España: los rasgos que distinguen la obra literaria de Juan Goytisolo de la nueva narrativa hispanoamericana:
La técnica narrativa que utiliza nuestro autor lo asemeja en las categorías formales a la nueva narrativa hispanoamericana. Teniendo en cuenta el ritmo narrativo y el lenguaje de Señas de identidad y de Reivindicación del conde don Julián, nos encontramos 41
con un texto que nos parece caótico y desorganizado, se da una sintaxis dislocada donde falta la puntuación convencional, conllevando la ausencia manifiesta de párrafos, puntos y mayúsculas. A veces, los únicos signos de puntuación que aparecen en el texto son la coma y los dos puntos; los únicos tiempos verbales, el presente de indicativo y el gerundio. Todo esto provoca una sensación de flujo total de la lengua; nos introduce indirectamente el monólogo interior que no es solamente un simple fluir de una conciencia, sino un discurso entre dos esferas de la mente del narrador: la objetividad y la subjetividad (NAZIEMIEC, 2013).
Com relação ao contato com a literatura produzida na América hispânica, ainda podemos citar um trecho de uma obra de Carlos Fuentes, sob o título La
nueva novela hispanoamericana, em que o autor trata da criação de um novo
modelo de linguagem a ser veiculado pelo romance, operando mudanças em sua estrutura:
Goytisolo emprende la más urgente tarea de la novela española: destruir un lenguaje viejo, crear uno nuevo y hacer de la novela el vehículo de esta operación. Su obra se convierte así en el puente que une a dos fenómenos literarios de idéntico signo idiomático aunque de actitud radicalmente opuesta ante ese signo: la novela española y la novela hispanoamericana (FUENTES, 1969, p. 81).
No fragmento citado anteriormente, Fuentes aporta a importância de Juan Goytisolo na construção de uma nova narrativa literária espanhola, ao romper com um velho modelo de escritura, criar uma nova forma de linguagem e fazer de suas obras o aporte para essa transformação. Deste modo, o escritor espanhol consegue interligar dois fenômenos literários: o romance espanhol e o romance hispanoamericano.
A partir do que foi apresentado, pode-se perceber a importância de Goytisolo enquanto escritor contemporâneo. Influenciado por diversos pensamentos e tendências literárias, o autor absorve do contato com outras culturas as mais
importantes questões suscitadas, desenvolvendo um acalorado debate que pode ser observado em suas distintas publicações.