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O conhecimento das características de uma comunidade, sua dinâmica interna e as relações estabelecidas entre saúde, ambiente e condições de vida podem ser citados como importante aliado ao se refletir sobre as possibilidades de atuação, tanto de enfermeiros quanto dos demais profissionais da equipe multiprofissional, com vistas à diminuição de

eventuais agravos, vez que a saúde pública tem forte componente horizontal, reconhecendo as particularidades de cada população e adequando-se a elas(35).

Sabe-se que a contaminação ambiental, em especial do solo e recursos hídricos, é fruto do uso de produtos e das atividades e ações humanas no ambiente e se manifestam, principalmente, por meio de microrganismos patogênicos, como já discutido anteriormente, e de metais pesados(162). Este último, caracteriza-se em preocupante tipo de poluição dos sistemas aquáticos e terrestres, que resulta do despejo de metais pesados e acarreta alterações no ciclo geoquímico desses elementos, concorrendo para sua maior dispersão no meio(163).

Os metais pesados são elementos químicos que possuem peso específico maior que 5 g/cm3 ou número atômico maior do que 20. Entretanto, convencionou-se a utilização do termo “metais pesados” para a tipificação de elementos químicos que contaminam o meio ambiente, provocando diferentes danos à biota(164). Os principais elementos químicos contaminantes enquadrados neste conceito são: o arsênico, causador de problemas nos sistemas respiratório, cardiovascular e nervoso; o chumbo, capaz de atingir o sistema nervoso, a medula óssea e os rins; o cádmio, causador de problemas gastrointestinais e respiratórios; o cromo, responsável por provocar irritação na pele e, em doses elevadas, câncer; o manganês, causador de problemas respiratórios e efeitos neurotóxicos; e o mercúrio, capaz de contaminar o homem seja pela exposição ocupacional seja pela via alimentar, neste último caso sofrendo o processo de biomagnificação ao longo da cadeia trófica. Do ponto de vista toxicológico, o mercúrio é considerado o metal pesado mais nocivo(163).

No Brasil, de modo geral, desde os anos 1980, o mercúrio é utilizado no processo de extração de ouro(165), sendo as atividades desenvolvidas em garimpos, citadas como um fator antropogênico responsável pelo aumento, no meio ambiente, da carga total de mercúrio (Hg), que se destaca, entre os vários metais pesados, por ser associado à contaminação do ambiente aquático devido a sua alta toxicidade(166). Em consequência disto, o garimpo apresenta-se como um assunto polêmico e tem sido alvo de preocupação na área ambiental e da saúde pública. A temática abrange uma diversidade de questões sociais, políticas, econômicas e problemas ambientais relacionados com a utilização do mercúrio no processo de extração do ouro e na emissão de metal pesado para o ambiente(167).

Acrescenta-se a este contexto o histórico de aproximação dos Kalungas com as atividades de garimpagem, uma vez que estas comunidades se caracterizam enquanto grupo

de remanescentes de quilombos que se instalaram no interior dos municípios de Monte Alegre de Goiás, Cavalcante e Teresina de Goiás, oriundos do trabalho escravo existente nas minas de ouro da região do sertão do Estado de Goiás, no período da colonização do Brasil, por volta do Século XVIII. Passados mais de três séculos, mesmo que em menor proporção e/ou de maneira não oficial, ainda é possível identificar a forte presença da atividade garimpeira entre estes moradores, em especial às margens do rio Paranã, no povoado do Riachão, no município de Monte Alegre de Goiás.

O mercúrio é considerado um metal tóxico extensamente estudado em todo mundo, com distribuição no ambiente por fontes naturais ou antropogênicas e capaz de fornecer risco às populações por acarretar efeitos nocivos ao ecossistema e à saúde humana(168). No homem, a partir do evento exposição, o mercúrio, que é um elemento traço natural, pode se concentrar em diversas partes do corpo, como pele, cabelo, glândulas sudoríparas e salivares, tireoide, sistema digestivo, pulmões, pâncreas, fígado, rins, aparelho reprodutivo e cérebro, provocando diversos problemas de saúde, entre estes os graves efeitos neurotóxicos.

Como resultados de emissões antrópicas, cita-se o processo de extração e amalgamação do minério do ouro, no qual grande parte do mercúrio empregado é depositada nos sedimentos bênticos. A partir daí, por uma série de reações químicas, o mercúrio inorgânico é transformado em metilmercúrio, composto orgânico altamente tóxico. Este, por sua vez, é bioacumulado, atingindo concentrações maiores ao longo da cadeia alimentar aquática e chegando até o homem por meio da dieta alimentar, principalmente pela ingestão de pescados, considerados como uma importante fonte de exposição ambiental do ser humano ao metal pesado(168).

O Hg nos peixes está principalmente na forma de MeHg, sendo estes animais considerados importantes biomarcadores utilizados por diferentes organizações e pesquisadores com o objetivo de avaliar os níveis de contaminação de determinada biota aquática, em especial na checagem da qualidade dos pescados disponíveis para a população(169). A importância do monitoramento dos níveis de Hg em frutos do mar e derivados está associada à avaliação de eventuais riscos toxicológicos para as populações.

Na mineração aluvial, com o objetivo de formar a amálgama com o ouro, o mercúrio (Hg) é lançado nos rios, onde os íons mercuroso (Hg2+2) e mercúrico(Hg+2) podem dar origem

biometilado pela ação de microrganismos presentes nos corpos d`água associados aos sedimentos de fundo, material particulado em suspensão, plâncton ou raízes da vegetação submersa(171). As propriedades físico-químicas das espécies mercuriais inorgânicas estão intimamente relacionadas ao ânion ao qual o metal se liga(172), sendo a metilação do mercúrio inorgânico passo chave na ciclagem do Hg nos ecossistemas aquáticos(173). Neste processo, dentre os diferentes compostos orgânicos formados, o metilmercúrio (MeHg) é o mais comum e o mais importante, considerado, por grande parte dos estudiosos, como sendo a principal forma do Hg bioacumulada ao longo da cadeia alimentar(174).

Em outras palavras, o mercúrio despejado no meio ambiente sedimenta-se no fundo das águas e se transforma em outro composto mais tóxico, o metilmercúrio, pela ação de bactérias processadoras de sulfato (SO4), que podem liberar o composto na água,

contaminando o plâncton, ou podem ainda ser consumidas por peixes, que pescados e futuramente consumidos, contaminam a espécie humana(175). O peixe tanto absorve o metilmercúrio diretamente da água como pela ingestão de outros organismos aquáticos(176). De modo que, mesmo em regiões com níveis normais de mercúrio na água, podem ser observados níveis altos em peixes, pois, ao ser incorporado na cadeia trófica, o mercúrio é biomagnificado e bioacumulado(167).

O processo de bioacumulação ocorre pela transferência do metilmercúrio acumulado no primeiro nível trófico (produtores) para os consumidores, sendo que, quanto mais longa a cadeia trófica, maior a concentração acumulada pelo consumidor. Os peixes são, assim, concentradores naturais de mercúrio, sendo as espécies carnívoras as que mais contribuem para o acúmulo de MeHg, chegando a acumular nove vezes mais que outras espécies(174). A idade, peso e tamanho também podem influenciar no acúmulo do metal pesado no tecido muscular estriado esquelético destes animais aquáticos(165). A permanência do peixe em águas com a presença do mercúrio enquanto poluente, principalmente em sua forma orgânica, reflete a maior exposição destes animais ao metal, acarretando, consequentemente, maior possibilidade de acúmulo gradativo ao longo da vida do animal.

O homem pode ser citado como representante dos altos níveis da cadeia alimentar, sendo mais exposto, pela dieta, a este metal pesado cuja absorção intestinal em sua forma metilada é maior que 95%. O MeHg, devido a sua alta capacidade de incorporação pelas células, é absorvido rapidamente; contudo, é eliminado lentamente se comparado às outras

formas mercuriais(177). Esta baixa velocidade de eliminação relaciona-se ao fato de sua meia vida ser longa, cerca de 70 dias(170).

Nas intoxicações humanas, o mercúrio age como inibidor e modificador das atividades proteicas, mesmo em baixas concentrações, devido a sua afinidade com grupos sulfidrilas presentes em proteínas e sistemas enzimáticos de diferentes tecidos e órgãos(172). O composto se acumula nos rins, no fígado e no sistema nervoso central (SNC), e a sintomatologia da contaminação se apresenta de modo inversamente proporcional ao nível de exposição(178), sendo suas manifestações crônicas ou agudas. Por ser lipossolúvel e atravessar facilmente as membranas celulares, o metilmercúrio também tem efeito feto-tóxico, transpondo a barreira placentária e acarretando alterações irreversíveis para o feto, mesmo sem o aparecimento de sintomas na mãe(165).

Destaca-se, assim, que a presença do mercúrio no meio pode acarretar comprometimento da biota de áreas direta ou indiretamente afetadas pela atividade garimpeira. Por isso, em se tratando da prevenção de potenciais riscos ambientais e em saúde, é de suma importância o conhecimento e o monitoramento das concentrações deste metal altamente tóxico, tanto em humanos quanto na vida aquática em particular(179,180).