Ao ressaltar a importância do exercício autorreflexivo a ser recuperado pela tradição filosófica e pela pedagogia da Aufklärung, ou por aquilo em que ambas se converteram, Adorno, nos artigos e ensaios publicados em Palavras e Sinais, parece radicalizar ainda mais sua aposta pela autorreflexão a ser recobrada, sobretudo pela filosofia em virtude da formalização à qual o pensamento e os sistemas filosóficos estariam submetidos. Num desses ensaios, intitulado Observações sobre o pensamento filosófico (1995b, p.15-25), Adorno observa que, ao se separar do seu objeto ou mesmo daquilo do qual se diferencia, o pensamento filosófico tornou-se presa fácil da coisificação, alienando-se do conteúdo objetivo em decorrência de sua independência e convertendo-se em uma espécie de aparelho, semelhante às máquinas e aos computadores, graças ao seu método autocrático e formalizado de pensar. Adorno se contrapôs à formalização do pensar filosófico, afirmando que este “só começa quando não se contenta com conhecimentos que se deixam abstrair e dos quais nada mais se retira além daquilo que se colocou neles” (1995b, p. 16). Segundo Adorno (1995b, p.16-17), Kant teria insistido para o fato de que, antes mesmo de conhecer conscientemente os fenômenos e transformá-los em representações subjetivas, o indivíduo é tomado por uma apercepção original e não consciente a respeito de um objeto indeterminado e sem forma, pelo qual o pensamento se sente afetado de modo a produzir representações e racionalizações a seu respeito27. De acordo com Adorno (1995b, p.17), o pensamento filosófico deve estar, de algum modo, “ligado, segundo sua própria configuração, ao que não é em si mesmo o pensar: ali onde se deve buscar o que se devera decifrar no pensar”.Ao invés de conduzir-se em si mesmo de acordo com as regras da lógica, submetendo a priori à sua legalidade tudo aquilo do qual se distingue, o pensamento ou o pensar filosófico “deve primeiro entregar-se verdadeiramente à coisa, onde, como ensinaram Kant e os idealistas, constitui ou inclusive produz a coisa” (ADORNO, 1995b, p.18). Pensar filosoficamente consiste em entregar-se sem
27 Nessa passagem, Adorno faz um comentário à Crítica da Razão Pura, primeira obra da trilogia kantiana. No entanto, na Crítica da Faculdade do Juízo, a última das três críticas, Kant chamará de sublime esse “objeto sem
forma” diante do qual o pensamento se sente perturbado e desarmado, embora os conceitos do entendimento
reservas ao objeto, em “ser perturbado por aquilo que o pensamento não é”, perdendo-se nas contradições e complexidades que envolvem a experiência com um não-idêntico.
Adorno (1995b) concebe o exercício do pensamento filosófico como sendo uma experiência do pensar alimentada por um enigma e por um núcleo sensível e incomunicável do conceito e da linguagem em relação ao qual nos sentimos afetados e perturbados, embora não consigamos conceituá-lo ou mesmo resolver os impasses suscitados com a ajuda das regras da lógica formal. Esses limites do pensamento filosófico teriam sidos retomados por Adorno no artigo Sobre sujeito e objeto (1995b, p.181-201). De acordo com Adorno (1995b, p.183), tanto o sujeito quanto o objeto encontram-se mediados reciprocamente: o objeto se encontra mediado pelo sujeito e o sujeito se encontra mediado pelo objeto. A separação entre sujeito e objeto na teoria do conhecimento tradicional ou mesmo a unidade entre ambos representam, cada qual a seu modo, uma inverdade dessa relação. Quando separado pretensamente do seu objeto, o sujeito subjuga-o e o reduz a si mesmo na condição de senhoril, tornando-se algo que não é em decorrência de seu núcleo objetivo. A identificação entre sujeito e objeto, no entanto, representa tanto um estado originário e romântico no qual não havia ainda autoconsciência, especialmente porque a idéia de um sujeito não teria sido forjada, quanto uma etapa primitiva e já superada, correndo-se o risco de produzir um conhecimento para o qual nem o sujeito e nem objeto seriam necessários.
Se fosse permitido especular sobre o estado de reconciliação, não caberia imaginá-lo nem sob a forma de indiferenciada unidade de sujeito e objeto nem sob a de sua hostil antítese; antes, a comunicação do diferenciado. Somente então o conceito de comunicação encontraria seu lugar de direito como algo objetivo. (ADORNO, 1995b, p.184)
O pensamento filosófico, quando reduzido a um mero órganon das ciências, encontra seus limites na comunicação com o outro do pensamento. É como se Adorno advertisse para os limites aos quais a comunicação entre o sujeito e o objeto do qual se diferencia estaria circunscrita, especialmente quando, em seus enunciados, pressupõe-se tanto uma separação quanto uma identificação conceitual com o não-idêntico. Em ambos os casos, a comunicação, segundo Adorno, não faria jus ao seu próprio conceito, qual seja, comunicar aquilo que, tanto no processo de identificação quanto no de diferenciação entre os interlocutores, permanece ausente dessa relação comunicativa. Ao invés de servir como um mero instrumento de reconciliação entre sujeito e objeto, a comunicação deveria almejar o núcleo sensível e incomunicável do pensamento e da linguagem, aquilo ao qual o conceito não consegue atingir em sua totalidade, mas pelo qual poderia se sentir afetado, suscitando não só o dissenso e a agonística desprezados nessa comunicação, mas também revendo sua posição nessa relação
rígida e formal com o seu não-idêntico, modificando, quem sabe, sua posição nessa relação e, no limite, o seu modo de ser e de existir no mundo ao qual pertence. Tomando por base essa advertência, Adorno irá redefinir o papel a ser desempenhado pelo pensamento filosófico e pela educação na atualidade, a saber, segundo a regra da primazia do objeto, levar o sujeito, diante do incomunicável pelo seu pensamento, a se deparar com os seus próprios limites, desfazendo-se a dicotomia entre sujeito transcendental e sujeito empírico e conduzindo-o a uma autorreflexão acerca de si mesmo. Segundo Adorno, Kant já teria realizado a intentio obliqua, a saber, a determinação das condições subjetivas para o conhecimento objetivo. No entanto, a primazia do objeto, o segundo giro copernicano, conduz a uma intentio obliqua da intentio obliqua, ou seja, a uma revisão da posição do sujeito prevalecida na teoria tradicional. Esse movimento de autorreflexão poderia levar o sujeito a refletir sobre seu formalismo, o qual outra coisa não seria senão a reflexão sobre a própria sociedade, na medida em que esta determina objetivamente as condições subjetivas do pensar (1995b, p. 199). Nesse movimento de autorreflexão, o sujeito se depara com as formas objetivas e subjetivas da dominação, convertidas em formas de pensamento, as quais lhe foram exigidas e graças às quais se conhece o objeto, transformando os homens e a si mesmo em algo manipulável. Trata-se de uma crítica ao subjetivismo, para o qual apenas o momento subjetivo deve ser privilegiado, esquecendo-se o quanto de objeto tem o sujeito, e de uma crítica ao objetivismo, o qual se esquece o quanto de sujeito tem o objeto. É nisso que ainda consiste a liberdade do sujeito e do pensamento filosófico: se esforçar em comunicar o diferenciado que o conhecimento sistemático e científico não são capazes de pensá-lo, evitando a violência contra o objeto em nome da ciência, desempenhando, por essa via, uma forma de resistência à reificação e coisificação da experiência.
A práxis característica de uma autorreflexão, no exercício da qual o individuo, afetado pela lembrança daquele elemento indeterminado e incomunicável pela linguagem, reconhece os limites do pensamento racional em forjar conceitos pelos quais o não-idêntico poderia ser objetualizado, distancia-se, radicalmente, de uma praticidade imediatista e instrumental, para a qual o que vale é apenas a eficácia do método. No artigo Notas marginais sobre teoria e práxis, Adorno (1995b, p.202-229) observa que o pensamento filosófico reduzido à razão subjetiva e instrumental, suscetível de aplicação prática, será incapaz de diagnosticar o que ocorre historicamente em nome do exercício desenfreado dessa razão e das ciências.
Pensar é um agir, teoria é uma forma de práxis; somente a ideologia da pureza do pensamento mistifica este ponto. O pensar tem um duplo caráter: é imanentemente determinado e é estringente e obrigatório em si mesmo, mas, ao
mesmo tempo, é um modo de comportamento irrecusavelmente real em meio à realidade. (ADORNO, 1995b, p.204-5).
Embora esteja, nessa ocasião, se contrapondo indiretamente a uma certa tendência disseminada entre alguns movimentos estudantis de 1968 que teriam, de certo modo, instrumentalizado a teoria marxista em nome de uma pretensa revolução social e histórica, Adorno (1995b, p.210) reitera o vigor da teoria e do pensar filosoficamente, nutridos por uma análise profunda da situação vigente, a qual não se exaure na adaptação a ela. Enquanto reflete a situação no âmbito da teoria e do pensamento dialético negativo, pelo qual não se busca uma solução ou superação das contradições, mas sim a impossibilidade da mesma diante das condições objetivas e subjetivas atuais, o sujeito revela momentos que poderiam conduzi-lo para além da situação factual. Ao se contrapor a uma práxis mediada e integrada à situação, a teoria converte-se em uma força produtiva prática e autônoma; mais do que isto: transformadora, negadora e reveladora de uma outra realidade. Sempre que atinge algo importante, o pensamento produz um impulso prático, mesmo que oculto a ele. Não há nenhum pensamento que não tenha um télos prático, pois qualquer pensamento sobre a liberdade baseia-se na sua possível produção, desde que não esteja sujeito a um freio prático e nem encomendada sob medida para os resultados pré-definidos (ADORNO, 1995b, p.211). Destituída de reflexão teórica e instrumentalizada em função de interesses diretos e imediatos, a práxis acaba por fetichizar os seus meios e as suas técnicas, pois “a reflexão sobre os fins se torna intolerável para o tipo de práxis que lhe é próprio” (ADORNO, 1995b, p. 217). Produto das condições sociais e objetivas, a instrumentalização do pensamento com vistas à sua aplicação sem a devida mediação do pensar ou do pensamento filosófico conduz a uma pseudo-atividade, na medida em que ocupa o lugar daquele pensamento que opõe resistência às formas de totalitarismo e de barbárie exigidas no tempo presente.