4.5 MAC-analysis
4.5.1 Euler-Bernoulli (B33) and Timoshenko (B31) beam element models
Lyotard (2000, p.99-100) considera que a pragmática do saber científico pós-moderna, por sua própria natureza, possui pouca afinidade com o critério de desempenho e eficácia predominantes, pois a expansão da ciência, por definição, se opõe, de um lado, ao determinismo preponderante no jogo das ciências – por considerar a invenção de novos lances ou de novas regras no quadro da relação estável entre input/output – e, por outro lado, ressalta que “trabalhar na prova é pesquisar e inventar o contra-exemplo, isto é, o ininteligível; trabalhar na argumentação é pesquisar o ‘paradoxo’ e legitimá-lo com novas regras do jogo de raciocínio”. A ciência pós-moderna postula o problema da legitimidade a si mesma na medida em que, ao admitir como sendo alheios e estranhos à sua pragmática as regulações determinadas pelo jogo técnico e seu critério de eficiência com o advento da crise dos relatos especulativos e emancipatórios, reconhece a busca pela descontinuidade e instabilidade no âmbito do ensino e pesquisa como sendo intrínseca à exigência original do jogo científico, a saber, a simultânea renovação dos discursos e das gerações científicas.
Interessando-se pelos indecidíveis, nos limites da precisão do controle, pelos
quanta, pelos conflitos de informação não completa, pelos “fracta”, pelas
catástrofes, pelos paradoxos paradigmáticos, a ciência pós-moderna torna a teoria de sua própria evolução descontínua, catastrófica, não retificável, paradoxal. Muda o sentido da palavra saber e diz como esta mudança pode se fazer. Produz, não o conhecido, mas o desconhecido. E sugere um modelo de legitimação que não é de modo algum o da melhor performance, mas o da diferença compreendida como paralogia. (LYOTARD, 2000, p.108).
Se, por um lado, o problema da legitimação do saber na pós-modernidade evidencia o desuso do recurso aos relatos da dialética do Espírito ou da Emancipação da humanidade para a validação do discurso científico nesse contexto, por outro lado, segundo Lyotard (2000, p.111), o predomínio do principio do consenso, seja enquanto assentimento dos homens obtido por intermédio ou da prática dialógica compartilhada intersubjetivamente ou enquanto mecanismo manipulado pelo sistema a fim de, na transmissão dos saberes e no jogo de pesquisa, manter e aperfeiçoar as performances tecnológicas, também se mostra insuficiente no que se refere à pragmática desses saberes. Seria o caso, portanto, de legitimá-los não segundo o critério do consenso ou da eficácia, mas segundo o principio da paralogia, como
busca do incomunicável, paradoxal e descontinuo nesse sistema, produzindo não o assentimento, mas o dissenso e, por essa via, realçando ainda mais a agonistica da linguagem.
A paralogia se distingue da simples inovação, pois esta consiste em lances formulados com o intuito de aperfeiçoar as performances e garantir o desempenho eficaz do sistema; a paralogia consiste num lance não programado e nem determinado pelas regulações que determinam o jogo científico, desestabilizando as regras predominantes e anunciando novos horizontes capazes de modular diferentes e múltiplas perspectivas e paradigmas suscitados e produzidos pela imprevisibilidade das descobertas. Nesse sentido, a paralogia deve ser concebida como
(...) um poder que desestabilize as capacidades de explicar e que se manifeste pela regulamentação de novas normas de inteligência ou, se se prefere, pela proposição de novas regras para o jogo de linguagem científico, que irão circunscrever um novo campo de pesquisa. É, no comportamento científico, o mesmo processo que Thom chama morfogênese. Ele próprio não é sem regras (existem categorias de catástrofes) mas sua determinação é sempre local. Transposta à discussão científica e colocada numa perspectiva de tempo, esta
propriedade implica a imprevisibilidade das “descobertas”. Em relação a um
ideal de transparência, ela é um fator de formação de opacidades, que relega o momento do consenso para mais tarde. (LYOTARD, 2000, p.112).
Por intermédio do princípio da paralogia, a pragmática científica oferece o antimodelo ao sistema estável, demonstrando a impossibilidade do consenso no âmbito dos jogos baseado na redução da complexidade e na adaptação das aspirações individuais ao princípio modular do sistema. Um lance deve ser capaz de mudar as regras dos jogos sobre os quais predominava o consenso, assim como as necessidades de uma pesquisa ou aspirações do pesquisador não devem ser negligenciadas sob o pretexto de que elas não seriam úteis à ciência. Tanto num caso quanto no outro, o incomunicável, o descontínuo e singular opera esses deslocamentos e rupturas que, no limite, ameaça a própria sobrevivência do sistema e sua eficácia (LYOTARD, 2000, p.112-115). A pragmática que envolve as comunidades científicas não cria outros saberes e outras modulações, a não ser se recusando a se identificar com o sistema e resistindo à aceitação e reprodução de seu critério de desempenho e consenso. Para isso, ela deverá ser capaz de modificar os enunciados prescritivos que determinam os enunciados denotativos, produzindo novas ideias e novos saberes. Mas essa modificação só será possível em função da pesquisa daquilo que é instável e incomunicável e, por essa via, apresentar a alternativa capaz de desestabilizar o sistema e, desse modo, reinventar os discursos.
Mas seu desenvolvimento pós-moderno coloca em primeiro plano um “fato” decisivo: é que mesmo a discussão de enunciados denotativos exige regras. Ora,
as regras não são enunciados denotativos, mas prescritivos, que é melhor chamar metaprescritivos para evitar confusões (eles prescrevem o que deve ser os lances dos jogos de linguagem para ser admissíveis). A atividade diversificante, ou de imaginação, ou de paralogia na pragmática científica atual,
tem por função revelar estes metaprescritivos (ou “pressupostos”) e de pedir
para que os parceiros aceitem outros. A única legitimação que ao final das contas torna aceitável esta démarche, seria a de que produzirá idéias, isto é, novos enunciados. (LYOTARD, 2000, p.117).
Assim como a pragmática científica, a pragmática social é composta por inúmeros jogos de linguagem para os quais o principio do consenso e o seu conjunto de metaprescrições se mostram inapropriados. É por esse motivo que, para Lyotard (2000, p.118), não seria possível, prudente e nem desejável, elaborar o problema da legitimação à luz de uma busca de um consenso universal, obtido por intermédio do diálogo de argumentações intersubjetivamente compartilhadas, como pretende Habermas. Os jogos de linguagem são heteromorfos e são regulados por regras pragmáticas heterogêneas, motivo pelo qual não seria possível que todos os locutores e interlocutores estivessem de acordo em torno das regras e metaprescrições validas universalmente para todos os jogos. Além disso, no âmbito da pragmática científica, “o consenso não é senão um estado das discussões e não o seu fim”, na medida em que cabe à paralogia, enquanto pesquisa da instabilidade e modificação das metaprescrições, impulsionar a heterogeneidade das regras e a busca do dissentimento enquanto condições para a reinvenção dos discursos. Para Lyotard, a pesquisa de Habermas ainda é assumida pela crença segundo a qual a humanidade, enquanto sujeito coletivo e universal, procura sua emancipação por intermédio da regularização e uniformização dos lances e a legitimidade de um enunciado deve residir sobre as suas possíveis contribuições para esse processos. Nesse sentido, reconhecer a heterogeneidade dos jogos de linguagem e o caráter local do consenso sobre as regras que definem esses jogos consiste nos aspectos fundamentais destacados por Lyotard.