As regulações que determinam a pragmática oficial da pesquisa nas sociedades informatizadas, segundo Lyotard (2000, p.77-85), deslocaram a ênfase tradicionalmente atribuída à questão da legitimação do saber segundo a pressuposição de um sistema axiomático ou de um relato especulativo autodemonstrável para a admissão, na pós-
modernidade, de um novo estatuto segundo o qual as regras de funcionamento desses jogos não são demonstráveis, mas são consensuais entre os experts. Nesse novo contexto, a argumentação utilizada pelos cientistas e experts para a validação e aceitação de um enunciado científico baseia-se na aceitação recíproca das regras consensuais e constantemente renováveis que determinam a argumentação, ocasionando, por um lado, a multiplicidade de linguagens e enunciados produzidos em decorrência da flexibilidade desse contrato, e, por outro, considerando o caráter pragmático desse jogo, a aceitabilidade de um novo lance no quadro geral das regras estabelecidas. Essa nova perspectiva em relação à pesquisa dos saberes na contemporaneidade, baseada na teoria dos jogos de linguagem, permite ressaltar que o “princípio de uma metalinguagem universal é substituído pelo da pluralidade de sistemas formais e axiomáticos capazes de argumentar enunciados denotativos” (LYOTARD, 2000, p.79).
A administração das provas por parte do expert, nesse cenário pós-moderno da pesquisa, não se utiliza mais, pelo menos não exclusivamente, do recurso aos relatos de testemunho e à sua referência material, mas, ao sofisticar os meios de “provar a prova”, dependerá das novas tecnologias para o melhor desempenho de sua exposição, cujo princípio de otimização das performances garante-lhe, por intermédio dos recursos técnicos utilizados, não só competência formal para tanto, mas um desempenho satisfatório e eficaz no âmbito da manutenção do sistema como um todo. A sua performance técnica, por assim dizer, será desempenhada eficazmente caso seus lances, de caráter operacional e funcional, possam contribuir para uma relação estável e contínua entre os mecanismos de output e input do jogo de linguagem em questão. Para Lyotard (2000, p.89), os aparelhos técnicos, as tecnologias, que otimizam as performances e que visam a eficácia dessas no que se refere à administração das provas “exigem um suplemento de despesa”. Ou seja, as provas, a verificação dos enunciados, o valor de verdade, todos esses elementos só são possíveis em função de investimentos financeiros destinados a sustentação desses jogos de linguagem. “Traça-se uma equação entre riqueza, eficiência e verdade” (LYOTARD, 2000, p.89). Uma tecnologia, um dispositivo técnico por assim dizer, necessita de um investimento, mas, na medida em que é capaz de otimizar as performances às quais é destinado, poderá também “otimizar a mais- valia que resulta desta melhor performance”. Nessas circunstâncias, a ciência torna-se uma força de produção capitalista, cujos produtos, outros saberes ou outras técnicas, produzidos por essas performances são vendidas e consumidos com o intuito de aperfeiçoar ainda mais essas performances e os fundos e agências de pesquisa e de fomento que as mantêm.
A administração da prova, que em principio não é senão uma parte da argumentação destinada a obter o consentimento dos destinatários da mensagem cientifica, passa assim a ser controlada por um outro jogo de linguagem onde o que está em questão não é a verdade mas o desempenho, ou seja a melhor relação input/output. O Estado e/ou a empresa abandona o relato de legitimação idealista ou humanista para justificar a nova disputa: no discurso dos financiadores de hoje, a única disputa confiável é o poder. Não se compram cientistas técnicos e aparelhos para saber a verdade, mas para aumentar o poder. (LYOTARD, 2000, p.83).
A articulação entre técnica e lucro no âmbito da pesquisa científica acentua, cada vez mais, a relação entre capitalismo e crédito de pesquisa expressa no funcionamento dos departamentos de pesquisa que se relacionam a empresas, orientando seus estudos segundo os critérios de desempenho e de aplicabilidade; no financiamento de fundações privadas ou mistas de pesquisa; na criação e sofisticação de laboratórios ou grupos de pesquisas independentes, cujo financiamento vislumbra uma inovação decisiva e rentável. Desse modo, as “normas de organização do trabalho que prevalecem nas empresas penetram no laboratório de estudos aplicados: hierarquia, decisão do trabalho, formação de equipes, estimativa de rende individual e coletiva, elaboração de programas vendáveis, procura de cliente, etc” (LYOTARD, 2000, p.82). Assim, o jogo técnico, baseado no critério de eficiência, parece preponderar sobre os jogos denotativo e prescritivo, ou, quando muito, determinando suas regulações, deslocando a ênfase do verdadeiro/justo para o de eficácia e melhor desempenho. Nesse caso, ao interferir no critério de verdade e justiça, o poder passa a legitimar esses jogos, pois não se trata somente do bom desempenho, “mas também a boa verificação e o bom veredicto” (LYOTARD, 2000, p.84). O poder legitima a ciência e o direito pela eficiência que ambos os jogos podem demonstrar no que contribui para a otimização das performances do sistema.
O critério de desempenho eficaz predomina, assim como no da pesquisa, na pragmática do ensino na pós-modernidade, segundo Lyotard (2000, p. 88-96). A transmissão dos saberes, sobretudo no ensino superior, baseia seu jogo de linguagem nos critérios de eficiência e otimização das performances, em função dos quais o ensino, enquanto um subsistema do sistema social, deve contribuir para o melhor desempenho deste. Cabe ao ensino, nesse contexto, pressupor, em suas diferentes modalidades de discursos, um conjunto articulado de competências e habilidades a partir das quais as metodologias de ensino deverão orientar suas estratégias e às quais os indivíduos deverão se submeter durante o processo de qualificação profissional. Por essa via, caberá ao ensino formar tantos os experts, os especialistas responsáveis pela eficácia dos diversos setores do mercado mundial, quando fornecer ao
sistema um quadro amplo de profissionais técnicos capazes de manter, segundo suas finalidades, a coesão interna.
No contexto da deslegitimação, as universidades e as instituições de ensino superior são de agora em diante solicitadas a formar competências, e não mais ideais: tanto médicos, tantos professores de tal ou qual disciplina, tantos engenheiros, administradores, etc. A transmissão dos saberes não aparece mais como destinada a formar uma elite capaz de guiar a nação em sua emancipação. Ela fornece ao sistema os jogadores capazes de assegurar convenientemente seu papel junto aos postos pragmáticos de que necessitam as instituições. (LYOTARD,2000, p.89)
As instituições de ensino tornam-se, segundo essa perspectiva, meramente funcionais e os seus destinatários, aos quais os saberes são transmitidos tecnicamente, não advêm mais das elites liberais e nem tampouco estão influenciados pelos ideais de emancipação, na medida em que este modelo se revela ineficiente. De acordo com Lyotard (2000, p.90), duas funções operacionais passam a integrar as regulações que determinam a pragmática do ensino na pós- modernidade: a função de profissionalização e a de reciclagem permanente. A função profissionalização do ensino superior se articula às perspectivas profissionais correspondentes às várias áreas do conhecimento e tem sido destinada àqueles jovens desempregados não contabilizados nas estatísticas da demanda de emprego, mas que estão presentes na universidade, tornando-se a nova categoria dos destinatários da transmissão do saber, sem os quais o desempenho e a eficácia do sistema não seriam possíveis. Além desse aspecto, o aperfeiçoamento das performances do sistema pressupõe uma transmissão do saber que, por ocorrer fora da universidade, dos departamentos e das instituições profissionais, não considera relevante a transmissão em bloco, mas uma transmissão para adultos “ativos” com vistas à melhoria de sua competência e de sua promoção além de adquirir informações e jogos de linguagens que lhe permitam “alargar” o horizonte de sua vida profissional.
O novo caminho tomado pela transmissão do saber não prossegue sem conflitos. Pois, de um lado, enquanto é do interesse do sistema, e portanto de
seus “decisores”, de encorajar a promoção profissional, já que ela não pode
senão melhorar as performances do conjunto, por outro lado, tanto a experimentação sobre os discursos, as instituições e os valores, acompanhada
por inevitáveis “desordens” no curriculum, o controle dos conhecimentos e a
pedagogia, sem falar de recaídas sociopolíticas, mostra-se pouco operacional e se vê recusar qualquer crédito em nome da seriedade do sistema. Contudo, o que se delineia aí é uma via de saída fora do funcionalismo tanto menos negligenciável porque foi o funcionalismo que a traçou. Mas pode-se calcular que a responsabilidade seja confiada às redes extra-universitárias. (LYOTARD, 2000, p.91).
Além de dissociar a transmissão dos saberes da realização de um fim evidente em si mesmo e postulado pelo jogo especulativo e emancipatório, o predomínio do principio de desempenho e de eficácia no âmbito da pragmática do ensino tem subordinado as instituições responsáveis por essa função aos poderes já constituídos, motivo pelo qual o caráter autônomo reconhecido às universidades no final dos anos 60 tornou-se pouco evidente nos últimos anos. Ao acentuar sua função profissionalizante em detrimento da autonomia que lhe fora atribuída, as universidades têm priorizado uma transmissão didática de um conjunto de conhecimentos mínimos para o desempenho das funções operacionais do sistema, cuja comunicação e pragmática constitutivas têm sofrido cada vez mais a incidência das novas tecnologias. Ao invés de um curso proferido por um professor mediante de uma plateia de estudantes, o professor tradicional passa a ser assimilável a uma memória e os saberes comunicados traduzíveis por intermédio de uma linguagem informática e funcional. A exposição didática dos saberes não está mais sob a responsabilidade do professor, mas das máquinas, dos computadores e internet, capazes de articular as memórias clássicas (a biblioteca ou o texto de aula) a bancos de dados e terminais disponíveis aos alunos. No entanto, de acordo com Lyotard (2000, p.92), a substituição progressiva dos professores por máquinas inteligentes só se torna intolerável sob a perspectiva dos grandes relatos de legitimação, pois, no contexto da mercantilização dos saberes, reduzidos à sua funcionalidade eficaz, o estudante profissionalizante não se questiona sobre os critérios de verdade e justiça pelos quais os enunciados denotativos e prescritivos se regulam, mas sobre sua utilidade, eficiência e valor de troca nas relações de consenso.
Nesse contexto, a redefinição da função da didática nessa pragmática tornou-se central, à medida que caberá a ela não somente priorizar as diversas modalidades de transmissão de informações associadas à utilização de recursos tecnológicos para a obtenção de uma performance eficaz, mas também asseguram as competências e habilidades necessárias à produção de novas articulações e conexões entre dados que, até então, se mostravam independentes uns dos outros. A sociedade pós-moderna baseia-se no principio segundo o qual não deve existir segredo científico aos experts, ou seja, por principio, todos os dados informacionais estão disponíveis a todos. Portanto, o aperfeiçoamento do desempenho e o aumento da eficácia não se relacionam a uma memória completa e atualizada, mas sim em novos arranjos dessas informações, garantindo uma vantagem àquele que for capaz de ou produzir um novo lance no campo das regulações assumidas ou uma modificação das regras do jogo. A interdisciplinaridade consiste nesse novo olhar direcionado à organização é a transmissão dos saberes, tradicionalmente associadas à autonomia de cada campo disciplinar,
e na pós-modernidade a ênfase na aprendizagem dos procedimentos, independentes dos campos disciplinares, por intermédio dos quais poderá ser aperfeiçoada a capacidade a capacidade de conectar campos que a organização tradicional isola.