Trinn 4: De naturlige meningsenhetene undersøkes i lyset av oppgavens formål
5. trinnet: De viktigste emnene i intervjuet bindes sammen i et deskriptivt utsagn
6.3 Å gjøre som de andre
Em tempos de incertezas, de grandes urgências, de esgotamentos e indecisões, talvez convenha certa revisão e muita reflexão, reapreciando conhecimentos que julgamos tão definitivos. (RODRIGUES, 2004, p. 11)
A análise realizada sobre a relação afetiva dos pais em litígio com a família de origem foi iniciada, remetendo às vivências familiares e, consequentemente, à sua respectiva concepção endógena, como percebem a influência dela quanto ao estudo e ao trabalho, a importância dos irmãos e, também, como conseguem diferenciar-se nesse conjunto familiar. Ao adentrarmos nestes aspectos, prosseguimos, resgatando o que os pais em litígio pensam e sentem sobre as categorias mãe e pai, por meio da expressão que têm da concepção de ser mãe/pai, como eles percebem seus próprios pais e mães e como se veem exercendo a função materna/paterna.64
Giddens (2003, p. 63) afirma que “A família é um local para as lutas entre tradição e modernidade, mas também uma metáfora para elas. Há talvez mais nostalgia em torno do santuário perdido da família do que qualquer outra instituição com raízes no passado.” Há muita expectativa em torno da família; deposita-se nela certa idealização e espera-se dela comportamentos exemplares. Percebemos que, no meio social, quando se fala em família, ela ainda está associada ao modelo nuclear, a um casal de pais e seus filhos, supostamente vivendo em harmonia.
Esse modelo nuclear, que começou a ser delineado no início do século XVII, com sua origem na aristocracia e na burguesia, ainda hoje permanece no imaginário social. Entretanto, mesmo na época em que ele tinha mais força, muito provavelmente existiam outras formas e arranjos familiares. Samara (2002), em estudo comparativo do período colonial até a atualidade, onde observa as mudanças e continuidades quanto ao processo de formação, desenvolvimento e crescimento populacional das famílias brasileiras, surpreende-se ao observar que, na segunda metade do século XIX, aproximadamente 30% das mulheres eram chefes de domicílio e mantinham suas famílias, principalmente entre as idades de 35 e
63 Todos os nomes e informações passíveis de identificação dos sujeitos/participantes foram alterados para
preservar tanto os usuários quanto as juízas.
64 Função materna/ paterna aqui compreendidas como adultos que desejam a criança e que são continentes de
determinados atributos que os tornam capazes de exercer cuidados físicos e psíquicos para com os filhos. (BORGES, 2005).
59 anos. Crianças, adultos, dependentes e agregados também ajudavam a engrossar a renda familiar. As ocupações mudavam frequentemente, e os excedentes da produção domiciliar eram vendidos para que pudessem sobreviver. Na época, era comum a liderança feminina, voltada para a organização das tarefas, o gerenciamento dos pequenos negócios, e até mesmo o controle da família - o que, sem dúvida, fugia à regra do modelo patriarcal.
Desta forma, observa-se que esse modelo do pai provedor e mãe do lar talvez nunca tenha retratado o vivenciado pela maioria das pessoas, principalmente aquelas que se situam no extrato social menos favorecido. Todavia, ele ainda povoa o imaginário de muitos, inclusive o de profissionais que trabalham com a família. “O modelo nuclear é um conceito analítico que se manifesta não somente empiricamente [...], mas também como ideia bem definida no imaginário social.” (FONSECA, 2002, p. 64). Além disso, tende-se a esquecer a que custo sexual, emocional e moral esse modelo manteve-se no ideário social e que, de alguma forma, ainda se mantém.
Saber que esse modelo ainda habita o imaginário social importa, na medida em que mesmo as famílias que têm outra forma de se organizarem são por ele influenciadas. Por outro lado, as famílias que não o têm, muitas vezes perseguem essa forma de organização que está enraizada na ideologia e, se não conseguem cumprir o almejado, sofrem por não estarem nessas condições, sentindo-se, até, incompetentes. Por vezes, a família que não se enquadra nesse modelo é “julgada” por seus próprios pares, ou até mesmo por profissionais, e tal atitude colabora como uma forma de perpetuação desse pensamento.
Encontramos, nos sujeitos pesquisados, essa tendência à família idealizada. A ascendência estrangeira, algumas vezes utilizada como forma de manifestar certo status à linhagem, revela o espírito ainda existente do brasileiro colonizado. Alguns participantes denominaram suas famílias como “normal”, quando, em suas lembranças, não existiam brigas ou discussões, como se existisse um modelo de família em que isso não ocorresse. Outros, ainda que se lembrassem de severas dificuldades passadas, não conseguiam fazer críticas à violência sofrida. Muitos, quando admitiam que não haviam vivido o modelo idealizado, procuravam-no como se fosse possível encontrá-lo em algum lugar, ou em outra família. Muitas das lembranças da família no período da infância mostraram-se bucólicas, como algo saudoso, como sentimentos não mais possíveis de serem vivenciados.
Meu pai é descendente de português e minha mãe é descendente de italianos (...) (Mario).
Meu pai era rígido, espanhol, (...) mas assim, nós éramos uma família estruturada. (Maria das Graças)
Fomos uma família normal, bem estruturada. Depois puff!!! Brigas e discussões entre
os meus pais(...). (Orlando)
Éramos uma família muito unida (...) Meu pai era alcoólatra (...), agressivo, falava que ia botar todo mundo na rua, morar debaixo da ponte. (Rui)
Não tive aquela família unida (...). Fomos criados num lar que com problemas de bebida, então não tinha muito aquela estrutura familiar unida. (Flávio)
Olhava a casa dos vizinhos sempre cheias no natal e a minha sempre mamãe, vovô e
os meus três irmãos. Achava tudo lindo, com saúde, jantávamos juntos, mas a casa do vizinho sempre era mais animada! [risos] (Sueli)
Eu brincava na minha casa, que era quintal grande, mato e terra. Eu adorava aquilo, brincava que nem um louco ali. (Nilson).
É uma época de um outro mundo que não tem mais, eu brincando em cima do muro, nos jardins, fazendo artinha, pulo na árvore, bem diferente. (Carlos)
A família, referenciada pelos sujeitos, nos faz lembrar de um produto, pois, muitas vezes, é necessário demonstrar a sua proveniência, mostrando que era um bom produto, ou então que não era bom o suficiente, mas que existia em outro lugar. Entretanto, ainda que tenha existido, não é possível que exista mais. Da mesma forma, modelos e/ou relações afetivas idealizadas podem distanciar-nos da realidade; e o que não é real não é passível de mudança, posto que está em nosso imaginário. A este respeito, Kehl sustenta:
Como ocorre com todos os bens sujeitos à escassez, parece que hoje a família nuclear em vias de extinção tem sido mais valorizada e idealizada do que nunca, criando uma dívida permanente e impagável que pesa sobre os membros das famílias que se desviam do antigo modelo. A indústria cultural se alimenta dessas idealizações. A dramaturgia popular, veiculada pelo cinema e pela televisão, apela constantemente para a restauração da família ideal, ao mesmo tempo em que vende sabonetes, marcas de margarinas e conjuntos estofados para compor o cenário da perfeita felicidade doméstica. (KEHL, 2003, p. 4).
Os dados indicaram que, para todos os sujeitos pesquisados, o estudo e o trabalho representam mais do que uma fonte para a sustentabilidade material: um valor para a vida, aprendido com a família de origem. Especificamente quanto às mulheres, apesar de o trabalho ter sido indicado como algo difícil, por distanciá-las dos filhos, também indicaram que, mesmo enfrentando tal dificuldade, não deixam de perseguir seus objetivos. A inserção no trabalho, mesmo acontecendo em um período ainda muito precoce e sem o amparo da
legislação, não encontra críticas no sentido de maldizer o período ou a iniciativa dos pais. Reconhece-se a dificuldade do momento, mas inclui-se a experiência como fator de união, aprendizado e valor moral. Percebem nos pais fonte de inspiração e exemplo quanto ao aspecto do trabalho.
Eu sempre dei prioridade para o estudo. O dinheiro da pensão do meu pai não gastava com passeio, eu gastei com escola. (Maria das Graças)
Meu pai não foi uma pessoa de muitas posses (...), mas conseguiu nos fazer estudar. (Mario)
Estar fora, trabalhando o dia inteiro, me doía muito, mas tinha aquele objetivo: vou ter que batalhar pra ter o cantinho com meu filho. (Nina)
Nossa família era muito unida, ia todo mundo pra obra. (...) Foi uma infância pobre. Eu não gostava de ambiente de obra; é pesado, duro, nossa! (Rui)
Tinha necessidade de eu ir trabalhar (...). Quando moleque, vendia papelão, fui pipoqueiro, fiz tanta coisa! (...) tem que trabalhar honestamente. (...) (Fúlvio)
Comecei a trabalhar desde os 12 anos com meu pai, minha mãe me obrigou [risos](...) Fiquei revoltado. Fui crescendo e fiquei por lá mesmo. (Nilson)
Saí da casa de minha mãe com 14 anos pra trabalhar numa casa de família... A gente nunca pode seguir aquele caminho esquerdo (...). Prefiro sofrer na casa de patrão do que ganhar muito e ser jogada como se fosse um lixo! (Luísa)
Com 19 anos, eu, sozinho, inovei os negócios de meu pai. Ele falou se precisar vai, mas ele não ia; fui sozinho, sempre trabalhei. Tive muitas decepções de trabalho, mas muitas alegrias... (Carlos)
No começo minha mãe não trabalhava, mas depois ela quis trabalhar porque gostava muito. (Mariane)
Minha mãe era professora e sempre custeou tudo (...) difícil, mas foi ali de fato que a gente conseguiu perceber o quanto nós éramos unidos. (Sueli)
Meu pai trabalhava durante o final de semana, mas a qualidade de tempo dele com os filhos sempre foi muito boa. (Marlene)
Ressaltam-se, nos depoimentos, situações de trabalho opressoras quanto ao período laboral, pois ele diminui o tempo de estar com a família. Além disso, alguns depoimentos expressam a violência contra a criança/o adolescente, devido à obrigação de trabalhar sozinho, ou em companhia da família. Observa-se que os usuários não apontam críticas, mas estas se revelam timidamente quando expressam sobre o sofrimento ao passar por tais situações.
Os usuários mostram-se resilientes neste aspecto, pois, apesar de alguns deixarem transparecer que passaram por determinado sofrimento, o suplantam na superação. A ideia de trabalho perseguida pelos sujeitos é de que este possa ser não apenas uma produção destinada a conseguir bens materiais e serviços, mas “[...] uma atividade práxica que transforma e produz” (MORIN, 2003, p. 202), uma transformação não somente do objeto de seu trabalho, mas de seu próprio ser e de sua família no desenvolvimento de sua sociabilidade.
A escolarização é percebida pelos usuários como uma atividade de formação no processo de sua autoconstrução humana e na formação de uma moral e de uma capacidade ética na convivência social. A escolarização auxilia os usuários a realizarem seu projeto de vida, a se auto-reconhecerem como sujeitos capazes de produzirem e de serem úteis, ainda que o resultado dessa produção e as relações estabelecidas no trabalho não tenham sido democratizados.
Os sujeitos pesquisados colocam na fratria (conjunto dos irmãos) uma convivência fundamental para suas vidas, percebem as semelhanças e diferenças entre eles, apontam para uma sensação de pertencimento que os beneficiam e que os fazem sentir-se beneficiados por sua existência. O irmão funciona como um parâmetro, ora para ser diferente, ora para ser um modelo a seguir. O irmão considerado é aquele com quem se conviveu, desenvolvendo laços de fraternidade. Quanto àqueles irmãos apenas consanguíneos, são considerados figuras distantes e cuja lembrança, em alguns casos, revela rivalidade. O compartilhamento e a potencialização foram a tônica dos sujeitos, mesmo quando há diferença de idade, mobilizando sentimentos de ternura e proteção, fazendo, inclusive, uma complementação do papel/função da mãe.
Cursei Direito e Filosofia e ele estudou só até o Ensino Fundamental. (...) Nós nos damos bem, apesar da gente ser bastante diferente. (Rui)
Tenho três irmãs: uma tem loja, outra é advogada e a outra é do lar. (...) Sou meio o “ovelha”. (Fúlvio)
Minha irmã sofreu, mas não demonstrava. Quem mais demonstrava era meu irmão... Fui reprovado dois anos (...). Hoje, faço doutorado na USP... (Orlando)
Minha mãe entrou na justiça e meu pai levou cinco certidões de nascimento, alegando que não tinha condições de pagar a pensão pra mim. (Luísa)
Não tive contato com os irmãos do primeiro casamento de meu pai, só do segundo. (...) Esses meus irmãos nunca quiseram aproximação (...). (Flávio)
Dei um apartamento pra ele morar (...), ajudei ele a se reerguer (...). Estou sempre na casa de minha irmã, é o ponto de encontro. (Maria das Graças)
Sempre cuidei da minha irmã, (...) sou meio mãezona dela. Minha irmã é casada, e quando ela passa mal sou eu que a levo ao médico. (Mariane)
Tinha um irmão que morreu aos 22 anos. Era meu companheiro. Acidente. Ele era dois anos mais velho. (...) Éramos cinco, casa tumultuada, grande. (Carlos)
Só tenho um irmão, a gente se fala sempre. (Mario)
Eu e minha irmã mantivemos sempre um laço de família bom. (Marlene)
Amo meus irmãos! Uma coisa que às vezes é desgraça aos nossos olhos quando é criança, a separação dos pais, mas foi isso que nos fortificou enquanto irmãos (...). Um ajudou ao outro (...). A gente teve que lutar e batalhar, criar essa “mafiazinha” boa dos filhos [risos]. (Sueli)
A existência da convivência entre irmãos, para alguns, auxiliou-os a instaurarem apoio no cotidiano - uma solidariedade que regulou tensões e sofrimentos, permitiu vivenciar os benefícios de experiências de compartilhamento, de democracia e de instâncias intermediárias de poder no campo dos encontros e embates entre semelhantes. A existência de um laço familiar mostrou-se, com o tempo, importante na superação das dificuldades familiares. Kehl (2000) diz que se observa uma tendência de surgimento de novas formas de aliança entre os irmãos e que, talvez, seja possível pensar em uma função fraterna como complementar à função paterna. Acrescentamos, também, a função materna. Nas famílias que passam por crises e/ou separações e se reconstituem, os irmãos representam referências importantes, uma
vez que não mudam. Em situação de separação e reconstituição familiar, as relações fraternas passam a ser mais estáveis do que o subsistema parental (os pais), surgindo mais espaço para os afetos potencializantes entre os irmãos do que para a rivalidade.
Outro aspecto observado quanto aos sujeitos pesquisados e suas famílias de origem foi a diferenciação. Esta se relacionou na importância que os referidos sujeitos deram para a separação de seus pais - situação familiar que ocorreu com a maioria deles.
Alguns relataram que passaram por dificuldades em suas histórias de vida e, por isso, preocupavam-se em não repeti-las, muitas vezes vivenciando o casamento como uma forma de reparar situações perturbadoras na infância. Entretanto, ao final, os conflitos das relações familiares do passado foram revividos na relação conjugal presente. As vivências das dificuldades nas separações dos próprios pais deixou para eles a sensação de abandono e, até a atualidade, uma falta de compreensão e aceitação do vivido. Outros relataram que a separação dos pais ocorreu de forma tranquila, ou que a separação do pai/mãe para com o sujeito, mesmo tendo sido de forma brusca, por meio da morte de um dos pares, parece ter sido bem enfrentada e dado à família força para enfrentar as suas próprias separações no futuro. Assim, a separação, que seria, inicialmente, um evento destrutivo, converteu-se para potencializar uma força construtiva.
Meu pai sempre ameaçou se separar da minha mãe e eu ficava desesperado! Então isso influenciou. Eu não queria jamais ter um filho e me separar. (Rui)
Agonia, tristeza, revolta... Você está dormindo e escuta seus pais brigando (...). Idealizei pra minha vida: não quero passar por isso! (Orlando)
Meu pai foi embora e não falava com a minha mãe. Depois, ficaram amigos. A gente se reunia na casa da minha tia, ele vinha e me via, era isso só. (Luísa)
Não entendi o porquê de ele ter largado a gente de uma forma tão triste. (...) Nunca questionei minha mãe (...). Ficou essa lacuna...(Sueli)
[meus pais] se separaram, eu tinha oito anos. Nunca tiveram brigas que a gente presenciasse. (Mariane)
Meu pai não abandonou os filhos. Nós, mais velhos, não sentimos muito a separação de meus pais. A minha irmã pequena sentiu um pouco. (Nilson)
Minha mãe estava me levando pra escola e sofremos um acidente, ela morreu. Aos 17 anos, fiquei órfã. Meu pai teve um infarto. (Maria das Graças)
Em relação aos sujeitos pesquisados que não passaram por separação conjugal dos seus pais, alguns apontaram para a aproximação e o retorno à sua família de origem quando se encontraram na situação de terem filhos. Observaram que, com tal aproximação, haveria favorecimento na criação dos filhos. Contudo, não demonstraram atentar para o fato de que, com a aproximação dos seus próprios pais, poderia ocorrer uma substituição do pai da criança e, consequentemente, surgir uma tensão relacional, aquecendo os ânimos do litígio.
Hoje, moramos próximo por minha filha ser pequena e eu poder trabalhar, sabendo que eles estariam pertos. Foi boa essa volta, muito diferente. (Marlene)
Primeiro, conto com os meus pais; eles tão sempre prontos pra me ajudar (...) Às vezes, penso em pedir pro pai [da criança], mas se eu posso contar com meus pais, eu conto, entendeu? (Nina)
A diferenciação da família de origem é uma função fundamental adquirida pelo sujeito para o desenvolvimento da sua identidade, composta por dois elementos: pertencimento e individuação. O laboratório em que estes dois “[...] ingredientes são misturados e administrados é a família, a matriz da identidade”. (MINUCHIN, 1990, p. 53).
Quando um sujeito sente confirmado o seu pertencimento à sua família, pode desenvolver-se mais satisfatoriamente e criar a sua própria família sem modelos rígidos a negar ou a seguir. Para poder separar-se e conseguir criar um novo sistema familiar, assumindo funções diferentes, o indivíduo deve tornar-se, cada vez menos, essencial para o funcionamento da sua família de origem. Esta passagem do estágio de fusão para a diferenciação é influenciado pelo conjunto de interações vivenciadas no sistema de referência familiar, especialmente entre os pais e o sujeito/criança. Uma relação diádica, como mãe/filho, pai/filho, ou seja, sem um terceiro na relação, não promove o processo de diferenciação. Para diferenciar-se, cada sujeito deve delimitar e acrescentar, nas trocas com o exterior, um espaço pessoal e social, definindo a sua identidade, autorizando a si próprio e sendo autorizada pelos pais a construção da sua maneira de ser. (MIERMONT, 1994).
Esta construção poderá solidificar-se se o sujeito conseguir, sem perder o sentimento de continuidade, experimentar novas modalidades relacionais que lhe permitam variar as funções que assume nos subsistemas – pai/mãe, marido/mulher, filho(a), neto(a) – e às quais
pertence. A capacidade de deslocar-se de um lugar para outro, de participar, de separar-se, isto é, a capacidade de pertencer a diversos subsistemas permite-lhe assumir funções diferentes e trocar de tarefas, expressando, assim, aspectos diferentes de si mesmo. Essa possibilidade facilita com que a família passe por fases de crises, e/ou de desorganização, como processos para o seu desenvolvimento. (MIERMONT, 1994).
Destarte, considerando os diferentes graus de diferenciação, os casais que conseguem ter uma separação pacífica e, além disso, dar amor aos seus filhos, mesmo em momentos de crise, auxiliam os seus filhos a se diferenciarem e a viverem a sua função de filho. Por outro lado, os pais que não conseguem delimitar a crise conjugal no próprio casal, extrapolam para os filhos uma crise que não lhes pertence, fazendo com que estes permaneçam atrelados, rigidamente, a esses modelos até a vida adulta. Como um terceiro quadro nessa situação de conflito, encontram-se aqueles pais que gostariam de separar-se, mas não o fazem. Com isso, podem vincular seus filhos até a vida adulta como guardiães daquele casamento. Ainda que se casem novamente, retornam e/ou permanecem emocionalmente, de maneira rígida, na família de origem.
A partir destas reflexões em torno dos desdobramentos relativos ao entendimento do significado de família, procuramos compreender o significado de mãe e pai para os sujeitos por meio do que eles pensam sobre ser mãe/pai, como percebem seus próprios pais e como se veem como mãe/pai. Ao começar a reflexão sobre o significado de ser mãe/pai, a questão de gênero passou a ter forte influência nas definições dos sujeitos. Observamos que houve influência de gênero nas percepções apresentadas; por isso, optamos por dividir os depoimentos dos sujeitos quanto ao gênero feminino e masculino.
Pensar no significado de “ser mãe” trouxe às pesquisadas muita emoção. Para elas, ser mãe vem imbuído da necessidade de ter responsabilidade, ensinar, ajudar na construção de outra pessoa e, como consequência, de um mundo com valores éticos, sendo todas estas percepções atreladas ao afeto do amor.
Ensinar os valores (chorando...), dar muita alegria, preparar o filho pra uma vida