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GIS' IN DHIS: O PPORTUNITIES , R EQUIREMENTS AND L IMITATIONS

6. DISCUSSION

6.1 GIS' IN DHIS: O PPORTUNITIES , R EQUIREMENTS AND L IMITATIONS

A transição, a qual objetiva assegurar a fluidez da narrativa e evitar a quebra da diegese, é feita com o auxílio da trilha sonora e de vozes masculinas em off, isto

é, o som é ouvido antes do aparecimento da imagem correspondente. Antes das vozes ganharem rosto, o espectador já se lembrou de Hannibal Lecter. Com o aumento da íris que surge no canto superior direito, podemos ligar as vozes a seus respectivos donos.

Enquanto o diálogo continua, a tela escura vai dando lugar às formas e às cores. Para o correto enquadramento das personagens, a câmera se movimenta para a esquerda procurando o melhor posicionamento. Ao final desse processo, a cena de abertura de completa e podemos ver e ouvir os três homens que participam dela.

A câmera fixa mostra o trio em plano geral, o que faz com que o espectador se detenha na contemplação do espaço: um grande salão com móveis refinados, estátuas com muita luz a qual entra por grandes janelas. Mesmo sendo amplo e de bom gosto, estamos observando um lugar fechado, ou seja, limitado pelas paredes, voltado para o interior.

Acreditamos que a insistência da câmera em descrever o lugar se relacione mais com o construto das personagens e menos com a constituição de um espaço cenográfico.

A descrição origina sem dúvida uma pausa ou uma paragem na progressão textual da ação diegética, [...] Quer no retrato, quer na figuração do espaço geográfico-telúrico e do espaço social, a descrição mantém uma interação contínua com os eventos diegéticos. [...] não só veicula indícios e informações sobre as personagens, contribuindo para tornar verossímil, para enraizar no real a diegese, ou, ao contrário, para a inscrever num universo fantástico, mas também gera significados simbólicos ou alegóricos que são indispensáveis para compreender as personagens e as suas ações (AGUIAR E SILVA, 2007, pp. 741-742, grifo nosso).

As considerações acima são úteis para refletirmos sobre o objetivo real da câmera nesse trecho do filme e passarmos a considerar que a riqueza do lugar e consequentemente das personagens que vivem nesse espaço terão relevância no decorrer da narrativa, ou seja, “não só veicula indícios e informações sobre as personagens, mas também gera significados simbólicos ou alegóricos” necessários para a compreensão do todo da obra.

Sobre a personagem, devemos retomar que na concepção de BAKHTIN

não são os traços da realidade –da própria personagem e de sua ambiência – que constituem aqueles elementos dos quais se forma a imagem da personagem, mas o valor de tais traços para ela mesma, para a sua autoconsciência (2008, p. 53, grifo nosso).

Vejamos, portanto, no decorrer da diegese o que representa a riqueza até aqui apresentada para a personagem. Com esse intuito retomamos a análise do encontro de Barney com outros dois homens, sendo que um deles se encontra em uma cadeira de rodas.

Barney era o enfermeiro que trabalhava no hospital onde Lecter estava internado, era uma das pessoas que acompanhava Clarice em suas visitas ao hospital. Geralmente, Barney era mostrado pela câmera ao lado de Lecter e pareciam manter um bom relacionamento. Dez anos depois da fuga de Lecter, que razões levariam o enfermeiro àquele lugar tão diferente do hospital?

Percebe-se certa nostalgia na voz de Barney, acreditamos que isso tenha a ver com a boa relação que ele mantinha com o prisioneiro:

Barney: Quando as coisas se acalmavam o Dr. Lecter e eu falávamos dos meus cursos de ciência.

Verger: Informações sobre curso de psicologia, enfermeiro Barney?

Barney: Não, senhor. Não considero psicologia uma ciência. Nem o Dr. Lecter.

O interlocutor de Barney ri. Talvez tenha achado irônica a revelação feita por Barney e continua com seus questionamentos: “Quando você trabalhava no hospital observava Clarice Starling e Hannibal Lecter interagindo?”. O grifo é da personagem que quase soletra o último vocábulo. Barney reage devolvendo o questionamento: “Interagindo?”. Dessa maneira, parece não concordar com a insinuação de Verger, ou seja, com a forma com que este está conduzindo a conversa.

Nesse momento, Verger percebe que seu interlocutor está atento e se sente obrigado a reformular seu questionamento, fugindo da ambigüidade: “Conversando um com o outro?”.

Dessa vez, Barney aceita a pergunta e inicia sua resposta: “Sim. Parecia-me que eles...”, porém, nota-se que as palavras de Barney se misturam com as palavras de Lecter. Por conta disso, Cordell o repreende em tom áspero: “Sei que quer merecer o pagamento desta consultoria, mas comecemos pelo que via e não pelo que achava que via” (grifo nosso). A fala de Cordel, ao mencionar que há dinheiro envolvido, notifica o espectador que Barney trabalha para Verger, quer dizer, está ali como informante. Agindo dessa forma, o enfermeiro quebra o código de ética de sua profissão, ou seja, não revelar nada pessoal de seus pacientes para estranhos.

Nota-se que não há tempo para a reação de Barney, pois Verger interfere em seguida e tenta se mostrar compreensivo e muito interessado na opinião do enfermeiro que conviveu com Lecter durante sua estada no hospício de Baltimore: ”Cordell, não fale assim. O Barney pode dar a opinião dele. Barney dê sua opinião sobre o que via. O que havia entre eles?”. Acreditamos que Verger não deseja inibir a fala do outro, pois precisa de suas informações.

O espectador ainda não viu o rosto de Verger, porém, pelo som de sua fala, percebe-se que ele articula as palavras com dificuldade. Também aparenta ter problemas com a respiração, pois esta é muito ruidosa.

Após ter sido autorizado por Verger, Barney retoma sua fala que dialoga com o filme O Silêncio dos Inocentes trazendo de volta fatos passados sob sua ótica:

Barney: Na maioria das vezes, o Dr. Lecter não respondia aos visitantes. Abria os olhos o tempo suficiente para insultar algum aluno que ia vê-lo. Ele respondia às perguntas de Starling. Ela o interessava. Ela o intrigava. Ele a achava encantadora e divertida. (grifo nosso)

As revelações de Barney desencadeiam uma reação inesperada de Verger. A relevância do momento para este último é destacada pela câmera ao mudar o plano do enquadramento. O plano geral distante, sugerindo o distanciamento entre elas e a falta de relevância das informações prestadas até aqui, dá lugar repentinamente para o primeiro plano.

A apresentação do rosto de Verger é um dos momentos mais impactantes do filme. O que era inquietante vira espanto e horror. O espectador mapeia cada detalhe do rosto de Verger que continua com seus questionamentos: “Então Clarice

Starling e Hannibal Lecter tornaram-se amigos?”. A isso Barney responde com certa relutância: “Dentro de uma certa estrutura formal ... sim”. Verger insiste, parece que esse é o segredo que ele quer ver revelado: “E ele gostava dela?”. Barney, responde com um “sim” hesitante.

Após a confirmação, a câmera sugere o fim do diálogo com um travelling para trás. Dessa maneira, o plano geral distante mostra que Verger está satisfeito e isso se confirma em sua fala: “Obrigado pela franqueza. E continue trazendo suas valiosas descobertas sobre o Lecter. Gostei imensamente”.

Sobre o rosto de Verger, ficam os questionamentos do espectador: O que teria acontecido com aquela pessoa? Qual é o tamanho de sua dor? Nasceu assim ou teria se acidentado? Não é possível determinar sua idade, ou seja, sua face é como uma máscara, vazia de expressão. As respostas a tais questionamentos virão mais à frente da diegese, quando em um encontro com Clarice, Verger conta o que acontece a ele.

Ilustração 11 – Mason Verger na sequência de abertura do filme

Verger está eufórico e pede um biscoito para seu médico. Nesse momento, a câmera coloca-se em ângulo contra-plongée, ou seja, na altura da cadeira de rodas: “Acho que isso o mataria, senhor!” – responde o médico (grifo nosso). Dessa maneira, pela fala de Cordell, fica exposta a fragilidade física de Verger e o grau de dependência dele em relação ao outro.

Ao mesmo tempo, a câmera deixa no quadro as mãos de Barney. Elas seguram uma caixa de presente a qual está sendo aberta por ele. Verger mostra-se entusiasmado e sua respiração quase para ao ver o que Barney trouxe para ele. O

“tesouro”, que é como Verger chama o conteúdo da caixa, é negociado por “US$250,000”.

Ilustração 12 - Máscara que foi usada por Hannibal Lecter quando transferido para o Tennesse

O que vem dentro da caixa só é mostrado após a finalização da negociação. Dessa maneira, as personagens saem de cena e vemos em primeiro plano frontal a máscara usada por Hannibal quando este foi transferido de Baltimore para Memphis – Tennesse (trama do primeiro filme). Em CHEVALIER E GHEERBRANT (2009), encontramos que a máscara é um símbolo de identificação podendo ser utilizada em cenas dramáticas em contos, peças, filmes. Os estudiosos afirmam que a pessoa pode se identificar a tal ponto com a sua personagem, ou seja, com a sua máscara, que não consegue mais se desfazer dela, que não é mais capaz de retirá-la. Finalmente, ela se transforma na imagem representada. Para os demais, porém, a máscara é vazia, é apenas uma imagem, isto é, algo desprovido de toda substância.

O fundamental na citação acima é a relação que os autores estabelecem entre a máscara e a identidade. Relembramos que dentro da narrativa o objeto adquire valor de signo, ou seja, entrou no domínio da ideologia (BAKHTIN, 2010, p. 46), pois foi criado entre indivíduos, no meio social. Portanto, no nosso contexto o sujeito por trás dessa máscara é Hannibal Lecter, o canibal.

O mesmo não se pode afirmar sobre a identidade de Verger, o outro mascarado. Por que motivo ele está atrás daquela máscara? Por que Hannibal Lecter é tão valoroso para ele? Que tipo de negócios ele tem com Hannibal, que até o presente nunca demonstrou qualquer interesse em dinheiro?

Destacamos, que pelos elementos mostrados até agora, acreditamos que a diegese será contada pelo ponto de vista de Verger. Assim, as relações sociais, que são sempre relações de espelhamento, por meio das quais cada homem busca reconhecer no outro a sua própria individualidade, vão adquirir um caráter negativo. Isso acontece porque o homem nem sempre se reconhece no outro, o que conduz à alienação e à perda da identidade, à manipulação e à massificação, cuja consecução se faz, modernamente, em grande parte pela mídia, e, em especial, pela televisão.

Sobre o espaço da narrativa, destacamos que há o contraste com a ambientação do primeiro filme: o subsolo de um hospital psiquiátrico, a academia em que Clarice praticamente vivia, a casa de velórios, a deteriorada casa do assassino. Acreditamos que o refinamento do local, o qual deve provocar certo estranhamento ao público, intensifica a ideologia que permeia a diegese, qual seja, o domínio do capital e a conseqüente coisificação do homem.

O filme continua e um travelling para frente da câmera traz a imagem da máscara para o primeiríssimo plano. O símbolo que representa a personagem Hannibal Lecter vai dando lugar ao título do filme Hannibal escrito com letras vermelhas. Essa montagem enfatiza o que destacamos anteriormente, isto é, a máscara nesse contexto adquire valor de signo, pois é imediatamente identificada com seu dono.

A figura dilui-se; durante a sequência que apresenta os créditos, ouve-se uma outra melodia cujo andamento se contrapõe às imagens aceleradas, que são vistas por meio da objetiva de uma filmadora a qual parece estar procurando por alguém. Acreditamos que tanto a câmera quanto Verger buscam por uma pessoa: Hannibal Lecter.

O espectador acompanha uma filmagem, pois há uma numeração que aparece no canto superior esquerdo do vídeo e a palavra play no canto inferior esquerdo do mesmo. Vozes se misturam às imagens. A câmera se fixa em plano geral em ângulo plongée mostrando uma praça onde se vê muitas pombas. De repente, elas se espalham e levantam voo. O corpo das aves transforma a paisagem e o rosto de Hannibal Lecter aparece em praça pública. O sino, marcando um novo tempo, toca várias vezes assustando os animais que se espalham.

A sequência de retomada da personagem título se encerra com um fade-out branco compondo a transição para a cena seguinte que é acompanhada pela mesma melodia. Os dois efeitos criam a atmosfera onírica, a qual é rapidamente quebrada por uma cena de ação.

2.2 Clarice Starling – o encontro com os parceiros

Dando seguimento à apresentação da personagem, verificamos que a câmera em primeiro plano com o ponto de vista objetivo mostra uma moça enquanto ela dorme. Há uma névoa no ambiente, com um corte a câmera mostra que a fumaça é proveniente de uma peça de gelo que está servindo para refrigerar o furgão onde estão muitos rapazes e somente uma mulher. Um dos policiais se manifesta: “Como ela pode dormir numa hora dessas?”. A resposta esclarecedora do outro vem a seguir: “Saiu em batida a noite toda. Está se recuperando.”

Ao voltar o foco para Clarice, enquanto ela abre os olhos, a câmera sugere que ela estava ouvindo tudo sem se manifestar a respeito. Além disso, o espectador vai se dando conta de que a agente não está trabalhando onde queria, isto é, no Departamento de Ciência do Comportamento junto com Crawford. Ela trabalha nas ruas no combate ao tráfico de drogas desde a formatura.

Com um corte, a câmera sai do interior do furgão e em plano geral de longa distância em ângulo contra-plongée vemos o veículo externamente, enquanto alguém o coloca de ré em um barracão. A moça é mostrada em plano panorâmico enquanto ela sai do veículo e é seguida pelas outras pessoas. Há muitos policiais e Clarice e eles parecem estar se preparando para algo muito importante.