5. HISP GIS OPEN SOURCE – THE TEST APPLICATION
5.5 D ESIGN
O deslocamento constitui-se em uma cena, que na narrativa desenrola-se em um lugar, e na obra fílmica em outro, ou em ordem diferentes. De acordo com Brito,
Figura 5: processo de transformação da outra mãe – estágio final
Figura 6: ilustração da outra mãe (p. 28)
Figura 7: ilustração da outra mãe (p. 68)
(...) não é nada incomum que uma cena, digamos, intermediária no tempo da história do romance, seja antecipada para o começo do filme, ou simplesmente, postergada para perto de seu final. Às vezes os elementos deslocados são apenas trechos dos diálogos, ou meramente palavras, ou se for o caso, uma única imagem, mas de todo jeito a re-montagem influi grandemente na composição do filme na sua significação final. (2006, p. 15)
O primeiro deslocamento ocorreu em relação ao aquecedor de água central. No livro, quando Coraline interrompeu seu pai no escritório, ele disse à menina para que, em sua exploração pela casa, ela encontrasse o aquecedor de água central, que “(...) ficava dentro de um armário na cozinha” (GAIMAN, 2003, p. 15) 28; já no filme, o aquecedor estava em um pequeno
cômodo embaixo da escada, com um interruptor que, caso fosse pressionado, derrubava a energia de todo o casarão.
Em Coraline, quando ela saiu para conhecer os vizinhos e seus apartamentos, o primeiro que visitou foi o das vizinhas atrizes e depois o do Mr. Bobinsky; na obra fílmica foi o contrário: primeiro visitou o vizinho e seus ratos, depois se dirigiu ao andar de baixo para visitar as atrizes e seus cachorros.
Na primeira ida de Coraline ao outro mundo, o livro mostra que o conhecimento da outra família, da outra casa e a refeição ocorreram durante o dia29 e, no filme, a primeira ida aconteceu depois que a menina se deitou para dormir. Além deste deslocamento, na primeira maravilha, onde os ratos do Mr. Bobinsky, no livro, se apresentaram para Coraline em seu quarto, também ocorreu um deslocamento, pois, no filme, esses animais se apresentaram em um circo montado na casa do próprio vizinho. Nesta primeira ida, Coraline conseguiu retornar ao mundo real, antes de seus pais serem raptados pela outra mãe e ir para o outro mundo pela segunda vez, mas, na obra fílmica, Coraline, depois da terceira vez que foi ao outro mundo, ficou “presa” de uma vez, sem conseguir escapar, até que Wybie a ajudou a retornar à sua vida real.
Assim como citado por Brito, a ordem de algumas cenas também foi invertida: na narrativa, Coraline só foi para o outro mundo quando a mãe e o pai não estavam em casa, e depois das cenas nos apartamentos dos
28 Tradução feita por Regina de Barros Carvalho In: GAIMAN, Neil. Coraline. Rio de Janeiro: Rocco, 2003..
vizinhos e da ida à cidade; no filme, a menina foi para o outro mundo logo na primeira vez em que os ratinhos apareceram para ela, uma segunda vez depois de conhecer as casas dos vizinhos, e uma terceira vez, aí sim, após sua ida à cidade, quando estava sozinha em casa.
Ainda quanto à mudança de ordem das cenas, vemos, no romance, que as vizinhas deram à Coraline uma pedra com um furo no meio, para protegê-la do mal que a perseguia, na primeira vez em que a visita ao apartamento ocorreu, e em Coraline e o Mundo Secreto esta proteção foi feita de doces velhos, depois da terceira vez em que a menina foi para o outro mundo, quando ocorreu seu castigo dentro do espelho. Em Coraline, ela conseguiu voltar para seu mundo real depois de se recusar a pregar os botões no lugar dos olhos; quando retornou, não encontrou os pais e, preocupada, ligou para a polícia e os procurou nos apartamentos dos vizinhos, até que o Gato mostrou a ela que eles foram raptados pela outra mãe e estavam presos no espelho. A partir desta informação, Coraline se encheu de coragem e bravura, baseada em uma passagem de sua infância, onde seu pai também tivera que ser bravo e corajoso para salvar a filha de um enxame de vespas, e foi para o outro mundo, onde passou a noite e, somente depois de um longo dia, e de ter desobedecido a outra mãe, foi trancada dentro de um espelho, como forma de castigo, e de lá foi retirada pela outra mãe, episódio que levou Coraline a propor o desafio de encontrar os pais reais e a salvar as almas das crianças. No filme, a ordem dessas cenas é invertida, já que Coraline ficou trancada no espelho logo depois de ter se recusado a pregar os botões, e só conseguiu fugir com o auxílio do outro Wybie. Quando conseguiu retornar ao seu mundo real, viu que os pais não se encontravam em lugar algum e, ao procurá-los no apartamento das vizinhas, ganhou a pedra de proteção, e guiada pelo Gato, viu seus pais presos no espelho, o que a motivou a retornar ao outro mundo e a desafiar a outra mãe.
No livro, assim que Coraline acordou do sonho que teve com as crianças, ouviu um barulho na porta de seu quarto; achou que era um rato, até a porta sacudir fortemente a ponto de fazer a menina querer perseguir qualquer coisa que tivesse feito aquele barulho. Ao procurar pela casa, viu uma sombra com longas pernas brancas sair detrás do sofá e dirigir-se para a porta da frente. Ao ver esta sobra, percebeu que, “com cinco pés, de unhas vermelho-
carmesim, da cor dos ossos. Era a mão direita da outra mãe. Queria a chave negra” (GAIMAN, 2006, p. 142). Depois desta visão, dirigiu-se para o seu quarto e deitou, quando ouviu um estalo, as bolas de gude haviam se quebrado e, “o que quer que estivera dentro das esferas de vidro havia ido embora” (GAIMAN, 2006, p. 143). No filme, ao acordar do sonho, olhou embaixo do travesseiro e viu as bolinhas de gude quebradas. Disposta a dar um fim na chave negra, levantou-se e dirigiu-se para o jardim do casarão. Enquanto caminhava, houve um enfoque na portinha do outro mundo, que foi aberta pela mão da outra mãe, constituída por agulhas de ferro de variados tamanhos
30.
A transformação caracteriza a mudança de alguns elementos, para “(...) dar aos recursos verbais da literatura uma forma não-verbal, icônica, cinematográfica (...)” (BRITO, 2006, p. 16), já que “(...) procura compensar as perdas inevitáveis [de uma adaptação] com recursos substitutivos” (BRITO, 2006, p. 16).
A mais notável transformação está relacionada à porta que levava ao outro mundo: no livro, a porta era “(...) grande e de madeira escura esculpida, no canto mais afastado da sala de visitas (...)” (GAIMAN, 2003, p. 16), estando, assim à vista de qualquer pessoa que adentrasse neste cômodo; no filme, além de haver uma grande caixa de papelão na frente – possivelmente contendo objetos que ainda não haviam sido desempacotados da mudança –, a porta era bem pequena31, e estava coberta por papel de parede.
Em Coraline, o outro pai, em sua primeira aparição, estava digitando em seu computador, assim como o pai real fazia; em Coraline e o
Mundo Secreto, o outro pai estava sentado diante de um piano, onde tocou
uma música para a menina, guiado por “luvas-robôs”.
Já no final do filme, assim que conseguiu escapar do outro mundo, Coraline abriu sua bolsa e não encontrou o globo de neve onde seus pais estavam presos; triste, caminhou até embaixo da lareira, onde, sem querer, colocou a mão em um líquido transparente, que descobriu ser do globo
30Nesta passagem, também vê-se uma transformação, já que no filme a mão da outra mãe é feita de agulhas, e no livro, é feita de ossos humanos.
31 Nota-se seu tamanho reduzido devido ao fato de Coraline, uma criança, só ser capaz de
de neve quebrado, e assim que se questionou sobre o possível paradeiro dos pais, escutou-os abrindo a porta e adentrando a sala de visitas, cobertos por neve, o que levou a todos, espectador e Coraline, a imaginarem que aquela neve seria vinda do local onde a outra mãe os havia aprisionado. Depois de uma calorosa recepção por parte da menina, os pais a convidaram para jantar fora, como uma forma de comemoração do término e publicação do novo catálogo de jardinagem feito por eles. Na narrativa, quando retornou do outro mundo, a menina adormeceu em uma poltrona da sala e foi, posteriormente, acordada pela mãe real, que, além de questionar a filha a cerca de seu joelho machucado, disse que iria esquentar o jantar feito pelo pai – pizza. O globo de neve, elemento em destaque nesta transformação, permaneceu intacto dentro do bolso de Coraline, não permitindo que a metáfora dos pais terem sido aprisionados ali, e depois libertados, fosse feita.
No final da narrativa, Coraline decidiu fazer um piquenique com suas bonecas, com uma toalha de papel descartável, pequenas xícaras de plástico e uma jarra d’água. Saiu andando pelas ruas próximas ao casarão, passou por um terreno baldio, adentrou em uma sebe e parou próxima à velha quadra de tênis do jardim do casarão, onde havia um poço coberto por tábuas. A menina retirou tábua por tábua, até descobrir este poço, e estendeu a toalha por cima dele, tentando escondê-lo. Ali deixou o piquenique pronto e dirigiu-se à casa das vizinhas, onde perguntou pelo cão Hamish e mostrou sua chave a uma das atrizes, deixando claro que aquele objeto fazia parte de seu piquenique, como se quisesse que a mão da outra mãe, que poderia estar por perto, ouvisse onde a chave estaria. Resolveu, então, voltar à sua brincadeira, cantando uma música para fingir que não estava nervosa e, em seu caminho até a toalha, teve a sensação de avistar a mão de ossos várias vezes. Em sua brincadeira, colocou a chave negra no meio da toalha, mas ainda segurava o barbante que a prendia. Enquanto brincava com as bonecas, a mão correu e pegou a chave negra e, com o peso que fizera, fez com que a toalha, a chave e a própria mão caíssem dentro do poço. Feliz, Coraline cobriu o poço com as tábuas e retornou para casa, acompanhada pelo Gato. Ao se aproximar de sua residência, viu o Sr. Bobinsky, que contou a ela que os ratos estavam felizes e calmos, já que tudo estava bem, e que ela era a salvadora de todos os moradores daquele casarão. Com o sentimento de dever cumprido, foi até a
casa das atrizes e devolveu-lhes a pedra mágica, uma vez que não precisaria mais dela, e estava pronta para começar seu ano letivo na nova escola. No filme, depois de ter tido o sonho com as crianças, dirigiu-se ao poço, sendo seguida pela mão da outra mãe. Ali, retirou a tábua que cobria o poço e, quando estava prestes a jogar a chave, a mão a agarrou, arrastando a menina pelo jardim, até Wybie aparecer com sua bicicleta e soltar a menina. Nesta luta entre Wybie e a mão, o menino foi jogado para dentro do poço, mas ele não caiu por segurar-se na borda. Quando a mão estava fazendo o menino soltar- se, Coraline pulou em cima dela com um cobertor e Wybie, que já havia conseguido sair do poço, a quebrou com uma grande pedra. Aliviados, fizeram uma espécie de embrulho com a pedra, os pedaços da mão e o cobertor, amarraram-no com a chave, o atiraram no poço e o fecharam. Ao ver que toda a história que Coraline contava era verdade, Wybie pediu desculpas e mostrou uma foto da irmã desaparecida de sua avó. Ao ver a foto, Coraline a reconheceu como sendo uma das almas, e então, convidou o amigo para uma festa no jardim, com a condição que ele traria a avó, para que a menina pudesse contar toda a história do outro mundo e das almas das crianças para ela. O filme se encerra com a festa no jardim, onde todas as personagens estão presentes, inclusive a avó de Wybie.
Algumas personagens também sofrem transformações em suas vestimentas. No romance, Coraline é descrita usando “(...) seu casaco azul de capuz, seu cachecol vermelho e suas galochas amarelas” (GAIMAN, 2003, p. 21), e, durante sua última ida ao outro mundo, ganhou da outra mãe um jeans escuro, um suéter cinza e botas laranjas, mas, durante toda a primeira metade da obra fílmica, apareceu usando calça jeans azul, um casaco amarelo com capuz, assemelhando-se a uma capa de chuva, e galochas amarelas; na segunda metade, usou calça jeans azul escuro, e um suéter azul com estrelas brancas; nos momentos em que se dirigia ao outro mundo no período noturno, vestia seu pijama, de blusa e calça laranjas. Ms. Spink, quando descrita por Neil Gaiman, encontrava-se “(...) embrulhada em suéteres e casacos, parecendo assim menos e mais redonda do que nunca. (...) Estava usando óculos de lentes grossas que faziam seus olhos parecer imensos” (GAIMAN, 2003, p. 21) e, quando adaptada para o cinema, vestia um roupão azul, colar de pérolas, olhos maquiados com sombra azul e um andador. O aspecto do
portal para o outro mundo também foi modificado, já que em Coraline ele não passava de um simples corredor, e em Coraline e o Mundo Secreto ele era um túnel azul, com tons lilases, com um aspecto macio e misterioso.
As almas das crianças também sofreram transformações, uma vez que, na obra fílmica, Coraline sonhou com as crianças que, além de agradecerem-na, contaram que ela se encontrava em um grande perigo. Nesta cena, as crianças estavam vestidas com o típico estereótipo da figura de um anjo: vestidos dourados, asas e auréola, e sobrevoavam a cama de Coraline. Na narrativa, as crianças resgatadas estavam com ela em um lindo piquenique nas colinas, e estavam vestidas com roupas de época: “(...) era um menino com calções de veludo vermelho e uma camisa branca de babados” (GAIMAN, 2003, p. 136); “(...) a menina alta (...) usava um vestido marrom meio sem forma e trazia um gorro marrom na cabeça amarrado sob o queixo” (GAIMAN, 2003, p. 137); “Era uma criança muito pálida, vestida com o que pareciam ser teias de aranha e com um círculo de prata reluzente sobre os seus cabelos loiros. Coraline poderia jurar que a menina tinha duas asas (...) saindo de suas costas” (GAIMAN, 2003, p. 137).
O outro mundo também sofreu transformações, pois na versão de Neil Gaiman, a partir do momento em que Coraline foi resgatando as almas perdidas das crianças, o mundo foi se deteriorando, diminuindo, formando uma chuva forte de areia; e na sua versão fílmica, tornou-se sem cor, sem graça, num tom de cinza, e descascando-se, como se toda a pintura do outro mundo estivesse saindo.
Assim, todas as modificações que o livro sofreu em sua adaptação ocorreram não somente para que sua versão fílmica não ficasse tão extensa, mas também para enfatizar as descrições escritas feitas pelo autor e para tornar a narrativa ainda mais encantadora para o espectador.