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C HALLENGES OF O PEN S OURCE GIS DEVELOPMENT

6. DISCUSSION

6.2 C HALLENGES OF O PEN S OURCE GIS DEVELOPMENT

O fracasso da operação em praça pública expõe a vida da agente por meio de reportagens veiculadas pela televisão e pelos jornais. Os programas televisivos recordam a população do salvamento de Catherine, filha da senadora, há 10 anos. A imprensa enfatiza a ajuda que a então estudante, Clarice Starling, recebera de Hannibal Lecter. O passado deslocado para o presente torna-se algo negativo e contribui para denegrir a imagem da Agente Clarice Starling.

Com movimentos lentos, a câmera mostra em primeiro plano o colete salva- vidas e a arma que simbolizam o sistema, ou seja, os instrumentos do trabalho da agente estão ao lado da personagem. Deslocando-se de baixo para cima, a câmera compartilha com o espectador do choro compulsivo de Clarice, ainda vestida com as roupas que usava nas ruas.

Tal imagem nos revela que Starling deixa cair a máscara de agente e, dessa forma, expõe sua sensibilidade à câmera e ao espectador. Porém, devemos nos ater não somente a manifestação visível, ou seja, as lágrimas, mas também a forma como a câmera mostra a arma, o distintivo e o colete à prova de balas de Clarice. Os objetos estão colocados ao lado da personagem e não à sua frente. Isso nos parece relevante, pois em uma situação similar, quer dizer, de crise, a personagem reage de uma outra maneira, ou seja, ela coloca o revólver à frente dela, capítulo 1.3, página 49-51. Pelo descrito, concluímos que esse pequeno detalhe pode ser o primeiro indício de que a personagem esteja se desiludindo com o sistema.

Pouco depois, a câmera mostra as imagens que vêm de um programa de televisão. Clarice e “sua desastrada batida policial” são o tema da reportagem. A montagem alternada estabelece uma relação dialógica entre os fatos e as duas personagens e faz a transição da sala de estar de Clarice para o quarto de Verger. Este último está assistindo ao mesmo programa que Clarice. Porém os dois têm reações diferentes frente ao que está sendo.

Para Clarice, que acaba de perder um amigo, aquilo tudo representa um momento de tristeza e ela está consciente de que no mínimo terá que prestar algum tipo de esclarecimento a seus superiores. Isso se deve ao fato de que suas ações aconteceram em praça pública e tudo foi registrado pela imprensa.

Temos aqui, um exemplo concreto de que as imagens podem assumir diferentes sentidos dependendo do interlocutor que as lê. A imprensa faz uso das imagens considerando somente um ponto de vista e isso a leva a fazer um pré- julgamento de Clarice “o Departamento de Justiça e o FBI usam o poder das armas em vez do julgamento, Clarice não será enaltecida desta vez” (grifo nosso). Somente a câmera, Clarice e alguns de seus companheiros sabem como as coisas aconteceram, porém eles não serão ouvidos.

Verger, por outro lado, interessou-se de alguma maneira pela tragédia. Isso é destacado pelo movimento da câmera deixando em evidência seu rosto e pelo fato de que ele, logo após desligar a televisão, com um toque de dedos, pede a Cordell que faça uma ligação para o Departamento de Justiça. Nesse momento, as intenções de Verger não são reveladas, porém devemos destacar o cuidado que a câmera teve em mostrar suas mãos em primeiro plano. Esse detalhe pode estar relacionado com a identidade da personagem, porém até este ponto da narrativa isso ainda não pode ser afirmado.

Ao mencionar o Departamento Federal, a fala de Verger se liga à abertura da sequência seguinte. A transição entre as sequências é feita com o uso da voz da personagem em off. Dessa maneira, a técnica sugere que tudo acontecerá de maneira muito rápida e, também, que os dois eventos estão conectados.

A câmera focaliza ao fundo do plano a torre do Capitólio, edifício que abriga o Congresso dos Estados Unidos e depois entra em uma sala fechada. O lugar, palco do julgamento de Clarice, parece menor pela tomada em ângulo fechado. Dessa

maneira, auxilia a intensificar a situação de repressão a qual Clarice está sendo submetida no momento.

Entre os presentes, destacamos Paul Krendler, do Departamento de Justiça, que segundo um dos colegas “está aqui, mas não está”. Essa fala, sugerindo que Paul está fazendo algo que não deve ser divulgado, antecipa a diegese, pois em breve saberemos que ele se associa a Verger na caçada de Hannibal Lecter.

Inicialmente, o espectador observa o grupo que está em plano geral. Após situar o espaço onde acontecerá a reunião, a câmera em travelling lateral mostra os homens encarregados de decidir o destino de Clarice lentamente em primeiro plano e ângulo contra-plongée. Nas falas deles vemos espelhadas as notícias veiculadas pelos telejornais, dessa forma entende-se que o grupo assumiu o ponto de vista da mídia e é por esse ângulo unilateral que resolvem por suspender a agente. Clarice nem começou a explicar-se e seus interlocutores já estão dando mais atenção aos seus celulares que tocam e pagers que bipam provocando a retirada gradual dos presentes e consequentemente o adiamento da reunião.

Enquanto as autoridades estão preocupadas com seus outros afazeres, Clarice tenta se justificar apoiando-se em seus valores e aprendizados institucionais. A câmera a focaliza em primeiríssimo plano e ângulo contra-plongée enquanto ela se explica. Para o espectador, que acompanhou tudo, o momento é de grande comoção: “Essa batida foi caótica. Tive que escolher entre morrer ou atirar numa mulher com um bebê. Eu escolhi. Eu atirei. Matei uma mãe segurando seu filho. Sinto muito. Lamento o que houve.” Por sua fala, Clarice deixa claro que agiu em legítima defesa, porém: “Atirou e matou cinco pessoas”.

Com a falta de interesse da maioria, a audiência é adiada. A câmera passa a focalizar a personagem em outro espaço, que se opõe ao anterior pela sua amplidão. Em plano objetivo, Clarice está com o olhar fixo no horizonte à sua frente. Tal posicionamento da personagem deixa transparecer seu momento de reflexão, ou seja, ela deve estar sentindo medo das incertezas do futuro; medo de si mesma; no medo das sensações que essa nova experiência lhe desperta. A grande luminosidade natural que entra pelas grandes janelas envidraçadas que circulam o salão contribui para o aumento da dramaticidade do momento vivido por Starling. Por esse motivo, acreditamos que a personagem tem consciência de que dentro

dela existe outra prestes a libertar-se da injustiça e da opressão que estão aflorando em seu ambiente de trabalho.

Ilustração 17 Clarice no interior da sede do FBI olhando para o horizonte

É nesse local de reflexão que Clarice é suspensa das ruas e designada para voltar ao caso Hannibal Lecter a pedido de Mason Verger. Nesse momento, a câmera esclarece quais eram as intenções deste ao ligar para o Departamento de Justiça.

Nessa cena, outros detalhes da vida de Mason são sutilmente revelados por Starling e por Crawford. Como por exemplo, pelo diálogo tomamos conhecimento de que Mason Verger foi uma das vítimas de Lecter, que ele é “rico”, que possui “amigos influentes”. E ainda que “não pode comprar um senador, mas pode alugá- lo”.

Pelas informações trazidas pelas personagens, o espectador entende a razão pela qual a câmera focalizou o Capitólio no início da sequência. Assim, vai se formando uma rede em torno de Mason Verger, que se liga à Hannibal, à Clarice e à Paul Krendler.

Durante o diálogo, a câmera focaliza Clarice, Krendler e Crawford em primeiro plano e ângulos laterais, ou seja, do ponto de vista do interlocutor. Dessa maneira, o espectador pode observar a reação do eu frente à palavra do outro. Outras vezes, a personagem é focaliza em ângulo frontal, tal recurso é utilizado quando a ênfase da

câmera recai sobre o falante, ou seja, a importância está na entonação e não mais na reação que a fala provoca.

Além desses detalhes de focalização da câmera que vão criando um clima de desconforto entre Clarice e Krendler, destacamos a indiscrição de Paul Krendler, que insinua a falta de sensibilidade da agente e ainda deixa-se pegar pela câmera olhando para as pernas dela. Percebe-se que o funcionário do Departamento de Justiça e Clarice estão em posições opostas e que ela procura mantê-lo à distância. A esta altura da narrativa, o espectador ainda não entende qual é o papel do homem que, segundo Crawford, “está ali, mas não está”, “está fazendo um favor”.

Como dissemos anteriormente, Clarice usa um tom ríspido e assim demonstra que está muito descontente com o pré-julgamento que sofreu. Ela diz que “não esperava levar um tiro nas costas dentro do escritório de seu chefe“, complementa que fez tudo da maneira como foi ensinada. Porém, ao mesmo tempo em que nega o sistema continua presa a ele, pois se dirigi para a casa de Verger.

A câmera sugere que, entre a proposta e a aceitação da mesma, não decorreu muito tempo, uma vez que a agente já é mostrada na estrada antes mesmo do final do diálogo. Tal efeito é provocado pelo uso da montagem alternada, transição de uma sequência para outra: a imagem muda, porém a voz da cena anterior permanece em off. Além disso, as imagens sugerem que a personagem se agarra prontamente à oportunidade que lhe foi dada ou imposta.