Ao executarem as atividades determinadas como de sua competência, os profissionais da área de saúde procuram efetivá-las com destreza e precisão, objetivando atingir sempre uma assistência benéfica. É estabelecida uma relação implícita de confiança entre a equipe de enfermagem e o cliente. Ao se defrontar com uma situação de erro, esta relação de confiança é rompida.
O processo da administração de medicamentos é uma prática com risco de erros. Mesmo sendo um processo multidisciplinar, é a equipe de enfermagem quem normalmente administra os medicamentos necessários, recaindo sobre esses profissionais a responsabilidade e a punição pela ocorrência dos erros na medicação.
Lamentavelmente, os erros na medicação são alarmantes, trazendo conseqüências desagradáveis e indesejáveis tanto para sociedade como para os profissionais e instituições do sistema de saúde. Saliente-se que estas conseqüências vão além de perdas de valores humanos, sociais e econômicos. Neste contexto, os sentimentos de dor, angústia, negligência, vergonha e incapacidade manifestam-se nos profissionais envolvidos, diante dos sofrimentos das vítimas.
Encontramos na literatura estrangeira relatos de enfermeiras inglesas que vivenciaram situações de erro na medicação, nos quais expressaram sentimentos de culpa, horror, perda da autoconfiança, sensações de serem vítimas das circunstâncias, raiva de si próprias e preocupação com os efeitos causados aos pacientes (WAKEFIELD et al., 2001).
Ao vivenciar situações de erro na medicação em sua carreira, alguns profissionais da equipe de enfermagem apresentam sentimentos de culpa em ter promovido o “mal” ao paciente, vergonha e inferioridade em relação aos colegas de trabalho, de nunca ser “perdoado” pelos outros componentes da equipe de enfermagem do ato equivocado (cobrança eterna), percepção de incompetência na ótica dos colegas e de si próprios e punições morais. O impacto de um erro na medicação pode ser devastador na confiança e auto-estima do enfermeiro (COIMBRA; CASSIANI, 2001).
Diante de um erro, muitas vezes desencadeia-se um quadro punitivo não isento de violência, constrangimento moral e até mesmo de suicídio de médicos e
enfermeiros. Muitos profissionais demitem-se voluntariamente de seus empregos, sobretudo nos casos em que os erros trouxeram conseqüências graves aos pacientes (OSBONE; BLAIS; HAYES, 1999; BULHÕES, 2001; BOHOMOL, 2002).
Os inúmeros sentimentos citados, acrescidos ao medo da punição, fortalecem o silêncio dos profissionais frente aos erros na medicação percebidos.
Muitos outros fatores de ordem administrativa e filosófica da instituição de saúde dificultam a transparência da existência dos erros. Freqüentemente, os profissionais da saúde enfrentam “desestímulos” para informar erros, entre eles, ação disciplinar, ação no âmbito jurídico, rotulação de colegas de trabalho como imperito e/ou negligente, perda de confiança por parte da chefia direta e na própria competência profissional.
Mesmo que o profissional envolvido em um erro seja demitido ou advertido, a falha no sistema permanece e provavelmente erros novamente ocorrerão, se nada for feito para mudar a situação (PEPPER, 2004).
Além disso, a divulgação para a sociedade de um suposto ou eventual erro que possa ter ocorrido em uma instituição de saúde acarreta desabono à respeitabilidade da instituição e de seu quadro de profissionais perante a comunidade.
A informação de um erro é responsabilidade dos profissionais e das instituições, e não pode ser negligenciada, para colaborar na prevenção de futuros erros. Entretanto, o silêncio de muitos encobre a verdadeira incidência e gravidade da problemática do erro na medicação, reforçando a estagnação do quadro. Além da subnotificação, muitas vezes nada é realizado no intuito de evitar erros semelhantes.
Davis (1996), tendo observado 738 medicações prescritas e administradas em uma unidade de terapia intensiva de um hospital geral em Sidney, Austrália, constatou que somente 25% dos erros foram reportados espontaneamente.
Wakefield et al. (1999) e Wakefield et al. (2001) destacam que a pouca importância atribuída pela equipe de enfermagem aos erros que não apresentam danos torna-se uma barreira à informação dos erros identificados.
Cohen (1999) recomenda cinco pontos a serem observados para melhorar o sistema de notificação por relatos espontâneos, a saber:
♦ proteção: imunidade para conseqüências punitivas;
♦ prudência: comunicar qualquer evento suspeito, para posterior verificação de sua veracidade;
♦ prevenção: assegurar medidas corretivas a serem tomadas no sistema;
♦ filantropia: o conhecimento de que o relato irá auxiliar na educação de outros profissionais e pacientes;
♦ instrumento: o método de notificação deverá ser pequeno, conter instrução, ser simples e de fácil compreensão para o preenchimento. Com certeza, apontar “culpados” não é o intuito da notificação, nem pode ser visto como preocupação da instituição e dos profissionais da saúde, mas a partir desta notificação, ela poderia voltar-se para buscar “onde”, “como”, “quando” e “por que” os erros estão ocorrendo, para assim promover os ajustes necessários.
Torna-se claro que a atividade de medicação é complexa e de peculiar responsabilidade. Quando os erros ocorrem, esses devem ser identificados, informados e apropriadamente analisados de forma sistêmica. Por outro lado, fazem- se necessárias modificações no gerenciamento, criando uma cultura de não- punibilidade.
Mediante estas mudanças, se estabelece a possibilidade de propor e adotar medidas preventivas, práticas, efetivas e de curto prazo, como: implementar protocolos para as atividades mais complexas, utilizando checklists; implementar dupla verificação nos procedimentos; remover e/ou separar frascos de medicamentos com embalagem semelhantes (ampola de cloreto de potássio e outros eletrólitos concentrados); disponibilizar informações sobre o preparo e administração de medicamentos; oferecer treinamento, cursos de capacitação e orientação aos profissionais da saúde (FREDERICO, 2004).
A realidade constatada nos diversos estudos sobre erros na medicação poderá ser modificada por meio de pesquisas e a implementação de ações práticas e eficazes, como as descritas anteriormente, constituindo-se assim ações precursoras e fundamentais para mudanças de impacto no sistema de medicação vigente.
Assim, o propósito desta pesquisa foi analisar o conhecimento dos profissionais de enfermagem de uma instituição de saúde, sobre erro na medicação, antes e após a implementação de uma oficina de capacitação, buscando contribuir para a implementação de novas estratégias no que concerne aos erros na medicação na instituição pesquisada.
O estudo parte das seguintes premissas:
• Os erros na medicação não podem ser entendidos como ações praticadas deliberadamente por profissionais da saúde, mas como uma falha do sistema gerencial e/ou operacional que facilita a ocorrência de erros.
• O conhecimento do conceito de erro na medicação pela equipe de enfermagem contribui para a detecção, elaboração e implementação de medidas preventivas do erro (CARVALHO, 2000; SOUZA et al. 2000; ZANETTI; CASSIANI, 2000).
A proposta deste estudo vai ao encontro das recomendações para melhoria da prática de medicação apresentadas por organizações governamentais e não governamentais, como United States Pharmacopeia (USP), Food and Drug Administration (FDA), Institute of Medicine (IOM), o Institute for Safe Medication Practices (ISMP) e ANVISA, as quais preconizam que as instituições de saúde necessitam viabilizar programas de capacitação profissional, com vistas à prevenção de erros na medicação.