Na busca por entender a construção da identidade cultural do movimento Mangue Beat por meio seu aparato musical, a letra da música “A bola do jogo” entra como pano de fundo para o assunto do sujeito trabalhador, dessa vez não tanto o mangueboy e a manguegirl, figuras identitárias criadas para representar os que se filiam ao movimento. Antes, observamos que há mais de 30 anos entrava em atividade a banda punk de garagem, Mundo Livre S.A, dona da bola.
No princípio da carreira, o som pode não ter sido entendido por todos, e até vaiado. Mas faz muito que a banda tem um status consolidado no cenário alternativo. No controle dos pedais, inseriram um cavaquinho e, com influências de Jorge Ben Jor90 a Sex Pistols, o punk não virou samba, mas quase. O samba punk politizado do MLSA, com vestígios do pensamento de Noam Chomsky, Karl Marx, do movimento Zapatista com o subcomandante Marcos, apresenta um cavaquinho ao invés da rabeca91 do Mestre Salustiano, Maciel Salú ou Siba, ou das alfaias do maracatu que a Nação Zumbi carrega. E mesmo que o Mundo Livre faça uso do instrumento principal e do próprio ritmo do samba, aparelho da identidade nacional, ainda assim, o MLSA se mostra contra essa narrativa. Um exemplo é a música “O Mistério do Samba” (2000) que questiona essa apropriação do samba como identidade nacional. Ainda que convoque o futebol, paquere as “musas da Ilha Grande”92, faça uso do cavaquinho, o MLSA contestou essa “identidade fixa, autêntica” ao trabalhar com a CSNZ na construção de uma identidade cultural sob medida, planejada para alcançar o Brasil e o Mundo. E como afirma Melo Neto, o fato deles edificarem uma identidade cultural “dentro da prevista identidade recifense” já é motivo de análise, de estudo, “como vem sendo, pela
90 A música Mexe Mexe feita por ele especialmente para o MLSA, presente no disco Por Pouco (2000).
91 “Rabeca, ou rebeca, é uma espécie de ‘parente’ mais rústico e mais antigo do violino. Chamado pelos árabes de rabãb, entrou na Europa através da Península Ibérica, na época da dominação mourisca, e espalhou-se pela maioria das colônias portuguesas. Assemelha-se ao violino na forma (apesar da maior rusticidade em sua sonoridade e construção), porém difere deste na forma de ser tocada, como conta Oliveira (1994, [s.p.]): ‘enquanto o violinista apóia o instrumento no ombro esquerdo, o rabequeiro apóia-o no lado esquerdo do peito, na altura do coração’, conforme lemos em Nascimento (2003).
Academia” (2003, p. 51).
O som da banda MLSA é composto de baixo, bateria, guitarra, cavaquinho, percussão, teclado e efeitos, muitos de seus integrantes participam em projetos paralelos (Areia93 e Grupo de Música Aberta, Sonofabit, etc.) ou tocando (Mônica Feijó, Juliano Holanda, entre outros) ou produzindo discos de outros artistas. O último disco lançado foi “Novas lendas da etnia Toshi Babaa” (2011), um pouco menos panfletário, não tão em tom de protesto como trabalhos anteriores, mas mantendo o estilo próprio e único da carreira. A banda lançou o primeiro DVD em fevereiro de 2016, ano também em que o disco “Guentando a ôia” completa 20 anos. O DVD “Mangue Bit ao vivo” é a gravação de um show da banda em abril do ano passado em São Paulo. Em fevereiro de 2016 foi lançado em plataformas digitais e a versão física a partir de março, conforme informações divulgadas no Facebook e Instagram da banda. Em 2016, teremos diversas comemorações, shows e homenagens ao cinquentenário de Chico Science94. E ainda, os 20 anos do álbum “Afrociberdelia” (1996) de CSNZ. A turnê atual da NZ intitulada Afrociberdelia canta as músicas do álbum. A NZ também lançará um disco novo, e é motivo de documentário: “Chico Science, um caranguejo elétrico”95. A cada dia NZ ganha um status maior de headliner, de atração principal, de
mainstream. Por outro lado, podem ouvir críticas que o som deu uma amenizada tanto nos
tambores quanto nas críticas sociais, talvez para se encaixar nos padrões da gravadora Slap – Som Livre, ou ainda do projeto Natura Musical, lei de incentivo na fabricação do último CD,
Nação Zumbi (2014). A maioria dos componentes da NZ possui projetos paralelos, mas o
principal projeto é a Nação. Três dos integrantes tocaram na turnê de Marisa Monte, “Verdade, uma ilusão”. Marisa Monte cantou na música “A melhor hora da praia” do último disco da NZ. O baterista Pupillo integra a banda da Gal Costa, quando as datas não chocam com os shows da Nação. Jorge du Peixe lançou o Afrobombas, projeto com a filha de Science,
93 Mais uma alteração na formação do MLSA, que até maio de 2016 se apresentava com Fred Montenegro, Tony Montenegro, Leonardo Domingues, Pedro Santana e Areia. Após 12 anos na banda, em publicação do Facebook, o baixista Areia comunicou sua saída. Leia mais em:
<http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2016/05/02/internas_viver,642145/baixista-walter- areia-anuncia-saida-da-mundo-livre-s-a.shtml>. Acesso em maio de 2016.
94Ainda em homenagem ao cinquentenário do cantor, um shopping local recebeu a exposição “Chico Science. A evolução musical” com a curadoria da filha de Chico Science. Acesso em junho de 2016:
<http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2016/05/23/internas_viver,645943/guitarra-roupas-e- outros-objetos-de-chico-science-compoem-exposicao-g.shtml>
<http://www.shoppingtacaruna.com.br/destaques/482>.
de codinome Lula Lira, nos vocais, e também com seu filho na percussão, o casal estrelou o clipe da música “Um Sonho” da NZ. Lúcio Maia parou com o Maquinado, mas trouxe o Zulumbi. O carnaval do Recife teve o bloco do Galo da Madrugada em homenagem aos 50 anos de Chico Science, e ainda, com um trio elétrico comandado por Fred04. O ano do caranguejo promete surpresas para a cena e os fãs.
E em uma posição à esquerda, o teor de cada disco do Mundo Livre remete a uma ou mais causas, podendo ora invocar índios, ora as tecnologias, criticando os jornalistas, a ordem dos músicos, a ordem mundial, a sociedade brasileira que para eles parece admirar demais o imperialismo e perseguir o sonho norte-americano. A tradução que compõe o nome da banda refere-se a uma contestação do termo “free world”, uma “alusão irônica a um discurso globalizante do presidente americano Ronald Reagan” (MELO NETO, 2003, p. 18). Em contrapartida, Fred confessa que o lado político da banda já pesou na hora de serem chamados para certos eventos, shows. Porém, por outro lado, já tocaram em eventos como o Fórum Social Mundial em Porto Alegre e na Suécia.
Minha veia de letrista não podia ser muito dissociada da minha formação em Comunicação/Jornalismo. Cheguei a exercer a profissão como repórter de TV, já fui redator numa agência online na Carta Maior por um período. Na época de estudante, inclusive, fui diretor de imprensa do diretório de comunicação, na época também editávamos um jornalzinho laboratório com os estudantes e tal. E no próprio Conselho de Cultura eu fui editor de uma revista chamada Arrecifes, mais cultural. Aí essa minha veia de autor não tem como ser dissociada da minha vivência. O Mundo Livre é identificado em sua linguagem associada a esse compromisso de discutir a mídia, entre outros temas, o papel da imprensa, o papel dos formadores de opinião, eu coloco isso dentro desse grande tema da contra-informação. E isso é até uma postura que aglutina coisas positivas por um lado, a gente é sempre chamado pra muitos eventos relacionados a temas sociais, ONGs, coisas envolvendo a discussão da cultura, mas também a gente paga um certo preço, a gente tem uma dificuldade um pouco maior de conquistar alguns outros espaços, em relação aos editais privados das grandes corporações que geralmente preferem apoiar artistas menos polêmicos (Fred, Entrevista: 12/2015).
Dito isso, a análise procede com a canção de Fred 04 e Mundo Livre S.A que, segundo Melo Neto, apresenta “com toque drummondianos, a classe menos favorecida servindo como inspiração para a poesia social”, e utiliza recursos como ‘metáforas e ironias’ (2003, p. 24). A figura do trabalhador é central. Conforme as ideias deste autor:
Na poética de Zeroquatro (Zero Quatro, 04, ele grafa de vários modos), o trabalho mal remunerado, a tecnologia, a falta de perspectiva e a vontade de revolucionar (‘minha alma deseja e sonha’) são elementos constantes (MELO NETO, 2003, p. 24).
Olha, olha, olha Olha, olha, olha Olha, olha, olha
O meu olhar mais fundo Entra, entra, entra Entra, entra, entra Entra, entra, entra Senta, senta, senta
Bem-vinda ao novo mundo
Minhas pernas são bastantes fortes Como as de todo trabalhador Meus braços são de aço Como os de todo operário Mas como já dizia o velho casca
‘A merda dos trabalhadores é sua alma inútil’ E eu tenho uma alma que é feita de sonhos Mas como já dizia o velho casca
‘A alma de um trabalhador
É como um carro velho, só dá trabalho’
Tira, tira, tira Tira, tira, tira
Deixa, deixa, deixa Não apaga o meu fogo Suba, suba, suba Suba, suba, suba Gira, gira, gira É a bola do jogo
A bola do jogo
Sou um trabalhador, sou sim,
Eu tenho uma alma que deseja e sonha Deseja e sonha
(MUNDO LIVRE S/A, 1994)
Direto dos campos de futebol, “a bola do jogo” agora está com o Marxismo cantado pelo Mundo Livre, ao menos em parte. Mas essa linguagem no feminino, no duplo sentido, talvez remeta mesmo ao futebol, novamente a bola (termos populares para designar a bola: a bola do jogo, a gorduchinha, a bola de couro, etc., em Capinussú, 1988) em uma conversa decisiva entre o sujeito que se identifica com o futebol e com o socialismo. Além do futebol, os trechos “Olha” até “Novo Mundo”, e “Tira” até “bola do jogo” podem remeter a alguma mulher desconhecida nossa. Ou seja, o trecho remete a uma “metade futebol, metade mulher”96, isso porque quando ele canta “entra, entra, entra” pode ser a bola entrando para o gol, ou um chamamento para o sexo como em “tira, tira, tira, deixa, não apaga o meu fogo, suba, suba, suba, gira, gira, gira”. A forma de tratamento estereotipado para com essa moça, que é “bem-vinda ao novo mundo”, não nos cabe versar aqui, mas nos importa ressaltar essa reflexão e comentar que a futebolista mulher não tem o mesmo reconhecimento da mídia e do público, além do preconceito sofrido pelas torcedoras, atletas.
O próprio termo ‘Futebol feminino’ é uma forma de exclusão, ao nosso ver, só há um futebol que é jogado pelos diferentes gêneros, onze jogadores contra onze.
O recorte de gênero acaba sendo uma categoria conceitual crucial para entendermos a história do futebol e a sua relação com a sociedade.
Abarcados nas teorizações pós-estruturalistas, é necessário um olhar relacional sobre os gêneros, inaugurado pela historiadora norte-americana Joan Scott (1995). A autora definiu gênero como “um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos (...) uma forma primária de dar significado às relações de poder” (1995, p. 86). Louro (1997) e Butler (2003) complementaram que gênero é uma construção cultural e não natural e biológica. Scott (1995) argumentou também que não existe um único jeito de vivenciar a masculinidade ou feminilidade, e que tais comportamentos excludentes em relação a mulher estão abarcados por relações de poder e coerção (JANUÁRIO, 2015).
A banda é questionada por alguns pela sua visão acerca das mulheres em suas letras, a forma como que a figura feminina é descrita em músicas como Wânia com um W, Musa da Ilha Grande, Seu suor é o melhor de você, Melô das musas, O varão e a fadinha, entre outras. O hit que já foi trilha de propaganda da Azaléia, a música Ela é meu Esquema, é o mais perto que um mangueboy mundolivriano pode chegar de uma balada romântica. Em Chico Science e Nação Zumbi vemos romantismo na música Risoflora, um amor romântico por ela, em contrapartida esta banda não tem tantas músicas sobre mulheres como o MLSA. Outras canções de amor da CSNZ seriam Amor de Muito, Protótipo sambadélico de Mensagem digital, por exemplo. De toda maneira, estes parênteses reportam a outra discussão para além da proposta por esta dissertação. E sobre a canção aqui analisada, Fred 04 afirma que:
A bola do Jogo, o título da música, é uma expressão que eu sempre adorei. E sou fã de futebol, torcedor do Sport. Acho futebol uma coisa excitante e apaixonante, justamente por isso, porque envolve 22 caras, um juiz, os bandeirinhas, o vento, uma bola, tem a umidade, tem o calor, a trave, é muita aleatoriedade no meio. Então, eu sempre adorei essa expressão quando o narrador tá dizendo que o cara perdeu ‘a bola do jogo’. É uma expressão que eu sempre me amarrei muito porque mostra o quanto, não só no futebol, em vários aspectos da nossa vida, tá sempre dependendo de uma coisinha assim, uma batida do vento a mais muda a direção de tudo. E aí eu tenho um procedimento de escrever, que eu gostava em autores do Beatniks, que é a colagem, colagem de coisas, o Bob Dylan usa muito. Eu posso tá escrevendo
momento, eu devo ter visto alguma notícia, alguma questão sindical para falar do trabalhador, e surgiu o trocadilho com o carro velho, a alma do trabalhador. E o termo ‘casca’ eu ouvia meus amigos surfistas dizerem, eu surfei muito na adolescência, eles usavam muito essa alcunha do casca, não sei se surgiu no surfe, daí eu escrevi o Velho Casca, o qual tenho praticamente certeza que é o Karl Marx, era uma época que eu estava refletindo sobre a mais-valia, o trabalho e tal. E essa disputa entre o capital e o trabalho tem ficado cada vez mais evidente na vida do país, na vida política, cultural, em geral, então você tem agora um tecido social bem diferente do que era há dez, 12 anos atrás. No meu caso, essa música eu compus em 93, 94, essa questão da classe trabalhadora, desse abismo econômico, essa concentração de renda no Brasil sempre foi uma coisa que me incomodava muito desde adolescente. Depois quando comecei a atuar como letrista profissional, era um tema que com certeza eu não poderia me esquivar, era um compromisso natural, totalmente associado a minha identidade de cidadão, de profissional de comunicação e tal, tá muito ligado a esse incômodo, a esse mal estar (Fred, Entrevista: 12/2015).
Minhas pernas são bastantes fortes Como as de todo trabalhador Os meus braços são de aço Como os de todo operário Mas como já dizia o velho casca
‘A merda dos trabalhadores é sua alma inútil’ Eu tenho uma alma que é feita de sonhos Mas como já dizia o velho casca
‘A alma de um trabalhador
É como um carro velho só dá trabalho’
[…] A bola do jogo
Sou um trabalhador sou sim,
Eu tenho uma alma que deseja e sonha Deseja e sonha
Muito possivelmente Marx seja o “Velho Casca” (um tanto irônico, que profere palavras como “merda” para designar a “alma inútil” do trabalhador). A letra transpõe o trabalhador alienado, usurpado até a alma, que recebe um pagamento que não é suficiente, fora suas péssimas condições de trabalho. Porventura, o capitalismo lhe permite ter um “carro velho”, que como a ‘alma do operário’ só tem a sua ‘força de trabalho’. Sabendo que “os que no regime burguês trabalham não lucram e os que lucram não trabalham” (MARX, ENGELS, 1999), é necessário ter/manter “uma alma que é feita de sonhos”, acreditando e buscando a revolução pela luta de classes97. As classes surgiriam “quando as relações de produção implicam uma divisão diferenciada do trabalho, divisão essa que permite a acumulação de excedentes de produção que podem ser apropriados por uma minoria, a qual se coloca assim face à massa dos produtores numa relação de exploração” (GIDDENS, 1990, p. 70). Para Marx, “[…] o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza” (MARX, 1985a, p. 149 apud COLMÁN, 2009). E “[…] cada um dos seus indivíduos, no seu dia-a-dia, recria e reproduz a sociedade a todo o momento; esse fenómeno está na origem tanto da estabilidade da organização social, como das infinitas modificações dessa mesma organização” (GIDDENS, 1990, p. 69).
O processo de trabalho, como o apresentamos em seus elementos simples e abstratos, é atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação do natural para satisfazer a necessidades humanas […] (MARX, 1985a, p. 153 apud COLMÁN, 2009).
Posterior às sociedades escravocrata e feudal, a sociedade burguesa moderna nasce das suas ruínas sem abolir os antagonismos de classe, dividindo-se em dois pólos opostos: burguesia e proletariado. A primeira classe, detentora dos meios de produção que empregam os trabalhadores assalariados, a segunda que só detêm a própria força de trabalho sendo obrigada a vendê-la para sua subsistência, e ambas as classes estão em uma relação de
97 “Na realidade, luta de classes é um conceito prévio assim como muito mais universal. Para expressá-la claramente as classes não existem como entidades separadas, que olham ao redor, encontram uma classe inimiga e começam logo a lutar. Pelo contrário, as pessoas (gentes) encontram-se em uma sociedade estruturada em modos determinados [...], experimentam a exploração [...], identificam pontos de interesse antagônico, começam a lutar por essas questões e no processo de luta se descobrem como classe, e chegam a conhecer este descobrimento como consciência de classe. A classe e a consciência de classe são sempre as últimas, não as
opressores e oprimidos, dominantes e dominados. Sob o viés das condições materiais da existência é que Marx vai analisar o curso histórico das sociedades. E a divisão social do trabalho ocorreu no decorrer da história. Mas é na Revolução Francesa que a burguesia encontra e cria condições para o capitalismo e a consolidação dessa classe burguesa no poder. Em uma concorrência acirrada entre essas duas classes vê-se que os proprietários dos meios de produção mal trabalham, mas continuam recebendo lucro, e os trabalhadores trabalham mais do que recebem em uma relação de exploração e extração da mais-valia. Pequena burguesia, camponeses, camadas médias são frações de classe no campo da classe dos trabalhadores, já nas frações da classe dominante, o comércio, os bancos, a indústria e a propriedade fundiária, em uma disputa desigual e desproporcional.
Na teoria do Estado contida no Manifesto do Partido Comunista é o Estado o instrumento de dominação, é o Estado o “comitê executivo da burguesia”, a serviço da classe dominante. Na reprodução social há uma relação dialética entre economia e política. E é na economia que ocorre um processo de centralização e concentração do capital intensificando o monopólio; que acompanha uma centralização do poder político que é de classe, uma classe oprimindo a outra, onde o Poder Político/Estado é o “guardião da propriedade privada” e a democracia é um instrumento de dominação da classe burguesa. O Estado burguês limita a democracia que só pode ser representativa no contexto capitalista. E então, ‘o tipo de exploração do trabalho determina a dominação política do Estado e ao mesmo tempo o tipo específico histórico de dominação política no qual o Estado determina a exploração do trabalho’.
E com relação a liberdade e igualdade, Marx e Engels formulam uma crítica aos autores liberais (John Stuart Mill, por exemplo): liberdade e igualdade para quem? Para os proprietários dos meios de produção capitalista. Na crítica à democracia representativa liberal, portanto burguesa, os autores do manifesto acreditam que não existe liberdade e igualdade fora do bojo econômico e social. O indivíduo é materialmente determinado numa desigualdade financeira, mas com ele sendo o trabalhador não é livre, e também é explorado. O capitalista sim é, tem liberdade em explorar a força de trabalho, liberdade de comércio, liberdade na propriedade. Não existe liberdade na igualdade. Não há liberdade e igualdade para a classe proletária. Há o Estado moderno oriundo do Estado escravocrata, feudal, etc, que é articulado à classe dominante. Desta forma, o Estado que é caracterizado pelo território, força armada, força coletora, cadeias, impõe uma ordem social do capitalismo amortecendo o
conflito de classes, porém sem solucioná-lo, onde a democracia é instrumento de dominação de classes e a forma mais segura de dominação do capital, e o capitalismo atinge o trabalhador em todas as esferas da vida, restringindo-o à condição de oprimido. E a civilização está ainda num estado de barbárie, de pré-história, a sociedade só passaria para um estágio emancipado a partir do momento que a classe proletária se levantar rumo à derrocada da propriedade privada para uma sociedade sem classes, combatidos os males do capital. Nesse estágio quem sabe pode haver liberdade e igualdade para o povo.
Por outro lado, Giddens afirma que apesar da terminologia dicotômica das classes nas obras de Marx ter escritos dispersos, a divisão da sociedade em classes, classe dominante e classe dominada, exprime relação conflitual e competitiva em busca de resultados lucrativos