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A Euclides Portugal

E

sse homem chegou do Brasil com ideias progressistas. A primeira coisa que fez foi ensinar a mãe a lavar-se, mas só conseguiu que a velhota sorrisse de semelhante mania. Continuou a coçar-se por todo o corpo, ora com volúpia, ora com fúria, descarnando o lixo, até ao fim da vida.

Quando as crianças lhe pediam esmola, dava-lhes uma coroa com a condição de se irem logo lavar. Só assim conseguia ver caras brancas dentro da aldeia. Eram pretas, devido à acumulação do surro.

Pela vindima, obrigava os lagareiros a lavar as pernas antes de es- magar as uvas. Eles riam-se da bacia, da toalha e do sabão. Riam-se tanto como a criada velha que lhes trazia estes aprestos. Riam-se prin- cipalmente da água… E riam-se do patrão, que era maníaco e ignoran- te. Não sabia que o vinho, quando ferve, expulsa a porcaria? O vinho, depois da encuba, deita pelo boeiro dos cascos, com a baba que escorre pelo bojo, toda a sujidade. Só quem é brasileiro é que não sabe isto. Eles, os lagareiros, faziam a vontade ao patrão, lavando os pés. Dentro do lagar, se fosse preciso, cuspiam no bagulho.

Estas rotinas da aldeia contra o asseio feriam-lhe o coração singelo. Vendo que eram inelutáveis, dizia a si próprio:

– Ah! Brasil, Brasil, a gente lá se lava…

Este bom homem nem assim perdeu a cisma da limpeza. Quis ver o povo escarolado como no Brasil. Enjoavam-no os espectáculos do mulherio maltrapio, alastrado no chão à porta dos casebres – entreca- tando-se com voluptuoso vagar em tardes de domingo. Agoniava-se e dizia a si mesmo, desviando a cara:

– No Brasil, a mulher se penteia na casa. Não vem nas portas se espiolhar deitada!

com a imundície das almas. Irritava-o a obscenidade das línguas mu- lheris durante a tarefa insecticida, e monologava:

– Pouca vergonha e porcaria! Água e sabão limpava tudo…

Como a aldeia tinha só uma fonte para mil habitantes dispersos em seis bairros, pensou atiladamente que uma fonte ao pé de cada bairro daria a cada habitante vontade de se lavar.

Esta ideia não o largou durante sete meses. No fim deste período de cogitação, tinha vagar para isso, o brasileiro foi-se ter com o presidente da Câmara e falou-lhe pouco mais ou menos assim:

– Minha terra não tem água. Eu dou água a ela si o sior me deixa trazer água de um monte em minha terra mesmo. Eu trago ela em o po- voado, boto um fontanário para cada lugar, o sior não gasta um tostão, eu pago tudo, mas o sior me deixa construir a arca di água em minha propriedade. Minha propriedade é seca. O sior sabe… Minha terra não tem água para regar uma couve. Se o depósito fica-me na propriedade, rego ela, colho minhas hortaliças, mas, saiba o sior, não perjudico nin- guém. Água que eu gaste não vai faltar em o povo. O monte tem água que esbarronda tudo.

Aqui, o presidente, que o ouvira calado, com a mão no queixo, lan- çou-Ihe um olhar duro e replicou-lhe:

– A mim não me esbarronda você. Sabe o que lhe digo? Você quer ser benemérito em proveito próprio. Você aprendeu no Brasil a encam- par matutos. A mim não me encampa você.

– Mas, siô presidente! Eu sou home honrado. Dou água gratuita à povoação. É justo que fique-me alguma na propriedade. O sior não gasta um tostão.

– Bem sei… Até o meio da obra.

– Juro, seu presidente. Não gasta um tostão.

O presidente viu as horas num relógio de pulso, afagou o queixo com as pontas dos dedos, piscou um olho e cravou o outro no brasilei- ro, como se lhe espetasse um punhal.

– O senhor veio lá do Brasil… Que política é a sua?

– Eu, sior, não tenho política. Minha política é fazer bem. No Rio, trabalhei como nêgo. Hoje descanso. Minha política é fazer bem. Qui- ria fazer bem à terra onde nasci.

– Bem te percebo… Olhe, represente à Câmara. Por escrito. Preto no branco. Se a Junta, a Junta lá da sua freguesia, se interessar pelo caso, falaremos. Se não, adeus.

Levantou-se da cadeira curul, passou a mão familiarmente pelo ombro do brasileiro e concluiu:

– Vou almoçar. Você saiu-me um grande melro.

– Sior presidente, sou home honrado. O sior não gasta um tostão. O presidente já o não ouviu. Tinha-o deixado sozinho no gabinete. Veio um contínuo encontrá-lo ali a olhar para os estuques do tecto.

– Que está aí a fazer? Rua!

O brasileiro, meio atordoado, mas incapaz de vacilar no propósito de lavar a cara aos vizinhos, regressou à terra disposto a fazer a represen- tação. Logo que chegou a casa, pegou num papel e garatujou a proposta: abastecer de água a aldeia à sua custa, reservando o direito de beber uma pinga e dar uma pinga a beber às suas hortaliças.

Resposta da Câmara: que sim, perfeitamente de acordo. No entan- to, feito o abastecimento, a Câmara seria dona e senhora do serviço para o administrar como quisesse. Reservava o direito de negar água de graça a quem a pudesse comprar. Se assim lhe servia, a Câmara aceita- va. Louvaria o benemérito em sessão solene pelo rasgo de civismo.

O brasileiro, lendo o ofício da Câmara, exclamou:

– Dou água e fico sem água para meu cebolo? Nessa não cai Rai- mundo, não! Ah! Seu presidente! Tira o cavalo da chuva…

Continuou a olhar com enfado para a mãe esquálida, as crianças ranhosas e as mulheres escodeadas e obscenas. E voltava à sua:

– Se aquela Siora Câmara tivesse querido!

Lamentava-se, ia-se azedando com este pontapé aplicado no ponto mais central da sua benemerência. Não o merecia. Mas, por cúmulo de desgosto, nenhum vizinho o consolava. Todo o poviléu patrício o escar- necia, vendo-o derrotado.

– Cuidava que vinha lá do Brasil fazer pouco da gente. Se chei- ramos mal, é porque não temos dinheiro p’ra cheirinhos. Sabe Deus como ele o arranjou. E quis agora o manduca fingir que dava água com fartura à gente e governar-se com ela no chavascal do prédio, que não vale um pataco e deu por ele – só de cego – uma pancada de contos de réis. E queria aquilo, se calhar, ainda por cima, que lhe alevantássemos alguma estátula! Ah! Boa Câmara, que te deu – bem feita! – nesse nariz p’ra trás!

Estas objurgatórias não teriam fim se quiséssemos reproduzi-las todas. Cortemo-las aqui, para continuarmos a narrar as desilusões do brasileiro Raimundo.

ro tinha cinquenta anos, muitos cabelos brancos e usava mosca – atri- butos negativos para inspirar interesse a mulher nova. No entanto, pensava com cabeça que não estava caduco. Debaixo da pele morena, contraíam-se-lhe com vigor todos os músculos. Afeito, lá no Brasil, ao trabalho braçal, erguia para cima de um balcão, como quem brinca, um saco de arroz de cinco arrobas. Tinha os dentes todos e caminhava ligeiro sem se fatigar. Fora cortado em boa lua, como diziam, compa- rando-o a uma trave, os aldeões antigos. Saía à mãe, que, com mais de oitenta, era ainda uma mulher rija como um seixo. Se saísse ao pai, es- taria a dormir no cemitério desde os trinta anos. Saía à mãe, que, apesar do surro, parecia, no desembaraço da fala e da andadura, uma rapariga nova. Dizia-lhe ela:

– Rapaz, como vou indo para velha, quero que te cases. Já botei in- culcas e parece-me que te convém a minha afilhada Aninhas. É mulher séria e trabalhadeira. Hás-de casar com ela.

O brasileiro, que idolatrava a mãe, pedia-lhe que se calasse.

– Enquanto a mãe for viva, não me caso. Não quero ver outra mu- lher de portas dentro.

Não obstante esta resposta, a mãe, falando-lhe em casamento, acor- dou-lhe o sexto sentido – sopitado no Brasil pelo trabalho e na aldeia pela monomania da água. Disse a si próprio:

– Hei-de ver…

E viu. Viu na elegante, afidalgada filha de um lavrador a mulher que lhe convinha. Chamava-se Teresa. Comparada com a Aninhas, afilhada da mãe, era uma andorinha comparada com uma coruja. Só de pensar em Aninhas, o estômago se lhe engulhava. Pensando em Teresa, os olhos reviam-lhe ternura. É que Teresa, única rapariga que se lavava a preceito na aldeia, era uma perfeição de brancura e tinha os olhos pretos. Quanto a corpo, flexível como um pé de giesta mal tocado do vento. Nem se sabia como aquela rapariga tinha nascido ali, naquela aldeia de raparigas sem cinta, com mãos de homem.

O brasileiro, pensando nela, dizia a si mesmo:

– Se me quiseres, Teresinha linda, hás-de ser uma rainha.

Mas como havia a Teresinha de o querer, se estava comprometida? Carteava-se com um estudante. A aldeia inteira o sabia, menos o brasi- leiro. Pior para ele...

Mandou fazer uma casa de boa cantaria, mobilou-a à moderna e inundou-a de água para banhos em todos os andares. Com seme- lhante dilúvio, tinas brancas, torneiras amarelas, manípulos de auto-

clismo, inaugurou na aldeia a era da Higiene. Para esse efeito, explo- rou poços e minas.

A mãe do brasileiro, pensando que o filho tinha endoidecido, per- guntou-lhe para que era aquilo. Se não queria casar, para que era aquele convento, mais luxuoso do que o das Salzedas?

– É para me casar, minha mãe. Mas só lhe digo com quem me caso depois de tudo pronto. Por enquanto, nem ela o sabe!

Parecia doidinho. Quando o mestre de obras lhe entregou a casa concluída, beijou o pavimento do primeiro andar.

No dia seguinte, procurou o pai de Teresinha. Vestiu o melhor ter- no, perfumou-se com o melhor perfume e foi bater à porta do lavrador.

– Vem procurar o meu pai, Senhor Raimundo? – Venho sim, querida menina.

– Ele vem já.

A este curto diálogo sucedeu uma cena vulgar, mas, ainda assim, digna de palco. O lavrador, depois de escutar o pedido da mão de sua filha, quis beijar as mãos do brasileiro. A filha quis mordê-las… No entanto, desenganou o pretendente sem o melindrar. Era boa menina e tinha sempre bom modo.

– Senhor! Eu não penso em me casar por enquanto. Se um dia me resolver…

O que ela quis foi impontar o brasileiro, ver-se livre dele para pen- sar no estudante.

O brasileiro, cabisbaixo, com o peso de mais vinte anos em cima, foi-se ter com a mãe para desabafar. Chorou como criança ao pé da velha. A mãe repreendeu-o, ameaçou-o de lhe dar com um soco se bo- tasse mais uma lágrima por amor daquela seresma.

O filho, para não magoar a mãe, que o não compreendia, calou- -se. A velha, porém, continuou a injuriar a delicada Teresa, pensando que fazia bem, que distraía o filho. Disse-lhe que mulheres eram como a praga. Se não houvesse tantas, pouco se perdia. Queria mulher? Aí tinha a sua afilhada Aninhas, boa rapariga, apesar de pobre.

Ouvindo o nome Aninhas, o brasileiro mordeu o beiço inferior. Não quis desrespeitar a mãe. Deixou passar a cólera e disse:

– Antes morrer.

Depois fechou-se no quarto. Preferiu escutar-se a si a escutar as consolações bárbaras da velha. Decorridos dois dias, vestiu-se de ponto em branco e declarou que ia até ao Porto espairecer.

– Vai e traz de lá outra cara – replicou a anciã, dura como uma fraga.

No Porto, o brasileiro convalescente de amor entreteve-se a pas- sear – conhecer a cidade. Viu a Bolsa, foi à Foz, visitou São Francisco, a Sé, todos os lugares que o bairrismo tripeiro lhe inculcou dignos de atenção. Viu tudo, admirou tudo com ingénua curiosidade, mas onde o coração se lhe prendia satisfeito era nos jardins. Amava a Natureza e a maneira de a embelezar.

Quando de novo se achou na aldeia, estava curado da ferida amo- rosa. Vendo a casa nova inutilizada, dizia:

– Paciência.

Recordando o Porto, murmurava: – Lá ninguém me incomodou.

Continuou a viver na casa velha com a vetusta mãe. Ia esquecendo o desaire sofrido com Teresa, mas o povo não se esquecia dessa aven- tura triste para saciar a sede de escárnio. Em cada esquina, grudara um pasquim cheio de versos trocistas. Com tocata de harmónio e ferrinhos, cantava-os desaustinadamente à porta do brasileiro. Dizia a cantiga:

Mandei fazer uma casa P’ra guardar uma donzela. Gastei dinheiro às mancheias, Mas a donzela… qu’é dela? Eu pensei que, sendo rico, Tinha moça e tinha tudo. Não me lembrei que era velho. Olha que grande canudo!

Estas e outras estrofes de rasteiro quilate ouvia-as o brasileiro e di- zia a si próprio:

– Quê gente!

Para se distrair, começou a cultivar flores, hortaliças especiais, ga- linhas e coelhos de raça. Comprou colmeias móveis e dedicou-se às abelhas. O povo, que é rotineiro, ria-se destes entretenimentos. Consi- derava tolice cuidar de flores e espetar nas hortas mais do que couves galegas. Quanto a galinhas, tirante a pedrês, a riça, a branca por luxo e a preta de saborosa carne, mal mereciam o cuidado de uma mulher, quanto mais o trabalho de um homem. Desconfiava de raças estrangei-

ras. Em seu entender, nem davam ovos nem febras substanciais. Eram pior que carne de cão. A respeito de colmeias, murmurava que a abelha só quer cortiço. Parvo era o brasileiro, supondo que o bicho tão fino descobriria o célebre segredo – segredo de abelha – através do vidro de uma casinhola.

O brasileiro, sacha que sacha à borda do quintal, ouvia estas críticas e monologava:

– Quê gente!

Para não avivar o desgosto sofrido por amor de Teresinha, já casada com o estudante, o bom do brasileiro não punha os pés na casa nova. Evitava até pisar-lhe a sombra. Casa tão linda, fechada, envelhecia antes de tempo. Um dia, porém, lembrou-se o brasileiro de a utilizar, dando-a ao governo para uma escola. As aulas, na sua aldeia, funcionavam em míseros cardenhos. A das meninas funcionava sobre um curral. A dos rapazes funcionava numa loja térrea.

Veio à aldeia examinar o prédio um perito de lunetas – homem esquisito. Desfez na casa desde os alicerces até ao telhado. Disse que estava mal situada e só com grandes obras se poderia adaptar a escola.

O brasileiro, quando recebeu um ofício com a exposição dos de- feitos da casa e maneira de os remediar, rasgou o papel em pedaços, deitou-os à rua e exclamou:

– Bolas!

A casa nova ficou entregue aos pássaros. As criancinhas continua- ram a frequentar cardenhos em vez de escolas.

– Uma vergonha – dizia o brasileiro. – Mas eu não tenho culpa! Com estas desfeitas desistiu de fazer bem à terra. Deu à torre da igreja um relógio, mas deu-o para uso próprio. Via as horas da janela do quarto de dormir. Foi assim que o povo compreendeu a última be- nemerência do brasileiro Raimundo.

O bom do homem esperou que a mãe falecesse para se retirar da aldeia. Deixou-a sepultada com as cinzas do pai num pequeno jazigo e foi viver para o Porto. Acabou os dias ao sol, no Jardim de São Láza- ro. Legou os bens a asilos e hospitais, como é costume de brasileiros sem filhos. Pediu que o enterrassem em campa rasa, mas perpétua, no Prado do Repouso. Este cemitério parecia-lhe um jardim sosse- gado – verdadeiro paraíso para quem sofreu. As últimas palavras que pronunciou, na casa de saúde onde lhe fechou os olhos uma enfermei- rinha suave, foram as seguintes: