Chapter 4 Results-Petrography and mineral chemistry
4.2 Field observations
4.2.2 Field relationship of Feragen tillite
(1903-1980)
O Regresso
E
vossemecê a dar-lhe!...– É o que te digo, filha. Bonda a forma como ele te escreve. Vem mais pobre do que foi e para te comer o resto...
Os olhos da velha fuzilaram. Sentada na arca, junto do fogo, o seu rosto cavado de rugas tinha uma cor de marfim velho, em que as la- baredas punham, de vez em quando, um tom avermelhado. As mãos pousadas no regaço dedilhavam, maquinalmente, o terço, e com a boca desdentada ia mastigando orações e proferindo invectivas, misturando o seu fervor de crente e o antigo rancor por aquele alma do diabo que ali aparecera um dia, só para lhe estragar todos os projectos.
– Ave-Maria, cheia de graça!... É o que eu te digo. Escusas de contar com a minha ajuda… O Senhor é convosco… A leira, ainda a deixei vender, só para me ver livre dele. Pensei que, com o génio que tem… Bendita sois vós entre as mulheres!... o matassem por lá… Bendito é o fruto do vosso ventre… ou que as febres o acabassem… Amen!...
– Mãe! – Pôs-se de pé cheia de cólera. Aquele ódio sem medida, fazia-lhe perder todo o respeito que lhe devia.
– A mãe fala como uma alma perdida. Ele é o meu homem, mãe! O pai da minha filha…
Mas a velha não desarmava:
– Para ela, era bem melhor não o ter…
Eram agora duas mulheres iguais, em frente uma da outra, com o rancor no coração e a boca a fervilhar de insultos.
– Cale-se!
– Não me faltava mais nada que tu me mandasses calar aqui, na minha casa! Na minha, entendes? A tua, vendeste-a para ele ir para as feiras beber e jogar o dinheiro nas tabernas.
– Isso são ditos, mãe… O Quim nunca jogou… São falsidades de gente invejosa…
co de Entre-Águas, que só de uma feita lhe ganhou cinco moedas… Que to diga o Manuel do Eido, que to veio trazer a casa perdido de bêbado... Falsidades! Que ele te deu o feitiço, sei eu!...
– Cale-se pelo amor de Deus! Nem hoje, que é Natal! Nem hoje, que é o dia do perdão das faltas, a mãe é capaz de lhe perdoar o ele ter-me querido… Que é só disso que a mãe o pode acusar… De mais nada…
A mãe ia falar, mas ela não a deixou, impetuosa:
– Cale-se! Cale-se! Ele pode chegar esta noite… Ele diz na carta: «Talvez no Natal vá cear com vocês…» A voz tornou-se suplicante: – Ao menos por hoje, mãe…
Mas nada conseguia travar a velha. O seu ódio era mais forte que tudo: que a sua crença milenária, mais forte que a angústia que sentia crescer no coração da filha.
– Então é só disso que eu o posso acusar?... Aparece por aqui um maltês que não se sabe donde vem, que não tem onde cair morto, que nem sabe o nome do pai e da mãe… a gente recolhe-o em casa, dá-lhe trabalho… e a paga que nos dá é tirar-nos a única filha que te- mos… Achas bem feito?... Só «isso»? E por causa de quem é que tu não foste para professora? E por causa de quem deixaste o Antoninho da Ramada, a quem estavas prometida há cinco anos – um rapaz bom, rico e perfeito?
A voz dela tornou-se cava e profunda, a voz trágica das maldições: – O teu pai, filha, morreu de desgosto e de vergonha, por tua causa e por causa dele… Que tenham tantos trabalhos… – Calou-se no meio da praga, dominada por um escrúpulo, e prosseguiu em voz mais bai- xa: – Lembras-te, filha, quando o teu pai lhe disse que não? Lembras-te o que ele disse?... «O senhor, ou dá o seu consentimento ou tem que passar pela vergonha de ter um neto em casa, que nem pai tem...» Nem sei como o teu pai se susteve! Ele, que nunca teve uma lágrima – nem quando lhe deram as facadas na feira do Cavalinho –, passou uma noite inteira a tremer e a chorar... E oito dias depois teve o ataque... E, em menos de dois meses, levámo-lo a enterrar…
– O pai perdoou-nos antes de morrer, mãe... Ainda nos viu casa- dos. Ainda nos abençoou!...
– O teu pai era bom de mais e não via outra coisa senão a ti… Mas eu não posso…
Calaram-se durante um longo espaço de tempo. Uma voz doce e fina de criança cortou o silêncio, pondo uma nota doirada no am- biente pesado:
– E o pai trará-me a bonecra? – Traz, sim, Rosinha…
A criança sorriu… Tinha ouvido a discussão, alheia, mal se aperce- bendo do sentido do que diziam, presa a um fio de sonho que a envolvia como um raio de sol. Toda a sua alminha estava concentrada na ideia de que o pai estava para chegar… Tudo ia acabar e começar de novo… Nunca mais teria medo dos lobisomens, nem das bruxas, nem da noite que rolava pela serra abaixo como um pedregulho e que a deixava aba- fada de angústia e de pavor… Nem do vento que andava perdido a uivar o seu desespero… Nem do trovão com que Nosso Senhor ralhava aos homens pelos seus pecados. O pai era mais forte que o vento, que o tro- vão e do que a noite. Bastava que ele lhe tocasse para o seu medo se fun- dir e entrar nela um sentimento de calma e de segurança invencível…
– São horas da ceia, Rosinha… – Eu espero pelo Pai!...
*
C
om a cara colada à telha de vidro, o homem via e escutava avidamente. Sentia o corpo trespassado de frio, tiritante sob o fato de cotim cosido e o capote de mescla esfarrapado. A neve caía fina e insistente e ele limpava a telha com o côncavo da mão par a ver melhor. A casa era encostada ao monte, fazendo parede mestra de um penedo enorme que se prolongava, um pouco, sobre o telhado. Caiada de branco, com sua varanda alpendrada, parecia nascer das entranhas da serra como uma flor exótica. Não tivera coragem de bater. Lcmbrara-se daquela telha indiscreta, que descobrira por acaso, ainda quando nem sequer tinha ideia de a namorar. Dali a espreitara uma noite e a vira despir, tirar o saiote e desapertar o corpete… Depois disso, nunca mais pudera sossegar. Entrara nele, como uma ideia fixa, uma espécie de fome inextinguível. E o resto era o que a velha contara e que ele ouvira agora, trémulo de angústia e de cólera, possuído dos sentimentos mais contraditórios. E o resto era a sua partida para África, para tentar fortuna e o mais que ela não sabia: a sua luta corajosa, o seu desejo de vencer e finalmente a sua derrota, dominado pela força implacável do destino. Sujeitara-se a tudo, até a trabalhar nas estradas ao lado dos negros, sob o sol impiedoso, e à tirania insuportável dos capatazes. Depois surgira o incidente – aquele incidente sempre possível com a sua natureza orgulhosa. Ao insulto respondera com o insulto, e à violênciacom a violência. Fora preso e condenado, por uma justiça do sertão, que não cuida da verdade, mas que obedece rigidamente a um critério rigoroso de disciplina... Mas, assim mesmo, persistira até que as febres o tinham atacado. E isso dera cabo dele. Toda a sua energia se diluira, roída por aquele calor de dentro, pior que o sol implacável... Criara um ódio invencível aos desertos amarelos, às florestas verdes e sombrias que, mais que o corpo, pareciam engolir a alma de um homem…
Ainda deitado no catre, trémulo de arrepios e de suores gelados, só tinha um desejo: o de voltar. Viera-lhe uma saudade insuportável de tudo o que deixara, cheio de ambições e de esperança: da mulher e da filha, dos ares lavados da serra, das leiras tranquilas, dos sulcos do arado onde saltita a lavandisca, e dos lentos e calmos serões junto do fogo... – Voltar! – E, logo que pudera conseguir que o repatriassem, por esmola, não hesitara um segundo...
A mulher não sabia de nada. Nunca tivera a coragem de lhe confes- sar a sua derrota – a ela, que confiava nele como em Deus. Tinha a cer- teza que continuava a acreditar nele, convencida que ele conseguiria dominar a vida como a dominara a ela. E fora isso que o fizera hesitar no último momento, que o impedira de bater à porta e que o fazia estar, ali, à espreita, como um miserável, trémulo de frio e sob a neve indife- rente e gelada.
Quanto à velha, com o seu ódio, com o seu rancor inextinguível, essa, adivinhara tudo. Como ela iria exultar quando o visse assim, como um vagabundo dos caminhos, esfarrapado e esquálido, trémulo de frio e de fome. E aquele riso silencioso da boca desdentada, aquela malí- cia quase secular dos olhos, e as palavras cuspidas, mastigadas com um desprezo capaz de trespassar os ossos e a alma!... Adivinhava-lhe o olhar triunfante para a filha, aquele olhar de ódio satisfeito mais ex- pressivo do que as palavras: «Então, que te dizia eu!... Aí o tens, ao teu homem!... Ao teu rico homem!...»
E adivinhava a humilhação da mulher, a sua humilhação trágica e silenciosa, filha do reconhecimento de que o seu homem era um ho- mem como os outros, capaz como os outros de ser dominado e vencido – um homem qualquer…
Estremeceu. Vinha-lhe agora um desejo súbito de entrar, de deitar as mãos ao pescoço da velha e de lho torcer até extinguir para sempre aquela voz rancorosa, cujo som, mesmo em África, o perseguia. Ainda se lembrava da despedida e das suas palavras zombeteiras:
– Vai, homem, vai... Tu nasceste foi para andar pelos caminhos. Tu és como o vento e fazes os mesmos estragos…
Aquilo era uma forma de lhe chamar vagabundo e de lhe significar o seu desprezo. Ao mesmo tempo, fora uma praga que lhe rogara.
Para ela, homem que se não curvasse de sol a sol sobre o cabo da enxada, que não dissesse as mesmas palavras, que não repetisse os mes- mos actos, não era homem que valesse a pena…
Sentia que havia uma certa verdade nas palavras da velha. Tinha uma coisa lá dentro que não lhe consentia estar sempre no mesmo sí- tio, e fazer sempre a mesma tarefa. Trabalhava dias seguidos como um moiro e, de repente, sentia a vontade irreprimível de se evadir, de deixar tudo, de ir para outro lugar. Punha-se então a andar pelas feiras, muitas vezes sem ter que comprar nem que vender, farto de repetição e de imo- bilidade, tentado pela saborosa e infinita variedade da vida…
– Vês, filha, deixou a redra no meio… Tem alma de cigano... A neve picava mais. Caía agora fofa e densa, mais húmida, trespas- sando-o todo até aos ossos e pondo-lhe um arrepio doloroso na espi- nha.
Pelos interstícios das telhas, saía um fumozinho doce de lenha de azinho de mistura com o cheiro do caldo e um aroma de azeite novo e de salpicão. Sentiu uma contracção súbita no estômago a lembrar-lhe que já não comia há vinte e quatro horas, uma vontade quase aflitiva de se atafulhar com broa e tomar uma barrigada daquele caldo oleoso e perfu- mado. Haveria, decerto, também um lasca de presunto e talvez – quem sabe! – uma rabanadazinha rescendente de mel…
Limpou, de novo, a telha cuidadosamente. O grupo continuava na mesma: a petiza no banquinho, a velha sentada na arca junto do fogo, e a mulher imóvel com os olhos fitos na porta por onde havia de chegar o seu homem.
Via agora tudo nitidamente, e até distinguia, ao fundo, por cima da tulha do milho, o presépio iluminado com lamparinas de azeite. Lá es- tava o Menino Jesus, com a carinha de loiça, sorridente, estendido nas palhas, a vaquinha de barro com a língua de fora e os três Reis Magos em fila, que a estrela de papel doirado guiava lá do alto, com sua luz de sonho.
Tomou uma resolução:
– Quero lá bem saber!...A velha que vá pr’ò raio que a parta. E ia descer disposto a bater à porta, compondo já uma atitude ar-
rogante que fizesse esquecer os seus andrajos e corrigisse e vencesse a humilhação que o destino lhe impunha.
Começava já a escorregar pelas telhas quando as vozes de baixo lhe chegaram mais fortes, numa altercação que se reacendia. A voz da velha, estrídula, perfurava a noite como uma verruma:
– Faz o que quiseres, filha. Eu cá não espero mais por vagabundos... Mal ouviu o som da voz da mulher, trémula e abafada, e não distin- guiu a resposta.
– Pois sim... Pois sim... Ele há-de chegar em bom estado… – A voz da velha, exaltada, era agora um guincho de animal raivoso. – Vai-lhe mas é preparando as mantas e a botija pr’òs pés. E desata os cordões à bolsa para lhe comprar um fato. Com os do teu pai escusas de contar... Roupa que cobriu um homem honrado não serve para malandros...
Parecia que a velha o estava a ver e que o seu ódio adivinhava. Não pôde conter a sua fúria:
– Tu pagas-mas! Estupor! – A sua cólera era agora superior a tudo: – Vamos a ver quem ganha… Ranhosa...
A voz da mulher fê-lo hesitar um segundo. As suas palavras chega- vam agora nítidas, precisas, carregadas de uma convicção dolorosa, de um orgulho humilde e inabalável:
– Não, mãe! O Quim não precisa das suas esmolas... nem das mi- nhas... Não é homem para voltar com as mãos a abanar… Se fosse o An- toninho da Ramada, esse que eu namorei cinco anos e que deixei por causa dele, talvez… São ricos, mas em uma trovoada lhes levando uma colheita, ficam mais miseráveis do que os bichos da terra. Só sabem chorar e lastimar-se... Mas o Quim não é assim! É um homem. Ou vol- ta, como disse que havia de voltar, ou nem eu, nem vossemecê, nem ninguém mais lhe põe a vista em cima...
Um soluço abafou-lhe as palavras. No silêncio que se seguiu, só se ouvia o ciciar da neve e o crepitar da lenha.
A voz da criança ergueu-se, novamente, numa aprovação indirecta ao que a mãe tinha dito.
– Mãe, eu sei que o pai me traz a bonecra...
Aquilo era mais forte do que ele, mais forte que a sua fome, que o seu frio, que a sua tristeza, e até que a sua cólera.
Com o ódio da velha, com o seu desprezo, com a sua zombaria, ainda ele podia lutar. Mas contra aquela esperança, aquela certeza ina- balável, era-lhe impossível. Havia ali dois seres que o amavam e que
acreditavam nele. Não lhes podia destruir a sua ilusão, pois destruir a ilusão dos que nos amam é pior do que a morte.
Silencioso, o homem escorregou pelas telhas. Não tinha já fome nem frio. Sentia no coração qualquer coisa que o impelia: uma espécie de força invencível que dominava o seu cansaço...
E, aos tropeções, começou a descer a serra, e perdeu-se nas som- bras da noite…