Chapter 5 Discussion
5.4 Estimation for mineral dissolution rate in Leka tillite
5.4.2 Estimation for dissolution rate of feldspar mineral
E
ram quase cinco horas daquela tarde escaldante de Agosto quando finalmente chegou ao alto da elevada colina. Correu a curva aper- tada da Portela que a envolve como um colar e de onde se avistava já toda a sua pequena aldeia, encafuada e cimentada nos contrafortes da serrania.Passou à direita a placa desbotada com a inscrição Cova de Lobo. Desceu a recta até ao povoado e, atravessando-o, cruzou a ponte e gal- gou as curvas acentuadas do percurso até ao alto da montanha, no lado oposto àquele de onde viera.
Parou o pequeno carro no desvio de terra batida que se estende desde a estrada aberta na escarpa granítica – ladeira quase a pique ras- gada por profundos sulcos paralelos verticais que mergulham no fundo do alcantil –, até ao início do carreiro que penetra pelo monte acima o matagal de urzes, estevas e giestas, de um verde mortiço, seco do estio.
Estava exausto da viagem que fizera directamente do aeroporto até ali.
Abriu a porta do pequeno automóvel, saiu e estirou os braços e as pernas num movimento de hiper-extensão sobre a coluna vertebral como se fosse um felino que acaba um sono prolongado.
A dor incómoda nas costas e no ombro voltava a importuná-lo mas nem sequer se lembrou do que Steve lhe tinha dito. Pensou que seria devida a ter vindo sentado e contraído a guiar há tanto tempo.
Ficou espantado por reconhecer de imediato aquele sítio. Nada pa- recia ter mudado naquele lugar da montanha após tantos anos passa- dos.
Desde o desvio, subiu a custo a vereda íngreme de terra acastanha- da poeirenta, atapetada de grosseiros calhaus de xisto e pedras roladas de granito, como os de uma calçada romana gasta pelos anos, nalguns pontos já disfarçada pela vegetação, a fazer supor que ali já não passava tanta gente como outrora.
Sentou-se no mesmo penedo acastelado como costumava fazer quarenta e tantos anos antes para descansar da fadiga que o palmilhar do caminho escarpado desde a estrada até àquele lugar provocava e ga- nhar coragem para continuar, pouco depois, pela ladeira acima, que desde ali levava até às velhas e abandonadas minas de ouro, volfrâmio e estanho.
Sentia-se agora pacificado e a angústia que tanto o atormentava parecia desvanecer-se. Olhava toda aquela riqueza que aos seus olhos pertencia e que ninguém lhe poderia roubar; a imensidão do céu, das montanhas e dos vales daquela terra que o vira nascer.
Que felicidade inenarrável experimentava ao contemplar todo aquele espaço onde crescera, amara e fora por fim tão cruelmente in- feliz.
Voltou ligeiramente a face como um melómano que quer expor o seu ouvido preferencial à atitude de melhor agudeza auditiva tornan- do-o mais sensível à eterna maravilha do concerto da montanha, de forma a escutá-lo na sua total plenitude.
Podia e queria ouvir de novo, como antigamente fazia, aquela ma- ravilhosa sinfonia do silêncio, só entrecortada pelo gorgolejar da água do rio, do enrolado tubular contínuo do som metálico e uniforme das ralas, do silvo do vaivém do voo alto circular dos grifos, do sussurro do planar do gavião, do voo picado sibilante do abutre, do zumbir da águia ibérica real e do milhafre filando nas suas poderosas garras as presas indefesas tingidas de dor e sangue, no perpassar da morte próxima. E queria ouvir a brisa do passar das cegonhas pretas quase raspando a escarpa do alcantil pregueado de sulcos fundos, a melodia assobiante das cegonhas brancas pousando e levantando dos ninhos pacientemen- te construídos no alto dos olmos mais frondosos ou no campanário da velha igreja, ouvir também um ou outro lá, ré ou si bemol apalheta- do de clarinete do buzinar ao longe de um ou outro raro carro cur- vando na estrada como se um gigantesco deífico maestro de batuta mantida levantada regesse o solo pianíssimo moderato do sussurrar da água na represa e nas alpondras do rio lá para o fundo da veiga; sinfonia perene, audível no correr do tempo de todos os tempos, com o regente movendo a gigantesca batuta através da eternidade, dando a entrada ao corpo-cântico andante forte vivace da voz do vento sibilante forte dos invernos ou ao forte fortíssimo do solo percussionista da bateria do ribombar do trovão das assustadoras trovoadas habituais dos fins de Maio e o estalido forte dos pratos e rufos de tímbalos, na apoteose
final da descarga da faísca que tudo electriza e estilhaça na sua queda sem clemência.
E poderia escutar também o uivar do lobo esfaimado procurando a corça descuidada da morte traiçoeira nas noites gélidas nevadas de luminosa escuridão, deixando ver e perceber o canto longínquo de mi- ríades de estrelas furando o firmamento negro, depois da acalmia que dissipa do céu as nuvens que semearam o imenso lençol branco dos nevões e a fome do lince e da raposa que não conseguem divisar a toca do coelho ou da lebre, da marta e do texugo, escondidos da ameaça do olhar agudo do mocho e do bufo, naquela imensidão nevada.
Que outra divindade que não o Deus em quem não acreditava teria criado toda aquela aparente perfeição?
Interrogava-se, certo de não obter resposta. Ali estava de novo, frente a frente com a terra que o vira nascer, que sempre fora tão po- bre de quase tudo, mas em cujos pastos das montanhas e dos terrenos incultos que a envolvem, e onde cresce a esteva e a urze túmidas de rebentos, se criavam ao vento e aos frios impiedosos dos invernos e aos calores secos e ásperos dos verões a cabra serrana e os melhores borre- gos e cabritos do monte.
Revivia com clareza e paixão aquele espaço e horizonte únicos, aquele lugar onde a natureza, deusa de pintores, se vestia de uma infi- nita combinação de todas as cores do arco-íris para tingir os outonos, misturando o cinzento dos dias frios e chuvosos com todos os flamantes comprimentos de onda dos tons do espectro cromático; prevalecendo, no entanto, uma mais forte insistência dos amarelos esverdeados, sépias e dourados outonais dos carvalhos, castanheiros, olmos e salgueiros, lembrando as florestas norte-americanas de plátanos, ulmeiros, abe- tos, salgueiros, bordos e vidoeiros que vira junto à fronteira do Canadá quando por lá passara por umas quantas vezes.
Revivescia os invernos rigorosos vestindo a montanha de encrespa- dos mantos de neve de uma alvura de marfim a perder de vista, numa visão só maculada pelo fumo saindo em toalha pelas pedras imbricadas das lousas dos telhados vindo das lareiras; as primaveras de amendo- eiras floridas ataviadas de branco de neve e os húmidos e verdejantes doces prados e lameiros de um verde forte embriagante, lembrando gigantescas mesas de bilhar, e recordava os verões secos, escaldantes, de um acastanhado poeirento de cheiro erótico, num espectáculo de deslumbramento sem par, capaz de atordoar a alma e a retina, deixando nela uma post-imagem para todo o sempre.
Sentia-se morrer de tanta felicidade por poder ter conseguido in- verter o fluir do filme da sua vida e ter experimentado regressar ao seu primeiro dia de vida. Tinha valido a pena voltar. Tinha valido a pena!
Agora poderia morrer. Julie, os filhos, os netos e os amigos lembrá- -lo-iam com saudade, é certo, mas antes de partir dir-lhes-ia da felici- dade imensa que sentira ao voltar ali antes do fim.
Noutros tempos, aquele seu saudoso lugarejo até poderia ter sido considerado a mais próspera povoação das redondezas, porque para ali vinha muita gente de outros lugares; de alguns até bem distantes, em busca de um trabalho muito duro, enterrando as suas vidas nas profun- dezas da montanha, escavando-a como toupeiras, ao longo das grutas das minas de ouro, estanho e volfrâmio, respirando a perigosa e explo- siva mistura de gazes, o grisu, e onde, ao que se dizia, muitos até tinham encontrada a morte como prémio.
Vinham ludibriados pela esperança prometida de um salário digno na prospecção desses minérios, paga saída das mãos sujas de sangue, de hunos assassinos e outros exploradores estrangeiros e volframistas analfabetos.
Naquele lugar vinha-lhe à lembrança a sua irmã Beatriz. Tantas ve- zes ali estivera com ela. Sentia tanta saudade dela, e, no entanto, quase não conseguia recordar-se das suas feições. Só da sua doçura e da sua coragem de aço. […]
Olhou o relógio e deu-se conta que o tempo se esvaíra com a cele- ridade de um sopro.
Com um sorriso breve recordava-se de quando saía da escola levar os livros que a professora lhe confiava e que ele nunca poderia possuir e que devorava à luz da candeia até tarde, quando já todos dormiam em casa, e, depois, já homem feito, trabalhando nas minas, de conti- nuar sempre agarrado aos grossos volumes de electricidade e física que o marido dela, o engenheiro responsável pelas minas de estanho e vol- frâmio, lhe emprestava, dando-lhe, depois, explicações exaustivas sobre essas matérias, que ouvia sofregamente na ânsia de aprender o mais que podia.
O seu sonho tinha sido sempre o de um dia chegar a poder estudar electrotecnia.
Tinha-o conseguido na América com grande vontade e dedicação, muito embora, para o alcançar, tivesse feito enormes sacrifícios pesso- ais, neles arrastando Julie, que nunca se cansara de o incentivar. […]