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Geologiske undersøkelser

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5 Presentasjon av ulike analysemetoder brukt på Begby

5.4 Geologiske undersøkelser

Foi nesta perspectiva que, quando em tempos me interessei pela pregnância do imaginário monetário e mercantil na narrativa medieval e pela sua provável relação de isomorfismo com as próprias transformações culturais na concepção do signo e da escrita17, me intrigaram, por exemplo, duas situações aparen te - men te anódinas ou inconsequentes na versão fragmentária da história de Tristão e Isolda contada por Béroul18. Por que razão, no fim do verso 1969, o copista opta por declinar (no caso sujeito, derivação do nominativo latino) o nome do rei através da forma nominal Mars, quando, à excepção de uma outra ocorrência isolada19, o manuscrito opta sempre pela forma Marc? Não estamos perante uma incorrecção gramatical nem perante um lapso. Se traduz uma mera opção gráfi - ca, uma exigência rimática, um usus scribendi ou uma escolha estratégica do copista; se é própria deste manuscrito ou não, a questão é quase irrelevante, uma vez que a versão de Béroul nos chegou apenas através de uma cópia única (o

ms 2171 da Biblioteca Nacional de França) de finais do século XIII. O facto é que,

num fenómeno de mútua atracção, esta forma acaba assim por se confundir plenamente com os «vint mars» (v. 1970) que o rei promete ao guarda-florestal para que este o conduza junto dos amantes no idílio do Morois. Que sentido terá esta relação homonímica e especular (reforçada pelo paralelismo da rima) entre o soberano (emanação de um poder simbólico que não se deveria esgotar ou traduzir nas vis realia) e esse signo fiduciário por excelência que é o dinheiro? Relação que parece contaminar a própria rainha que, no sobejamente conhecido

14 Dufays, J.-L., Stéréotypes et lecture, Liège, Mardaga, 1994, p. 156.

15 Herdeira do New Criticism, norte-americano, «la lecture ou l’interprétation symptomale

interroge les textes du point de vue de ce qui s’y exprime (de conflictuel, voire d’incohérent) à l’insu de leurs auteurs» (Schaeffer, J.-M., Petite écologie des études littéraires. Pourquoi et

comment étudier la littérature?, Vincennes, Éditions Thierry Marchaisse, 2011, p. 37, nota 1).

16 Ver Júdice, N., O espaço do conto no texto medieval, Lisboa, Veja, 1991, p. 54

17 O mercador de palavras ou as encruzilhadas da escrita medieval: 1100-1270: tese de doutora -

mento apresentada à Universidade Aberta em 2004.

18 As considerações que aqui apresentamos retomam as reflexões desenvolvidas no capítulo

«L’amour, l’argent et le mythe dans la légemnde de Tristan et Iseut» do nosso ensaio “Contez

vous qui savez de nombre…” Imaginaire marchand et économie du récit au Moyen Âge, Paris,

Honoré Champion, 2014, p. 179-217.

19 Em contrapartida, essa é a forma mais utilizada pelo ms Sneyd 1 da versão de Thomas da

e de nítidos contornos carnavalescos, episódio do Mal Pas20demonstra perante Tristão (disfarçado de leproso), uma insólita (tanto pela presença deste motivo como pelo registo discursivo adoptado) avareza, recusando violentamente dar- -lhe qualquer esmola. Comportamento que se transfere, na versão de Thomas, para Brangien, mas cujo sentido – como se de uma vasta homo ni mi zação narrativa se tratasse – é completamente diverso, senão oposto. Perscrutar o in-signi fian te da narrativa implica reconstruir a própria trajectória dos signos e dos símbolos e regressar assim a certos fragmentos emblemáticos, embora por vezes discretos, da história textual de Tristão.

E, neste sentido, verificamos que a figura do mercador (e, por conseguinte, o intrincado imaginário económico, teológico e verbal a ela associado) está no centro das maiores parte das versões conhecidas da lenda, o motivo sofrendo, de resto, uma considerável amplificatio de Eilhart von Oberge (composta entre 1170 e 1190, provavelmente a partir da versão, praticamente contemporânea, de Béroul) a Gottfried de Estrasburgo (circa 1210)21, e de Thomas (circa 1175) à Saga norueguesa composta por um denominado frei Roberto a pedido do rei Hakon IV (1226). Mais ainda: em todas as versões deste grupo textual, a máscara mercan - til inscreve-se a montante da lenda, moldando a própria trajectória de Tristão. Para justificar a sua presença na Irlanda depois de ter morto o Morholt, os poetas germânicos apresentam o herói sob os traços de um comerciante que fora mortal mente atingido e despojado dos seus bens por ladrões, o que leva o rei a aceitar que a sua filha Isolde sare as suas feridas. Depois deste episódio, a máscara e o corpo fundem-se, Tristão assumindo o papel de um verdadeiro mercador que aceita viajar para Inglaterra para comprar víveres e pôr fim à atmosfera de penúria e de terra gasta que reinava no universo de Isolda. A excelência com que CARLOS F. CLAMOTE CARRETO 74

20 Episódio onde, note-se de passagem, no marchés (v. 3294) - que designa a o espaço lamacento

no qual todos, literal e metaforicamente, se afundam, inclusive o próprio rei Artur, ele que deveria garantir a adequação do discurso à verdade neste processo judicial, ecoa o substantivo

marchié (v. 3196) que transforma este julgamento incentivado pelos vis e maldizentes – mas

não menos próximos da verdade – barões numa autêntica feira. Sobre o estatuto da verdade e da mentira em Béroul, ver, por exemplo: Bloch, H., «Tristan, the Myth of the State, and the Language of the Self», Yale French Studies, 51, p. 61-81; Ollier, M.-L., «Le statut de la vérité et du mensonge dans le Tristan de Béroul», in La Forme du sens. Textes narratifs des XIIeet XIIIesiècles.

Études littéraires et linguistiques, Orléans, Edition Paradigme, 2000, p. 263-282

21 Para uma interpretação deste motivo à luz dos contextos geográficos e ideológicos que

presidiram à adapatação das versões, ver Buschinger, D., «L’image du marchand dans les romans de Tristan en France et en Allemangne», Tristania, 10, 1-2, 1984-85, p. 43-51.

IMAGINÁRIOS IN-SIGNIFICANTES. A ESTRANHA AVAREZA DE ISOLDA NO TRISTAN DE BÉROUL 75

o herói domina a arte mercantil não deixa aliás de provocar a admiração dos Irlandeses (v. 1484 sq.), embora estas versões nada sugiram sobre a origem deste dom singular. Gottfried vai mais longe, inventando uma origem burguesa para o herói: durante a sua primeira estada na Cornualha depois de se ter separado dos mercadores noruegueses, Tristão antecipa as perguntas incómodas sobre a sua identidade, afirmando ser originário da Parménia (o que é verdade) onde o seu era mercador (v. 3099 sq.)22.

Contudo, tanto a Saga como o seu principal modelo textual (Thomas) silenciam (ou desconhecem) este disfarce de contornos fundadores (tanto para a lenda como para a estrutura identitária do herói), Tristão assumindo, durante a sua primeira viagem à Irlanda, a célebre máscara de um jogral (Tantris) cujas feridas serão curadas por Isolda a quem, em sinal de gratidão, Tristão transmitirá a arte da escrita e da música. Note-se ainda que são os extraordinários talentos de Tristão que lhe permitem estabelecer um primeiro contacto com o universo mercantil, sendo encarregue pelos seus irmãos (devido ao seu conhecimento de várias línguas) de ir ao encontro de mercadores noruegueses que tinham acabado de aportar (cap. 18) para adquirir sete pássaros. Concluído o negócio, o herói joga xadrez com os comerciantes que acabam por perder uma pequena fortuna, situação que despoleta nele uma terrífica invidia23.

Este ambíguo e paradoxal contacto com o universo mercantil acabará assim por estar na origem do primeiro exílio de Tristão e, na sequência de um naufrágio (cap. 19), do seu regresso ao espaço do rei Marc, ou seja, ao universo primordial das origens maternas que o herói desconhece totalmente (caps. 19-20)24, e no

22 «Ni dans a Saga XX ni dans Sir Tristrem XLIX, qui remontent comme on sait au texte de Thomas,

il n’est question d’un marchand. Il est possible que Gottfried ait introduit l’origine prétendument ‘bourgeoise’ de Tristan lui-même dans son roman, car plus tard, lors de l’arrivée de Rual à la cour de Marke, il n’en est pas non plus fait allusion. Cela est-il à mettre en relation avec l’origine ‘bourgeoise’ de Gottfried?» (D. Buschinger, «L’image du marchand», p. 47).

23 «[...] les marchands étaient admiratifs devant ce jeune homme et ils louaient ses connaissances,

son habileté, sa beauté et ses capacités, sa sagacité et la manière dont il les battait tous. Ils s’avisèrent que s’ils l’emmenaient avec eux, son savoir et ses nombreuses connaissances leur seraient d’une grande utilité, et en outre que s’ils voulaient le vendre, ils en tireraient un grand prix» (Saga, chap.18, p. 529).

24 Relembremos que o nascimento de Tristão, filho de Blensinbil e do valoroso cavaleiro

Kanelangres (entretanto morto em combate), provoca a morte da mãe, colocando-se sob o signo de uma dramático vazio a nível das origens. O herói será então criado na Bretanha e educado em segredo por Roalt, marechal do pai (Saga, caps. 15-17).

seio do qual surge como um autêntico herói civilizador e apolíneo ao imple men - tar os costume bretões (cap. 21) numa corte (Tintagel, Cornualha) que ilumina e encanta graças aos seus dotes de harpista e de intérprete de lais, tal como pro - vocara a admiração dos caçadores ingleses graças à sua arte venatória (cap. 21) e o espanto dos Irlandeses pela sua exímia prática mercantil. Em contrapar tida, as versões mostram-se concordantes no que respeita à segunda deslocação do herói para a Irlanda em busca de uma mulher para o seu tio, Marc: com os seus companheiros, assume novamente o papel de um comerciante que uma tempestade desviou da sua rota (que o deveria conduzir para a Flandres – um importante eixo comercial no século XII), chegando assim providencialmente a Dublin (Saga, caps. 34-35) onde obtém as necessárias concessões régias para vender os seus produtos25. O disfarce que o conduzirá novamente a Isolda é perfeito, tão perfeito, como sublinha ironicamente o narrador da Saga26, que acaba por deixar transparecer um divórcio entre qualidade guerreiras e ethos mercantil

Estimulado pelas mutações económicas e ideológicas que marcam os séculos XII e XIII, a omnipresença da figura mercantil, na sua intrínseca ambi - guidade, representa assim uma forma privilegiada de o herói transpor espaços, geográfica e simbolicamente, disjuntos, reconfigurando e homogeneizando assim o próprio universo identitário do herói. Neste sentido, reforça a plasti - cidade da persona tristaniana colmatando, ou deslocando constantemente, a dramática falha inscrita nas suas origens marcadas pela morte (dos pais), a falsa paternidade (Roalt) e a deriva geográfica e identitária, ao mesmo tempo, que tece uma singular relação de isomorfismo entre signo imaginário mercantil e imaginário poético, sugerida tanto pela possibilidade comutativa dos dois disfarces (Tristão-mercador e Tristão-jogral aquando do primeiro encontro com Isolda nas versões germânicas e na Saga, respectivamente), como pelo estanho lamento que o herói formula em Gottfried (v. 7573 sq.) quando deplora o facto de se ter tornado mercador depois de ter sido jogral motivado pelo desejo do lucro, ou seja, por um sempre suspeita avaritia. O mercador e o jogral, duas CARLOS F. CLAMOTE CARRETO 76

25 Dimensão ampliadas pelos textos germânicos que invocam inclusive o pagamento de um

imposto diário sobre os lucros obtidos de forma a garantir a pax mercantil.

26 «Les Irlandais dirent alors entre eux que ces Flamands formaient un joli groupe, et qu’un groupe

de chevaliers flamands devait être d’une grande distinction si de tels hommes étaient marchands dans ce pays, car nos hommes n’ont pas aussi fière allure» (Saga, cap. 40, p. 573).

IMAGINÁRIOS IN-SIGNIFICANTES. A ESTRANHA AVAREZA DE ISOLDA NO TRISTAN DE BÉROUL 77

figuras desvalorizadas pelos discursos doutrinários bem como poéticos con - temporâneos da matéria tristaniana27, duas figuras, por conseguinte, em busca de uma legitimação social, cultural e simbólica, insinuam-se agora igualmente como novas (ou renovadas) modalidades de mediação imaginária e verbal para o outro em que um modelo de acesso à significação e à verdade enraizado na

proprietas imanente dos signos cede, progressiva mas irremediavelmente, o lugar

a uma concepção dialéctica e negocial do sentido e da própria construção narra - tiva. Será, nesta perspectiva, por mera coincidência, se é novamente esta aliança aparentemente insignificante entre imaginário mercantil e signo poético que reencontramos no centro do manuscrito Douce quando Thomas manifesta o seu dilema face à complexidade de uma tradição oral e textual «mult divers» (v. 837), fragmentária e incoerente, cabendo-lhe – qual crítico textual avant-la-lettre (ou, melhor dizendo, devant la lettre) – a sempre delicada decisão de optar pela lição mais plausível de modo a oferecer ao leitor uma versão reunificada e convin - cente da própria lenda.

Com efeito, eis que no centro da reflexão meta-poética de Thomas e da discórdia em torno das versões concorrentes surge precisamente o disfarce mercantil através do qual Gouvernal (lição rejeitada)28ou Kaherdin (lição conser - vada de acordo com a «edição» de Bréri – v. 847-853) conseguem voltar a Ingla - terra para convencer Isolda a socorrer, uma última vez, Tristão mortalmente ferido pelo seu estranho duplo nominal Tristan le Nain. Com efeito, argumenta Thomas,

Plusurs de noz granter ne volent Ço que del naim dire ci solent Que femme Kaherdin dut amer; Li naim redut Tristran navrer E entusché par grant engin, Quant ot afolé Kaherdin;

27 Relembremos o prólogo de Érec et Énide de Chrétien de Troyes ou os inflamados discursos

contra a avareza poética que encontramos no incipit do Roman de Silence de Heldris da Cornualha ou no prólogo intercalado – e interpolado? – de uma canção de gesta como Aliscans. Sobre esta questão, ver as nossas reflexões em «La parole dérobée. Économie du silence et rhétorique de l’avarice d’après quelques récits en vers des XIIe et XIIIe siècles», Micrologus

(Nature, Sciences and Medieval Societies), XVIII (The Silence), 2010, p. 113-146.

28 No grupo das versões que admitem este desfecho, Kaherdin, companheiro de Tristão, teria sido

morto por um anão (o mesmo que envenena mortalmente Tristão?) por quem a sua mulher (ou irmã) se apaixonara, situação que impossibilita naturalmente a sua deslocação a Inglaterra.

Pur ceste plaie e pur cest mal Enveiad Tristran Guvernal En Engleterre pur Ysolt.

Thomas iço granter ne volt

E si volt par raisun mustrer Qu’iço ne put pas esteer. Cist fust par tut parconeüz E par tut le regne seüz Que de l’amur ert parçuners E emvers Ysolt messagers: Li reis l’en haeit mult forment, Guaiter le feseit a sa gent: E coment pust il dunc venir Sun servise a la curt offrir Al rei, as baruns, as serjanz

Cum se fust estrange marchanz,

Que hum issi coneüz N’i fud mult tost aperceüz? Ne sai coment il se gardast Ne coment Ysolt amenast.

Il sunt del cunte forsveié E de la verur esluingné, E se ço ne volent granter, Ne voil jo vers eus estriver;

Tengent le jur e jo le men:

La raisun s’i pruvera ben! (ms. Douce, v. 855-885)29.

Voltaremos a esta questão de extrema importância que, por ora, nos permite constatar que o imaginário económico, longe de ser residual, se inscreve a montante e a jusante da lenda, moldando a própria trajectória narrativa e identitária de Tristão.

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