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Biologiske undersøkelser .1 Begby, Østfold

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5 Presentasjon av ulike analysemetoder brukt på Begby

5.6 Biologiske undersøkelser .1 Begby, Østfold

Neste sentido, o facto de o mercador (personagem ou máscara narrativa) não surgir explicitamente nas versões apresentadas pelas Folies, por Marie de France (Chievrefueil) ou por Béroul, leva-nos a suspeitar de que o imaginário econó mico por ele veiculado se tenha então deslocado para o próprio tecido CARLOS F. CLAMOTE CARRETO 78

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metafórico da ficção, tornando-se provavelmente, por esta razão, mais «subtil de sens» (nas palavras da autoras dos Lais), ou seja, simultaneamente mais subver - sivo, opaco e polissémico, e acabando assim por contaminar todos os actores deste singular drama semiológico e simbólico que conduz, nomea da mente em Béroul, a uma sistemática aporia da verdade diluída numa atmosfera onde tudo se torna dialéctico, onde se dissolvem as tradicionais e confortáveis fronteiras entre a impostura e a realidade tangível e onde o estatuto da mentira (enquanto encenação discursiva) assume os singulares contornos da própria representação ficcional.

Na versão conservada no ms 2171 da BNF, o tom é dado pela magistral forma como os amantes (numa estratégia inteiramente concebida e orquestrada por Isolda) convencem Marc da sua inocência e lealdade apercebendo-se na sua presença em cima de uma árvore a partir da qual (por sugestão dos seus barões) esperava espiar e comprovar a relação adúltera (v. 1-319). Sucedem-se, com Frocin e o célebre episódio da farinha espalhada entre as camas ou outras estratégias denunciatórias, as tentativas conducentes à inscrição/revelação da verdade na própria materialidade tangível e legível dos signos. Mas sempre em vão, como se essa presença relicária do Sentido nos signos pertencesse agora apenas à esfera (cada vez mais inatingível e irrecuperável) da Transcendência30, selando o divórcio entre verdade e significação. Contrariamente ao que tão frequentemente se tem afirmado, Marc não é contudo um soberano ingénuo e dominado por uma espécie de cegueira hermenêutica crónica. Em primeiro lugar, porque todas as suas atitudes, extremamente coerentes de resto, parecem, quanto muito, reger-se segundo uma concepção formalista do direito, da verdade e da culpa31; em segundo lugar, porque se existe distorção na sua leitura dos signos, trata-se de uma distorção consciente e voluntária. O desregramento semiológico que o caracteriza e a «crise da linguagem» que precipita32apenas

30 Ver Dussol, E., «À propos du Tristan de Béroul: du mensonge des hommes au silence de Dieu»,

in “Et c’est la fin pour quoy sommes ensemble”. Hommage à Jean Dufournet. Littérature, histoire et langue du Moyen Âge, Paris, Champion, 1993, vol. 2, p. 525-533.

31 Chocheyras, J., Tristan et Iseut. Genèse d’un mythe littéraire, Paris, Honoré Champion, 1996, p. 251.

Sobre a inocência dos amantes à luz do direito feudal (já que nada indica que tenham consumado carnalmente a sua paixão depois de Isolda ter casado com o rei Marc), ver também, do mesmo autor, Réalité et imaginaire dans le Tristan de Béroul, Paros, Honoré Champion, 2011, p. 107-115.

sugerem que, como em todo o acto de leitura, a interpretação de um enunciado depende dos pressupostos semânticos e cognitivos do leitor (e não de uma qual - quer intencionalidade intrínseca ou explícita). Da validade destes pressu postos (culpabilidade ou inocências dos amantes, por exemplo) depende naturalmente a validade da interpretação produzida. E é precisamente essa constante projec - ção do sujeito (e dos valores pelos quais se rege) sobre os significantes que torna particularmente eloquente a relação especular entre Marc (Mars) e o signo monetário (a considerável quantia – vinte marcos – oferecida ao guarda florestal) na sua qualidade de mediação privilegiada para se aceder ao objecto de desejo33. É precisamente porque reconhece a polissemia e a plasticidade inerentes aos signos e aos significantes que Marc (no qual se espelha ironicamente a figura mítica de Midas) se recusa sistematicamente a validar a interpretação dos barões na medida em que contraria a sua leitura (baseada na inocência do amantes à luz do direito feudal) e a sua visão do mundo. É também por esta razão que, na sequên cia do Morois onde descobre os amantes deitados lado a lado e sepa - rados pela espada fissurada de Tristão (memória da sua luta primordial contra o Morholt), opta, através de uma subtil troca de objectos (a anel e a espada), por recompor (retórica da dispositivo) e reescrever o texto tristaniano de acordo com aquilo que, na sua perspectiva, deveria ser a versão correcta e autorizada da lenda, versão na qual volta a tomar simbolicamente posse da rainha. Neste sentido, não agirá Marc age como esses jograis (denunciados por Thomas) que corrompem a integridade e a verdade do conto? Ou como esses copistas pouco escrupulosos que teimam em transmitir, contra todas as evidências, lições incon - gruentes do texto? A hipótese é sedutora tanto mais que reforçaria a implícita, embora constante, analogia que percorre a tradição entre signo poético e signo monetário, ambos ameaçados pelo espectro da fraude e da contrafacção.

Esta perspectiva permite-nos, por um lado, lançar uma nova luz sobre o episódio do encontro de Tristão e Isolda com o eremita Ogrin no qual, através da carta de reconciliação estipulando que «par honte oster et mal covrir/ doit on un poi par bel mentir» (v. 2353-54), assistimos ao triunfo da modalização retórica da linguagem onde a mentira (ficcional) se torna numa das modalidades legítimas da verdade. Veiculando uma concepção abelardiana da palavra e CARLOS F. CLAMOTE CARRETO 80

33 Daí a sua condenação por teólogos e moralistas, não enquanto signo em si, mas pelas paixões

que desencadeia e pela incontrolável invisibilidade que introduz nas transacções, seja qual for a sua natureza.

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prefigurando a disputatio escolástica desenvolvida no século seguinte, Ogrin aponta para uma dimensão, literal e metaforicamente, negocial do sentido, sem a qual se torna difícil entender a insólita passagem seguinte que nos relata a aventura do eremita no espaço da feira onde compra, não sem antes regatear habilmente o seu preço, novas e sumptuosas vestes para Isolda:

Li hermites en vet au Mont, Por les richeces qui la sont. Aprés achates ver et gris, Dras de soië et porpre bis, Escarlates et blanc chainsil, Asez plus blanc que flor de lil, Et palefroi souef amblant, Bien atornez d’or flanboiant. Ogrins, l’ermite tant l’achate

Et tant acroit et tant barate

Pailes, vairs et gris et hermines

Que richement vest la roïne (v. 2733-44).

A retórica verbal (cobrir o mal através da mentira) transforma-se em retórica corporal, o vestido da rainha34, com o seu duplo valor monetário e simbólico, visando simultaneamente apagar (ou dissimular) os vestígios do desejo e torná- la num mais sedutor e valioso objecto de desejo para Marc e para a corte. Em contrapartida, o poema rejeita o espectro da corrupção monetária ligado à

fin’amors, sublinhando claramente a natureza essencialmente simbólica (e não

político-genealógica) da transacção que preside à união entre Tristão e Isolda, ao insistir sobre o facto de o herói recusar qualquer compensação pecuniária em troca da rainha:

Li rei demande ou tornera. Qant qu’il voudra, tot li dorra; Molt par li a a bandon mis

34 A natureza ostentatória da rainha como significante do poder e do desejo é claramente subli -

nhada aquando da sua entrada triunfante na cidade (depois do episódio do Gué Aventureux) onde o narrador refere novamente o valor monetário das vestes oferecidas por Dinas «qui bien valoit cent marcs d’argent» (v. 2986). Sobre esta questão, ver Zovic, N. C., Les Espaces de la

transgression dans le Tristan de Béroul, New York, Peter Lang Publishing, 1996, p. 62 e 55-75 ;

Baumgartner, E., Tristan et Iseut. De la légende aux récits en vers, Paris, PUF, 1987, p. 70-76 ; Rigolot, F., «Valeur figurative du vêtement dans le Tristan de Béroul», Cahiers de Civilisation Médiévale, X, 1967, p. 449-450.

Or et argent et vair et gris. Tristran dist: “Rois de Cornoualle,

Ja n’en prendrai mie maalle.

A qant que puis vois a grant joie

Au roi riche que l’en gerroie” (v. 2919-26).

Permite-nos, por outro lado, recontextualizar a estranha avareza da rainha durante o escondit, definido, relembremo-lo, pelo próprio rei Marc, com um autêntico marché. Esta sequência espelha, do ponto de vista das transacções simbólicas envolvidas, e inverte o episódio do Morois, já que, disfarçado de leproso, Tristão não só consegue obter uma apreciável quantia financeira e adqui rir novas vestes das quais as sorchauz de Artur (v. 3738-3) como se apodera de Isolda e da persona régia ao usurpar a aumuce de Marc (v. 3738-39), deixando assim a descoberto os escandalosos signos da sua identidade cavalar35. Num contexto marcado pela circulação secreta dos signos e do sentido, bem como pela inversão carnavalesca e transgressiva da significação dominada pela dúbia

locutio do discurso sexual de Isolda, como interpretar então a insólita atitude da

rainha que recusa violentamente qualquer esmola a Tristão? Par cele foi que je vos doi,

Forz truanz est, asez en a, Ne mangera hui ce qu’il a. Soz sa chape senti sa guige. Rois, s’aloiere n’apetiche: Les pains demiés et les entiers Et les pieces et les quartiers Ai bien parmi le sac sentu. Viande a, si est bien vestu. De vos sorchauz s’il peut vendre, Puet il cinz soz d’esterlins prendre, Et de l’aumuce mon seignor. Achat bien lit, si soit pastor, Ou un asne qui port le tai. Il est herlot, si que jel sai. Hui a suï bone pasture, Trové a gent a sa mesure.

De moi n’en portera qui valle

Un sol ferclin n’une maalle (v. 3962-80).

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De notar, em primeiro lugar, que a relação económico que une os amantes não é um tema absolutamente novo. Transparece, como vimos, não somente ao longo da tradição textual através da reiterada utilização da máscara ou da iden ti dade mercantil pelo herói, como surge igualmente na referência, no início do fragmento de Béroul (v. 204-206), ao facto de Isolda ter saldado as dívidas de Tristão cuja penúria o terá conduzido a penhorar o seu equipamento de cavaleiro para se hospedar na cidade.

O espírito calculista e pragmático da rainha não é, por outro lado, segredo para ninguém, Isolda não hesitando, por exemplo, em planear a morte de Brangien para silenciar essa incómoda testemunha da sua relação ilícita36. Assim, ao recusar a esmola, Isolda nada mais faz do que reafirmar a sua supremacia sobre a circulação dos signos, afirmando-se como o significante supremo que rege todas as transacções, a partir do qual se organiza e distribui o poder, tanto do ponto de vista político como simbólico. Esta interpretação pressupõe, claro está, que consideramos igualmente, à luz dos textos apologéticos e doutrinários contemporâneos37, a avareza no seu sentido espiritual e verbal enquanto ente - sou ramento contra natura dos dons divinos que fractura a Ordem social e simbóli ca (veja-se a própria subversão do juramento sobre as relíquias sagradas), na medi da em que interrompe a circulação da riqueza, hipóstase da circulação da palavra, do saber e do próprio do sentido38. Mais ainda: ao mesmo que tempo

36 Este plano, apenas aludido em Thomas, é amplamente desenvolvido na Saga (caps. 47-48). 37 O incontornável ensaio de C. Casagrande e S. Vecchio (Les Péchés de la langue, Paris, Cerf, 1991)

oferece-nos diversos exemplos textuais que confirmam, contextualizam e enriquecem, esta rede de analogias entre pecados económicos e pecados verbais. Mais recentemente, ver ainda, das mesmas autoras, I sette vizi capitali. Storia dei peccati nel Medioevo, Torino, Einaudi, 2000, p. 96-123.

38 É impossível esboçar, num curto espaço, uma bibliografia, mesmo que parcial, sobre as diversas

e profundas transformações que afectam a civilização medieval essencialmente a partir do século XII. Assinalemos, por conseguinte, apenas alguns marcos para um possível roteiro:

Actes du XXIeCongrès de la SMESP - Le Marchand au Moyen Age, Nantes, Société des Historiens

Médiévis tes de l’Enseignement Supérieur Public, 1992); Baldwin, J. W., The Scholastic Culture

of the Middle Ages, 1000-1300, Illinois, Waveland Press, Inc., 1997); Duby, G., Les Trois ordres, ou l’imaginaire du féodalisme, Paris, Gallimard, 1978; Langholm, O., Economics in the Medieval Schools. Wealth, Exchange, Value, Money and Usury according to the Paris Theological Tradition– 1200-1350, Leiden/New York/ Köln, E. J. Brill, 1992; The Legacy of Scholasticism in Economic Thought. Antecedents of Choice and Power, Cambridge, Cambridge University Press, 1998 ; Le

que esta recusa alimenta a dívida simbólica de Tristão para com a rainha, exclui ainda radicalmente a corte deste fragmento de discurso amoroso que se consomará, a partir de agora, essencialmente através de uma secreta, invisível e incontrolável transacção de signos (verbais e não só) cuja chave hermenêutica é apenas acessível aos amantes (pensemos na dinâmica de significação que percorre o lai de Chievrefueil de Marie de France).

O episódio que narra a revolta de Brangien (ms. Douce, v. 3-344) na versão de Thomas permite-nos aprofundar e matizar esta notável economia do signo e do desejo que percorre o mito e o imaginário tristanianos. Com efeito, se o roman ce de Béroul evidencia um triunfo do signo, a versão dita «cortês» de Thomas da Inglaterra veicula a paixão idolatra (pensamos no célebre episódio das Sala das Imagens39) pelo simulacro num texto inteiramente percorrido pela duplicação especular (as duas Isoldas, os dois Tristãos, os dois confidentes ou companheiros, etc.) e pelo campo semântico do (des)engano e da falácia (veja-se a recorrência dos termos trichier, derverie, mentir ma fei, mentir, decevre, enginné,

engin, semblance, traïsun, traïtre, tort, entre os versos 412 e 589 que transcrevem

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travail et culture en Occident, Paris, Gallimard, 1977; La Bourse et la vie. Économie et religion au Moyen Age, Paris, Hachette, 1986; Roover, R. de, La Pensée économique des scolastiques, doctrines et méthodes. Conférences Albert-le-Grand 1970, Montréal/Paris, Institut d’Études Médiévales/

J. Vrin, 1971. Para uma questionação das implicações poéticas do imaginário económico, ver as nossas reflexões em «La parole rachetée. Imaginaire marchand et économie du signe dans le récit médiéval (XIIe-XIIIesiècles)», PRIS-MA. Recherches sur la Littérature d’Imagination au Moyen

Âge, t. XV, 1-2, nº 49-50, 2009 («Paysages critiques de l’imaginaire, I»), p. 23-53 e, mais

recentemente, no ensaio O mercador de palavras ou a rescrita do mundo. Literatura e pensamento

económico na Idade Média [prefácio de José Mattoso], Lisboa, Chiado Editora, 2012.

39 «Por ço fist il ceste image,/ Que dire li volt son corage,/ Son bon penser et sa fole errur,/ Sa

paigne, sa joie d’amor,/ Car ne sot vers cui descoverir/ Ne son voler, e son desir» (v. 45-50). Admirável sequência em que Tristão se insinua como o duplo de Thomas: «Dans l’épisode de la Salle aux Images, Tristan dispose, ordonne, agence avec art les matériaux, l’or et l’argent que lui fournit le géant qu’il a vaincu et que n’on fait que dégrossir les artisans qu’il a embauchés. Tristan devient ainsi comme un double de Thomas, celui qui impose une forme définitive aux matériaux procu rés par ses prédécesseurs, qui en “invente” et en révèle la beauté. Le texte, ici, n’est pas seule ment, comme dans le prologue du Roman de Troie de Benoît, la forteresse qu’érige l’écrivain en lieu et place de la cité détruite. Il est la Salle aux Images, le lieu idéal arraché à la matière brute, où l’art de l’écrivain/de l’amant se déploie à partir – mais ce support est indispensable – de matériaux hérités, où se conjuguent les forces créatrices de l’architecte, du sculpteur, de l’orfèvre, qu’amènent à l’existence la parole du clerc» (E. Baumgartner, Tristan

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o monólogo do herói a seguir ao seu casamento com Isolda-das-Mãos-Brancas). A definição e o estatuto do simulacro são aliás formulados pelo fragmento Sneyd 1 (v. 230) de modo particularmente lúcido: seduzido «par le nun et pur la belté» de Isolda-das-Mãos-Brancas, ou seja, por um significante que reproduz mimeti - ca mente o modelo, o erro de Tristão, agindo também ele em falsário à imagem de Marc, consiste, em suma, em preferir o simulacro à plenitude do signo. Esta trai ção semiológica introduz uma irremediável fractura no sistema fechado de comunicação criado pelos amantes (sob a égide essencialmente de Isolda, como vimos), resultando num fracasso das próprias estratégias retóricas (discursiva e corporal) até então utilizadas por Tristão e Isolda para se reunirem em segredo. No episódio em questão, vemos assim Brangien inverter a relação de forças com a rainha («Ore est Ysolt desuz la main/ E desuz le conseil de Brengvein», v. 479-480) e expulsar violentamente o herói, disfarçado novamente de leproso, da igreja:

Des quant avez esté si seinte Que dunisez si largement A malade u a povre gent? Vostre anel doner li vulez: Par ma fei, dame nun ferez. Ne donez pas a si grant fès, Que vus repentez enaprès; E si or li dunisez,

Encor ui vus repentirez (v. 572-580).

A estranha avaritia de Isolda no Mal Pas deslocou-se agora para a sua confi - dente, produzindo, no entanto, uma radical inversão semântica: em vez de dar lugar a uma epifania do sujeito (Tristão ressurgindo como o Bel Joëor através do seu duplo equestre) preparada através do rebaixamento identitário fingido e de contornos lúdico-simbólico, a máscara, (con)fundindo-se agora com o corpo, engendra uma profunda falha (ou dissolução) identitária que condena o sujeito a permanecer, até à morte, no exílio e à margem da Ordem social e do amor (como acontece nas Folies). É que, na esfera do Simbólico, onde o significante é chamado a desempenhar um papel estruturador40, não se troca impunemente o signo por um simulacro de signo sem se pôr em causa a integridade do sujeito e a construção do sentido e da própria representação.

Com efeito, a própria imersão mimética no universo ficcional41implica assumir plenamente o jogo (da) narrativo(a); identificação apenas possível se a máscara for suficientemente convincente (ou seja, verosímil) e não denunciar nem a verdade do sujeito nem a sua dimensão de puro simulacro representacio - nal. O que nos conduz novamente à imagem do mercador na sua relação com a fixação de uma forma para o texto. Quem deveria, pergunta Thomas, assumir esse disfarce na viagem para Inglaterra com a missão de trazer esse signo rege - nerador e salvífico por excelência representado por Iseut la Blonde, Gouver nal ou Kaherdin? Já identificámos as razões narrativas e filológicas que levaram o poeta a legitimar a sua lição do conto. Resta saber o que motiva a escolha desta máscara em detrimento de tantas outras possíveis e igualmente plausíveis (peregrino, jogral, etc.).

A resposta é dupla. Em primeiro lugar, a máscara mercantil, positivamente valorizada como mediação privilegiada com o objecto de desejo e possibilidade de voltar a pôr em comunicação universos geográficos e simbólicos disjuntos, permite exorcizar o espectro do simulacro omnipresente na concepção do amor em Thomas e regressar a uma lógica do signo, purificando o próprio espaço da significação. Embora transferida para Kaherdin, esta persona religa a versão de Thomas às origens da lenda e da relação entre Tristão e Isolda (ver versões germânicas e Saga norueguesa), reforçando assim a verur e a coerência de uma lição, textual e semanticamente, reunificada através de uma rede consistente de isomorfismos semânticos e de isotopias narrativas. Permite, por outro lado, selar, no auge da sua ambiguidade, a confluência entre imaginário mercantil, discurso amoroso e signo poético. Com efeito, será por mero acaso que a «arte e o enge - nho» (v. 1195) que Isolda deverá novamente evidenciar para deixar a cidade em companhia de Kaherdin é expressa em termos semelhantes aos que caracteri - zam a cultura urbana de Londres onde os burgueses, conhecidos pela sua inteli - gên cia e subtileza, revelam um «grant engin» (v. 1393), no qual ecoa, por sua vez, o «grant engin» de Isolda-das-Mãos-Brancas (que, ao mentir, como sabemos, sobre a cor das velas branca e negra da alternância, provoca a morte do herói42), espelho, ele próprio, de todos esses engin d’amur (ms. Sneyd 2, v. 57) de tonali - dade ovidiana contra os quais Thomas pretendia precaver os amantes ao contar esta história (pouco) exemplar?

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41 Ver Schaeffer, J.-M., Pourquoi la fiction?, Paris, Seuil, 1999, p. 327-335.

42 Ver Grigsby, J.-L., «L’empire des signes chez Béroul et Thomas: ‘le sigle est tut neir’», in Mélanges

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