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Analyse av nedbør og kronedrypp .1 Nedbørmengde

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6 Resultater og diskusjon av miljømålingene

6.1 Analyse av nedbør og kronedrypp .1 Nedbørmengde

Universidade Nova de Lisboa | IEM, FCSH-UNL

A

s heroínas das novelas medievais, a rainha Genebra, Isolda, ou mesmo a mais ibérica Oriana, a Sem Par, transportam-nos para um mundo imaginário onde, embora a violência espreite a cada esquina (ou em cada ponte, ou atrás de cada árvore da floresta), as regras cavaleirescas da cortesia são o modelo seguido ou demandado pelos mais nobres, entendendo aqui o termo no sentido social etimológico — os da nobreza — e no sentido moral que o primitivo sentido etimo lógico fez posteriormente nascer. A função modelar deste imaginário, que Georges Duby acaba por reconhecer quando afirma que a literatura medieval profana, nomeadamente a novela de cavalaria, não pode ser explicada apenas como mero reflexo dos valores da sociedade feudal em que surge, mas também como aspiração a valores futuros1, essa função de modelo é, de resto, bem expli - cada, em finais do século XV, por Garcí Rodríguez de Montalvo, no final da introdução à sua versão do Amadis de Gaula. Refletindo sobre os sucessos reais e as «histórias fingidas em que se acham coisas admiráveis fora da ordem da natureza que mais por nome de patranhas que de crónicas com muita razão devem ser tidas e chamadas» pergunta: «que tomaremos de umas e de outras? Por certo, a meu ver, outra cousa não salvo os bons exemplos», para que, acres - centa um pouco mais adiante, os «tomemos como asas com que as nossas almas subam à alteza da glória para que foram criadas»2. É também sobre histórias de proveito e exemplo ou sobre este confronto do imaginário com o real, no que ao universo feminino medieval diz respeito, que me irei debruçar, de forma necessariamente muito breve, no que se segue.

DA LETRA AO IMAGINÁRIO CENTRO DE ESTUDOS SOBRE O IMAGINÁRIO LITERÁRIO, FCSH - UNL 2013

1 Duby, Georges, Dames du XIIème siècle, vol. I, Paris, Gallimard, p. 114

Num luminoso artigo publicado em 1985 e intitulado “A morte das fadas: a lenda genealógica da Dama do Pé de Cabra”3, Luís Krus guia-nos numa exemplar viagem através do imaginário medieval e dos nexos que unem esse imaginário ao seu real histórico, político e familiar. Como certamente se lembrarão trata-se de um artigo que toma como matéria as sequências narra tivas que acom pa - nham, no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, a genealogia da família basca dos Haro, e das quais a mais conhecida é exata mente a chamada Lenda da Dama do Pé de Cabra. Situando esta narrativa mítica, de tipo melusiano, num tempo em que a memória do paganismo permanece ainda viva e atuante na Europa cristã, Luís Krus explica-nos como um universo mágico e transnacional pode ser harmonicamente integrado na história de uma linhagem, transformando-se numa narra tiva política de proveito e exemplo, no caso numa narrativa de cariz nacionalista, cujo sentido profundo é o da fidelidade às raízes e símbolos ances - trais bascos, relembrados muito certamente numa época, meados do século XIV, em que a ameaça de centralização régia castelhana e a ausência de varonia na família dos Haro, os senhores tradicionais da Biscaia, parecem fazer perigar a autonomia e os valores da comunidade.

O artigo “A morte das fadas” é a versão escrita e alargada da intervenção de Luís Krus num colóquio realizado em Coimbra nesse mesmo ano e subordinado ao tema “A mulher na sociedade portuguesa”. E não será por acaso que, tendo como horizonte a mulher medieval, Luis Krus tenha tomado exatamente como ponto de partida uma das narrativas dos Livros de Linhagens. Na verdade, os Nobiliários serão talvez os textos medievais mais densamente povoados de mulheres, e isto até de um ponto de vista estritamente numérico. De facto, se bem que perfeitamente integrados no universo a que Georges Duby chamou “male Moyen Age”4, os Livros de Linhagens, como textos genealógicos que são, naturalmente tomam como núcleo base a união de um homem com uma mulher, de que resultam filhos, que por sua vez se unem a outras mulheres ou GRAÇA VIDEIRA LOPES 88

3 in Ler História, Lisboa, 1985, nº 6, pp. 3-34. A comunicação original ao colóquio A mulher na

Sociedade Portuguesa. Visão histórica e perspectivas actuais, que citamos em seguida, e que se

encontrava inédita, foi recentemente publicada, com o título “Uma variante peninsular do mito de Melusina: a origem dos Haro no Livro de Linhagens do conde de Barcelos”, em Krus, Luís, A

construção do passado medieval. Textos inéditos e publicados, Lisboa, IEM-FCSH/UNL, 2011.

4 Do título de um dos seus livros (Male Moyen Age – De l’amour et autres essais, Paris, Flammarion,

MULHERES MEDIEVAIS: HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO 89

outros homens, num processo a que poderemos chamar a “obra aberta” por excelência. Tendo em conta este programa, os Nobiliários são, pois, tenden cial - mente, os textos medievais mais paritários, já que o grosso das suas páginas é composto por uma vasta sequência de nomes masculinos e de nomes femininos, que se sucedem numa ordem sobretudo cronológica, e onde a diferença ou hierar quia entre os géneros não se apresenta abertamente como critério deter - mi nante. No sentido puramente numérico, pois, pode assim dizer-se que as mulheres têm, por uma vez, nos Nobiliários, o mesmo peso do que os homens. E se bem que a quantidade não seja critério valorativo, como é evidente, o certo é que, no contexto geral da cultura medieval, a simples memória futura dos nomes femininos e a profusão destes nomes é, já de si, muito significativa. E isto mesmo que tudo indique que é exatamente o valor do nome, da linhagem, o passaporte que dá a estas mulheres o acesso ao registo para a posteridade. De resto, a própria fórmula utilizada à exaustão pelo genealogista “Fulano casou-se com Beltrana e fez nela…” ou, na versão das filhas, «Fulana casou-se com Beltrano

e fez nela…» remete-nos, sem margem para dúvidas, para a máscula Idade Média,

enquadrando a paridade numérica dos nomes na ordem hierárquica “natural” entre os géneros, ordem à qual os Livros de Linhagens não escapam nem pre ten - dem escapar. A este respeito, diga-se que até as lacunas do texto são signifi ca ti - vas, já que uma leitura corrida do mesmo facilmente constata que a esmagadora maioria dos nomes que o genealogista desconhece ou não com pleta são exatamente nomes femininos.

Com estas características e estes limites, é um facto que os Nobiliários pululam de mulheres e também de histórias de mulheres. De facto, e como é por demais sabido, histórias de todo o tipo cortam aqui muito frequentemente o registo seco dos nomes e das linhagens, abrindo para espaços narrativos, de dimensão muito variável, os quais, no seu conjunto, nos fornecem um dos mais vivos e coloridos quadros da vida e da cultura medievais que podemos encontrar em textos da época. Encaradas, pelo menos desde inícios do século XIX, como parte integrante da literatura medieval, essas narrativas têm servido de fonte, desde então, aos mais diversos textos literários, entre os quais será justo destacar as Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano (onde encontramos aquela que será ainda a versão mais popularizada da Lenda da Dama do Pé de Cabra). Não tendo exclusivamente mulheres como protagonistas, é um facto que as mulheres comparecem de forma significativa em muitas destas narrativas inseridas nos Livros de Linhagens, narrativas essas que por isto mesmo se transformam, muitas

vezes, em testemunhos ímpares e únicos de um quotidiano feminino que os restantes textos medievais genericamente tendem a menorizar ou a omitir. Farei, pois, no que se segue, uma breve passagem por alguns destes textos, tentando esboçar um breve retrato de algumas das figuras femininas, protagonistas ou anónimas, que desenham, e aproximar a vivência do feminino da Península Ibé - rica dos séculos XII e XIII. Acrescento que, tendo estas narrativas sido publi cadas em volume à parte, no início dos anos oitenta, por José Mattoso5, o editor dos Nobiliários, é dessa compilação que me servirei prioritariamente, se bem que completando-a com duas ou três referências a histórias que, pela sua reduzida dimensão, nela não comparecem.

As mais conhecidas das histórias com mulheres presentes nos Livros de Linhagens são as que se situam no universo do maravilhoso ou do lendário, como é exatamente o caso da Dama Pé de Cabra, da história de D. Marinha, uma curta narrativa igualmente de tipo melusiano, ou ainda da também muito conhecida lenda de Miragaia. Inseridas todas, sem exceção, no tempo mítico das origens de uma linhagem, estas narrativas fazem apelo a contos e lendas do folclore universal, adaptadas e reescritas tendo em vista a história de uma família concreta, no primeiro caso, como se disse, os Haro da Biscaia, no segundo, os galegos Marinho, e no último, a linhagem dos senhores da Maia. É este um gesto narrativo que, excetuando a dimensão e o seu carácter senhorial e não real, nada distingue da saga do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, e que faz parte dos programas de construção de uma memória familiar aristocrática que, desde o século XII, se põem em ação na Europa medieval. Como escreve Luís Krus, «mobilizando clérigos, trovadores e jograis, a nobreza condal e senhorial procura fixar por escrito, ou criar integralmente, textos que procurem reproduzir as origens familiares e encontrar o tempo mítico da fundação». As protagonistas femininas destas narrativas enquadram-se, pois, nesse tempo mítico, com perfis claramente maravilhosos ou lendários, mesmo se esses mesmos perfis possam ir sofrendo variações significativas nas sucessivas versões de uma mesma história. É o caso, como se lembrarão, da rainha Aldora, a grande protagonista de Miragaia, que passa da pura personagem demoníaca apresentada no Livro Velho GRAÇA VIDEIRA LOPES 90

5 Narrativas dos Livros de Linhagens, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983. O livro teve

uma nova edição mais recentemente, nas Obras Completas de José Mattoso, vol. 5, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, edição que, mantendo os textos, os organiza de forma muito diferente.

MULHERES MEDIEVAIS: HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO 91

de Linhagens, a mulher maléfica porque traída pelo seu marido, o rei Ramiro, na

versão posterior e bem mais extensa do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. Seja como for, em ambas as versões a moral da história é-nos transmitida (aliás, sintomaticamente) pela fala do rei mouro Abencadão: «De má ventura é o homem

que se fia por nem ũa mulher». Quanto à Dama Pé de Cabra, o mais perfeito exem -

plo da personagem melusiana (um ente sobrenatural que se une a um mortal mediante um interdito, e que desaparece quando esse interdito é quebrado), convém não esquecer que, no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, a sua história não acaba aqui (como acaba na versão de Herculano), mas que se prolonga na sua transformação em personagem masculina, o cobro6da Biscaia, ser sobre - natu ral ao qual os biscainhos deverão prestar homenagem sob pena das mais diversas hecatombes e catástrofes. Trata-se, pois, na versão completa do Nobiliário, de um ser hermafrodita, uma divindade ao mesmo tempo benéfica e malévola, bastante diferente, aliás, da sua «prima» D. Marinha, ser do mar que, uma vez quebrado o interdito (o feitiço que a fazia muda), se integra harmoni camente na sociedade humana e cristã dos mortais. De resto, e contrariamente ao que parece ter-se passado com os Marinho, será exatamente a ambiguidade da figura tutelar dos Haro, a mutante Dama Pé de Cabra, que explicará a persistente fama de feitiçaria que acompanha algumas mulheres da linhagem, nomeadamente D. Mecia Lopes de Haro, rainha de Portugal pelo seu casamento (muito contes - tado) com o malogrado D. Sancho II.

Situada igualmente no tempo mítico das origens, mas agora numa versão em que lenda e verosimilhança histórica parecem ir a par, deparamos ainda com a infanta D. Ermesenda, cuja união com um rei D. Ramiro de Leão, seu meio-irmão, estará na origem dos Veloso. De D. Ermesenda a história pouco nos diz, exceto que nunca foi casada, e que enjeita o fruto dessa união secreta e incestuosa, dando-o a seu pai para criar:

E quando o desenvolveram dos panos, viu-o negro e mui feo e mui veloso, que nom semelhava senom besta selvagem, e mandou que lhe pusessem nome Veloso

(o que não o impede de se tornar «mui bom cavaleiro», aliás). Figura feminina fugaz, até porque a narrativa em questão é muito curta, a infanta Ermesenda, com quem seu irmão «fazia mal sa fazenda» desaparece no silêncio das histórias

por contar. A verosimilhança do seu caso, no entanto, parece comprovar-se pelas várias referências a relações incestuosas contidas nos Nobiliários, entre as quais poderemos citar os casos de duas figuras femininas de linhagens portuguesas prestigiadas, D. Maria Mendes de Sousa, roussada pelo seu irmão Gonçalo Mendes (LC22G13), ou de D. Mor Garcia de Bragança, igualmente roussada pelo seu irmão Pero Garcia, neste último caso tendo tido dele também um filho, Martim Tavaia (LC24E4).

As histórias com mulheres não se limitam, pois, ao tempo mítico das origens de uma linhagem, antes se prolongam para o tempo histórico da crónica, incidin - do sobre personagens efetivamente documentadas, como as anteriores, ou as que irei referir em seguida, e entre as quais se poderá salientar desde já, até pela extensão e detalhe da sua história, D. Maria Pais Ribeiro, a célebre Ribeirinha, barregã de D. Sancho I. O estatuto das narrativas deste tipo, que chegam aos Nobiliá rios talvez provenientes de anteriores romances ou de tradições familiares orais aproveitados pelo linhagista, é bastante diferente do das histórias que incidem no tempo mítico das origens. Na verdade, se bem que a sua veracidade necessitasse, caso a caso, de um estudo mais detalhado e com cruzamento de fontes, estudo que, pelo menos a meu conhecimento, ainda não foi feito, o certo é que estas pequenas narrativas se nos apresentam com um alto grau de vero - similhança, que nos pode levar a aceitá-las como testemunhos mais ou menos fidedignos da vivência feminina no seio da aristocracia medieval peninsular.

Como seria de esperar, os episódios envolvendo mulheres que mais des - per tam o interesse do linhagista prendem-se essencialmente com lances dramá - ticos, com especial incidência em assassinatos ou raptos. Mas há também pelo menos um caso do que poderemos chamar o embrião de um romance (e uso aqui o termo no seu sentido corrente), a breve história dos amores de D. Urraca Mendes de Bragança com D. Soeiro Pais Mouro, que foram os pais de um dos mais antigos trovadores conhecidos, João Soares de Paiva. Sendo casada «mui manceba e mui fermosa», como nos diz o texto, com Diogo Gonçalves de Urrô, D. Urraca manteria uma relação (não sabemos exatamente de que tipo) com D. Soeiro, descrito, por sua vez, como «mui bom mancebo e muito aposto e bem fidalgo assaz». E apesar de já ter do seu marido «peça de filhos», como especifica o texto, mal soube da sua morte na batalha de Ourique, D. Urraca «nom leixou de casar com D. Soeiro», segundo enlace este do qual nasce exatamente o trovador (que, como sugere José Mattoso, poderia ter sido o próprio criador da pequena narrativa, muito favorável à união, e de nítido recorte cortês).

GRAÇA VIDEIRA LOPES 92

Bem mais distantes do universo da cortesia estão as histórias em que as mulheres nos aparecem como vítimas de violências várias, desde simples humi - lhações públicas a assassinatos. No primeiro caso, os Nobiliários relatam-nos, por exemplo, o tratamento dado por D. Fernão Mendes de Bragança, o Bravo, a sua mãe, D. Sancha Viegas de Riba Douro, já que, como nos diz o Livro do Deão, «este

foi o que meteu sa madre na pela da ussa, e pose-lhe os cães, porque lhe baralhara com a barregã» (LD12A4). Trata-se, de resto, do mesmo Fernão Mendes que o Livro do Conde nos apresenta iracundo em Coimbra, perante D. Afonso Henriques

e os seus próximos, depois de ter sido objeto de riso «por ũa pouca de nata que lhe caíra pola barva», e obrigando em seguida o rei a sanar a ofensa cometida entregando-lha a sua filha, a infanta Teresa Afonso, subtraindo-a ao seu legítimo marido, D. Sancho Nunes de Barbosa, um dos zombadores. Se neste último caso se sabe que a história não se terá passado exatamente desta forma, já que D. Sancho Nunes terá sido casado não com a filha, mas sim com uma irmã de D. Afonso Henriques, Sancha Henriques (cujo segundo marido foi efetiva mente o Braganção), ela não deixa de ser sintomática do valor de troca que repre sen - tavam as donas e donzelas da aristocracia medieval (sem excluir as infantas reais). Também relacionada com D. Afonso Henriques, agora no talvez inesperado papel de sedutor, encontramos a história de D. Sancha Álvares das Astúrias, «doneada» pelo nosso primeiro rei antes do jantar e nas barbas do marido, D. Gonçalo de Sousa, chamado «o Bom», que a remete imediatamente à família, não sem antes a trosquiar (rapar o cabelo), e a fazer montar com «o rostro contra o rabo do sendeiro […] com muitos apupos que lhe davam os rapazes». São histó rias que, como comenta Mattoso, provirão certamente do interior das linhagens em ques - tão (os Bragança e os Sousas), expondo o seu ponto de vista, até pela imagem negativa que transmitem do Fundador, em ambos os casos apresentado como incapaz de qualquer reação. Da reação das donas também, obviamente, a história nada reza. Mais funesta é, no entanto, a sorte de D. Esteva ninha Afonso e de D. Inês Sanches, ambas assassinadas pelos seus maridos por suspeita de adultério. Pela sua extensão, detalhes e peripécias romanescas, a história de D. Estevaninha é uma das sequências narrativas mais conhecidas dos Nobiliários, e é mesmo possível que, já na época, tivesse tido larga difusão. Trata-se de um caso de morte por equívoco, motivada pela maldade de uma criada, que se veste com o pelote da sua senhora para ir todas as noites a um pomar fazer «mal com um peom». Avisado pelos seus homens de confiança, e acredi tando-se traído, o marido, Fernão Rodrigues de Castro (1125-1185), não só mata o peão, como, dirigindo-

-se ao quarto no encalço da figura feminina fugitiva, «chantou o cuitelo» na mulher que dormia pacificamente no leito, abra ça da ao filho de ambos, só depois pedindo lume, para imediatamente se dar conta do erro cometido (já que a criada se tinha escondido debaixo da dita cama). Sendo D. Estevaninha filha bastarda de Afonso VII de Leão, a história não acaba aqui, já que D. Fernando de Castro «ficou com gram pesar deste cajam7que lhe aconte cera», dirigindo-se ao imperador para lhe contar o sucedido e pedir desculpa. Considerando que se tratou efetivamente de «um cajam», Afonso VII perdoa-lhe, dando-o «por bom e leal». Daí por diante D. Fernando, como acres centa ainda o texto, «em quantas lides entrou, todalas venceu», tendo mesmo desempenhado, acrescentamos nós, altos cargos na corte de Fernando II, nomea damente o de adiantado-mor. Acrescente-se ainda, já agora, que D. Estevaninha era, além de sua mulher, sua prima direita (a sua mãe sendo uma Castro), e que já antes o seu próprio nasci - mento é objeto, no Nobiliário, de uma breve mas romanesca sequência. Na verdade, reza a história que à sua mãe, Sancha de Castro,

demandou-a o emperador, e ela, com medo de seu irmão [Martim Fernandes de Castro], nom se atreveu. E como aquela que queria fazer mal, deu peçonha a seu irmão e matou-o, e depois foi-se pera o emperador e foi sa barregã (LC11A6).

Como vemos, o destino romanesco e dramático dos Castros parece ser bem anterior à nossa bem conhecida D. Inês.

Já o outro assassinato que referimos, o de D. Inês Sanches às mãos de seu marido Rodrigo Gonçalves de Pereira (o tetravô de D. Nuno Álvares Pereira), é narrado de forma muito mais sucinta, mas, talvez por isso mesmo, de grande efeito dramático. Como o texto é muito curto, creio que a sua leitura me dispen - sará de qualquer outro comentário:

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