6 Previous descriptions of dak: results and unsolved questions
6.2 Geographical distribution of dak
Segundo Fabiana, o curso de percussão dos Arautos do Gueto parte da atividade de audição e apreciação como principal recurso. Infiro que isso possibilita a compreensão
do discurso musical e consequentemente a formação da musicalidade. Sendo assim, de um certo modo, a escuta deveria anteceder a performance. Fabiana explica que o mais importante no aprendizado da música é aprender a ouvir e a entender a música para depois tocar. Entender a música aparece como uma categoria necessária que se coloca entre a escuta e a execução. Na minha observação das aulas, porém, não percebi que esta separação acontece. A audição sempre foi estimulada com muita movimentação corporal, dança, palmas e muitas vezes os alunos foram incentivados a tocar junto com a música que ouviam.
Concluí que, para os professores, a escuta e a apreciação musical deveriam se expressar nos corpos dos alunos. Percebi que a forma com que os professores verificavam se o aluno apreendeu o discurso musical é observando as reações corporais dos alunos, quer dançando, elaborando coreografias, reproduzindo células rítmicas ou pulsações com as mãos, pés, ou recriando novas células rítmicas com mãos e pés em combinação. É como se, no entendimento dos professores, através da movimentação corporal, a musicalidade se expressasse e se desenvolvesse. Na performance, segundo relato de Fabiana, passo posterior à escuta e expressão, o processo de compreensão e assimilação do discurso musical deve se assentar.
Observei que durante o processo de performance muitas vezes surgiu a necessidade de se discutir alguns parâmetros musicais teóricos como dinâmica, timbre, altura, harmônico, nota, uníssono, polirritmia, entre outros48. Os conceitos teóricos foram trabalhados à medida que a prática do repertório foi trazendo à tona a necessidade da abordagem e compreensão dos conceitos. É importante ressaltar aqui que a teoria musical
481 Estes termos são usados pelos arautos, embora nem sempre correspondam totalmente ao que significam de forma mais corrente nos ambientes acadêmicos1
do Grupo Arautos do Gueto foi desenvolvida por ele mesmo e encontra-se aberta e inacabada. Concluí, frente a entrevistas e relatos em conversas informais com os professores, que foi a partir das vivências na prática de sua própria música e o desafio de ensinar, com apoio nos aprendizados da teoria musical tradicional, devido ao seu contato com profissionais da música e da educação musical formal, que se desenvolveu, e ainda se desenvolve, um corpo teórico musical próprio.
Eu pegava a primeira parte da aula, que é em sala, e eu pegava essa parte, repassando o que eu aprendi no Arena da Cultura. Mas como criança e adolescente tem essa ansiedade de tocar e tocar e tocar, acabava que eles não queriam muito essa coisa... “Ai! tem que ler o quadro de novo!” Mas foi bom enquanto eu fazia isso. Ensinar compasso, mínima, semínima. Mas com percussão é um pouco diferente, né? Num tem muito essa coisa de olhar a nota e fazer no instrumento, né? É um mais “bum”, um “pá”, um tá. É assim. A própria partitura de percussão já um pouco diferente, né. Mas não é só a questão da partitura, é mais questão de musicalidade e fazer eles descobrirem o que eles já tem. (Wagner, em entrevista no dia 13 de
abril de 2013).
Atividades de composição que observei, ocorreram através de improvisos com criação em sala de aula. Esses improvisos geraram combinações musicais que, segundo Renato, podem, posteriormente, vir a ser aproveitadas nas composições finais e que irão à apresentação ao público. Observei também que na sala de aula algumas vezes tentou-se aproveitar os materiais presentes no ambiente como mesas, cadeiras, armários e os próprios corpos para explorar timbres, sonoridades e possibilidades de expressão musical. Segundo Fabiana, o curso foi planejado de forma a montar com as turmas, ao longo de cada período escolar, um repertório com o qual se preparam apresentações
públicas. Essas ocorrem na própria escola, para parentes e comunidade escolar, mas, além das apresentações na escola, o Grupo ainda leva as turmas para apresentação em eventos diversos de música afro, eventos da secretaria municipal de educação, apresentação em escolas e faculdades particulares. Há também outros tipos de apresentações já realizadas de caráter mais privado como em uma festa de casamento, outra numa bodas de ouro e a realização de uma serenata de tambor49, além de participação em uma missa a convite do padre local e até intervalo de jogos de futebol no Estádio do Mineirão.
Percebi que os professores tem procurado atuar também como produtores tentando sempre fazer apresentações do grupo escolar como “Grupo Arautos do Gueto”. Ao perguntar Inácio sobre essa questão, este me disse que ao levar os alunos para se apresentar para públicos de outros eventos que não os da escola, possibilita-se uma vivência mais profissional aos alunos, aspecto, segundo ele, muito importante num curso de música. Observei que alguns alunos foram chamados para ajudar nessas atividades de produção-executiva e outros para desenvolver atividades como monitores das aulas. Estes alunos eram os mais velhos e mais experientes. Perguntei Inácio sobre essas atividades que alguns alunos foram escolhidos para fazer e ele me disse que esses meninos estavam, aos poucos, sendo preparados para se tornarem novos professores e produtores culturais.
491 Aniversário de uma moça, moradora de um apartamento em edifício do bairro, de classe média, Luxemburgo1 Segundo Inácio, o Grupo foi contratado pela mãe para fazer uma “serenata de tambor” da rua para a janela da homenageada1