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Segundo Fabiana, nas primeiras aulas, para se conquistar o interesse e a disciplina dos alunos, os professores se preocupam mais em fazer o que os alunos querem do que aplicar conteúdo e programa, mesmo que isso atrase um pouco a execução do programa de aulas. Se os alunos querem brincar, então o professor vai brincar com eles, assim ganhando a amizade dos alunos para aos poucos partir para a proposição do conteúdo planejado.

Para Inácio, a construção do regime disciplinar se faz em base num acordo estabelecido entre partes iguais, aluno e professor. O grupo repudia a ideia de normas de conduta impostas de forma unilateral pelo professor. Para a efetivação desse acordo, parte-se de um interesse comum a professores e alunos: as atividades musicais. Deste interesse comum se define acordos. Assim os professores conseguem uma disciplina e interesse por parte dos alunos que são baseados no convencimento de que a disciplina é essencial para o desenvolvimento das atividades. Ao mesmo tempo, essa disciplina passa a depender do convencimento dos alunos de que o desenvolvimento das atividades musicais é prazeroso e enriquecedor.

Pude observar certa vez que determinado aluno, que se encontrava indisposto a fazer a atividade proposta, não foi obrigado a fazê-la e nem punido por não fazer. O aluno teve o direito de não fazer a aula, embora o professor tenha tentado convencê-lo em uma conversa amigável. Observei outro caso, desta vez de indisciplina, em que o professor chamou a atenção do aluno, de maneira respeitosa, afirmando que o aluno não era

obrigado a participar da aula e que ele poderia se retirar da atividade, caso não estivesse com o desejo de participar da aula da maneira adequada.

Fabiana nos diz que o principal elemento na relação entre professor e aluno é a liberdade. Ela explica:

“Se eu tiver uma liberdade com você eu vou poder te cobrar isso. Se eu te der uma abertura e você entrar nesse barco, eu vou poder te cobrar ali na frente. Cada um a gente tem um jeitinho de falar. Tem um que a gente apelidou de uma coisa, às vezes não gostou muito, mas se eu chamar ele não acha ruim, mas se o colega chamar ele acha ruim. Essa liberdade de falar pra ele e deixar falar pra mim também. Liberdade pra ele falar e pra gente poder falar também.” (Fabiana, em

entrevista realizada no dia 10 de junho de 2010).

A fala de Fabiana esclarece um pouco mais a relação que se deseja estabelecer com os alunos. Liberdade, aqui, aparece mais com uma pessoa deixar outra ocupar parte do espaço que lhe pertence para que possa vir a ocupar parte do espaço da outra pessoa também. Essa construção, em torno de uma noção de liberdade, é um indicativo de uma relação mais pessoal e menos formal entre professores e alunos.

De uma forma geral, durante o campo, observei que os alunos estiveram sempre em silêncio e com um comportamento tranquilo durante a aula. Todas as orientações dos professores foram acatadas com bastante interesse. Muito interesse dos alunos pelo conteúdo das aulas. Ao final das aulas, muitos alunos procuravam os professores para agradecer pela aula. Por parte dos professores, observei que recepcionavam os alunos com apertos de mão e abraços, desejando bom dia e perguntando se o aluno passava bem. O olhar dos professores mirava os olhos dos alunos demonstrando muito respeito por parte dos professores às crianças e adolescentes das turmas. Observei que o

desenvolvimento de relação de respeito no grupo, e a confiança que os professores depositam em todos, contribuía para a elevação da autoestima dos alunos assim como a consolidação do sentimento de grupo. A conclusão que cheguei é que há presença de relação afetuosa.

A relação dos professores para com as famílias dos alunos, conforme Fabiana e Inácio, deve ser construída com base a dois ambientes: o ambiente formal da reunião de pais e o ambiente próprio da comunidade. Os professores me relataram que fazem reuniões com os pais todo início de semestre e próximo ao final, para expor aos pais o plano de aulas, resultados alcançados, e, principalmente, expor a metodologia, em especial sobre questões disciplinares50 e desenvolver relação de confiança com os pais.

Na reunião com os pais, a gente faz uma explanação do que a gente vai desenvolver com os meninos. Damos alguns informes a respeito da educação, de que a gente vai dar punição, de que o menino pode chegar em casa e reclamar da punição, falar que ficaram sem tocar, mas que no fundo tem sempre alguma coisa que eles deixaram de fazer e por isso ficaram sem tocar. (Fabiana, em entrevista

no dia 10 de julho de 2010).

Mas observei também que essa relação de confiança com os pais se dá para além dos encontros na escola. Esses pais são as mesmas pessoas com quem os professores se encontram nas reuniões da associação local de moradores, nos ônibus, nos postos de saúde, nas ruas, nas praças, no dia a dia do morro. É uma construção que tem se dado de

501 Questões disciplinares não tratam necessariamente do comportamento do aluno nas aulas, mas em entender esse comportamento nos ambientes escolares, domésticos e da atividade musical, para compreender a dinâmica mais geral da vida do aluno, visando maior acompanhamento dos processos de formação do indivíduo1

forma contínua e que passa pela convivência na comunidade, nas relações interpessoais construídas entre vizinhos de bairro.

Percebi que os professores tem partido do entendimento que o possível bom ou mau desempenho do aluno está associado aos demais fatores da vida social e por isso devem sempre estar dispostos a escutar os problemas de ordem pessoal dos alunos e se colocar como um amigo do aluno. Segundo Inácio, muitas vezes acontece de os professores junto com familiares e outros moradores se articularem para buscar soluções mais imediatas a problemas enfrentados por uma criança.

No geral, o que observei é que no curso dos Arautos, a música não é o único fim. Junto do desenvolvimento da musicalidade e da formação do músico, as finalidades sociais e políticas se entrecruzam, num entendimento mais espontâneo de que música é expressão cultural e prática social. Retornemos, porém, às especificidades do processo do ensino de música dos Arautos do Gueto.