4.1.4.2 Entrevista inicial com a professora 4.1.4.3 Entrevista final com a diretora
4.1.4.1 Entrevista inicial com a diretora Joana
Uma entrevista semiestruturada foi realizada com a diretora Joana, no dia 23 de março de 2009, na antessala da sala dos professores da escola, às 9 horas, com duração de 45 minutos. Antes da entrevista propriamente dita, a pesquisadora aguardou a diretora resolver alguns imprevistos de última hora e aproveitou o tempo para observar as instalações físicas do local.
A entrevista inicial com a diretora objetivou obter informações institucionais, apresentar os objetivos e procedimentos da pesquisa, bem como os aspectos éticos e selecionar a sala de aula onde seria realizada a investigação.
A diretora Joana aguardava a pesquisadora no corredor da sala dos professores e, ao avistá-la, cumprimentou-a com um beijo no rosto. Um homem e uma mulher aguardavam para serem atendidos por ela que pediu licença para resolver o problema, antes de iniciarem a conversa. Atendeu-os de pé, no corredor em que se encontrava. Eram avós de um aluno que compareceram à escola para assinar uma advertência. Outra senhora aproximou-se, pedindo para falar com a diretora. Ela pediu licença novamente e foi atender outra avó. Depois da conversa, a diretora contou à pesquisadora que se tratava de um aluno que faltava muito à escola por motivo de saúde. Uma terceira interrupção aconteceu antes de começar a entrevista. Era o porteiro perguntando à diretora se um rapaz que se encontrava na porta da escola estava trabalhando nas obras (a escola está em reforma e havia vários pedreiros trabalhando em seu interior). Exaltada, ela respondeu que o rapaz não trabalhava nas obras e não tinha permissão para entrar na escola. O porteiro disse que cuidaria do caso e, se necessário, chamaria a ronda escolar.
Após as três interrupções consecutivas, a diretora desculpou-se com a pesquisadora por fazê-la esperar e disse que sua rotina era sempre tumultuada por problemas que ela precisava resolver. Convidou a pesquisadora para entrarem na antessala da sala dos professores e sentarem-se, cada uma em um sofá, uma de frente para a outra. A diretora iniciou a conversa falando sobre as dificuldades na sobrecarga de trabalho. Segundo ela, possuía a função de administrar, sozinha, uma escola com aproximadamente 1.040 alunos. Ela não contava com o auxílio de coordenador, e ainda dividia seu tempo, como diretora de outra escola e como professora em outro estabelecimento, no período vespertino. Ela atribuía o acúmulo de funções às suas necessidades pessoais e também às necessidades do município. No plano pessoal, relatou ser divorciada e mãe de dois filhos adolescentes, não contando com a ajuda do ex-marido. E no plano profissional, explicou que foi nomeada para dirigir duas escolas porque a direção escolar em escolas municipais é um cargo de confiança. Neste sentido, declarou também que ela conseguia ajudar as famílias dos 1.200 alunos, sem criar problemas para o prefeito e, por outro lado, angariar votos para ele. Dessa forma, assumia uma postura de neutralidade, o que garantia a confiança das famílias e, ao mesmo tempo, a da Secretaria da Educação. Contraditoriamente ao início da conversa, em que se queixava do excesso de trabalho e de responsabilidades, justificou que conseguia administrar todas as funções sem grandes problemas, pois possuía pessoas de confiança nas escolas. Segundo ela, não era necessário estar presente em tempo integral nas instituições que dirigia, pois os funcionários mantinham-na informada sobre os acontecimentos e aguardavam sua presença para tomarem as decisões necessárias. Em sua atuação, assumiu ser um pouco de tudo: psicóloga, assistente social e profissional da saúde, pois as famílias dos alunos recorriam a ela para resolverem os mais variados problemas, desde situações financeiras até problemas de saúde e dificuldades emocionais. Ela procurava ouvir e encaminhar os casos para os postos de saúde ou para a assistência social, mas, muitas vezes, ela mesma fazia campanhas de arrecadações na escola ou comparecia pessoalmente aos postos de saúde para marcar consultas e arrecadar roupas e mantimentos com a primeira dama do município.
Ressaltou, ainda, ser muito próxima dos alunos, acompanhando-os em sua rotina nos intervalos, comparecendo às salas de aula, permanecendo no portão durante a entrada e saída dos alunos e auxiliando cada professor em seu trabalho pedagógico. Para ela, essa postura de abertura e proximidade garantia a confiança da comunidade escolar e contribuía para a qualidade do trabalho pedagógico. Destacou que, desde a implantação da escola, há dez anos, enfrentavam dificuldades relacionadas ao preconceito e à discriminação por atenderem uma clientela de bairros periféricos da cidade, com altos índices de desemprego e criminalidade.
Contudo, nos últimos anos, a escola destacou-se por seus projetos e atividades, de modo que atualmente há fila de espera para matrícula na instituição.
Durante a entrevista, a diretora demonstrou entusiasmo por sua profissão, falou com desenvoltura sobre os temas propostos pela pesquisadora e, espontaneamente, revelou aspectos de sua vida pessoal, numa aparente confiança.
De forma mais diretiva, a pesquisadora apresentou os objetivos e a metodologia da pesquisa, bem como os aspectos presentes no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo os aspectos éticos do trabalho. A diretora mostrou grande interesse em contribuir para a realização do trabalho e indicou a sala que melhor se encaixaria nas especificidades do projeto, e também pelas características da professora e do trabalho pedagógico realizado com os alunos. A diretora incumbiu-se de conversar com a professora sobre a pesquisa e agendou um horário para a entrevista inicial com a professora.
A entrevista transcorreu tranquilamente e atingiu os objetivos propostos.