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O tema central das conversas informais da professora com a pesquisadora era a sua insatisfação com a escola.

4.1.6.5.1 A decisão de deixar a escola

No final do semestre, a professora revelou que não pretendia mais continuar naquele estabelecimento escolar no próximo ano, devido aos problemas que estava enfrentando. Ela falou da sua história na escola, como um ciclo que se encerrava:

Professora: “Sabe o que está me matando? Estou sentindo que meu tempo nessa escola já acabou.”.

Pesquisadora: “Mas como assim?”.

Professora: “Estou aqui há 9 anos. Entrei no ano seguinte à abertura da escola. Já fiz tanta coisa aqui, você nem imagina! Ajudei a escrever a história dessa escola. Sabe, eu fazia cada painel lindo! A direção sempre me pedia, porque eu GOSTAVA (diz enfaticamente) de fazer. Eu fazia por prazer. Mas agora, muita coisa mudou.”, desabafou ela. “Sabe, tem umas coisas aqui que não dá para aceitar... eles querem que a gente trate os alunos como se fossem máquinas, robôs. Os alunos não podem falar, brincar, correr... e eu não aceito isso.” (DC 24/06)

Ela disse que chegou à conclusão de que não poderia mais continuar lecionando naquela instituição. Queixou-se, novamente, de que não podia faltar e que deveria assumir a responsabilidade pela classe sozinha. (DC 25/08)

Voltou a falar que seu tempo na escola havia se esgotado, e a relação com a escola foi deteriorada. Para ela, a escola está sem rumos, sem direção e qualquer pessoa pode “mandar e desmandar”. (DC 08/09)

Ela falou, mais uma vez, que após reflexões percebeu que seu tempo na escola terminou e no próximo ano seguiria outros rumos. Disse que só desejava trabalhar em sala de aula e não entendia porque despertava medo e inveja de outros profissionais. (DC 02/10)

Ela contou que resolvera deixar a escola. Disse que sua situação ali estava insustentável, pois se sentia humilhada e excluída. Queixou-se de ter sido chamada de mentirosa na frente dos alunos pela coordenadora há tempos atrás. Todos os fatos acumularam a ponto de a situação chegar a esse extremo. (DC 20/11)

A pesquisadora perguntou à professora se a sua decisão era definitiva e ela disse que uma colega havia disponibilizado sua sala para ela em outra escola, portanto tudo já estava certo. Ela se mudaria para uma escola periférica, num bairro localizado no outro extremo da cidade. Disse que a permuta ocorrerá dia 07 de dezembro e que pretendia comunicar à direção sobre sua decisão somente na semana antecedente à

data. Falou sobre sua dor, sobre a dificuldade de encerrar um ciclo e de mudar. Disse que não pode olhar para o armário com suas coisas e imaginá-lo vazio. (DC 20/11) Ela disse que estava triste, mas mais aliviada. (Na segunda-feira aconteceu a permuta das aulas das escolas municipais e ela compareceu para solicitar uma sala em outra escola). Contou que, no final da permuta, ela chorou muito, mas ao retornar à escola foi recebida com um sorriso pela coordenadora. Isso a incomodou, mas confirmou que não era mais bem-quista na instituição. (DC 09/12)

4.1.6.5.2 O rompimento com a direção

Um dos principais fatores que a fizeram decidir mudar de escola foi o rompimento com a direção:

Pesquisadora.: “Mas o que te leva a pensar que seu tempo aqui terminou, já que você mesma falou da sua importância na construção dessa escola?”.

Professora A.: “Uma pessoa que se dizia minha amiga chegou até mim e disse: ‘Eu preciso te falar uma coisa, te dar um toque. Cuidado com as coisas que você fala. Você deveria falar menos e ficar mais na sua. Isso pode te criar problemas na Secretaria da Educação. Eu estou te falando isso porque sou sua amiga!’ Ela me disse isso como se fosse minha amiga e quisesse me ajudar e eu achei bom. Apesar de ter ficado muito mal, eu tenho que admitir meu erro. Eu falei demais mesmo! Eu falo demais! Mas o pior eu só fiquei sabendo depois. Eu fui atrás da Secretaria da Educação para saber o que havia sido dito sobre mim e sabe o que eu descobri? A mesma pessoa que veio me ‘dar um toque’, que se diz minha amiga e queria me alertar... ela foi a pessoa que falou de mim na Secretaria da Educação. E tem mais: ela me pediu para nos afastarmos um pouco, porque a nossa amizade estava incomodando as pessoas e gerando comentários. Eu disse a ela que não estava nem aí para os comentários das pessoas, pois eu sei o que faço. Ninguém paga as minhas contas e ninguém tem o direito de interferir nas minhas amizades, nos meus sentimentos. Mas se ela pensa assim... Eu só sei que depois desse dia eu mudei. Fiquei muito mal. Não confio mais nas pessoas. Não confio em ninguém aqui. (DC 24/06).

Além disso, outro fato contribuiu para que ela concluísse chegou a hora de deixar a escola: a diretora ligou para a direção da outra escola onde ela leciona e tirou satisfação sobre o porquê das atividades já terem sido encerradas, uma vez que o calendário municipal seguirá até o dia 23 de dezembro. Isso fez com que ela se passasse por delatora, criando uma situação desconfortável na outra escola. Questionou, indignada: “Ela se acha a Secretária da Educação?”. No meio do ano, soube por uma colega que haviam feito fofoca sobre ela na secretaria da educação. Na ocasião, ela desconfiou que a autora da difamação fosse a diretora, o que a deixou arrasada, devido à confiança e amizade que nutria pela colega. Esse acontecimento trouxe-lhe a certeza de que fora ela, e de que continuaria lhe causando confusão se continuasse ali. Por isso, achava melhor partir. (09/12)

4.1.6.5.3 A desmotivação da professora

Neste contexto, a professora dizia-se desestimulada e sem inspiração para criatividade:

Professora:“É difícil ser criativa nesse contexto. Eu não tenho mais motivação e muito menos sou apoiada e incentivada para isso. Mas sabe o que eu estou percebendo agora? Que foi no período em que eu estive pior, quando eu tinha menos a oferecer a eles, que alunos com dificuldade como May, Fran, L.F, 149é, começaram a ler. Você se lembra como isso aconteceu? Eu até me lembro do dia. Você estava aqui e participou de tudo.”

Pesquisadora:“Eu me lembro sim. Foi emocionante! (nesse dia os alunos lerem algumas sílabas) E talvez esse seja um dos motivos pelos quais você deseja lutar, porque você sabe que eles não se definem pelos rótulos de alunos que não aprendem ou que são insuportáveis. Mas na relação de vocês, nas interações entre vocês, no vínculo com você eles mostram as suas potencialidades para superar as dificuldades. O que é mais difícil acontecer nas outras relações, com os professores substitutos, ou com os funcionários da escola, por exemplo.”

Professora:“Isso é claro, porque eles não olham para os alunos da mesma forma. Eles não querem nem olhar para os alunos. Eles não os enxergam, nem os escutam.” Pesquisadora:“E eles reagem. Eles respondem de acordo com o que eles recebem do outro.” (DC 24/06)

A professora disse que não se sentia bem, e a situação se agravou ao chegar à escola naquela tarde e ouvir reclamações sobre o mau comportamento de seus alunos na semana anterior, em que esteve ausente. Associou a isso à noite mal dormida e seu péssimo humor e desânimo. Disse, ainda, que só não estava pior, porque fazia o tratamento do transtorno bipolar e estava medicada. No final, acrescentou que era impossível ter motivação e criatividade nesse ambiente. (DC 08/09).

Ela questionou se seria uma professora que abria o caminho dos alunos ao conhecimento, pois ultimamente estava se sentindo desestimulada pelos contratempos na escola. (DC 02/10)

4.1.6.5.4 A vontade de mudar

Em alguns momentos, a professora esboçou uma vontade de mudar e superar as frustrações e dificuldades que, segundo ela, estavam prejudicando seu trabalho. Contudo essa mudança não passou de discursos e movimentos pontuais que não foram continuados:

Professora: “Eu não sei te explicar, mas alguma coisa mudou dentro de mim. Eu saí mais forte. Eu pensei: isso não pode ficar assim. É isso que elas querem... que eu desista. Mas eu não vou desistir. Vou dar a volta por cima. Vou sair disso mais forte. Eu mudei. Estou quieta. Não faço mais nada. Não falo mais nada. Aceito tudo o que elas dizem. Mas da porta para dentro eu posso ser eu mesma. E quero voltar a ser eu mesma porque os alunos já perceberam que eu mudei da porta para fora.”, ela disse.

Pesquisadora: “Você se percebe diferente da porta para fora e da porta para dentro? Como você define essas diferenças, pode me dar um exemplo?”

Ela apertou os lábios e pensou um pouco. Depois disse:

Professora A.: “Na verdade eu queria acreditar que seria possível ser uma lá fora e outra aqui dentro. Acho até que pode ser possível a partir de agora. Como eu disse, depois de tudo o que aconteceu após meu adoecimento, incluindo o meu adoecimento, me fez pensar sobre o que está acontecendo aqui na escola. Estou mais consciente. Preciso encontrar novas formas de resistências, de luta, porque não aceito o que eles querem que eu pense, seja, faça. E eu só vou continuar aqui se conseguir achar um modo de fazer o que eu desejo e acredito com os meus alunos, aqui dentro da sala de aula, mesmo que lá fora eu precise mudar meu jeito de ser. Você percebeu que eu mudei?

Pesquisadora:“Na verdade, nas minhas observações eu percebi que em suas aulas, você tem privilegiado as atividades individuais, e quase não há mais espaço para as interações e criações. Além disso, você tem adoecido com frequência. Primeiro foi a gripe persistente, depois a hipoglicemia, a forte TPM até a doença ginecológica. E tudo aconteceu após esse período relatado por você hoje. (DC 24/06)

4.1.6.5.5 A mudança de visual

Ao voltar das férias, em agosto, a pesquisadora encontrou a professora com um visual diferente. Pela primeira vez ela usava maquiagem, estava com os cabelos elegantemente presos e usava uma echarpe nos ombros. A mudança de visual foi justificada pela professora:

Ela revelou que no final do semestre decidiu mudar seu visual. Desejava cuidar mais de si mesma, se sentir mais bonita e elevar sua autoestima. Segundo ela, melhorando sua aparência exterior, seria um passo para as mudanças interiores. Dera o primeiro passo e estava se sentindo muito bem.

(DC 17/08).

Contudo, a mudança no visual durou apenas dois dias, após esse período a professora voltou a dar aulas usando os cabelos presos e sem maquiagem. No mês seguinte ela estava visivelmente abatida:

A aparência de cansaço e insatisfação com algo era evidente na professora. Ela tinha um semblante tenso e fechado. Usava óculos e cabelo preso. Trajava uma blusa de frio preta, calça jeans e botina. Ela disse que naquela tarde o trabalho foi bastante difícil. (DC 08/09).

4.1.6.5.6 A despedida dos alunos

A professora disse que contou aos alunos sobre sua saída e foi uma comoção geral. Muitas meninas choraram e pediram que ela continuasse com eles. Ela explicou que, no próximo ano, eles não estariam mais juntos, de qualquer maneira, pois os alunos passariam para a quinta-série no período da manhã. Conversou muito com eles sobre a necessidade de se manterem unidos, de ajudarem uns aos outros e de acreditarem em seu potencial. Disse que eles ainda apresentavam dificuldades, mas que se desenvolveram muito e isso provava que eles poderiam conquistar muitas coisas ainda. (DC 09/12)