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O campo de estudos sobre militares no Brasil é desafiador e delicado de ser assumido por qualquer pesquisa historiográfica. Ainda que a premissa da pesquisa estivesse fixada na perspectiva de um estudo de história intelectual, ao se enveredar pela análise dos militares e suas instituições, o estudo deparou com questões complexas e instigantes. Essas questões quase sempre se impõem quando o pesquisador procura compreender os militares brasileiros em uma perspectiva sociológica.

Ao final deste trabalho, posso considerar que algumas das premissas teórico- metodológicas assumidas inicialmente não puderam ser amplamente demonstradas ou fundamentadas no decorrer da exposição textual. Consola o fato de que, ainda assim, vários pontos que se desdobraram da hipótese e da perspectiva metodológica assumida pelo trabalho não apenas se sustentaram no decorrer da pesquisa como se ampliaram e apontaram para caminhos mais ricos de análise do objeto.

Procurei demonstrar que o Exército, como organização, no período recortado pela pesquisa, não estruturou a sua ação apenas corporativamente. Preocupou-se com a nação, principalmente. Dessa forma, a sua ação política não foi meramente ação de poder e dominação. Os militares espelharam ideologicamente a sua organização na organização da sociedade, por meio da imputação de seus valores corporativos na organização mais responsável pelo controle da sociedade, o Estado. Primeiro, portanto, os militares precisavam chegar ao grau mínimo de modernização da própria corporação, tarefa

desempenhada na solidificação da profissionalização do Exército e na luta do tenentismo; depois, aproximou-se do Estado e se consolidou institucionalmente com Góes Monteiro, dando exemplo às demais Forças Armadas que, só após a segunda guerra, integrar-se-iam por meio do EMFA e, finalmente, através do alcance político-ideológico da ESG.

Assim, a hipótese de que a afirmação trans-histórica do Exército brasileiro no século XX destaca mais a relação dos militares com o Estado e com a nação do que a sua própria jornada corporativa, foi conferida na evolução do pensamento militar por meio da análise comparativa da obra de Juarez Távora com a de Golbery. No desenvolvimento dos conceitos básicos da DSN, evidencia-se a herança da preocupação dos militares com a República e com a organização da nação, fatores próprios ao pensamento do tenentismo. Evidencia-se, também, e principalmente, o esforço pela legitimação da visão de mundo que era assumida pela Doutrina na ESG, na medida em que os preceitos de segurança e desenvolvimento são adensados por Golbery, que procura fundamentar em seus textos a realidade incontornável de um mundo bipolarizado e em situação de guerra total.

A ESG, em face das demais instituições de altos estudos que compõem o campo cultural brasileiro na década de 1950, denuncia esse sentido de organização para a nação, e não para mera a dominação e vitória corporativa. Juarez Távora e Golbery são significativos por representarem esse duplo movimento, apresentando, com as suas trajetórias, a aproximação e a identificação corporativa, mas, também o distanciamento e a busca de diálogo com as demais organizações, principalmente com o Estado.

No primeiro capítulo, procurei identificar a linha de pensamento em que a ESG fixou e fundamentou a sua Doutrina para, assim, demonstrar o lugar específico da Escola no campo cultural brasileiro. Parti do pressuposto de que esse campo cultural foi o ambiente interinstitucional que permitiu e engendrou o projeto teórico da ESG para a nação. O objetivo foi o de ressaltar as características que fizeram com que surgisse a Escola.

Destaquei, assim, as preocupações dos militares e dos civis envolvidos no centro da criação da ESG, apontando para a sua especificidade institucional diante da sua principal influência, a National War College, no contexto de desenvolvimento brasileiro.

No segundo capítulo, procurei localizar, em alguns pontos da obra e da trajetória política de Juarez Távora, os traços gerais do projeto político que carregou durante a sua carreira militar e pública. No conjunto dos seus textos, é possível tornar visível o projeto de organização para o Brasil e, nele, a reunião de alguns dos principais traços da visão de mundo da ESG. Procurei demonstrar que Távora se insere numa orientação ideológica que, para além do autoritarismo e do conservadorismo, compreende também traços do nacionalismo de perspectiva progressista.

No terceiro e último capítulo, busquei apresentar os aspectos definitivos da visão de mundo da ESG, a partir das reflexões sobre a obra de Távora, e em maior contato com a obra de Golbery. A idéia geral que norteou o capítulo foi a de que Golbery foi responsável pela completa definição e afirmação intelectual do projeto teórico-político da ESG. Tive como premissa a noção de que tanto não seria possível extrair a visão de mundo produzida na ESG, ou a sua ideologia posterior, apenas sinteticamente pela obra de Golbery, quanto não seria possível ter na figura de Juarez Távora a simples “influência de ideais tenentistas” na origem da instituição. Por isso, a perspectiva da comparação foi assumida mais abertamente nesse último capítulo.

Na obra de Juarez Távora, encontra-se, em sua totalidade, um projeto político que resgata as premissas políticas e sociais do tenentismo, assim como traduz as perspectivas da organização do Exército, em termos universais como visão de mundo, para toda a sociedade brasileira. Em termos intelectuais, Golbery aprofundou teoricamente essa perspectiva e forneceu o aparato teórico-político necessário para a absorção ampla pela ESG da idéia de

planejamento estratégico para o desenvolvimento ordenado, sem maiores atritos e em segurança.

Coloquei em questão duas linhas de pensamento que se complementam e que se confirmam na ESG. De um lado, a figura do burocrata organizador em Juarez Távora; de outro, a do pensador e político maquiavélico de Golbery. A esfera possível que os unia era a defesa do ocidente cristão. O projeto teórico que os orienta se compõe da herança histórica da formação cultural e profissional dos dois lados. Da mesma forma, a herança se acentua na luta pela organização racional do Brasil de um lado; de outro, pela tentativa de compreensão da realidade brasileira por intermédio do intelectualismo e da militância política.

A partir dessa construção metodológica, a análise buscou compreender qual a contribuição teórico-política da intelligentsia da ESG para a produção ideológica do campo cultural brasileiro, principalmente na década de 1950. Dessa forma, acredito ter apresentado pontos que até então não eram levados em conta nos estudos sobre a ESG e sobre a própria ideologia militar.