EPIFÂNIO, Renato. “Agostinho da Silva: breve retrospectiva bio-bibliográfica” (online). Disponível em: http://livrozilla.com/doc/1539461/biografia---agostinho-da- silva. Acesso em: 24/01/2014.
10) Website:
Exílios da imagem-nação.
O exílio produz os seus efeitos.
Antônio A. N.211
Todo o concreto vem de imaginar.
George A. S.212
Os exílios-deslocamentos e os após-guerras.
Os exílios, as migrações e as diásporas são, e ao mesmo tempo geram, deslocamentos – este último deverá ser apreendido de maneira polissêmica para as reflexões que seguem. Embora cada um dos termos acima listados tenha a sua especificidade conceitual e sejam distintos semanticamente entre si, sobretudo devido às suas diversas possibilidades e motivações, tais modalidades de movimentação no espaço promovem, simultaneamente, o distanciamento de uma comunidade e a entrada em outra, permitindo, por um lado, o pesar proporcionado pela ruptura dos laços sociais precedentes e, por outro, a oportunidade de o sujeito variegar as suas vivências por outras temporalidades, mesmo que involuntariamente. Veremos adiante que muitas das dimensões próprias do exílio estão presentes nas diversas concepções atribuídas aqui ao termo deslocamento, justificando assim a primeira expressão que nomeia esta seção.
Com relação ao primeiro aspecto ressaltado, o deslocamento era constantemente imposto como penalidade no mundo antigo ocidental: em Roma a instituição do exilium era empregada como pena alternativa às condenações à morte, bem como ocorria na Grécia por ocasião do ostracismo, punição aplicada ante o cometimento de atos que ameaçassem a liberdade dos demais cidadãos (FUNARI, 2002). O mesmo ocorria nas sociedades africanas pré-coloniais diante da consumação de atos considerados gravíssimos e incontornáveis, já que os sujeitos condenados a viver fora da sua comunidade de origem acabavam com o tempo rompendo os laços que lhes asseguravam a pertinência social e, por terem nascido, mas não crescido juntos, se tornavam estranhos (estrangeiros) e, consequentemente, passíveis de serem escravizados (MEILASSOUX, 1995). 211 NETO, [em 1974] 2009, p. 25. 212 SILVA, [Espólio] 2010, p. 36.
Sobre o segundo aspecto mencionado, os deslocamentos também foram instituídos há muito tempo com o propósito de diversificar vivências e aprendizados. Sabe-se que no período clássico do mundo ocidental houve incentivos diversos aos intercâmbios, circulações, conexões e encontros entre homens e ideias de diversas partes do mundo mediterrânico, cuja variedade dos elementos resultantes é patente de tais migrações, além de importantes para a compreensão do seu legado para a história do Renascimento (WARBURG, 2013). O mesmo ocorrera nas sociedades africanas pré- coloniais diante da formação dos chamados griots – estes atuavam como músicos, cantadores e animadores públicos; embaixadores e cortesãos; ou genealogistas, historiadores e poetas – que muitas vezes “viajam pelo país em busca de informações históricas cada vez mais extensas” (HAMPATÉ BÂ, 2010, p. 196), bem como ocorreu aos artistas plásticos que frequentavam diferentes ateliês em busca de novos aprendizados, técnicas, estilos, formas e materiais (SYLLA, 2006).
A par desses e de outros inúmeros exemplos possíveis, podemos admitir que as migrações e os deslocamentos são adventos característicos da própria humanidade. Entretanto, “o exílio é uma forma de migração que se distingue das migrações ditas econômicas pelo seu caráter forçado: o exílio é uma migração involuntária daquele que teria sonhado ficar em seu país (...). O objetivo dessa migração forçada é de salvaguardar a vida e a liberdade” (GROPPO, 2002, p. 72).
No caso dos nossos protagonistas, embora nenhum deles corresse sério risco de morte no momento imediatamente anterior ao seu deslocamento, ambos foram forçados pelas circunstâncias da vida a deixar o seu país de origem, mesmo que por razões distintas e contra sua própria vontade, e por isso compartilham das peculiaridades e agudezas da experiência exilar. Tal experiência inaugurou entre eles diversos encontros – entendidos aqui como paralelismos biográficos –, já que os dois passaram a construir, a partir deste momento, ideais diversos acerca da sua identidade e nacionalidade; compartilharam experiências e pensamentos com outros emigrados, fossem ou não da mesma origem que a sua; e refutaram as condutas autoritárias do salazarismo e do Estado Novo português. Além disso, os seus deslocamentos ocorreram sincronicamente, coincidindo com a crise de orientação gerada pelo fim da segunda grande guerra e pela emergência consecutiva de uma nova ordem mundial. Entretanto, ao analisar a singularidade das suas trajetórias e a construção das suas ideias constataremos os seus
desencontros – entendidos aqui como as peculiaridades das suas imaginações – apesar
Agostinho Neto se deslocou de Angola para Portugal em busca de estudos superiores até então ausentes em sua localidade de origem. Suas reflexões identitárias pregressas, nutridas ante o deslocamento da sua aldeia de origem para a atmosfera citadina luandense, se adensaram diante da sua migração para a capital do império. Lá encontrou compatriotas e colonizados de outras paragens, além de manter contato constante com intelectuais fixados em Luanda, com quem compartilhou ideias e experiências que asseveraram as suas reflexões sobre a construção de uma identidade angolana, por um lado, e a sua condição de negro-africano diante da luta anticolonialista, por outro.
Já Agostinho da Silva encontrou no autoexílio uma possibilidade de sobreviver culturalmente ao cerceamento sofrido em sua terra natal, pois, após ser aprisionado na cadeia do Aljube por difundir produções culturais às classes populares de Portugal – atitude esta que ele acreditava minorar o problema da falta de cultura dentre o seu povo –, migrou para o Brasil, a única ex-colônia portuguesa até então. Neste país ele também encontrou compatriotas que, assim como ele, estavam insatisfeitos com o que se passava em sua terra de origem. Este seu deslocamento o fez refletir sobre a sua própria condição e, a partir das vivências no local de destino, passou a reinterpretar os elos históricos existentes entre Brasil, Portugal e as suas demais colônias.
Percebe-se que o deslocamento e os seus efeitos geraram impactos profundos na percepção individual de cada um dos protagonistas, além de afligir, diferentemente, as suas questões identitárias. Isso porque, além da dimensão externa, do aspecto migratório propriamente dito, a experiência exilar é quase sempre caracterizada por uma dimensão interna, de caráter íntimo ou psicológico213. Todavia, os aprendizados e as novas relações cultivadas e vivenciadas no exílio influenciavam a sua percepção acerca da nação, a qual, por sua vez, relaciona-se à ideia de coletividade. Contudo, em ambos os casos, se tal percepção foi afetada pelo encontro com compatriotas e demais deslocados, os quais frequentemente são apreendidos como unidade, passa a ser importante questionar as limitações do conceito de diáspora214.
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Segundo Stuart Hall, os antecedentes e o limiar da migração são acompanhados por fatores experienciais sistêmicos e de cunho psíquico, tais como “emoções, identificações e sentimentos, pois para mim, essas estruturas são coisas que a gente vive. Não quero dizer apenas que elas são pessoais; elas são, mas são também institucionais e têm propriedades estruturais reais (...)” (2003, p. 413).
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Embora partes do mesmo processo, é importante distinguir o conceito de experiência diaspórica do de
diáspora a partir da leitura de Stuart Hall (2003). O primeiro é caracterizado pelo fato de o sujeito
“conhe[cer] intimamente os dois lugares, mas não perten[cer] completamente a nenhum deles. E esta é exatamente a experiência diaspórica, longe o suficiente para experimentar o sentimento de exílio e perda, perto o suficiente para entender o enigma de uma ‘chegada’ sempre adiada” (p. 415). Sobre o segundo, “o
No entanto, o sentimento comunitário imanente ao reconhecimento de um deslocamento coletivo não deve ser apressadamente confundido com a ideia fechada de diáspora215, tampouco com a de nacionalidade propriamente dita. Pois
As diásporas podem estar relacionadas a uma nação distante como uma pátria perdida; elas podem reivindicar e criar novas nacionalidades; podem inclusive falar de uma nação diaspórica. Mas por mais forte que uma situação possa induzir às afinidades estruturais e empíricas entre nação e diáspora, devemos nos lembrar de algumas diferenças básicas que simplesmente não esvanecem. A diáspora, ao contrário da nação no sentido tradicional, é baseada no deslocamento geográfico, na migração, e em uma ausência que pode ser lamentada ou celebrada. Já a memória nacional apresenta-se como natural, autêntica, coerente e homogênea (HUYSSEN, 2003, p. 151-152, tradução livre216).
A importância desta distinção reside justamente no que pesa à identificação da reciprocidade existente entre o discurso oficial da nacionalidade, que geralmente ‘apresenta-se como natural, autêntica, coerente e homogênea’, e o poder hegemônico, sempre apoiado por aquele. Demonstraremos adiante como interpretamos a emergência dos discursos nacionais e a sua correlação com o poder estatal – ou seja, o Estado-nação propriamente dito. Por ora é importante destacar que a sua pretensa exclusividade visa, por um lado, retratar de maneira unívoca toda uma coletividade que é essencialmente heterogênea e, por outro, silenciar quaisquer vozes submersas pertencentes à essa coletividade que contrariem os seus anseios hegemônicos. Para atingir esses objetivos, os mecanismos de controle e vigilância do Estado podem constranger ou mesmo expulsar o sujeito desviante – como ocorreu a Agostinho da Silva ante a motivação do
conceito fechado de diáspora se apóia sobre uma concepção binária de diferença. Está fundado sobre a construção de uma fronteira de exclusão e depende da construção de um ‘Outro’ e de uma oposição rígida entre o dentro e o fora. Porém, as configurações sincretizadas da identidade cultural (...) não funciona através de binarismos, fronteiras fechadas que não se separam finalmente, mas são também places de
passage, e significados que são posicionais e relacionais” (p. 33). Contudo, cabe o questionamento:
“Então a diáspora é definida pelas conjunturas históricas pessoais e estruturais e a energia criativa e o poder da diáspora vêm, em parte, dessas tensões não resolvidas?”. Hall afirma que “sim, mas é muito específico e nunca perde sua especificidade. (...) Acho que a identidade cultural não é fixa, é sempre híbrida. Mas é justamente por resultar de formações históricas específicas (...) que ela pode constituir um ‘posicionamento’, ao qual nós podemos chamar provisoriamente de identidade” (2003, p. 432-433).
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Para a discussão realizada adiante é interessante verificar os conceitos de “diáspora do desespero” e “diáspora da esperança”, além do papel desempenhado por eles nas alterações recentes sobre os paradigmas modernidade (APPADURAI, 1996).
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“Diasporas may relate to a distant nation as a lost homeland; they may claim and create new nationhood; they may even speak of a diasporic nation. But however strong a case one may want to make for the structural and empirical affinities between nation and diaspora, we must remember certain basic differences that have not simply vanished. Diaspora as opposed to nation in the traditional sense, is based on geographic displacement, on migration, and on an absence which may be lamented or celebrated. National memory presents itself as natural, authentic, coherent and homogeneous”.
seu autoexílio para o Brasil. Mas, por outro lado, o Estado pode tentar conter possíveis sublevações por meio da restrição ou do controle efetivo em seus instrumentos educacionais – a restrição aos meios educacionais na colônia levou Agostinho Neto a emigrar para a metrópole e abrigar-se na CEI, instituição que tinha por propósito original controlar efetivamente todas as atividades dos seus membros, além de formar quadros corporativos em defesa do próprio Estado.
A par dessa perspectiva, percebe-se que as motivações dos deslocamentos de ambos os protagonistas, embora distintas, estão diretamente ligadas aos desacordos e divergências nutridos por cada um deles às diretrizes preconizadas pelo Estado Novo. As suas experiências exilar e diaspórica acabaram por dinamizar-se diante dos seus deslocamentos, sobretudo em virtude das relações tecidas com outros sujeitos que compartilhavam de experiências análogas às suas, dentro de uma mesma cronologia, o que faz com que cada um deles esteja inserido em uma geração217 particular.
Cremos que a partir da análise das trajetórias e das condutas de cada um dos protagonistas podemos apreendê-los como intelectuais, já que “o objetivo da atividade intelectual é promover a liberdade humana e o conhecimento” (SAID, 2005, p. 31) – ao menos discursivamente. Suas atitudes desviantes aos ditames estatais e a construção de propostas alternativas e distintas às hegemônicas acabam por amplificar este seu papel, já que ambos buscaram “mostrar que o grupo não é uma entidade natural ou divina, e sim um objeto construído, fabricado, às vezes até mesmo inventado, com uma história de lutas e conquistas em seu passado, e que algumas vezes é importante representar” (ibidem, p. 44).
A escolha em analisar as questões propostas neste trabalho partindo dos olhares e das trajetórias destes protagonistas justifica-se pelo “fato de o intelectual ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para (e também por) um público” (ibidem, p. 25, grifo nosso). Entranto, para além de serem representativos das gerações a que estiveram integrados, os pensamentos e as trajetórias desses protagonistas podem ser apreciados como vetores de conexões mais amplas, de encontros e desencontros, de fluxos e deslocamentos entre aspirações e ideias de diferentes intelectuais, fossem eles
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Relembrando dos tópicos anteriores, Agostinho Neto faria parte da Geração da Mensagem (Cf. Salvato Trigo), Geração de 1920 (Cf. Mário Pinto de Andrade), 1940 (Cf. Luís Kandjimbo), 1950 (Cf. Alfredo Margarido e Carlos Serrano) ou da Geração da Utopia (Cf. Pepetela), enquanto Agostinho da Silva faria parte da Missão portuguesa no Brasil (Cf. Antônio Cândido) ou da Pequena diáspora lusitana (Cf. Eduardo Lourenço).
metropolitanos, colonizados ou ex-colonizados, uma vez que “conectar-se a uma rede intelectual ou cultural (...) significa familiarizar-se com este pensamento ou com esta cultura de forma com que se possa atuar como se dela fizessem parte, como se pensassem da mesma forma” (DETIENNE, 2001, p. 41, tradução livre218). Ademais, os aprendizados do deslocamento e a consequente vivência exilar fizeram desses protagonistas intelectuais diaspóricos (Cf. HALL, 2003), pois, a partir deste tipo de experiência, cada qual criou pontos de vistas alternativos ao hegemônico com base em demandas comuns àquele contexto. Tais pontos de vista deverão ser averiguados à luz de parte da sua vida e obra219. Contudo, é importante mencionar que as suas ideias ainda se fazem presentes em nosso presente, já que são utilizadas hodiernamente, mesmo que de modo recontextualizado.
Apesar de pertencentes a gerações diferentes – identitária e cronologicamente – Agostinho Neto e Agostinho da Silva foram contemporâneos e tiveram o seu deslocamento inaugural no mesmo contexto histórico. Eles são de origem e possuem tendências político-ideológica amplamente distintas, tendo apenas o primeiro nome como atributo comum de fácil reconhecimento. Entretanto, por que compará-los?
É evidente que sempre haverá historiadores dispostos a defender a tese irredutível de que só se pode comparar o comparável. (...) Mas isso não importa. O essencial para trabalharmos juntos é nos libertar daquilo que é mais próximo, do familiar e do nativo, e imediatamente tomar consciência, com rapidez, de que os historiadores e os antropólogos, juntos, devem conhecer a totalidade das sociedades humanas, todas as civilidades possíveis e imagináveis, sim, até perder de vista. (...) O comparativismo construtivo, cujo projeto e procedimento eu defendo, deve antes de tudo escolher como campo de exercício e experimentação o conjunto das representações culturais das sociedades do passado, tanto as mais distantes como as mais próximas, e os grupos humanos vivos observados no planeta, tanto ontem como hoje (DETIENNE, 2001, p. 42- 44, tradução livre220).
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“Conectar con una red intelectual o cultural (...) significa familiarizarse con este pensamiento o con esta cultura de forma que puedan actuar como si formaran parte de ella, como si pensaran de la misma manera”.
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“Em suma, sempre no registro das hipóteses, haveria uma similaridade, uma ‘mesmidade’ que se desdobraria em torno do nascimento, inevitável para todo ser humano: nascer de seu próprio lugar, ser seu produto e seu agente e – por que não? – ser o agente de sua própria história em escala coletiva, afirmando-se ao mesmo tempo como ator singular reconhecido em sua qualidade de pessoa, única sem dúvida alguma” (DETIENNE, 2013, p. 16).
220
“Es evidente que siempre habrá historiadores dispuestos a defender la tesis irreductible de que sólo se puede comparar lo comparable. (...) Pero no importa. Lo esencial para trabajar juntos es liberarnos de lo más próximo, de lo natal y lo nativo, y tomar conciencia inmediatamente, con rapidez, de que los historiadores y lós antropólogos, juntos, debemos conocer la totalidad de las sociedades humanas, todas las civilidades posibles e imaginables, sí, hasta perdernos de vista. (...) El comparatismo constructivo, cuyo proyecto y procedimiento defiendo, ante todo debe escoger como campo de ejercicio y de
Há, portanto, vantagens diversas ao cotejar os pensamentos dos protagonistas elencados. A primeira delas é que esse procedimento permite cogitar a pluralidade de vozes assentes em um mesmo contexto, ao passo que atesta a fragilidade do discurso nacional (pretensamente) hegemônico propalado pelo Estado Novo. Além disso, trata-se de uma perspectiva histórica que se abre ao conjunto das diversas sociedades envolvidas pelos colonialismos, no tempo e no espaço, visando romper com os vícios herdados pelas interpretações unívocas e prosaicas das histórias nacionais tradicionais221.
Longe de tentar delinear leis, padrões, normas ou sistematizações culturais, a comparação também serve para analisar microssistemas de pensamentos que se dissipam e conectam em um mesmo contexto. Mas as suas construções identitárias e propostas imaginativas, criadas para atender demandas prementes do passado, também podem ser reapropriadas por novas demandas no presente – como veremos adiante. Ademais, a comparação também nos
convida a relacionar os valores e escolhas da sociedade a que pertencem, tenham nascido nela pela graça de Deus ou se optou por sua história idiossincrática, ou porque um foi empurrado a viver nela até se converter em residente, mais ou menos assimilado, aceito ou aculturado (ibidem, p. 61, tradução livre222).
No entanto, esses microssistemas de pensamentos também se conectam em um mesmo espaço: o Atlântico Sul. Embora composto por cenários distintos que desempenham papeis diferenciados nos seus múltiplos diálogos, essas conexões espaciais devem ser apreendidas pelo prisma sugerido por Paul Gilroy acerca do Atlântico:
experimentación el conjunto de las representaciones culturales de las sociedades del pasado, tanto las más distantes como las más próximas, y los grupos humanos vivos observados en el planeta, tanto ayer como hoy”.
221
“Ultrapassar essas perspectivas nacionais e nacionalistas tornou-se essencial por duas razões adicionais. A primeira, origina-se da obrigação urgente de reavaliar o significado do estado-nação moderno como unidade política, econômica e cultural. Nem todas as estruturas políticas nem as estruturas econômicas de dominação coincidem mais com as fronteiras nacionais. (...) A segunda razão diz respeito à popularidade trágica de ideias sobre a integridade e a pureza das culturas. Em particular, ela diz respeito à relação entre nacionalidade e etnia” (GILROY, 2001, p. 42).
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“invita a relacionar los valores y las opciones de la sociedad a la que se pertenece, tanto si se ha nacido en ella por la gracia de Dios o se ha escogido por su historia idiosincratica, o porque uno se ha visto empujado a vivir en ella hasta convertirse en residente, mas o menos asimilado, aceptado o aculturado”.
Em oposição às abordagens nacionalistas ou etnicamente absolutas, quero desenvolver a sugestão de que os historiadores culturais poderiam assumir o Atlântico como uma unidade de análise única e complexa em suas discussões do mundo moderno e utilizá-la para produzir uma perspectiva explicitamente transnacional e intercultural (2001, p. 57).
A trajetória de cada um dos intelectuais protagonizados nesta pesquisa, identificada como vetor de relações geracionais mais amplas, deverá ser vista como o entrelaçamento de outros pensamentos de origens diversas. O estabelecimento do exílio- deslocamento como ponto de inflexão para a análise da sua construção nacional- identitária, e a consequente valorização dos fluxos, migrações e diásporas numa dimensão transnacional, são prerrogativas valorizadas recentemente no campo das humanidades, sobretudo, dentre os estudos sociológicos, antropológicos e historiográficos (Cf. LEVIT; JAWORSKY, 2007, GUTIÉRREZ; HONDAGNEU- SOTELO, 2008, LOBO, 2012, PURDY, 2012, OLIVEIRA; CARREIRA, 2014 etc.).
Mas, mesmo assim, “o papel da noção de autenticidade, da autêntica experiência dos migrantes, é aquele que vem a nós construído por vozes hegemônicas; e assim, o que se tem de trazer à tona é o que não está lá” (SPIVAK, 1990. p. 61, tradução livre223). Por conseguinte, somente a partir da análise das suas imposturas e da peculiaridade dos seus pensamentos – bem como diante da identificação dos fluxos de ideias e das influências recíprocas existentes entre os intelectuais das respectivas