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Encontros, mensagens e o Sul do mundo. Círculo de Arte Moderna: Grupo Sul.

“Vamos descobrir Angola!” diziam os novos intelectuais.

Encontros: Agostinho Neto e os novos intelectuais de Angola. Antônio Jacinto. Viriato da Cruz. Mário Antônio. Encontros: Agostinho da Silva e a pequena diáspora lusitana. Antônio Sérgio. Jaime Cortesão. Eduardo Lourenço. Encontros e desencontros: entre Jorge Amado e Salim Miguel. As mensagens do Sul.

O título empregado neste capítulo faz alusão aos nomes dos periódicos que lhe servem de referência temática – o boletim e a revista Mensagem, e os cadernos Sul. Nele, procuraremos mostrar como o surgimento de um frutífero intercâmbio estabelecido entre jovens intelectuais angolanos e brasileiros alimentou, nas duas margens do Atlântico, sonhos, expectativas, e projetos culturais dessas gerações que, após o término da segunda grande guerra, buscavam outras orientações e paradigmas políticos diversos. Todavia, a ressignificação semântica dos termos que o compõe alude à pluralidade das mensagens emitidas por estes jovens, que buscavam elevar as suas vozes e opinar sobre as diversas tendências emergidas no após-guerra, sobretudo, no que dizia respeito às relações políticas e culturais no sul do hemisfério diante da queda dos paradigmas culturais eurocêntricos e dos clamores favoráveis à descolonização da África e da Ásia. Analisaremos, conjuntamente, os variados vínculos existentes entre essas comunidades de intelectuais e os protagonistas estudados nesta pesquisa.

Antigamente era o eu - proscrito

Antigamente era a pele escura - noite do mundo Antigamente era o canto rindo lamentos Antigamente era o espírito simples e bom Outrora tudo era tristeza

Antigamente era tudo sonho de criança. (...)

Mas dei um passo

ergui os olhos e soltei um grito

que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo. Antônio A. N.288

...filha de pai romano e de mãe bárbara, à sombra se chamou Catedral e nela houve complexa música e poetas de variadas línguas nelas escreveram Poemas

e se lançaram matemáticos a distantes regiões de que nem Euclides tivera ideia. Você viste agora, Amiga, nascer outra mandala – e as amamos nós, às suas folhas e delas vão ser a plena liberdade do homem e a imaginação imperando no mundo e o Paraíso reconquistado e tão absoluto Amor que todas as filosofias lhe serão apenas achas de fogo e nele, por Deus, nos consumiremos. George A. S.289

Encontros, mensagens e o Sul do mundo.

O que entendemos por encontros? Ordinariamente, quase todos os sentidos atribuídos ao termo pressupõe certa noção de dinamismo. Assim como ocorre com a expressão

exílio, encontro também traz consigo a ideia de movimento e/ou deslocamento, mas de

um modo peculiar: enquanto o exílio se caracteriza pela ruptura de uma situação precedente ou preestabelecida, o encontro é quase sempre caracterizado pela abertura ao novo, mediante a confluência de elementos originariamente díspares ou dissonantes. Assim sendo, embora o exílio possa frequentemente proporcionar as condições favoráveis para a constituição do encontro, é somente neste que a sua potencial cria- atividade se realiza. Além disso, a palavra está relacionada ao verbo encontrar, cujo significado também se associa aos vocábulos descobrir ou achar (com sentido de aproximação), bem como disputar ou bater-se contra algo ou alguém (com sentido de oposição), até então, desconhecido e/ou distante. E, finalmente, encontro também pode ser apreendido como espaço, ou seja, como um lugar ou local onde as partes, até então ausentes, tornar-se-ão presentes em um mesmo instante.

Se começamos por chamar atenção às diversas possibilidades semânticas associadas ao primeiro termo que nomeia o capítulo, é porque precisamos justificar os usos (e alguns abusos) da sua polissemia em nossa análise.

Encontro deverá apreendido, em sua abrangência básica, como o contato direto

efetivado entre os protagonistas da investigação e alguns dos mais significativos intelectuais das gerações290 às quais eles fizeram parte. A escolha desses intelectuais

288

“Antigamente era”. In: A renúncia impossível. Original manuscrito. Arquivo fjs. 44, 10/09/1951.

289

“Sobrevoando o Atlântico”, In: Cadernos Rioarte, Rio de Janeiro, Ano 01, n.o 03, 1985, p. 59.

290

Compreendemos geração como o grupo de sujeitos marcados por uma experiência comum e que compartilha referenciais cronológicos e etários compatíveis, donde se é possível criar círculos de sociabilidade. Deve-se evitar, contudo, a tipificação apriorística desses sujeitos e desses grupos em prol da alteridade e da diversidade cultural promovida nesses encontros.

está diretamente associada à questão do seu exílio-deslocamento, além da significância que cada um deles exerceu na biografia e na construção do pensamento dos protagonistas. Tal procedimento pretende valorizar as suas contribuições nas suas trajetórias, além de revelar a variedade dos contatos e ideias que confluíram em um mesmo contexto. Todos esses encontros, eivados de aproximações e dissonâncias, foram importantes para a construção da originalidade do pensamento dos intelectuais em questão, já que expressam aspectos idiossincráticos próprios e relevantes, fundados em um mesmo ambiente após-guerra que, por sua vez, é reconhecido como um período de variações abruptas e caracterizado pela busca por outros referenciais de orientação.

O encontro também deverá ser assimilado como a manutenção de contatos

indiretos interpostos a partir da vivência dos protagonistas, donde buscaremos perceber

a existência de correspondências e/ou relacionamentos intergeracionais, seja por meio das suas conexões com movimentos culturais aos quais não participaram diretamente, ou pela diferença de comportamentos e reações obtidas de determinados intelectuais que, de modo ímpar e caso a caso, lidaram de maneira variável com cada um deles.

Também será possível pensar o encontro como confluência temporal, como contingência ou conformidade de eventos distintos assentes numa mesma conjuntura. Essa percepção do encontro valoriza a concomitância e favorece a apreciação da complexidade constitutiva dos cenários em questão. Nele é importante perceber como, apesar de movidos por causas distintas, sujeitos diversos foram motivados a agir de maneiras semelhantes. As balizas temporais adotadas neste trabalho estão permeadas por essas confluências:

 Primeira etapa: 1948-1952.

 Início, 1948: surge o Círculo de Arte Moderna de Florianópolis, também conhecido como Grupo Sul; surge o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (MNIA) em Luanda; Agostinho Neto se estabelece em Lisboa após breve permanência em Coimbra; Agostinho da Silva regressa e se estabelece no Brasil após permanência na Argentina e no Uruguai.

 Ponto de flexão, 1952: Grupo Sul e MNIA encetam correspondência; Agostinho Neto participava das reuniões do Centro de Estudos Africanos – onde tomou conhecimento da gravidade e da amplitude da questão colonial – quando foi encarcerado pela primeira vez e passou a adotar um posicionamento marcadamente anticolonialista; Agostinho da Silva, ao participar da fundação da

Universidade da Paraíba, conheceu o interior do estado e nele o culto do Espírito Santo e algumas reminiscências sebastianistas, a partir dos quais fundamentou a originalidade do seu pensamento no que tange às relações luso-afro-brasileiras.

Ademais, essa modalidade de encontro se expressa como profunda aproximação entre essas gerações de intelectuais, revelando a sua busca pela ampliação de horizontes mediante a troca de experiências, a aquisição de novos conhecimentos, a vazão de ideias e a conferência dos seus referenciais culturais, a demanda por novos contatos políticos, por fontes e materiais proibidos pela censura, por outros colaboradores a escrever em suas revistas, pela ampliação do seu público de leitores etc. Todos esses são efeitos que contribuíram para o amadurecimento dos seus projetos que, no limite, procuravam romper ou ao menos questionar a condição colonizada e/ou subalterna vivenciada, manejando a cultura como expediente da ação política.

Além disso, esse encontro suscita indagações acerca das trajetórias dos próprios protagonistas, os quais, postos em um novo contexto a partir de suas experiências exilares, ressignificaram suas certezas precedentes diante das novas vivências, o que os motivou a buscar por outros referenciais, além de outras aspirações para lidar com essas inquietações preliminares. Teria sido coincidência o fato de todos esses eventos se manifestarem aproximadamente nas mesmas datas, ou seria uma reação contingente provocada pelas consequências do após-guerra nos diferentes lugares onde eles ocorreram? Seja como for, tais transformações de perspectiva nos levam a uma segunda etapa de confluências, a ser considerada como o limite das nossas balizas temporais:

 Segunda etapa: 1952-1961.

 Rompimento da correspondência entre o Grupo Sul e o MNIA (1957); estabelecimento de contatos com representantes da geração da Revista

Cultura291 – a qual, em 1961, também tomará conhecimento de algumas das

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“(...) em Novembro de 1957, uma nova revista, CULTURA (II), editada pela Sociedade Cultural de Angola (já tinha existido uma primeira CULTURA, em 1942-47, de inspiração liceal irrelevante) propôs- se prosseguir e actualizar a linha editorial da Mensagem. Como se afirma no editorial do seu n.º 8, de Junho de 1959, não assinado mas sendo presidente da instituição o advogado e ensaísta Eugénio Ferreira: ‘Nós queremos que a Sociedade Cultural de Angola seja um organismo vivo, dinâmico na sua acção, objectivo perante os problemas da vida angolana. Um organismo despretenciosamente capaz de possibilitar aos homens de Angola, e sobretudo à sua juventude, um meio de abordar quantos problemas atormentam o seu espírito. O tempo e o homem de Angola são os elementos decisivos na gestação de uma cultura angolana, nacional pela forma e pelo conteúdo, universal pela intenção, capaz de ultrapassar a incipiência do exotismo tropical e do primitivismo turístico. Não podemos iludir nem ignorar os

atividades promovidas pelo Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) de Agostinho da Silva, mesmo a contragosto do Estado salazarista.

 As ideias de Agostinho Neto passam institucionalizar-se mediante a criação de movimentos políticos e culturais que culminam na atuação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, 1959) e na luta anticolonial em 1961; as ideias de Agostinho da Silva passam a materializar-se em diversas intervenções práticas que resultarão na criação do CEAO (1959) e na política externa brasileira independente do governo de Jânio Quadros (1961).

Finalmente, poder-se-á compreender encontro como o espaço privilegiado de todas essas relações. Apesar das gerações envolvidas operarem em lugares distintos (Angola, Portugal e Brasil), todas elas, direta ou indiretamente, interagem entre si, além de ponderarem e influenciarem-se mutuamente pela profusão dos diálogos intelectuais atlântico-meridionais. Desse modo, o Atlântico Sul deverá ser apreendido como denominador temático-espacial comum: o ponto de encontro entre os intelectuais e as ideias postas em diálogo, ou o local da imagem-nação de todas essas mensagens.

Essas considerações nos levam a refletir sobre a segunda expressão que nomeia este capítulo: as mensagens do sul. Derivada do vocábulo latino missaticum, a palavra

mensagem tem na sua origem o sentido de mandar ou enviar, o que supõe, de início, a

ideia de conexão entre partes distintas. Mensagem aparece no contexto desta pesquisa como a iniciativa de intelectuais e grupos subalternos desejosos de transmitir ideias alternativas, reivindicar a audição da sua voz – até então, exclusividade dos poderes hegemônicos – além de comunicar-se universalmente, sugerindo e opinando sobre os rumos da humanidade à qual reclamavam fazer parte.

Não por acaso, este foi o termo utilizado para nominar os veículos literários dos intelectuais angolanos situados tanto em Luanda como em Lisboa – no primeiro caso trata-se da revista editada pelo MNIA e, no segundo, do boletim da Casa dos Estudantes do Império (CEI). Mas a alusão ao nome não se restringe aos movimentos políticos e culturais ligados a Agostinho Neto. Cabe lembrar que Mensagem também é o nome da obra de Fernando Pessoa que foi recuperada por Agostinho da Silva para fundamentar

problemas. Não podemos abandonar as suas soluções às contingências do acaso. Nem subordiná-las a interesses pessoais e transitórios. Não podemos contentar-nos com exercícios de oratória mais ou menos oportuna, para não dizer oportunista. Necessitamos de pôr, com clareza e coragem, os nossos problemas em equação; discuti-los sem reservas, franca e honestamente, sem tolos melindres nem descabidas vaidades e encontrar as soluções justas, justas sob o ponto de vista nacional, justas sob o ponto de vista humano. Só assim lançaremos as bases de uma cultura… […]’” (COSME, 2015, p. 03).

sua interpretação acerca das relações luso-afro-brasileiras. Desse modo, justifica-se a utilização desse termo no plural.

Já o termo Sul, de início faz alusão ao nome do veículo literário do Grupo Sul – os Cadernos Sul – no qual as gerações de intelectuais em questão se encontraram, direta ou indiretamente, referindo-se à região do Brasil onde o Círculo de Arte Moderna atuava: o sul do país e do continente292. Nesta pesquisa, porém, uma nova significação foi empregada ao termo “Sul, entendido como metáfora do sofrimento humano causado pela modernidade capitalista” (SANTOS, B. 2010, p. 32) diante da crise dos paradigmas eurocêntricos no período após-guerra. Essa perspectiva nos permite também, além de evidenciar a subalternidade atrelada aos encontros em questão, apontar a sua longevidade e resgatar a pluralidade discursiva emanada dessas relações sul-sul.

Assim, as Mensagens do Sul procedem do intercâmbio ocorrido entre intelectuais e associações culturais angolanas e brasileiras, desde o imediato após- segunda-guerra até o início da guerra anticolonial. Aqui as contingências temporais se mantêm, já que o ano de 1948 também foi o da inauguração da revista Mensagem em Lisboa, dos Cadernos Sul em Florianópolis e, como exposto acima, da articulação do MNIA em Luanda. O exame dessas relações se torna ainda mais denso e prolífico quando cotejamos nesses encontros os protagonistas do estudo e alguns dos intelectuais das suas respectivas gerações, todos eles autores de reflexões acerca do sul do mundo.

A partir dos encontros de Agostinho Neto poder-se-á examinar as relações e as influências efetivadas entre ele e os membros do MNIA que mantiveram contato ativo com o Grupo Sul – Antônio Jacinto, Viriato da Cruz e Mário Antônio – na busca por elementos culturais e políticos significativos para a fundamentação das suas ideias. Já a partir da trajetória de encontros de Agostinho da Silva, poder-se-á examinar as relações efetivadas entre ele e os exilados portugueses que mais influenciaram e contribuíram com o seu ideário e biografia – Antônio Sérgio, Jaime Cortesão e Eduardo Lourenço. Verificaremos assim, em ambos os casos, se houve aportes relevantes para a configuração e originalidade dos seus pensamentos.

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“Estes escritores, os segundos, definiam-se do sul e se remetiam, talvez sem o saber, ao mesmo desejo fundacional dos primeiros, os americanos, o de uma identidade que aparece refratada e diferida no tempo, porque se os segundos são os primeiros na construção de um marco, bem podem os primeiros ser retardatários epígonos de outros desbravadores, o que recua a metafísica do ponto zero a um retorno ainda futuro porque sempre utópico. Os sul-americanos. (...) Os modernos de Sul tímidos, temerosos, tateantes ensaiam uma teoria do literário. Nela, a falha (vertical ilimitada) é um sinal positivo. Ninguém conhece a fronteira da falha. Até elementos do norte poder ser do sul: americanos” (ANTELO, 1991, p. 67).

Assim sendo, a partir desses encontros será possível demonstrar como as perspectivas dos intelectuais protagonistas foram construídas concomitantemente, a partir de aportes diferenciados, ambas críticas ao salazarismo, mas totalmente vinculadas às vicissitudes do período após-guerra, evidenciando as suas semelhanças e divergências, e os seus encontros e desencontros. A investigação cruzada das trajetórias dos protagonistas elencados, somado ao esforço do seu cotejamento com os pensamentos de intelectuais oriundos da metrópole e da colônia, é uma perspectiva que almeja o pensamento limiar (MIGNOLO, 2003, p. 33-34) e pode, por isso, contribuir para a construção outra noção mais humana de universalismo que vá além da versão dita global-oficial-hegemônica.

O fim da segunda grande guerra marcou o início de importantes alterações de paradigmas no mundo ocidental: o questionamento da noção de superioridade racial europeia, outrora sustentada pelas teorias racialistas oitocentistas, tornou-se inevitável a partir da queda do nazifascismo. Tais fenômenos abriram novos horizontes para a

humanidade, sendo que essa própria categoria passou a ser seriamente repensada após a

eclosão dos diversos eventos atrelados aos conflitos, como o holocausto por exemplo. Entretanto, mesmo aqueles regimes autoritários que passaram incólumes por 1945, como o salazarismo e o franquismo na península ibérica, todos acabaram sendo direta e gravemente afetados por essas alterações293.

A consolidação dessas mudanças emblemáticas deu-se a partir do ano de 1948, em termos práticos e simbólicos, quando no seu início foi erigido o Estado de Israel, e, no final, deu-se a aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem pela Assembleia Geral da ONU. Tratava-se, portanto, de um momento de incertezas que demandava por outros referenciais e por novas diretrizes políticas e culturais.

Eis que nesse mesmo ano de 1948, dois grupos de jovens postados às margens do Atlântico, um brasileiro e outro angolano, motivados por questões distintas, passaram a se organizar em nome da promoção da cultura e de um modernismo autóctone e telúrico. Tratava-se do Círculo de Arte Moderna (CAM) de Florianópolis, e do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (MNIA) de Luanda.

293

“Nos anos pós-guerra de 1945 a 1950, houve forte pressão das grandes potências vitoriosas para Portugal se redemocratizar e encaminhar o processo de emancipação gradual das colônias. Provocou uma enérgica e bem-sucedida resistência do regime salazarista, que passou a dar prioridade às possessões na África” (LOBO, 2001, p. 175). A partir de então, esses regimes passaram a precisar se justificar perante a comunidade internacional sobre o modo pelo qual lidavam com as suas populações, fossem elas metropolitanas ou coloniais.

Círculo de Arte Moderna: Grupo Sul.

Em 1948 despontaram em Florianópolis os Cadernos Sul, veículo literário do recém-criado e autodenominado Círculo de Arte Moderna (CAM, 1947). Apesar dos seus membros terem atuado individualmente noutros veículos da mídia catarinense desde pelo menos o ano anterior, foi somente a partir deste momento que essa agremiação de jovens artistas, ativistas e intelectuais se consolidava como um novo agente da cultura catarinense, tendo ficado popularmente conhecido como Grupo Sul.

O após-guerra foi um período difícil e de incertezas também no Brasil. Com o fim da ditadura varguista o país passava por um processo de redemocratização, o que certamente enchia de renovada esperança as mentes progressistas. Era um momento propício para que os jovens fizessem ouvir a sua voz294, além de uma era em que diversos movimentos de artistas-ativistas se espalharam pelo país e pelo mundo, já que

Em 1945 terminava a II Guerra Mundial e o Estado Novo, instaurado por Getúlio Vargas em 1937, que cerceava qualquer atividade livre no país. Descobriu-se, então, que, de repente, era possível fazer poesia e conversar em voz alta, o que passou a ser feito como uma frequência nunca antes imaginada. Enquanto o Grupo Sul, em Florianópolis, se manifestava, promovendo cultura, movimentos de mesmo cunho surgiam noutros cantos do país, sem que houvesse combinação ou aliciamento. Nasceu de uma vontade de novos de recuperar o que perderam durante o período de estagnação cultural do Estado Novo (ZIMMERMANN, 1996, p. 42).

Em Santa Catarina, porém, tal silenciamento possuía uma série de agravantes. Em termos culturais, o estado encontrava-se bastante isolado com relação aos grandes centros, como eram Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, os ares da Semana de Arte Moderna de 1922 ainda não haviam chegado por lá, sendo que os referenciais vigentes estavam a cargo dos acadêmicos e dos parnasianos de inspiração oitocentista295.

294

“(...) os jovens queriam se fazer ouvir. Uma voz tímida mas que já era voz. Não havia, nem poderia haver, qualquer unidade de pensamento ou ação, qualquer plano pré-estabelecido. (...) Num campo fértil mas instável apareciam e desapareciam com igual facilidade, as experiências políticas, os agrupamentos associativos, as tentativas culturais, artísticas e literárias, as publicações pelas quais os novos intentavam se afirmar e intercomunicar. Era um laboratório em efervescência. (...) Mas, em dado momento, passaram a manter um intercâmbio bastante proveitoso, o que permitiu um razoável conhecimento mútuo e a troca de experiências” (MIGUEL, 1991b, [em 1966] p. 101).

295

“Durante a década de 20, o Modernismo não fez seguidores em Santa Catarina. Ao contrário, encontra ferrenhos adversários, entrincheirados em um academicismo renitente. (...) A literatura e as demais Artes dos anos 40 encontram-se estagnadas na estética dos anos 20 em Santa Catarina, a qual espelha a do século XIX. Assim, o que o Grupo Sul encontra ao despontar, em 1947, é um Realismo/Parnasianismo extemporâneo, no modorrento panorama literário de Santa Catarina” (SABINO, 1982, p. 07-08).