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Em Março de 1960, Fidel Castro convidou Quadros para uma visita à Cuba, na condição de provável futuro presidente do Brasil, por causa desse convite, a UDN criticou de forma severa essa viagem. Para eles o novo governo cubano havia suprimido a liberdade e imposto à ditadura. Por outro lado, no plano estratégico da campanha, era importante que Quadros visitasse a ilha, pois naquele momento a campanha já se encontrava polarizada, “Jânio era acusado de entreguista, enquanto a candidatura do Marechal Lott era identificada com o nacionalismo.”369 Segundo Castilho “era necessário desfazer a imagem de Jânio como

“lacaio dos trustes, mostrando uma faceta de independência em relação a política internacional.”370

A TIME publicou uma matéria tratando essa visita como breve e passageira. Além dos adjetivos já conhecidos, a posição política de Jânio como ‘candidato próximo à direita’ foi utilizada pela revista. TIME observou que a visita também era uma estratégia de Jânio para dividir os votos de Lott. Para ela, tratou-se de uma “viagem desastrosa”, título da própria matéria, haja vista o impacto que causou aos meios de comunicação do Brasil

Jânio Quadros, conservador, excêntrico, mas um bem sucedido governador do rico Estado de São Paulo, é o candidato mais próximo da direita na próxima eleição presidencial em Outubro. Por conseguinte, um dos seus motivos principais para visitar Cuba na semana passada foi roubar alguns votos da esquerda e que pertencem ao seu principal rival, o candidato Henrique Teixeira Lott.371

Segundo Chaia, Jânio foi muito bem recebido em Cuba e a imprensa brasileira fez forte cobertura. Recebido por Fidel com honras de chefe de Estado, Jânio elogiou muito o governo cubano, classificando-o de “honesto e operoso.”372 O Departamento de Estado não

deixaria passar despercebida essa visita, era crescente a atenção em Jânio, “algo mudaria caso ele, como se prenunciava, vencesse o pleito de 3 de outubro e a sua presença em Havana seria o ponto de partida para revigorar a desconfiança que começava a caracterizar a atitude de

369 CHAIA, op cit, p. 176. 370 Ibid., ibidem.

371 BRAZIL: Slipped Trip, Monday, Apr. 11, 1960; Janio Quadros, the conservative, eccentric but successful

former Governor of wealthy São Paulo State, is the closest thing to a candidate of the right in next October's Brazilian presidential election. Thus his clear motive in visiting Castro's Cuba last week was to grab a few leftist votes from his chief rival. Government Candidate Henrique Teixeira Lott. Time Magazine, loc. cit.

Washington para o candidato oposicionista.”373

A viagem foi um fracasso? Para a TIME sim. No trecho abaixo, foi atribuída essa conclusão. A figura de um presidente que precisou ‘sair correndo’ da Ilha de Cuba, devido a forte crítica que recebera da imprensa de seu país, sugere a representação de um político atento à opinião pública e a grande influência que essa mesma opinião possa impactar em sua imagem.

A viagem foi um fracasso. Quadros deveria ficar na Cuba de Fidel Castro por seis dias. Mas quando os jornais de seu país começaram a chamá-lo de "irresponsável" e suas declarações de elogio a Castro foram entendidas como um verdadeiro "pacto com o diabo", ele aparentemente se deu conta de que os brasileiros não estão muito ansiosos em seguir os passos de um governo irresponsável de uma ilha que corresponde a um décimo do seu próprio país.

Fidel Castro havia tomando muita cautela ao convidar Jânio Quadros, na verdade, ele não tinha interesse em interferir diretamente nas eleições do Brasil. Muitos setores da mídia carioca apoiavam a ida de Jânio à Cuba. Todavia, eram os setores da UDN que mais criticavam essa atitude, pois consideravam a visita, além de polêmica, muito perigosa para os resultados das eleições. O convite foi feito também para Lott, que recusou devido a questões de agenda e por considerar desnecessária.

As críticas da imprensa que a TIME apontou podem ser localizadas nas publicações de jornais como O Estado de São Paulo “que classificava a viagem como demagógica (...) O Estado de São Paulo aborda a possibilidade de essa visita acentuar a divisão do sistema interamericano e demonstrar solidariedade a Fidel no momento em que ele começava a alinhar-se abertamente como Moscou. O Editorial da Folha de São Paulo considerou a viagem inútil, apenas mais uma manobra para desmentir a pecha de ‘entreguismo’ e de simpatias pró-americanas do candidato”.374

A visita obedeceu ao protocolo estabelecido, ou seja, Quadros visitou o túmulo de heróis da independência cubana, como o de José Julian Martí y Perez. Nessa ocasião “pronunciou um pequeno discurso improvisado (...)”, em seguida “participou de um almoço na sede do governo (...) visitou granjas, a fábrica de charutos H. Upman e esteve com Che Guevara ainda presidente do Banco Nacional de Cuba (...)”.375

A TIME não deu detalhes da visita de Jânio, apenas restringiu seu discurso à estratégia política do candidato. Sem dar muito espaços para outros assuntos, a matéria

373 BARBOSA, op cit. p. 56. 374 Ibid., p. 60.

apresentou uma imagem caricata de Jânio ‘em rota de fuga’ e rumo a um lugar mais seguro

Dois dias antes do final de sua visita terminar, ele saiu correndo com um pão com manteiga acenando para seus anfitriões, subiu a bordo de um avião e partiu para um terreno mais seguro, a Venezuela..376

A imprensa local cubana, representada por jornais como o Diário de La Mariana e o

Prensa Libre cobriram a visita com matérias favoráveis, mas, por outro lado surgiram boatos de que Jânio estaria fazendo uso desses veículos para dirigir críticas aos Estados Unidos, tal fato não agradou Jânio.377 Alguns observadores interpretaram o desagrado de Jânio como um dos motivos principais para antecipar a sua saída de Cuba, todavia, apesar dos comentários veiculados pela imprensa brasileira, não houve nenhum incidente com Fidel.

Em certo momento, Quadros considerou que a repercussão da viagem não estava correspondendo à sua expectativa, decidindo então partir antecipadamente para Caracas, inclusive por nada mais haver de interessante para fazer em Cuba durante os dois últimos dias restantes.378

Após Cuba, Quadros fez uma rápida passagem à Venezuela e “declarou-se a favor da criação de um mercado comum latino-americano, manifestou o desejo de vitalizar as democracias latino-americanas e repudiou todos os regimes de força dos governos totalitários, entretanto, teve o cuidado de não incluir Cuba em suas críticas.”379

376 The trip was a flop. Quadros was supposed to stay in Castro's Cuba six days. But when papers back home

began calling him "irresponsible" and his statements of praise for Castro a "pact with the devil," it apparently dawned on him that Brazilians have no vast yearning to take their cues from a reckless government on a chaotic island that is only one-tenth as populous as their own country. Two days before his visit was supposed to end, he dashed off bread-and-butter messages to his hosts, climbed aboard a plane for safer terrain in Venezuela. Time Magazine, loc. cit.

377 BARBOSA, op cit, p. 64. 378 Ibid, p. 65.