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Na edição de 17 de outubro de 1960, a TIME publicou a reportagem que cobriu os resultados das eleições.

A embaixada americana “considerava que o pleito, com prognósticos incertos, seria disputado voto a voto, não desprezando fraude eleitoral e manipulação de resultados das urnas, manobras suscetíveis de serem empregadas por ambos candidatos.”389 A eleição foi

acompanhada de perto pelo Departamento de Estado e “a eventualidade de uma intervenção

militar no processo sucessório também constava com certa frequência nesses boletins”.390

A vitória de Jânio ficou conhecida como “revolução pelo voto”. Em 3 de outubro de 1960 Jânio atingia a maior marca que um candidato conseguira, 48% dos votos nominais. A vitória não veio somente das massas populares, adveio também de setores da classe média e alta identificados com a UDN e com as propostas mobilizadoras.

Ao tomar conhecimento da vitória, Jânio, como de costume, viajou, para retornar somente em 13 de outubro para a sua primeira entrevista coletiva. Ao ser indagado sobre qual seria a composição do seu governo, Jânio deixou claro que contaria com todos, inclusive com os grupos que não o apoiaram. Jânio afirmou que desejava governar bem e “para governar bem devo ter junto de mim os homens mais idôneos e mais capazes, com ou sem filiação partidária.”391 Segundo Chaia, “mais uma vez Jânio Quadros reafirmava sua independência

em face dos partidos políticos e dos grupos que o apoiaram, pois considerava que havia sido eleito pelo povo e somente a ele poderia prestar contas.”

O número de eleitores foi de 12.586.354.392 Jânio conseguiu 78% dos votos nos estados da Guanabara, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo, ou seja, nos principais estados da União. O eleitorado foi estimado pela revista em 12,5 milhões de pessoas – na edição de 3 de outubro a TIME estimou em 12 milhões, ou seja, 500 mil pessoas a menos. Surpresa ou desconfiança? Ao informar seus leitores, sobre a impressionante vitória de Jânio sobre Lott, a TIME não deixava de destacar também que a participação popular no pleito, além de significativa, identificava a existência de uma forte democracia.

Conforme os 12,5 milhões de brasileiros iam às urnas na semana passada para eleger

389 BARBOSA, op cit, p. 87-88. 390 Ibid, ibidem.

391 O Estado de São Paulo, 14 de outubro de 1960. 392 CHAIA, op cit., apud TRESP, p. 182.

um novo Presidente, a tão aguardada e apertada corrida não aconteceu da forma como esperavam. Com mais da metade dos votos contados, o candidato da oposição Jânio da Silva Quadros, 43 anos, tinha uma vantagem de 1,6 milhões de votos sobre o marechal Henrique Teixeira Lott, e parecia certa a maior vitória da história.393

Em São Paulo, Jânio conseguiu 55% dos votos nominais derrotando Adhemar de Barros em todas as zonas eleitorais.394

Quadros não apenas ganhou em seu estado natal, São Paulo, ele também venceu no próprio estado de Lott, Minas Gerais, e nas demais regiões do Brasil. Em sua mensagem ao país, Quadros disse: "Sem reservas ou de ódio, apelo a todos os brasileiros a trabalhar para o bem comum."395

Paralela a eleição presidencial, ocorreram eleições para governador em 11 estados. A UDN venceu em seis estados. Lacerda ganhou na Guanabara e, quando indagado sobre Jânio, demonstrou ter perfeito noção da complexidade daquele resultado, disse ele: “quem tiver dúvidas basta perguntar a quem será atribuída a responsabilidade se o governo do presidente Jânio Quadros não tiver êxito. Quem será o principal responsável? Com razão ou sem razão, será a UDN.”396

O dado que chamou a atenção de muitos estudiosos do fenômeno Jânio, diz respeito ao nível de escolaridade de seus eleitores, segundo Glaucio Soares, “quanto maior o nível de escolaridade mais elevada a tendência de o eleitorado votar em Jânio Quadros.”397 Bolivar

Lamounier, realizando pesquisa em Minas Gerais, constatou o mesmo fenômeno, ou seja, “Jânio Quadros também recebeu a maior votação nos setores mais escolarizados e em posição sócio-econômica superior das cidades de Belo Horizonte e Salvador, localidades onde a UDN tinha maior penetração.”398

No trecho seguinte é dado destaque a influência de Lincoln e Jefferson no pensamento de Quadros, este toma como inspiradores o senso de dever público, a polidez

393 As 12.5 million Brazilians went to the polls last week to elect a new President, the expected tight race turned

into no contest at all. With better than half the vote counted, Opposition Candidate Jânio da Silva Quadros, 43, held a huge 1,600,000-vote lead over the incumbent administration's man, Field Marshal Henrique Teixeira Lott, and seemed certain to roll up the greatest plurality in history. Time Magazine, loc. cit.

394 CHAIA, op. cit., p. 182.

395 Quadros not only won his home state of São Paulo, he also jumped ahead in Lott's own state of Minas Gerais

and won the no man's land in between. Said Quadros in a message to his nation: "Without reservations or hate, I call on all Brazilians to labor for the common welfare." Time Magazine, loc. cit.

396 LACERDA, Carlos, O poder das ideias. Rio de Janeiro, Record, 1964, p. 137.

397 SOARES, Glaucio A. D.. “Classes sociais, strata sociais e as eleições presidenciais de 1960”. Sociologia. s.l.

s.ed., v. XXIII, nº 03, 1961.

398 LAMOUNIER, Bolivar e CAMPELLO, Maria do Carmo. “Três momentos da vida de um Político”. Revista

necessária a um servidor exemplar. Por outro lado, a faceta histriônica volta à tona, ora extrovertido, ora introvertido, para a TIME, tratava-se de um político repleto de surtos de humor.

Em Jânio Quadros, o Brasil tem uma curiosa mistura de introversão e extroversão, um homem culto, cujo pensamento político toma emprestado de Lincoln e Jefferson, trabalhador, servo de uma mentalidade conservadora e pública em seu cargo, no entanto, em campanha com sua ambiciosa coligação política apelou para o voto das massas, prometendo uma série de coisas para todos. Ele é um homem cuja vida foi repleta de lampejos de surtos de brilho e temperamento. 399

Notamos no próximo trecho, que a TIME não deixa de fazer uso de uma linha de análise histórico-biográfica. Não conformada em saber apenas quem era o ‘Jânio Quadros daquele momento’, também é importante saber como ‘foi Jânio Quadros no passado’.

O futuro presidente do Brasil foi criado pela mãe, o pai falecera quando Jânio ainda era muito jovem. De sua mãe veio a honestidade e o caráter como ensinamentos fundamentais. A inclinação religiosa para o catolicismo foi um traço que chamou a atenção da protestante TIME. O futuro líder do Brasil era leitor de Ovídio e Horácio. A caricatura continua na reportagem ao destacar a fala da futura esposa de Jânio, dizendo que ele era “O homem mais feio do mundo.”

O filho de um ginecologista do interior com técnicas não muito convencionais, fatalmente acabou sendo morto a tiros aos 68 anos pelo marido irado de uma mulher de 26 anos de idade, Jânio recebeu os primeiros ensinamentos, em sua maior parte, de sua mãe, uma mulher sábia e gentil, que lhe ensinou que "nenhum homem poderia ser um pouco sem honra ou parcialmente honesto”. No colégio interno (Quadros é um católico praticante), o jovem alto de olhos estranhamente arregalados era muito rebelde, mas ele leu apaixonadamente grandes trechos de Ovídio e Horácio de coração como lição de casa.400 Depois de um início instável na faculdade de Direito da USP, ele obteve em seus últimos anos as melhores notas, se casou com uma bela moça que, à primeira vista o achou "o homem mais feio que eu já conheci", e assim começou a sua carreira.401

399 In Jânio Quadros, Brazil got a curious blend of introvert and extravert, a man of wide learning whose political

thought borrows from Lincoln and Jefferson, who is a hardworking, conservative-minded public servant in office, yet who campaigns with a ward politician's gallus-snapping appeal for the mass vote, promising all things to all men. He is a man whose life has been studded with flaring spurts of brilliance and temperament. Time Magazine, loc. cit.

400 The son of an upcountry gynecologist with roving ways who was finally shot dead at 68 by the irate husband

of a 26-year-old woman, Quadros got his early training mostly from his mother, a wise and gentle woman, who taught him that "no man could be slightly dishonorable or partly honest." At parochial prep school (Quadros is a practicing Catholic), the tall youth with the oddly staring eyes* was so rebellious that he learned large chunks of Ovid and Horace by heart in after-school punishment time. Time Magazine, loc. cit.

401 After a shaky start in law school at São Paulo's state university, he went through his final years with top

marks, married a beautiful girl who at first glance thought him "the ugliest man I ever met," and started off on his career. Time Magazine, loc. cit.

Como Quadros chegou à política? A São Paulo de Quadros foi comparada como a Chicago do Brasil, a cidade foi apresentada como o berço político de Jânio. Seus alunos foram os motivadores de sua chegada à política mesmo com a barba sem ser feita durante três dias:

Enérgico, de cabelos emaranhados, Quadros mergulhou na política em 1946 a pedido de seus alunos do ensino médio, para os quais ele estava ensinando literatura portuguesa, foi quando conquistou uma cadeira na Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. Ele saiu à frente em todas as eleições desde então - deputado estadual, prefeito da cidade de São Paulo (a Chicago do Brasil), governador do Estado de São Paulo. No palanque, ele enfatizou o fato de que trabalhou o tempo todo ao ponto de deixar a barba ficar três dias sem fazer. Uma vez no cargo, ele construiu uma reputação de honestidade e eficiência. "Liberdade", como ele mesmo disse, "não é uma concessão permanente, mas uma batalha diária."402

Como Quadros administrava a economia de São Paulo? O perfil de um bom pagador ajustava-se a do bom governador e a boa liderança política. TIME, deixando de lado a ironia, destacou os números positivos da gestão de Quadros durante a prefeitura e do governo do Estado de São Paulo:

Em seu primeiro ano como prefeito de São Paulo, Jânio pagou o déficit anterior de US $ 12,5 milhões e equilibrou o orçamento de US$ 55 milhões; no seu primeiro ano como governador de São Paulo, pagou um empréstimo de 30 milhões dólares em atraso do Banco do Brasil, e ainda conseguiu traçar um eficiente plano de obras públicas para o que é hoje o maior complexo industrial no Brasil. 403

Segundo a matéria, Quadros pretendia, pelo menos até aquele momento, dar continuidade ao projeto de Juscelino. A reportagem ainda estava dentro do ano de 1960. No entanto há inúmeras interpretações acerca das relações entre Jânio e Juscelino. Uma das bandeiras eleitorais de Jânio foi justamente a forte crítica feita ao governo anterior.

Jânio continuava a escorregar das mãos da TIME. Segundo ela própria, Jânio era um político que oscilava entre a esquerda e a direita, mas sem nunca se identificar com uma delas. Por outro lado, foi identificado novamente com as correntes do conservadorismo nacional.

Embora o tom da campanha de Quadros bambeasse ora para a esquerda e ora para a direita para agradar a maioria, se pode esperar dele que siga a sua própria linha de

402 Intense, shock-haired and magnetic, Quadros plunged into politics in 1946 at the urging of high school pupils

to whom he was teaching Portuguese literature, won a seat on São Paulo's city council. He has come out ahead in every election since — state deputy, mayor of São Paulo city (the Chicago of Brazil), governor of São Paulo state. On the stump, he emphasized the fact that he worked around the clock by letting his beard go three days without a shave. Once in office, he built a reputation for honesty and efficiency. "Liberty," as he put it, "is not a permanent concession but a daily battle." Time Magazine, loc. cit.

403 In his first year as São Paulo mayor, Quadros paid off the old deficit of $12.5 million and balanced the budget

at $55 million; in his first year as São Paulo governor, he paid off an overdue $30 million loan from the Bank of Brazil, and still managed to chart an efficient public works foundation for what is now the biggest industrial complex in Brazil. Time Magazine, loc. cit.

administrar o Brasil dentro de um estilo conservador. Ele está empenhado em continuar o atual programa de obras do presidente Juscelino Kubitschek, mas ele pretende conter a inflação. "Se a inflação poderia criar riqueza, não haveria mais problemas econômicos", diz ele. 404

Segundo Chaia, a vitória de Jânio se dá em meio ao repúdio à situação econômica e política do país ao mesmo tempo em que Jânio era identificado com a esperança.405 A campanha de Jânio “foi marcada pelo seu distanciamento em relação aos partidos políticos e aos grupos que o apoiavam. Com essa maneira de atuar, conseguiu transmitir aos eleitores a imagem de um elemento que se diferenciava dos outros políticos e que puderam mudar o país mediante uma moralização administrativa.”406

A questão é se ele pode impor sua vontade sobre o Brasil, que se acostumou com os grandes gastos de Kubitschek e a sua maneira de emitir moeda. A cidade e o Estado de São eram pequenos o suficiente para que Jânio Quadros pudesse exercer a sua supervisão pessoal e necessária para manter os funcionários trabalhando de forma correta. Mas administrar um país é algo completamente diferente.407

A TIME, no trecho acima, revelou sua dúvida em relação a capacidade administrativa de Jânio Quadros numa larga escala, ou seja, administrar um Estado da União seria muito mais fácil do que administrar um país. O fato de a revista destacar a necessidade de uma vigilância sobre o funcionalismo público brasileiro revela muito do que ela própria interpretava sobre a estrutura burocrática e administrativa do Brasil. Jânio, no início dessa reportagem, foi lembrado por ter demitido 15000 funcionários, faria o mesmo quando chegasse a presidência? Em certa medida, a redução não apenas da interferência, mas da estrutura burocrático-estatal caminhava na direção de um Estado Liberal de Direito, algo que agradava os olhos da revista, mas ainda não bastava para definir Quadros como um efetivo inimigo do Século Americano.

404 Though Quadros' campaign pitch curved left and right to suit his audience, he can be expected to follow his

own straight line of Brazil-style conservatism. He is committed to continue outgoing President Juscelino Kubitschek's building program, but he intends to hobble inflation. "If inflation could create wealth, there would be no more economic problems." he says. Time Magazine, loc. cit.

405 CHAIA, op. cit., p. 185. 406 Ibid, p. 186.

407 The question is whether he can impose his strong will on Brazil, which has become accustomed to

Kubitschek's free-spending, money-printing ways. São Paulo city and São Paulo state were both small enough so that Quadros could exercise the in-person supervision needed to keep officials at work and honest. But the entire, sprawling nation is something else. Time Magazine, loc. cit.