De acordo com Mello e Cunha (1996), os especialistas entrevistados nas empresas afirmam que, especialmente em Porto Alegre, não existem barreiras de entrada na construção civil. Especialmente no cenário atual, de juros baixos e mercado aquecido, no qual a facilidade para a obtenção de crédito minimiza uma das barreiras citadas pelos autores como importante: o volume de investimentos para o ingresso. A seguir, algumas verbalizações a respeito: “Não, não tem não. A construção civil em qualquer parte do mundo tem livre acesso” (ENTREVISTADO 1).
“[...] a barreira de entrada é nenhuma [...]” (ENTREVISTADO 2).
“Isso aí não existe. Mercado altamente livre e competitivo” (ENTREVISTADO 3).
Não tem como fazer. Não tem como segurar. Isso não tem como segurar. Tem que aceitar e pronto. Tem que se adequar ao novo ambiente se ele mudar. Eu não consigo alterar o ambiente competitivo. Eu só consigo aceitar a me adaptar. Diferente de uma EMPRESA X, que consegue alterar um ambiente competitivo. Eu não consigo (ENTREVISTADO 4).
Um dos entrevistados (ENTREVISTADO 9), no entanto, acredita que existem barreiras de entrada para os empreendedores que pretendam executar obras pequenas:
É a tal coisa, com as barreiras de entrada para a pequena empresa, acho que essa está selada. O cara que começar com coisinha pequena aí, não tem chance. Na minha época quando eu comecei qualquer um saia da escola e já era incorporador. Que bom, não é?
Alguns entrevistados relataram a preocupação com a entrada no mercado de empresas capitalizadas por meio de venda de ações em bolsa de valores. São empresas que, ao abrir seu capital ou se associarem com empresas de capital aberto, passaram a atuar em patamares de capitalização muito superiores ao que atuavam anteriormente. Em muitos casos, essas empresas passaram a atuar em regiões ou nichos dos quais não faziam parte, impactando na estrutura concorrencial existente. Sobre este assunto, o entrevistado 5 coloca o que segue:
Primeiro, estas empresas agora que estão melhorando um pouco, antes elas tinham uma visão apenas comercial, não estavam muito preocupadas com a produção. Tiveram problemas, agora é que estão focando mais na produção. Então eles tem um barganha maior para compra, porém, primeiro eles não agilidade, segundo eles necessitam na parte de mão-de-obra empreiteiros maiores então dependendo do empreiteiro não consegue atender. Às vezes tem uns empreiteiros comuns, né, mas, terceiro a gente ta mais próximo como nos somos operacionais acho que isso é uma vantagem, tem objetivo, mas nós três diretores somos operacionais, eu estou na obra todos os dias eu sei o que esta acontecendo, em contato com a frente, não to lá medindo mas eu tenho todo. Então assim eu acho que isso é uma coisa importante. Ao mesmo tempo que a gente não é grande mas também a gente não é pequeno.
Entre os entrevistados, como forma de se proteger deste tipo de concorrência, frequentemente os especialistas citaram a qualidade dos próprios produtos, o atendimento personalizado, e as vantagens de atuar em nichos diferentes dos entrantes, concorrentes mais capitalizados. Empreendimentos menores e de Valor Geral de Vendas (VGV) menor são o nicho onde estes entrevistados acreditam estar livres da atuação de concorrentes muito maiores. O VGV é um cálculo do valor total do empreendimento. O Valor final pelo qual o empreendimento todo será vendido. A seguinte verbalização, do entrevistado 4 confirma as afirmações:
Qualidade e, vamos dizer assim, segurança do investimento e liquidez. São esses três que me diferenciam da concorrência. No meio dos grandes. Os meus concorrentes não conseguem manter a qualidade que eu tenho. Não conseguem. São grandes obras. Eles são descentralizados, não conseguem manter a qualidade. Eu verifico pessoalmente a qualidade da minha obra. Nenhuma empresa grande faz isso. Nenhum proprietário de empresa faz isso.
O ganho de escala obtido pelas empresas líderes devido aos grandes volumes de obras que executam (BARROS NETO, 1999) tem sido, aparentemente, minimizado pela associação das empresas dos especialistas pesquisados à COOPERCON. A criação da COOPERCON foi idealizada exatamente com a finalidade de proporcionar às empresas
associadas uma forma de fazer frente aos ganhos de escala obtidos pelas empresas maiores e muito mais capitalizadas.
Estas empresas, por construírem em várias regiões do Brasil, empreendimentos grandes, com grande número de unidades, conseguem obter grandes ganhos nas negociações com os fornecedores. A partir da COOPERCON, são feitas negociações coletivas das empresas com os fornecedores obtendo preços diferenciados devido à escala obtida pela união das empresas. As empresas associadas à COOPERCON também conseguem obter junto ao Banco do Estado do Rio Grande do Sul (BANRISUL) taxas diferenciadas de juros para financiamentos de acordo com as negociações coletivas feitas pela cooperativa.
Só vou insistir um pouquinho porque é fato: A COOPERCON nasceu para isso. Além de ser um movimento da CBIC. Aconteceu o seguinte, começou a entrar aqui uma EMPRESA Y, para ter uma idéia eu estava há uns quatro, cinco meses atrás conversando com os caras da EMPRESA Y, lá na entrega do serviço concluído. Falando da COOPERCON, nós compramos 200 elevadores, na compra dos associados e a COOPERCON juntos. Não, não a semana passada eu fechei quinhentos. (...) É. Então eu digo o seguinte Eu, o Mauro, se for comprar elevadores sozinho, compro dois elevadores por ano. O cara compra quinhentos. O Mauro pode ser competente, honesto, trabalhador. Eu estou fazendo um prédio aqui e eles fazem um igualzinho do lado. O preço de venda deles é inferior ao meu custo. Eu não tenho escala, não tenho como competir (ENTREVISTADO 4).
Além das empresas de outras regiões do país, também a concorrência advinda de empresas do interior do estado foi citada pelos entrevistados. Empresas do interior vêm ao mercado de Porto Alegre, trazendo mão-de-obra de suas cidades de origem e passando a concorrer com as empresas locais. Grupos de investidores (médicos, advogados) que se unem para realizar empreendimentos também foram citados por alguns entrevistados. Alguns salientam, porém que no mercado atual, nos últimos anos, sua presença já não é sentida, devido ao número de empreendimentos maiores em oferta no mercado.
De forma geral, os especialistas entrevistados consideram que não há muito a ser feito com relação à ameaça de novos entrantes no mercado. Isso independe se forem empresas de outras localidades, de outros segmentos industriais, empresas estrangeiras ou empresas de capital aberto, muito mais capitalizadas. A informação sobre novos entrantes costuma ser tratada caso a caso e no âmbito dos novos empreendimentos já que, no ato da aquisição do terreno e antes do lançamento dos empreendimentos, as empresas não conseguem obter informações a respeito dos movimentos de novos concorrentes. No caso hipotético de descobrirem que nas proximidades de um terreno próprio exista a presença de entrantes potenciais de maior porte, alguns entrevistados admitem a possibilidade de fazer ajustes em seus projetos adequando-os à nova situação competitiva. Este tipo de informação não parece estar entre os focos centrais de busca de informações das empresas entrevistadas.
Este tópico abordou a análise da ameaça de novos entrantes. O tópico a seguir será dedicado à análise da intensidade da rivalidade entre os concorrentes existentes.